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Os cotistas não perdoam
Resultados dos multimercados guiam as aplicações, penalizando Adam e Gávea após ficaram abaixo do CDI enquanto ARX tem salto na base de cotistas

A Adam Capital foi fundada em 2016 por Márcio Appel, gestor que ganhou fama no mercado pelos anos que passou à frente dos multimercados da asset do Safra, especialmente o Galileo. Nos dois primeiros anos de atividade os resultados da nova asset foram excepcionais, com um retorno acumulado de 34,14% entre 2016 e 2017, contra 20,13% do CDI no período. Graças ao bom desempenho da casa e à fama de Appel, em um período relativamente curto a Adam alcançou a impressionante marca de R$ 30 bilhões em ativos sob gestão, se tornando uma das maiores casas independentes do mercado local.
De 2018 para cá, no entanto, a gestora tem vivido uma fase não tão boa. O rendimento do principal fundo macro da casa em 2018 foi de 4,97%, ficando abaixo dos 6,42% do CDI. E em 2019 o mau desempenho prosseguiu, com retorno de 4,57% para o fundo macro, perdendo para os 5,95% do CDI.
Em função dessa performance aquém das expectativas, a Adam sofreu no ano passado a maior fuga de cotistas dentre as gestoras não ligadas aos grandes bancos – a asset perdeu quase metade da sua base de clientes, que passou de 60,2 mil em 2018 para 36,2 mil em 2019, segundo dados da Economática. E não foram só os investidores que começaram a abandonar o barco. A Adam também perdeu profissionais experientes, como Ruy Alves, que cuidava das ações globais e saiu em fevereiro para a Kinea Investimentos.
Consultores que acompanham a asset citam duas razões principais para justificar o momento ruim da Adam. Um deles, por mais contraditório que possa parecer, é o próprio sucesso da gestora em seus primeiros anos. “Eles ficaram muito grandes e falta profundidade no mercado local para investir todos os recursos sob gestão”, afirma um consultor. “Embora alocar parte da carteira no exterior seja uma possibilidade, falta expertise aos gestores locais para operar os ativos globais de maneira adequada”, diz o especialista.
O outro motivo apontado para explicar a má fase da Adam corrobora essa percepção do consultor, de que algumas gestoras não tem o know-how necessário para atuar no mercado global. “A Adam está já há algum tempo com uma visão de fim de ciclo econômico global e apostou contra o mercado acionário americano”, diz outro especialista. “O problema para eles é que a tese não se confirmou, com uma valorização de quase 30% do S&P 500 no ano passado”. Procurada, a Adam não respondeu aos pedidos de entrevista.
Entre as principais casas independentes de multimercados, a Gávea, do ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga, também teve em 2019 um desempenho abaixo do mínimo aceitável pelos investidores. O principal fundo macro da gestora rendeu 5,40% e ficou 0,55 ponto percentual abaixo do CDI. Mais uma vez o cenário global, que representa cerca de 75% da carteira, é a principal razão para o resultado ruim. Bernardo Carvalho, gestor da Gávea, cita operações na Ásia e na América Latina fora do Brasil como os maiores responsáveis pelo baixo retorno do fundo no ano passado. Ainda que em ritmo mais moderado em comparação com a Adam, a performance apresentada também gerou perda de cotistas para a Gávea, que chegou em dezembro do ano passado com 1,8 mil CPFs cadastrados em sua base, ante 3,4 mil no final de 2018.

Enquanto assets com desempenho abaixo do CDI foram penalizadas pelos cotistas, as que entregaram os maiores alphas em relação ao benchmark viveram o cenário inverso, com maior ingresso de novos investidores. O fundo macro da ARX Investimentos, por exemplo, subiu 13,50% em 2019 ao apostar majoritariamente em ativos domésticos. Com isso, a sua base de cotistas saltou de 15,6 mil para 122,9 mil em um ano.
No entanto, quem mais ganhou cotistas em 2019 foi a asset da XP, com a entrada de 174 mil novos investidores, passando para 279,7 mil. Nesse caso, contudo, apenas o desempenho não é o suficiente para explicar o movimento – um dos principais multimercados da casa rendeu 9,8% no ano passado. Nos últimos meses, após o aporte de recursos do Itaú, a XP ganhou escala e apostou pesado no marketing para atingir o grande público, com inserções em horários nobres na TV e com o presidenciável Luciano Huck como garoto propaganda. Além disso, o IPO de US$ 2,25 bilhões em dezembro na bolsa americana Nasdaq também contribuiu para manter o nome da XP em destaque no mercado durante todo o ano.