Mainnav

Enxugando os portfólios
No BTG Pactual, estratégia foi se livrar das empresas “mais ou menos” para se concentrar naquelas com melhores condições de sobrevivência

Edição 334

Em ano especialmente turbulento, a equipe de gestão de fundos de ações do BTG Pactual manteve o seu processo de investimentos alinhado à técnica de concentração de portfólios em poucas empresas de alta qualidade. Como regra, a gestora costuma ter 80% da carteira concentrados nas 10 ou 12 principais posições e procura gerar diferenciais de conhecimento para entender as vantagens competitivas de cada uma delas. No início do ano passado, entretanto, com as perspectivas mais otimistas da economia, a gestora havia flexibilizado esse percentual e as dez principais posições passaram a representar 60% do portfólio. Com a guinada trazida pela Covid-19 aos mercados, a casa trocou 35% a 40% da carteira e as dez maiores posições voltaram a representar 80% do total, informa Pedro Maia, sócio do BTG Pactual e gestor da estratégia Absoluto. “Foi um movimento raro porque normalmente costumamos trocar no máximo 30% do portfólio”, explica.
Em 2020, no auge da crise nos mercados, o choque de risco fez com que todos os fundos caíssem por igual, momento em que o BTG decidiu simplificar seu portfólio. Retomou a concentração da exposição nos ativos de empresas que tinham potencial para sobreviver com bons retornos. Entre elas, Localiza, Lojas Renner, Magalu e outras com dinâmica própria. “O primeiro passo foi identificar as companhias cujo número de novos usuários estava crescendo por conta do e-commerce e a partir daí fizemos uma “limpeza” na carteira para eliminar aquelas empresas “mais ou menos”, o que nos deixou apenas com as melhores”, conta Maia.
Ao mesmo tempo, houve um aumento dos ativos de tecnologia, e-commerce e meios de pagamentos digitais, ou seja, o tema digital predominou. Como resultado, embora tenha caído junto com os demais fundos no mercado, o BTG conseguiu reagir e ter performances acima do esperado porque “não procuramos barganhas e a nossa filosofia de investimento nos impede de cair no upside”, justifica o gestor.
Capturar a qualidade das empresas e dos seus modelos de negócio é essencial para garantir retornos descorrelacionados da bolsa, daí a forte concentração.“Temos alguns pilares que são inegociáveis, apesar das nuances do dia a dia, e a família de fundos Absoluto, lançada em 2007, depende da disputa por conhecimento das empresas. Não é só comprar empresas baratas mas compreender os seus projetos e sua capacidade de execução”, afirma Maia.
No meio das turbulências geradas pela pandemia, foi fundamental conhecer os vetores de crescimento de cada empresa, independentes da atividade econômica. Outra variável avaliada foi a capacidade de gerar ganhos de market share, uma característica importante da Lojas Renner, por exemplo. “A boa empresa consegue navegar mesmo quando o cenário muda. Com a crise da pandemia, as pessoas passaram a viajar menos e, como resultado, começaram a comprar mais aqui, uma mudança que tem sido bem capturada pela Renner”, diz Maia. A consistência do time de gestão na escolha dos papéis em relação a esse foco foi o que garantiu a qualidade de performance do fundo, segundo o gestor.
Em março de 2021, a estratégia mantinha posição relevante em Suzano e um pouco de Gerdau mas, como os valores de commodities físicas já estão muito altos, o sinal é de muito cuidado com a perspectiva de globalização dos preços das commodities. “Os preços hoje estão bizarros, como os do minério de ferro, por exemplo, altíssimos, e isso impacta as economias dos países consumidores, então pode haver alguma pressão política para controlar preços”, alerta Maia. Ele lembra que a China já emitiu um sinal nesse sentido ao anunciar a intenção de controlar preços do aço. De todo modo, não é isso que vai fazer diferença este ano mas sim olhar para as “vacas sagradas” do mercado, como Localiza, Lojas Americanas, Intermédica, Natura, Cosan e algumas empresas novas do mundo da tecnologia, acredita Maia.

A postura conservadora frente à pandemia e a ampliação da exposição ao setor de commodities no segundo semestre do ano passado marcaram a gestão de fundos de ações na ARX Investimentos. “O biênio 2020/2021 está longe de ser tradicional e os cenários para o mercado de ações mudam muito rápido, ao sabor do ritmo de vacinação e da evolução da pandemia, exigindo atenção especial às reações fiscais e monetárias dos governos”, observa Rogerio Poppe, diretor-executivo da ARX.
Nesse ambiente, a casa gestora deve manter sua atitude conservadora, mais ainda do que fez no ano passado, e preferir papéis dos setores ligados ao mercado global de commodities- mineração, celulose e proteína -, assim como os ativos das empresas de tecnologia, que devem continuar com bom desempenho independentemente da alta da Selic, mesmo porque o juro real terminará o ano negativo. Já os setores ligados ao consumo cíclico doméstico estarão mais expostos às ações do governo e, portanto, mais sensíveis, como aqueles de consumo discricionário, incluindo autopeças e construção civil.
A despeito do forte tombo da Nasdaq em março, com a queda das ações de tecnologia provocada pela alta dos juros dos treasuries, títulos do Tesouro americano, a perspectiva para o setor segue favorável, segundo o gestor. “O setor de tecnologia tende a se acomodar em patamar favorável e aquecerá os IPOs no Brasil este ano porque há um forte componente de apetite global pelo risco, analisa Poppe. Na ARX, a tendência é posicionar portfólios de acordo com esse panorama mas sem concentração excessiva.
Poppe lembra que a melhora da performance dos papéis de empresas do setor de commodities aconteceu ao longo de todo o segundo semestre de 2020, por conta dos estímulos expansionistas e da antecipação pelos mercados dos anúncios do início da vacinação. A recuperação dos preços das commodities ocorreu a partir de novembro, ou seja, os mercados souberam antecipar os anúncios da vacinação contra a Covid-19 e os sinais da retomada da atividade econômica global. “Por conta disso, o cenário positivo para 2021 já está refletido em parte dos preços das ações. Ao mesmo tempo, as pressões inflacionárias dividem as análises e preocupam o mundo inteiro neste momento”.
No Brasil, ele pondera que o movimento de retomada está mais lento, influenciado pela demora no processo de vacinação e acompanhado pela forte preocupação com a inflação. “A intervenção na Petrobras reforçou a ideia de preocupação do governo com o impacto do aumento de preços das commodities e, se houver uma tentativa oficial de controlar a política de preços da companhia, isso terá efeito negativo sobre os investidores”, diz Poppe.
O desempenho do mercado acionário este ano passará pela discussão das novas variantes do vírus, a possibilidade de ocorrerem uma terceira ou quarta onda da pandemia e forma pela qual os governos irão lidar com os impactos inflacionários nos cenário internacional e local. A ARX está reforçando este ano seu conservadorismo para dar ainda maior atenção às políticas fiscal e monetária, até porque o juro em alta pode afetar a credibilidade da moeda. “Do lado fiscal, é crucial garantir o auxílio emergencial mas também entender a importância do teto de gastos. O Congresso flertou com a possibilidade de uma política fiscal mais frouxa e o mercado reagiu mal”, lembra o gestor.

Melhores gestores em Ações ( arquivo em pdf)