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Pinçando boas oportunidades

Edição 3

Apesar da crise que atinge o setor e da falta de liquidez da maioria das ações, há boas oportunidades para ganhar dinheiro

À primeira vista, as ações do setor autopeças apresentam pouca atratividade. E isso tanto por sua falta de liquidez (item atualmente supervalorizado), quanto pela situação do setor na economia real. Com a retração nas vendas das montadoras e a concorrência externa, que reduz as margens de lucro, as perspectivas certamente não são das melhores.
No entanto, uma análise mais acurada desse setor pode revelar algumas poucas, mas interessantes, oportunidades de investimento a médio e longo prazos.
Entre essas oportunidades, é interessante observar que as ações com potencial de valorização geralmente fogem do perfil predominante no setor. As empresas que fornecem única e exclusivamente para as montadoras de automóveis de passageiros (que alguns denominam de ‘linha leve’) não têm como escapar da retração desse segmento de mercado, ao contrário das que se concentram em outros segmentos ou têm uma maior diversificação de produtos.
Já no curto prazo, um dos grandes problemas apontados é a falta de liquidez desses papéis, que contribui para reduzir sua atratividade frente aos investidores. Além disso, boa parte do setor passou a ser controlado por grupos estrangeiros, alimentando as expectativas de fechamento do capital das empresas.
A Marcopolo, fabricante de carrocerias de ônibus, é vista com bons olhos pelos analistas do mercado financeiro. “É uma empresa enxuta, muito bem administrada e que vem apresentando resultados crescentes, embora isso não venha se refletindo nas suas ações”, afirma Marco Antonio Esteves Fernandes, analista do Banco Real de Investimento. “Os papéis da Marcopolo são uma boa opção para o investidor que pensa mais a médio prazo e que não precisa de liquidez no curto prazo. É a única empresa cujas ações eu recomendaria para compra”.

Distorção - As ações da Marcopolo, no entanto, valem hoje a metade do que custavam há um ano. “O total de ações da empresa vale R$ 82 milhões, enquanto seu patrimônio líquido, em 30 de setembro último, era de R$ 202 milhões. A crise financeira distorceu todos os valores”, diz João Luís Borsói, gerente de relações com o mercado da Marcopolo. “Na minha opinião, os acionistas venderam as ações da Marcopolo para fazer caixa e comprar papéis de primeira linha. Depois de realizar os lucros, acredito que eles voltarão a comprar ações de segunda linha, e então a Marcopolo poderá se valorizar novamente”. Borsói ainda lembrou que a empresa já declarou juros sobre o capital duas vezes neste ano, “num total de R$ 11,2 milhões, ou quase 53% do lucro líquido dos primeiros nove meses de 1998”.
Para Fernandes, o bom desempenho da Marcopolo é uma exceção no setor de autopeças devido à sua especificidade. A empresa vem sendo beneficiada pela demanda do mercado de ônibus urbanos. “Há uma tendência de renovação das frotas de ônibus, até para atender as exigências ambientais e de segurança. Aqui em São Paulo, por exemplo, a SPTrans vai tornar obrigatórios requisitos como o aumento no número de portas do ônibus circular e a transferência do motor dianteiro para a parte traseira ou entre eixos”.
Juliana Chu, analista do Banco Fator, lembrou que a Marcopolo, por pertencer ao segmento chamado de ‘linha pesada’, vem sofrendo relativamente menos com a retração econômica. “As empresas de autopeças que fornecem para a ‘linha leve’, para as montadoras de automóveis, estão passando por uma situação bem mais difícil.
De acordo com a Marcopolo, seu lucro líquido no primeiro semestre foi de US$ 13 milhões, acima dos US$ 9 milhões registrados no ano passado.
Contando apenas o segundo trimestre deste ano, o lucro líquido foi de US$ 6,5 milhões, abaixo dos US$ 7 milhões de 1997. Segundo Fernandes, os acionistas minoritários possuem 15,27% das ações ordinárias (com direito a voto) e 83,77% das ações preferenciais.
Paulo Setal, analista do Banco Bozano, Simonsen, ressaltou que, além dos bons resultados e do crescimento da empresa, a Marcopolo apresenta um bom “disclosure” (transparência com o mercado financeiro), ao contrário das outras empresas do setor. Sua recomendação em relação à Marcopolo “certamente seria comprar ou manter”, embora ele não tenha feito projeções sobre o desempenho de suas ações.
A Iochpe-Maxion pode ser outra opção, em função das transformações por que vem passando. “O mercado deveria voltar a olhar para essa empresa, porque ela está fazendo o seu dever de casa”, diz Paulo Setal, analista do Banco Bozano, Simonsen. O dever de casa inclui a reestruturação de sua dívida, já que no primeiro semestre houve um prejuízo de US$ 33,9 milhões de dólares.

Diversificação - A Iochpe diversifica seus produtos em quatro linhas principais: motores diesel, rodas e chassis, equipamentos ferroviários e componentes automotivos (para carros de passageiros). As duas primeiras linhas (motores diesel e rodas e chassis) são responsáveis pela maior parte do faturamento da empresa.
O analista Fábio Alperowitch, da Fama Investimentos, é ainda mais otimista e prevê que, “após quatro anos consecutivos de fortes perdas, a Iochpe irá para o ‘azul’ já no ano que vem”. Ele projeta lucros de US$ 23,8 milhões, em 1999, e de US$ 42,1 milhões no ano 2000. “Acreditamos que no médio prazo (a partir de doze meses) as ações da Iochpe possam atingir US$ 98,5, ou seja, o triplo de seu valor atual em bolsa”, afirmou ele.
Alperowitch justifica seu entusiasmo através de uma esperada recuperação financeira e operacional da empresa. “Em 30 de junho deste ano, a dívida da Iochpe era de US$ 304 milhões, formada em grande parte por debêntures. Depois que o BNDES e Bradesco converteram suas debêntures em ações, a dívida foi reduzida para pouco mais de US$ 185 milhões, compatível com seu patrimônio líquido de US$ 163 milhões.” Além disso, ele destacou a profissionalização da gestão da empresa, “com a significativa redução da participação da família Iochpe”. Outro ponto levantado por Alperowitch foi a associação com as empresas norte- americanas Navistar e Dana Corporation, impulsionando as exportações para o Mercosul e os Estados Unidos, respectivamente.
Se as taxas de juros não forem reduzidas logo, no entanto, isso irá prejudicar até mesmo as ações com bom potencial de alta. A Pirelli Pneus, líder no setor, poderia ser uma das vítimas. Juliana Chu avalia que os papéis dessa empresa podem apresentar uma valorização de 30% até novembro de 1999. Mas mesmo assim não considera isso suficiente para indicar a compra, ao menos enquanto o CDI estiver a 40% ao ano. Mas essa recomendação poderá ser diferente caso Alperowitch estiver certo e os juros baixarem. “Essas taxas não devem durar mais que três meses. A taxa de juro futuro na BM&F já está projetando 30% ao ano em janeiro”, disse ele.
Segundo Juliana Chu, o lucro líquido da Pirelli Pneus no primeiro semestre alcançou R$ 56,7 milhões, bem acima dos R$ 34,7 milhões registrados no primeiro semestre do ano passado. Ela ressaltou que, comparando-se esses dois períodos, houve um aumento de 10% nas exportações da empresa. Quanto ao mercado interno, Chu atribuiu o bom desempenho na primeira metade do ano a uma estratégia que priorizou o aumento do valor agregado dos produtos (como os pneus radiais, que substituíram os pneus convencionais). “A margem bruta no primeiro semestre foi de 30%, contra os 25% do mesmo período em 1997.
Mas essa performance não deve ser repetida no próximo ano. “Trabalhamos com uma expectativa mais moderada, por causa da retração econômica e também devido à concorrência”, afirmou Chu.

Exportações - Para o diretor de relações com o mercado da Pirelli Pneus, Elias Bueno, a empresa não será tão afetada pela retração nas vendas de automóveis, porque a maior parte do faturamento estaria concentrada nas exportações e no mercado de reposições.
Outra peculiaridade importante das ações do setor são as eventuais ofertas públicas, na qual os novos controladores estrangeiros de determinada empresa procuram comprar os papéis dos acionistas minoritários. Nessas ocasiões, os preços oferecidos podem alcançar níveis bem acima dos do mercado (mas nem sempre isso ocorre!).
Recentemente, as ações da Plascar (subsidiária da OSA) apresentaram uma oscilação acentuada em função das expectativas de uma oferta pública, que acabou não se concretizando.