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EFPC e RPPS enfrentam o risco
Acostumadas à estabilidade dos títulos públicos, entidades previdenciárias tiveram que optar por um pouco de risco para alcançar suas metas atuariais

O primeiro semestre trouxe um aumento expressivo de alocação em ativos de risco pelas Entidades Fechadas de Previdência Complementar por conta da mudança no patamar da Selic e esse movimento, ao coincidir com a crise global da pandemia, deu impulso especial à captação feita por assets que atendem esse tipo de investidor, como a Constância Investimentos. A participação no mercado de institucionais é o pilar da estratégia de captação da asset, que registrava no final de junho um total de R$ 670,16 milhões em recursos de fundos de pensão, o que representou crescimento de 80,28% no semestre e de 443,78% em doze meses.
Sem saber como os seus clientes iriam reagir no auge da instabilidade dos mercados, a casa teve uma “grata surpresa”. “Foi um batismo de fogo numa situação inédita e foi também sinal de um amadurecimento grande das fundações porque elas aprenderam a conviver com a alta volatilidade e mantiveram firmes os seus desenhos de políticas de investimentos que miram prazos mais longos”, pondera o CEO da Constância, Cassiano Leme. O risco aumentou de modo geral e todos os ativos sofreram impactos fortes mas a realidade é que a Selic não vai salvar mais ninguém nos patamares atuais, lembra Leme, e isso testou a capacidade de vários gestores para tirar proveito de ativos com preços mais baratos no meio da crise.
“Recebemos aportes de diversas entidades, já clientes ou não, para explorar oportunidades de médio prazo em ações porque o ano está muito bom nessa classe”, observa o gestor. O ambiente, aliás, segue favorável para essas oportunidades porque há papéis que foram precificados bem alto e outros que ficaram largados, o mais provável é que tenham havido exageros nos dois lados e essa dispersão na avaliação dos preços cria um ambiente favorável para a gestão ativa em renda variável. “O momento agora exige olhar de forma segmentada o mercado. O grupo de ações mais defensivas, que historicamente têm menor volatilidade, foi relativamente pior do que os papéis de empresas ligadas ao crescimento e isso tende a voltar para uma média normal”, analisa Leme. As pessoas focaram na narrativa de como seria o ‘novo mundo” depois da pandemia e acharam que o crescimento seria infinito, mas esse hiato chegou ao máximo histórico e há razões tangíveis para apostar em sua redução.
As estratégias adotadas pela Constância foram mantidas sem alteração, mas o ambiente mais volátil e com muitas incertezas exigiu um esforço especial de comunicação com os clientes. Além disso, aumentou seus investimentos em pesquisa. “Já investíamos em pesquisa, mas o momento difícil reafirmou isso”, conta o gestor.
Para a pesquisa quantitativa, a asset contratou mais um analista com forte formação técnica e fez parcerias acadêmicas com a USP, além de recrutar mais pessoas para seu time.
O amadurecimento das EFPC , pontua Leme, não ficou confinado às grandes, até porque ele já vinha ocorrendo por meio do processo de maior qualificação e profissionalização nas equipes internas das entidades, maior atenção à governança, à maior transparência e ao trabalho das consultorias externas. Não foi de um dia para o outro.

Com R$ 467, 28 milhões sob gestão em recursos de EFPCs, a gestora Pimco registrou alta de 109% nesse volume em seis meses e crescimento de 72,7% em doze meses. “Eventos macro econômicos como a recessão atual tendem a acelerar tendências que já eram presentes no mercado e desta vez não será diferente, avalia o vice-presidente da Pimco no Brasil, Luís Otávio Oliveira. A casa sentiu em particular o aumento do apetite dos fundos de pensão por investimentos no exterior e alguns deles aceleraram seus movimentos nesse tipo de alocação, tanto na base de clientes atuais quanto novos investidores. Alguns desses fundos estão próximos do limite regulatório de 10%, enquanto outros que estavam sub-alocados estão acelerando, lembra Oliveira.
O choque produzido pela crise, combinado à forte redução do juro interno surtiu um efeito significativo sobre a percepção das EFPC em relação à importância da diversificação, que inclui diversificação global e investimentos offshore. Ao mesmo tempo, a queda significativa nas taxas locais está criando demanda por estratégias de maior rendimento, segundo Oliveira: “Estamos vendo uma demanda por renda fixa global com hedge de moeda, como complemento à renda fixa local e com os benefícios de diversificação. A tendência é de que as fundações mantenham essa forte demanda por investimentos no exterior, especialmente em renda fixa global, avalia a Pimco.

Produtos bem estruturados e relacionamento próximo às prefeituras municipais por meio das cerca de 110 cooperativas associadas, com as quais trabalha em todo o Brasil, foram essenciais para o desempenho da gestora Sicredi na captação de recursos das entidades do Regime Próprio de Previdência Social, os RPPS, até junho, conta o diretor de Gestão de Recursos de Terceiros da asset, Ricardo Green Sommer. “Estamos vivendo um período muito volátil e de muita incerteza para o investidor, o que exige ter mandatos bem definidos e a fidelidade dos clientes; isso nos ajudou a atingir resultados competitivos dos produtos frente aos seus benchmarks e a crescer em presença nesse mercado”, observa Sommer.
Com recursos sob gestão de R$ 1,03 bilhão provenientes de RPPS até junho, o que representou alta de 18,4% no semestre e de 204,4% nos doze meses, a Sicredi aproveitou os juros cadentes no início do ano para fazer uma readequação de portfólio, com a redução dos tickets iniciais de alocação para os fundos de varejo além da ampla redução das taxas de administração. As taxas recuaram de um patamar anterior, entre 0,22% a 0,25% para 0,18% em todos os produtos da família IMA, sem cobrança de taxa de custódia. No fundo Selic de liquidez empresarial, a taxa de administração é de 0,15%. “Isso foi possível até mesmo pelo nosso ganho de escala e ajudou a oferecer uma redução de custos”, diz o gestor.
Ao lado do relacionamento próximo às prefeituras, a revisão das taxas foi fundamental para garantir o crescimento”, explica Sommer. A Sicredi atua junto às cooperativas como instituições financeiras das comunidades e conseguiu crescer em número de clientes RPPS e em ativos sob gestão no semestre.
Os mandatos ficaram um pouco mais conservadores em geral, buscando retornos próximos ao benchmark mas sem descolar muito dele. “Mas o grau de conservadorismo depende muito do tipo de fundo RPPS e dos produtos para atender os diferentes cenários na renda fixa, já que a asset é focada em renda fixa”. Os processos de investimento, diz Sommer, priorizam a transparência e a segurança dos retornos, com rigoroso controle de riscos. A casa tem o rating “Forte” dado pela Fitch Ratings, o que incluiu a classificação de itens como o sistemas operacionais, segurança, estrutura e gerenciamento de risco e compliance.
Produtos com custo atrativo e maior diversidade foram os destaques no semestre, principalmente prefixados atrelados à inflação e olhando para o juro de 2% no curto prazo. “Há muitas oportunidades a serem exploradas na renda fixa e o cenário será cada vez mais desafiador”, aposta Sommer.
A leitura é de que não haverá quebra drástica do ponto de vista fiscal, apesar da alta dose de incerteza. Além de assegurar ganhos aos seus produtos por conta da aposta na alta da inflação a curto prazo, a gestora adotou um cenário básico que não prevê inflação alta a médio prazo. Nos juros, a projeção é de alta apenas no final de 2021.
A expansão futura seguirá baseada na relação com clientes que buscam segurança, o que lhe garantiu o total de R$ 53 bilhões sob gestão atualmente. A meta de crescimento no ano de 2020 já foi batida, explica o gestor. À medida em que a economia começa a recuperar tração, o segundo semestre mostra um cenário positivo para avançar, sem necessidade de readequar equipes da asset.

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