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Carteiras não são definitivas
O gestor tem que ter a capacidade de questionar constantemente seus portfólios adaptando-os às mudanças que ocorrem no mercado

Edição 335

A Schroders, com R$ 20,42 bilhões aplicados no mercado de ações doméstico, ocupa a 6ª posição entre as maiores alocadoras nessa classe de ativos no Brasil, segundo o ranking Top Asset (ver página 38). Parte importante desse volume deve-se às aplicações dos RPPS, via distribuidores, e desde o início de 2021 também aos fundos de pensão. “Em 2020 crescemos em renda variável doméstica junto aos RPPS e este ano devemos fazer o mesmo junto às Entidades Fechadas de Previdência Complementar”, explica o diretor presidente da Schroders no Brasil, Daniel Celano.
No ano passado, durante o pior momento da crise, entre março e abril, a gestora reduziu o risco ativo de seu portfólio de ações, só retornando gradativamente ao risco a partir de maio para aproveitar alguns IPOs que performaram bem. “Nesse ambiente, foi essencial não sermos apaixonados pelas nossas teses porque, sempre que os pilares deixam de se materializar, vamos rever os cases, olhar os riscos que existem também fora das empresas, como o PIB, o câmbio, etc”, conta o gestor.
A carteira de ações da gestora não tem qualquer papel que contribua com mais de 20% do risco ativo (contra o benchmark). Para isso, o portfólio é revisto regularmente olhando menos o quanto há de um determinado papel e mais qual o tamanho do risco.
Em 2021, o cenário da bolsa brasileira parecia promissor, diz Celano, mas ele admite que a visão ficou menos otimista depois do carnaval, por conta da segunda onda da Covic-19, que veio mais forte do que o esperado. “Apesar disso, ainda não viramos para uma perspectiva negativa mas continuamos voltados para a tese da nova economia, como o comércio eletrônico, saúde, tecnologia e IPOs de Fintechs. São modelos que tendem a dar certo e queremos gerar um portfólio que não fique preso a bancos a commodities mas seja capaz de olhar para a nova direção da economia”, pontua o gestor.

O portfólio tem sido rebalanceado para não ficar dependente de um único tema e de modo a considerar os diversos fatores de risco a que as empresas estão expostas. “Temos ido nessa direção e sempre olhando os riscos mais fortes em relação ao PIB para avaliar aqueles ativos que não sofrerão tanto caso a recuperação não venha como se espera”, diz Celano. Uma das mudanças foi feita porque havia um viés de qualidade e de crescimento mas uma subrepresentação em papéis de valor, que estavam descontados, como os do setor de malls.
Entre as vantagens dos papéis da nova economia está o fato de que muitas dessas empresas já têm também critérios robustos de ESG (sustentabilidade baseada em fatores ambientais, sociais e de governança), que é outro aspecto relevante na carteira. Para avaliar esse risco, a Schroders usa a sua equipe de ESG no exterior e ferramentas proprietárias.
No mercado local de ações, ele enfatiza que as incertezas políticas vieram somar-se às preocupações econômicas que já estavam no radar. Mas se houver uma alta de 2% a 3% do PIB este ano, a bolsa poderá escalar de 15% a 20% só pelo aumento de lucros das companhias, com espaço para que a carteira da Schroders suba acima disso. “Estamos considerando esse cenário possível com uma Selic de 4,5% e mesmo sem reformas estruturais pela frente; o upside só será viável, porém, se não houver sustos maiores do lado fiscal nem rupturas políticas e desde que a pandemia entre em alguma normalidade”, afirma Celano.
O caminho tem sido o de tentar gerar excesso de retorno de forma não binária porque, embora o Brasil tenha boas oportunidades, “não dá para ir para o tudo ou nada, está difícil enxergar até mesmo a próxima semana”, pondera o gestor. A combinação entre ações Brasil e global equities será cada vez mais essencial, diz Celano. Ele lembra que a Schroders está bem posicionada nessa direção, com um time de ações globais que mantém US$ 40 bilhões sob gestão e está ampliando sua oferta de fundos e mandatos taylor made para os institucionais brasileiros.

O apetite por ações globais em 2020 e nos três primeiros meses de 2021, período em que o investidor brasileiro deu sinais de ter finalmente compreendido que o mercado de ações doméstico representa apenas 1% das oportunidades dessa classe de ativos, pode ser apenas a ponta do iceberg. Com base nessa convicção, a Geo Capital, gestora com oito anos de vida e que ocupa a 9ª posição no ranking das maiores gestoras com alocação em ações do mercado externo/ADRs, avalia que nesse período de 15 meses o mercado mudou fortemente. “Houve um forte chacoalhão no processo de investimentos a partir do mês de julho de 2020, depois do impacto que a pandemia havia provocado no mercado em geral e nas vidas de todos. Vivemos uma realidade absurda no primeiro trimestre e uma readequação nos portfólios nos meses seguintes”, analisa o sócio da gestora, Gustavo Aranha.
Segundo ele, de lá para cá ficou claro que a mudança funcionou e que a equipe de gestão havia compreendido corretamente o novo momento da economia. “Terminamos o ano com resultados de 3% a 4% positivos em dólar e o desempenho da gestora seguiu forte no primeiro trimestre de 2021, quando a rentabilidade ficou próxima a 6% em dólar”.
A Geo Capital, que até março deste ano somava R$ 1,2 bilhão sob gestão, ficou maior e seu time também cresceu, assim como o número de clientes em todas as categorias, desde as pessoas físicas nas plataformas até os institucionais, passando pelo private bank e family office, num total de quase dois mil cotistas contra 500 dois anos atrás. O time de investimentos mais do que dobrou em relação ao que era há dois anos, contando atualmente com 13 profissionais e continua contratando frente à perspectiva de manter um crescimento acelerado para trazer mais opções globais. A preocupação da casa, cujos sócios e time de 30 pessoas ficam no Brasil, é garantir sua presença “em todos os lugares em que o investidor precisa estar”, diz Aranha. A meta é trazer os ativos globais sem perder a proximidade com os players locais, no esforço para ser “uma referência em equities globais”.
No segundo semestre do ano passado, o desafio foi rever os modelos de negócios das empresas de que a casa gostava, diante da constatação de que o mundo mudaria dali por diante. “Foi essencial mudar o jeito de olhar para o portfólio”, diz Aranha. Ativos até então confortáveis, como as ações da Marriott Internacional, passaram a embutir incerteza demais pelos próximos dois a três anos. Ao mesmo tempo, outros papéis continuaram atrativos apesar do baque inicial trazido pela pandemia, como a Disney, a John Deere, Luxxotica, Ilummina e Hathaway Berkshire, entre outros.
“Estressamos e sensibilizamos as nossas teses nas 60 empresas que acompanhamos e percebemos que várias delas haviam sido deixadas para trás pelo mercado, com preços baixos, apenas como resultado de uma análise simplista que premiava a tecnologia sem levar em conta que havia entre elas alguns ativos incríveis e necessários às cadeias produtivas, empresas com modelos fortes de negócios”, explica Aranha. Essas companhias acabaram valorizadas no final do ano, à medida que o mercado passou a apostar na chegada das vacinas e na volta à normalidade.
O portfólio da Geo Capital conseguiu terminar o ano olhando para mais empresas, mais setores e mais geografias e agora sua carteira está realinhada aos setores tradicionais da economia. No momento, diz o gestor, é preciso ter uma visão cautelosa para o valuation porque há ações que ficaram muito caras e que podem não ser bons investimentos embora sejam de boas empresas. “É preciso ter cuidado para não ficar com um punhado de ações boas e caras”.

Para a Vítreo, gestora com R$ 1,46 bilhão sob gestão e que aparece no Top Asset na 7ª posição dos maiores gestores com alocação em ações do mercado externo/ADRs, a diversificação inclui um cardápio cada vez maior de opções. Os fundos de ações da gestora alcançam, em alguns casos, produtos exclusivos para investidores qualificados, como o de canabidiol, concentrado em empresas dos EUAs e Canadá. “A oferta é só para qualificados, mas criamos também versões mais light, diluída para levar ao varejo”, informa o CEO da casa, Patrick O’Grady. “Queremos crescer em todas as frentes este ano, a alocação temática será a cereja do bolo”.
Além da asset, a casa mantém uma plataforma, nascida ao final de 2018, que acaba de superar R$ 10 bilhões sob custódia. Segundo O’Grady, “ela tem o mesmo DNA da asset”. Nela, os fundos de previdência representam 25% do total, os de ações puras são 15%, os fundos de fundos são 12%, os hedge funds são 16% e o restante são fundos de ações temáticos que começaram a surgir em 2019 e explodiram em 2020 em três linhas: fundos de cannabis, de tecnologia e de criptoativos.
O FIA Tech Select, lançado em junho do ano passado para apostar nas grandes empresas americanas de tecnologia, atingiu rentabilidade de 37,53% em 2020. Somado aos fundos de tecnologia da Ásia e do Brasil, foi a frente que mais puxou o crescimento da asset no ano. “O setor de tecnologia arrefeceu um pouco desde o início do governo Biden mas vemos aí um movimento conjuntural de rotação de setores”, analisa o CEO.
O’Grady lembra que o mercado nos EUA está antevendo o avanço da vacinação e a retomada da trajetória forte das economias, com o retorno das viagens, restaurantes, etc, então a tecnologia ficou um pouco para trás, mas é movimento conjuntural porque a pandemia está acelerando a transformação digital. “Estruturalmente, continua o movimento de alta da tecnologia e o nosso trabalho como gestores é otimizar essa trajetória”.
Já o fundo de canabidiol, por exemplo, chegou a perder 35% mas voltou a crescer e mais do que dobrou seu capital em 12 meses. “Este é um setor que está se expandindo principalmente no mercado americano; se olharmos para Nova York, já cresce inclusive para uso recreativo e não apenas medicinal. O nosso fundo cresceu 105% desde sua criação, em outubro de 2019”, afirma O’Grady. No ano passado, sua rentabilidade foi de 69,12%
“Estamos habituados a pensar nas estratégias tradicionais mas usar estratégias complementares, temáticas, para não concentrar demais e, ao mesmo tempo, a aproveitar as oportunidades”, destaca O’Grady. Uma das novas apostas da Vítreo é nas ações do setor de urânio, que deve crescer junto com uma alta das usinas nucleares no cenário global, passado o trauma da explosão da usina de Fukushima em 2011. “O urânio tem baixa relação com outras commodities, a indústria tem contratos de longo prazo e o minério está em ciclo favorável, com demanda principalmente na China, Rússia e Emirados”, observa o gestor.

Segmentação por Ativos (em pdf)