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Exterior puxou o crescimento
Gestoras apostaram que o investidor, pressionado pela queda da rentabilidade da renda fixa, migraria para alocações no mercado externo

Edição 340

Com R$ 5,73 trilhões em recursos sob gestão em 30 de junho, a revista Investidor Institucional edita pela 48º vez o ranking Top Asset. Publicado semestralmente desde 1997, este ranking proprietário aglutina 169 assets e exibe um volume de recursos que superam em 7,89% o montante de seis meses atrás e de 16,67% o montante de 12 meses atrás. Uma das classes de investimento que mais cresceram nos últimos tempos foi a dos fundos off-shore, voltados a investidores locais que querem diversificar suas alocações no mercado global. Essa classe, embora represente apenas 3,63% da indústria, teve um crescimento de 15,95% em seis meses e de 50,05% em doze meses.
Um conjunto de fatores, incluindo uma Selic em sua mínima histórica de 2% ao ano e incertezas de caráter fiscal, macroeconômico e político, explica essa busca do investidor local por exposição a ativos ligados ao exterior. “A nossa exposição externa foi privilegiada no período de 12 meses até junho, movimento que ganhou força sobretudo no final de 2020 porque nos meses de outubro e novembro a confiança no ambiente global já era maior do que no local”, observa o líder de gestão de multimercados, ações e off-shore da BB DTVM, Marcelo Arnosti.
Com uma visão positiva do cenário externo que contrastava com a visão local neutra, a casa decidiu dar “cara global” aos seus fundos, decisão acertada uma vez que o ambiente internacional seguiu positivo embora um pouco mais tortuoso, avalia Arnosti. “Cada um de nossos fundos passou a ter uma parcela global mais forte, fizemos isso até onde foi possível. Em alguns multimercados chegamos a ter até 30% ou 35% de teses internacionais ou de teses locais que “conversam” com o mercado global, como no caso das commodities”, explica.
Desse modo, os portfólios ficaram direta ou indiretamente mais expostos ao cenário macro internacional, sofrendo menos do que os fundos do mercado que eram mais dependentes da curva de juros. Mesmo com o ambiente doméstico difícil, trazendo a abertura forte do juro e queda na bolsa, a casa conseguiu entregar resultados positivos no período, afirma o gestor.
Do início de 2020 para cá, a BB DTVM lançou um conjunto de produtos novos, incluindo estratégias temáticas de renda variável em fundos globais, fundos para investir no agronegócio e uma série de fundos inovadores em temas e estratégias, diz Arnosti. “O interesse do investidor por exterior tem sido mais estrutural do que cíclico, então combinamos isso com a nossa visão global robusta para buscar exposição a vários mercados e classes de ativos, sobretudo na renda variável. “Há uma oferta cada vez maior de ativos globais negociados aqui, como os BDRs de ETFs. Já fazíamos bastante ETFs e agora isso tende a crescer com a aprovação dos BDRs de ETFs”, informa.
A preferência passou a ser menos EUA e mais Europa, além do Japão que entrou mais recentemente para a lista de interesses dos portfólios porque está dando sinais de retomada econômica e o valuation de ações ainda parece bem descontado, o que torna o país um case interessante. Nos fundos multimercados com volatilidade de 6% a 7%, o portfólio poderá incluir teses internacionais de bolsas européias e commodities, especialmente petróleo e cobre, observa Arnosti.
“Em 2021, estamos mais neutros a curtíssimo prazo porque há uma série de riscos associados à política monetária dos EUA, à China, aos preços de energia”, diz Arnosti.
Como no ambiente local a visibilidade é baixa e o clima está incerto, a opção foi por uma posição mais neutra. “Ainda estamos esperando respostas para as questões fiscais e para a inflação, para saber se haverá talvez um desempenho melhor da curva de juros e uma melhor relação entre o real e o dólar”, afirma Arnosti. A estimativa da casa para o próximo ano é de que os ativos associados aos mercados de commodities e a renda variável liderem os ganhos.

O encolhimento da renda fixa nos últimos anos, em razão da queda dos juros, foi acompanhado do crescimento dos fundos multimercados e de ações. “Para a BTG Pactual, que tem um histórico forte de equities, esse movimento permitiu crescer bem tanto na distribuição direta como na institucional, junto a seguradoras, RPPS e fundos de pensão”, diz o sócio da asset, Sergio Cutolo.
Com os fundos multimercados voltados ao exterior entre os seus carros-chefes, a gestora conta com o trabalho feito por seus escritórios em Nova York e Londres, com uma área forte de pesquisa e com o relacionamento com assets globais para ter acesso a carteiras relevantes lá fora. “Os nossos fundos de fundos (Fofs) usam esse know how e tem dado certo. No segmento de gestão para wealth management esse trabalho já é uma tradição”, afirma.
A carteira de crédito corporate da BTG cresceu de maneira expressiva, acompanhando o aumento do apetite do mercado. A casa aproveitou para entrar no segmento de crédito para as pequenas e médias empresas (pme), informa Cutolo. A carteira proprietária de corporate cresceu 51% entre o segundo trimestre de 2020 e o mesmo período deste ano, passando de R$ 57,2 bilhões para R$ 86,4 bilhões. Ele lembra que os fundos de crédito da casa não carregam ativos high yeld. O aumento no estoque de fundos foi de 77% nesse período, refletindo a forte retomada do mercado de crédito como um todo.
A classe de FIPs também cresceu e a asset continua a captar e a lançar novos fundos, conta o gestor. Entre janeiro de 2020 e setembro deste ano foram captados R$ 7,9 milhões em ofertas de longo prazo (FIIs, FIPs de dívida e FIPs de private equity). Um dos FIPs mais recentes é um fundo de impacto, que já concluiu a fase de captação. “Os FIPs da casa têm um histórico de enfrentar crises e dar bons retornos”, observa Cutolo.
A mudança na trajetória do juro nos últimos meses provocou uma reversão na dinâmica de risco e enquanto a renda fixa da asset cresceu R$ 241 bilhões, a captação em fundos de equities tem sido um décimo do que registrou em 2020, segue caindo e deve ficar negativa até dezembro, como resultado do ambiente de incertezas econômicas e políticas. “A BTG observa o mercado, é um dos principais dealers do BC e tem presença forte nos mercados de capitais e de dívida, então procuramos usar o racional nessa análise para minimizar o movimento de “estouro da boiada” dos investidores em direção à renda fixa”, afirma.
O fato é que a vida está mais difícil neste semestre e a asset vai reduzir um pouco o risco dos portfólios, ganhar menos e “dançar conforme a música” porque não dá para ser diferente, avisa Cutolo. Para ele, a situação fiscal do país e o risco de aumento excessivo de gastos estão no centro dos movimentos do mercado; o problema político brasileiro é sério e acaba envolvendo tudo, o que afeta preços para todos os lados, ressalta Cutolo. “A variável concreta e mais preocupante é a inflação, que fugiu ao controle e o BC vai ter que fazer sua parte”.

A demanda de todos os tipos de clientes por mais risco predominou até o final do primeiro semestre e foi a tônica que estimulou os fundos multimercados e os fundos de fundos da Bram (Bradesco Asset Management). “Ao mesmo tempo, a captação das nossas estratégias internacionais deu um salto enorme e continua a crescer apesar da alta do juro; era uma demanda que já existia mas que foi materializada pela chegada da Selic ao seu ponto mínimo histórico”, diz o diretor da asset, Ricardo Eleutério. A gestora reforçou sua equipe internacional de fundos à medida que o total de recursos sob gestão nessa área cresceu de R$ 2 bilhões em dezembro de 2019 para mais de R$ 10 bilhões este ano e tende a continuar em expansão. “A gestão de produtos de maior valor agregado cresceu e mudou o nosso mix de fundos, como aliás ocorreu em todo o mercado, reduziu a renda fixa e aumentou as parcelas de exterior, alternativos e ações”, lembra Eleutério.
Os destaques nos 12 meses até o final do primeiro semestre ficaram para os fundos multigestores e de exterior. Em renda variável a casa estava bem posicionada e conseguiu boas performances especialmente no segmento de small caps. O ciclo de alta agora muda a gestão dentro dos mandatos na direção da renda fixa e a asset está mais ativa em crédito privado dada a demanda por esses investimentos, além de capturar prêmios com a volatilidade do ciclo de juros. “Estamos entrando em novas classes, fundos multimercados mais sofisticados, um fundo de fundos (Fof) de private equity e segue a pauta de avançar nos produtos alternativos até o final do ano”, conta Eleutério.

Com um crescimento expressivo de R$ 33 bilhões no volume sob gestão em 12 meses até o final de agosto, a XP Asset Management credita esse desempenho à sua grade diversificada de estratégias e pretende manter o ritmo com duas novas mesas de gestão em operação este ano, uma das quais havia começado a ser montada em novembro de 2020. “Esse período foi relevante para nós em termos de crescimento e aproveitamos para diversificar ainda mais, inclusive com a montagem de um time para gestão de recursos naturais”, conta o CEO Bruno Castro. Entre as novidades desde o segundo semestre do ano passado houve o lançamento de um fundo que investe em direitos autorais de artistas e já tem 1,400 shows em carteira e a captação de recursos para um fundo de infraestrutura com debêntures incentivadas.
A expansão se deu em várias frentes, embora o lado internacional e os ETFs tenham sido os que mais contribuíram. “No caso do investimento global, os principais fatores foram o câmbio e a alocação ainda baixa dos brasileiros em exterior, o que levou a uma demanda maior. Apesar da mudança de patamar do juro, agora em alta, ainda há espaço para gestão ativa em exterior e para gestão passiva, aí com destaque para os ETFs temáticos”, afirma. A gestora acabou de lançar também um novo ETF next generation, para investir nas cem maiores empresas depois das cem primeiras na Nasdaq hoje. “Estamos olhando para as próximas Amazon e similares”, diz Castro.
Desde dezembro do ano passado foram criados oito novos ETFs que elevaram para dez o número total desses fundos, com patrimônio de R$ 2,5 bilhões e meta de chegar até R$ 3 bilhões ainda em 2021. A gestora estima ter espaço para crescer em 2022 em produtos passivos de diferentes geografias e está fechando alguns deles que foram criados desde 2020, com alocação em Europa, Asia exceto Japão e China.
A casa também reforçou este ano sua aposta em estratégias temáticas e que ficarão mais estruturadas, como o fundo de ações de cannabis, que já existia. “Há temas que devem ser mais rentáveis daqui para a frente, como os fundos que começaram a ser lançados gradualmente desde março para investir em energias renováveis, águas, carbono e e-sports (games e campeonatos gamers), além de fundos para alocar em fintechs e nas empresas da área de robótica”, detalha Castro.
O total sob gestão na área internacional é de R$ 12,2 bilhões, dos quais R$ 8,7 bilhões em fundos ativos e R$ 3,5 bilhões em estratégias passivas. “São mais de 50 fundos ativos e vinte diferentes parceiros lá fora, reforçamos o time com um profissional sênior e vamos lançar também fundos ESG regionais”, diz Castro.

Os investimentos offshore, beneficiados pelas altas das bolsas internacionais, e pelo movimento próprio do câmbio, estiveram no centro da busca por diversificação frente à redução do juro no ano passado, explica Rudolf Gschliffner, superintendente executivo de produtos da Santander Asset Management. Os produtos alternativos, em especial no segmento de real estate, também incentivados pelo juro baixo, foram outro destaque no período.
Mas o cartão de visita da casa são mesmo os seus fundos de global equities em diferentes geografias e gestores. “Essa classe existe aqui desde 2013 e acelerou bem no ano passado, em volume e captação. As fundações foram felizes ao se valerem do mercado global tanto nos EUA quanto na Europa, seja em ativos de growth ou value, e fizemos muita rotação setorial, o que garantiu alfa e chamou atenção das EFPC”, informa o executivo.
Esse desempenho resultou em ganho de mandatos e de clientes. “Ao olhar para a frente acreditamos que esse cenário ainda funciona sob o ponto de vista cambial e da demanda por ativos de risco lá fora, por mais que haja preocupação com a China”, afirma. A percepção, diz Gschliffner, é de que a política monetária do Fed ainda mantém um patamar de busca de estímulos para a economia e a retomada global segue, então o offshore continuará atrativo para os investidores frente à alta volatilidade no Brasil.
A asset já vinha ajustando sua equipe de gestão em offshore, real estate e renda fixa e, além disso, há mais de um ano investe no seu time quantitativo. “Em cenário de maior volatilidade e altíssima diversificação de portfolio isso tem sido importante porque o modelo sistemático consegue extrair maior valor”, afirma. As conversas com as EFPC sobre esse modelo ainda não se traduziram em novos mandatos, mas essa foi uma mudança importante na gestão e a tendência é de que ele ganhe espaço nos mercados global e local, acredita o executivo.
Este ano, o ambiente do mercado favoreceu as estratégias mais conservadoras, trazendo um desafio para as posições aplicadas em títulos prefixados. “Essa mudança trouxe mais volatilidade mas nos protegemos bem em prefixados quando as NTN-Bs longas começaram a ter atratividade e na parte de inflação, carregando os papéis curtos”, diz Gschliffner. A asset fez uma oferta pública em real estate este ano aproveitando o yeld atrativo, mas agora, com a alta do juro, a captação nessa classe ficou mais desafiadora e atrapalha tanto o real estate quanto outros ativos de maior risco, lembra.

 

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