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Subida imediata, mas lenta | Alta do crescimento da economia americana abre janela para aumento dos juros pelo Federal Reserve em junho, mas a elevação deve ser suave

Edição 268

 

O forte crescimento do PIB e das vagas de empregos nos EUA estão criando o cenário que o Federal Reserve esperava para começar a normalização das taxas de juros da economia. Com um PIB rodando em uma média de 4%, Rick Rieder, diretor de gestão e chefe de renda fixa fundamental da BlackRock, a maior asset do planeta com US$ 4,65 trilhões de ativos sob gestão, prevê o início do aumento dos juros americanos em junho ou setembro, com maior probabilidade para primeira data.
Responsável por uma carteira de US$ 1,39 trilhão, que é o volume de recursos de renda fixa da BlackRock em dezembro de 2014, Rieder prevê que não vai demorar para que os juros voltem a subir, mas acredita que o ritmo de elevação será bastante suave. “É provável que o Fed inicie com uma alta de 25 basis point em junho, depois mantenha a taxa estável no encontro seguinte, e então volte a elevar em mais 25 basis point”, disse em entrevista exclusiva concedida em São Paulo para a Investidor Institucional.
Por isso, o gestor global acredita que o impacto sobre os países emergentes não será dramático. Rieder acredita que a volatilidade dos mercados de renda fixa continuará alta, mas nada de crises como aquelas verificadas na décadas de 1990 e 2000. Leia entrevista na íntegra:

Investidor Institucional – Como vocês estão avaliando a recuperação da economia americana?
Rick Rieder – A economia americana está crescendo de maneira consistente. É um bom crescimento que evoluiu nos últimos anos, sem dúvida um dos melhores crescimentos dos últimos vinte anos. O PIB está crescendo a quase 4%, a média dos últimos 15 anos foi de 1,7%. Há muitos componentes que estão tendo um bom desempenho. O consumo está crescendo, os gastos estão aumentando, o nível de endividamento, que ficou alto por tanto tempo, está começando a cair. Então as pessoas estão voltando a tomar empréstimos. Temos uma dinâmica de uma economia que está em crescimento.

II – Mas por que alguns dados divulgados neste início do ano mostram uma desaceleração?
RR – É verdade que alguns dados divulgados recentemente foram um pouco mais fracos, e as pessoas estão um pouco desapontadas. Mas existem três fatores que contribuíram para isso: tivemos um inverno muito rigoroso, uma grande greve no porto da Califórnia, que teve um impacto significativo na economia. Além disso a economia tem crescido tão rápido e por tanto tempo, que é praticamente necessário que ocorra uma pausa antes de crescer mais. Então embora os dados mais recentes tenham demonstrado uma desaceleração, acreditamos que a economia vai seguir crescendo.

II – Você poderia comentar os dados sobre desemprego nos EUA?
RR – Os Estados Unidos criaram 1,7 milhão de vagas de emprego nos últimos seis meses, sendo um milhão nos últimos três meses. E agora temos uma taxa de desemprego muito próxima ao que a maioria dos economistas descreve como pleno emprego. É um crescimento extraordinário, e os números não apenas são positivos, como estão melhorando. O mercado de trabalho está muito forte.

II – Mas o nível de remuneração não avança no mesmo ritmo, não é mesmo?
RR – O crescimento dos salários tem desapontado, tem sido mais lento, e parte disso diz respeito à tecnologia, que vem substituindo as pessoas em alguns trabalhos rotineiros. É um momento sombrio para os salários. Ainda assim, vemos algumas grandes companhias, como WalMart e T.J. Maxx, começando a aumentar os salários. O crescimento dos salários sempre vem com um certo atraso, e devemos começar a ver mais desse movimento daqui pra frente.

II – E a inflação?
RR – Temos tido nos últimos meses um pouco mais de inflação do que a média histórica, porque a economia está crescendo, e está começando a ocorrer um aumento na remuneração. É importante destacar que a tecnologia e os preços dos combustíveis estão mantendo a inflação mais baixa, também por conta da energia, dos combustíveis, do petróleo que está muito mais barato.

II – Então, todos esses números são favoráveis para que o Fed comece a elevar as taxas de juros?
RR – Sim, entendemos que o Fed vai começar a aumentar os juros em junho ou setembro de 2015. Nossa aposta é que seja em junho. Começamos a ver melhorias nos números de inflação, as expectativas em relação aos preços estão estáveis, e a taxa de desemprego está muito baixa, somente um pouco acima do nível em que estava antes da crise. Por isso, entendemos que o Fed tem a oportunidade de começar o movimento. E uma taxa de juros de 0% é muito baixa, não faz sentido, a economia não está em uma situação de emergência. O ambiente é propicio para iniciarem o movimento. O comunicado recente do Fed sugeriu que eles irão acompanhar a divulgação dos dados sobre a economia. Mas o momento é propicio, e acho que eles vão saber aproveitar.

II – Com que rapidez o Fed irá elevar os juros?
RR – Há três pontos importantes a serem considerados quando se pensa sobre a política monetária do Fed. O timing, o ritmo e a finalização. Nós achamos que o Fed vai se mover logo, mas em um ritmo muito lento. É provável que o Fed inicie com uma alta de 25 basis point em junho, depois mantenha a taxa estável no encontro seguinte, e então volte a elevar em mais 25 basis point. E a taxa ficará em um patamar abaixo da média histórica. Os investidores estão muito nervosos sobre o inicio do ciclo de aperto por parte do Fed, mas as taxas ficarão abaixo da média histórica. E como o Banco Central Europeu (BCE) está mantendo as suas taxas muito baixas, as taxas americanas devem seguir abaixo da média por um bom tempo.

II – Você poderia analisar os fatores domésticos ou internacionais que poderiam atrasar ou acelerar o início do novo ciclo de aumento dos juros pelo Fed?
RR – Existem algumas coisas que podem postergar o processo. Se os números sobre o mercado de trabalho nos próximos dois meses não continuarem indicando uma evolução, por exemplo – temos de ter acima de 200 mil vagas de emprego criadas no período. Ou se o crescimento dos salários ficar estagnado. E também fatores fora dos Estados Unidos, como a Grécia, que continua sendo um tema na Europa, ou se a dinâmica entre Rússia e Ucrânia continuar a trazer volatilidade aos mercados. Entendemos que o Fed quer iniciar o aperto, e teria de ser algo importante para adiar a decisão.

II – Você acredita que haverá uma forte entrada de capital nos EUA quando o Fed voltar a subir os juros?
RR – Acredito que sim, principalmente no mercado de renda fixa, uma vez que a demanda dos investidores por dólares segue alta. Um ponto importante a destacar é que estamos começando a entrar em períodos de crescimento em regiões como a Europa, e também temos visto retornos de yield atrativos em alguns países emergentes. Acho que os fluxos vão continuar indo para os EUA, mas penso também que, com os movimentos ao redor do globo, outros investimentos podem ser tão ou mais atrativos.

II – Então teremos maior volatilidade nos mercados, não teremos?
RR – O mercado tem potencial para ser mais volátil ao longo dos próximos anos. O nível de alguns yields está tão baixo, e estamos em uma dinâmica em que todos os investidores estão na busca por ativos, em um ambiente de baixas taxas de juros há um bom tempo. Então é significativo o potencial de volatilidade do mercado, de muitos investidores partindo ao mesmo tempo em busca das mesmas posições, isso sempre gera uma forte volatilidade. Mas acho que os mercados globais terão um bom ano, dentro de um contexto no qual os bancos centrais estão sendo mais ativos em suas políticas monetárias. Hoje a volatilidade do mercado está muito baixa.

II – Como serão os impactos sobre os mercados emergentes?
RR – Historicamente a dinâmica da economia americana gera uma forte pressão sobre os mercados emergentes, mas dessa vez não acho que isso ocorra, por duas razões. Uma é que o Fed vai agir muito devagar no ritmo de elevação dos juros. Além disso, e isso é algo que ninguém tem levado em consideração, é o nível de alavancagem do mundo emergente, que está muito mais baixo, e com reservas cambiais muito maiores.

II – Quais as diferenças em comparação com crises anteriores?
RR – Se voltarmos para 1990, 1994, 1998, 2002, tínhamos economias com alta alavancagem e baixo nível de reservas. Hoje temos economias como o México, a Índia, e mesmo o Brasil, com indicadores muito bons. Então não acho que tenha de ser necessariamente o mesmo fenômeno que houve no passado, o que não quer dizer que não vai haver volatilidade. Sem dúvida o dólar vai continuar se valorizando, talvez em um ritmo um pouco mais devagar do que o visto recentemente, mas não acredito que o que vimos na década de 90, e na última década, irá se repetir.

II – Você sabe que aqui o Banco Central tem aumentado os juros. Você acredita que continuaremos mantendo as taxas tão altas por um longo tempo?
RR – A economia do Brasil está em desaceleração, próxima da recessão hoje, mas a inflação está alta, acima do teto da banda. Então enxergo um cenário em que a taxa de juros deve continuar elevada nos próximos dois encontros, e depois desse pico devemos ver a taxa caindo, e a inflação caindo também, com um crescimento lento. Nós ficamos surpresos quando os juros começaram a ser elevados, mas nossa percepção agora é que o país está trilhando um caminho para entregar níveis menores de inflação, com maior estabilidade do câmbio, e menor taxa de juros. Entendemos que é uma perfeita oportunidade para os investidores globais alocarem recursos no mercado de juros brasileiro, talvez não hoje, mas em seis meses, ou no próximo ano, pode ser realmente atraente.

II – Poderia comparar o Brasil com outros emergentes, por exemplo, com a Índia?
RR – A Índia passou por um importante ajuste fiscal, por mudanças estruturais no mercado de trabalho, e agora estamos começando a ver uma moderação da inflação, o que deve levar o banco central a uma postura mais flexível. Entendemos que o mercado de juros está ficando muito atraente, em lugares como Índia, México. Acredito que o Brasil precisa passar por um período de transição, para chegar no mesmo patamar em que a Índia está hoje. O país deve levar seis meses, ou um ano, mas vai levar um pouco de tempo. Toda economia tem esses ciclos, em que você tem de ser mais agressivo para implementar sua política, e gerar melhores condições futuras por um longo período. O mercado no Brasil vai passar por esse período por um tempo, o que significa que os investidores estarão cautelosos, e quando começarem a ver os reflexos das mudanças, é quando começaremos a ver o fluxo de investidores internacionais.

II – A BlackRock está aumentando os investimentos em renda fixa no Brasil?
RR – Estamos sendo cautelosos atualmente. Temos uma parte da nossa equipe aqui, e vamos continuar investindo na região nos próximos meses para aproveitar oportunidades atreladas ao crescimento. O Brasil é um dos lugares do mundo onde se tem taxas muito atrativas, e a alavancagem não é muito alta. Embora hoje estejamos cautelosos, começamos a experimentar esse mercado aos poucos, e essa é uma região que certamente será um foco nos próximos meses.

II – Quais os riscos de se investir nos títulos públicos do Brasil?
RR – Há uma série de dinâmicas que afetam a economia, como o que está sendo feito com a política fiscal, o que tem sido feito no meio político, como está a situação das empresas, como a Petrobras, esses são pontos que focamos e monitoramos. Também o desempenho do PIB, da inflação, como está sendo feita a concessão do crédito. Uma questão que sempre nos fazemos é o quanto desse ambiente está precificado, porque os níveis estão muito atraentes. Talvez seja melhor esperar um pouco mais de transparência, saber quais serão as melhorias que de fato vão ocorrer, para começar a aumentar os investimentos.

II – Em quais países a BlackRock tem suas maiores posições em renda fixa?
RR – Os Estados Unidos sempre foram um dos mercados mais importantes para nós na renda fixa, mas fizemos alguns movimentos recentemente por conta do crescimento de nossa base de ativos sob gestão, sob um ambiente de políticas monetárias mais agressivas e seus impactos no mercado de crédito da Europa. Essa foi uma grande mudança para nós, e México e Índia receberam grandes investimentos recentes. Também aumentamos nossa exposição em algumas regiões da Ásia, como China, no mercado de crédito.

II – Como você avalia o risco de uma crise cambial nos mercados emergentes?
RR – Nós entendemos que o dólar mais forte é sim uma tendência para parte do mundo emergente, mas não estamos tão preocupados com uma crise cambial propriamente dita. Não esperamos que os países partam para uma competição entre si. O perfil das dívidas é muito melhor hoje, as economias são muito mais maduras, não esperamos por uma crise de moedas, mas algo mais suave.

II – Os fundos de pensão brasileiros deveriam investir em renda fixa global?
RR – Uma coisa muito importante é que, por trinta anos, os países desenvolvidos emitiram mais e mais dívidas, e agora pela primeira vez não se tem produzido ativos suficientes de renda fixa. Então você tem de adotar uma postura tática, buscar as oportunidaes ao redor do globo. Ou partir para novos mercados em desenvolvimento, como o mercado imobiliário que está em crescimento na Europa. Mas ser flexível sobre onde tomar o risco é extremamente importante hoje, porque não há produtos suficientes.

Rumo ao PIB negativo | Aperto fiscal e monetário jogam PIB para baixo em 2015, mas medidas da nova equipe econômica reduzem risco de perda do grau de investimento

Edição 267

 

Com 24 membros, alguns ex-diretores do Banco Central e maioria de economistas-chefe dos principais bancos brasileiros, o comitê macroeconômico da Anbima vem reduzindo as projeções para o crescimento do PIB brasileiro em seus últimos encontros. Na mais recente reunião realizada no final de janeiro, reduziu de 0,6% para 0,2% e, seu presidente, Marcelo Carvalho, economista chefe do BNP Paribas, indica que a tendência de queda deve continuar. “Podemos ter uma projeção negativa sim. Não me surpreenderia se na próxima reunião chegarmos a isso”, diz o economista com PhD pela Universidade de Illinois, com passagens pelos bancos Morgan Stanley, J.P. Morgan e Bank of America, além de ter sido diretor do FMI.
Em uma entrevista para a Investidor Institucional, em que participou também o vice-presidente do comitê, o economista chefe da Bram, Fernando Honorato Barbosa, os dois executivos traçaram um cenário sombrio para o PIB brasileiro em 2015. Fatores como o ajuste fiscal e o aperto monetário, além do reajuste dos preços administrados, apontam para um cenário recessivo convivendo com uma inflação acima do teto. Mas nem tudo é pessimismo na projeção dos economistas. O programa de afrouxamento monetário do Banco Central Europeu e as medidas da nova equipe econômica, apesar de amargas no curto prazo, são fatores que dão uma ponta de otimismo, ainda que os resultados apareçam apenas em 2016. Confira e entrevista:

Investidor Institucional – Como tem sido o processo de revisão do crescimento do PIB do Brasil nas últimas reuniões do comitê macro da Anbima?
Marcelo Carvalho – As revisões têm sido feitas em uma direção claríssima, para baixo. Há várias reuniões isso vem acontecendo. E tem sido revisões expressivas, a última de 0,6% para 0,2% ao ano. E esse número é de consenso, é a mediana, por isso representa uma diversidade grande. Para chegar a isso, quer dizer que tem vários membros no território positivo e vários outros, no negativo. O teor e o humor do grupo indica um viés de baixa. Não me surpreenderia se na próxima reunião do comitê tivermos números menores.

II – Você prevê então que as próximas projeções podem apontar para um cenário de recessão?
MC – Sim, podemos ter uma projeção negativa sim. Não me surpreenderia se na próxima reunião chegarmos a isso. Na última reunião já vários membros apontavam para um cenário negativo para o PIB de 2015. De lá pra cá, alguns dos membros do comitê divulgaram novas projeções em suas instituições já no campo negativo. Parece razoável imaginar que o consenso será para baixo. Claro que tem um debate semântico sobre o que é recessão, se é apenas dois trimestres seguidos com PIB negativo ou se importa o resultado do ano como um todo, mas claramente o teor do debate no comitê e a realidade dos números, sugere um quadro muito difícil.
Fernando Barbosa – O critério técnico para a recessão é o PIB negativo em dois trimestres seguidos. Tem alguns outros critérios mais amplos, considerados pelo Codace, Comitê de Datação de Ciclos, que leva em conta não apenas o PIB negativo em dois trimestres, mas depende também do emprego, do investimento, da indústria. Mas enfim, temos uma projeção que aponta para um quadro recessivo. Mesmo que o PIB seja 0%, também indica um quadro com contornos recessivos.

II – Quais os principais fatores que estão pressionando o PIB para baixo?
MC – Eu destacaria alguns fatores que estão pressionando para esse viés de baixa. Primeiro é o aperto da política econômica, quando digo isso, é a política econômica e a fiscal. Em ambas políticas, o grupo do comitê acredita que haverá maior aperto. O consenso aponta que o juros ainda ia subir, antes da última reunião do Copom, como realmente subiu. E o resultado da mediana é que sobe ainda mais. Então tem o fator de aperto de política monetária. O outro fator é o aperto fiscal. Felizmente há o aperto fiscal, é uma política que caminha na direção contracionista e reflete a credibilidade da equipe de Joaquim Levy a frente do Ministério da Fazenda.

II – O ajuste fiscal é um fator positivo, mas que pressiona o PIB para baixo, não é mesmo?
MC – Sim, digo felizmente do ponto de vista da manutenção do grau de investimento, é uma correção necessária. É contraditório porque no final das contas será positivo, mas é muito ruim para a atividade no curto prazo. Ou seja, é ruim hoje, mas será bom amanhã. Outros dois fatores que jogam contra a atividade do PIB é o risco de racionamento de energia e água e por último, o efeito da Petrobras.

II – E a previsão de inflação também foi revista para acima do teto da meta, para 6,82%. Quer dizer que o aperto monetário continua?
MC – É verdade, a previsão é que não só ficaremos acima do centro da meta, mas acima do teto da meta, com mais de 6,5%. É um resultado impressionante, porque estamos no começo do ano, ainda no mês de janeiro, quase ninguém acredita que vamos ficar dentro da banda de inflação. E o contexto pra essa revisão, claramente tem a ver com o reajuste de tarifas, eletricidade em particular. Claramente tem o reajuste de tarifas que foram represadas no passado e que foram liberadas agora. De novo, no médio e longo prazos tem que ser isso mesmo. O caminho é esse mesmo, é correto, tem que fazer o ajuste tarifário, ninguém discorda disso, que o pessoal está chamando de realismo tarifário.

II – Mas no curto prazo gera maior pressão inflacionária?
MC – Claro, no curto prazo tem uma implicação para pressionar a inflação para cima. Esse realismo tarifário que fez todo mundo rever as projeções de preços administrados, o que impactou a inflação para 2015. Para o ano que vem, a inflação será um pouco menor, mas poucos acreditam que a taxa vai ficar em 4,5%. O consenso indica algo entre 5% e 6%. Mas o que é mais certo é que este ano passa do teto da meta, o que quer dizer que o Banco Central ainda tem muito serviço para fazer.

II – Em relação aos fatores externos, há algum deles, como por exemplo, o programa de afrouxamento quantitativo (QE) do Banco Central Europeu pode ajudar a dinamizar a economia dos países emergentes e do Brasil?
MC – Pode sim, pode ajudar. Tem fatores externos que podem atrapalhar, mas tem outros como o movimento do Banco Central Europeu, de afrouxar as condições monetárias, pode sim, ter uma vazamento de fluxo de capital para os países emergentes, para o Brasil inclusive. Do outro lado, há a expectativa que o Banco Central americano, o Fed, suba os juros. Tem um debate lá de quando isso vai ocorrer. Alguns acham que será em meados do ano, outros que ocorrerá mais no segundo semestre e outros que acham que será no ano que vem. Mas que está a caminho, ninguém tem dúvida.

II – São movimento contrários entre o Fed e o BCE, não é mesmo? O que vai predominar?
MC – Sim, há um debate sobre o que vai predominar, se é o Fed que está apertando ou se é o BCE que está aliviando. Na verdade, pode até ter os dois efeitos: em um primeiro momento um alívio e depois um aperto. Outro fator importante no cenário global é o preço das commodities, não apenas petróleo, que despencou nos últimos meses, mas o preço de commodities em geral, principalmente daqueles produtos que a gente exporta, soja, minério de ferro, que também estão caindo.

II – O que mais afeta o preço das commodities neste momento, é o menor crescimento da China em comparação com anos anteriores?
MC – Tem vários fatores impactando, um deles é o próprio dólar que vai aumentando. Enquanto o dólar se fortalece em todo o mundo, se fortalece em relação a algumas moedas contra outros ativos financeiros como as commodities. Mas o fator mais importante, realmente, é a China, e todas as projeções indicam que a economia chinesa vai crescer menos nos próximos anos. O número varia, mas todos têm a mesma direção. Então, é difícil ser otimista com o fator China.
FB – O cenário para os emergentes poderia ser pior. Se fosse desenhar o cenário ao longo de 2014 para os emergentes, 2015 poderia ser pior. O Fed poderia subir os juros mais precocemente. Com a subida do juros americano e a queda das commodities, criaria um ambiente muito ruim. Mas depois veio o quantitative easing europeu, que comprou tempo para os emergentes. Deu uma certa folga, certo alívio, até para a China, que vinha em desaceleração.

II – E o programa do BCE surpreendeu pelo tamanho e pela duração?
MC – Surpreendeu sim, mais de um trilhão de euros, e pode ser mais. Tem uma questão de quanto disso já estava na conta. Mas de modo geral, acho que sim surpreendeu pelo tamanho e pela duração também, por mais de um ano e pode ser mais tempo também.
FB – Realmente surpreendeu, também tinha o programa do Banco Central Japonês (BOJ) e o Fed que estava reduzindo. Daí veio o Banco Central Europeu que pensou, tem que ser um programa arrasa quarteirão. E o BCE estava flertando com a deflação e no fundo, eles não podiam errar, não podia parecer hesitantes. E o impacto sobre o euro foi impressionante, e faz parte do tamanho do ajuste.

II – Quais são as projeções para o câmbio, em relação ao dólar e ao euro?
MC – Neste caso, cada casa tem uma projeção. Mas em geral, vemos uma projeção de desvalorização cambial daqui até o fim do ano. O resultado será um real mais desvalorizado. Até porque existe uma ideia que o dólar está se valorizando no mundo inteiro. O dólar está cada vez mais forte, com crescimento da economia americana mais acelerado, com perspectiva de aumento do juros em algum momento, isso tudo favorece que o dólar se fortaleça. A própria volatilidade desse mercado já mudou de figura. A volatilidade que era muito alta já mudou, a volatilidade implícita desses mercados muda quando tem esse tipo de evento.

II – O cenário atual de juros lá fora é de taxas baixas nos países desenvolvidos e vários países passaram a cortar também. Por que o Brasil está na contramão?
MC – É verdade, vários mercados já cortaram, o Peru, alguns países da Ásia. Em parte relacionado ao movimento do BCE, e parte não. Aqueles que podiam cortar juros, foram em frente. O Brasil fica na contramão, porque estamos em situação diferente. Assim como estávamos em situação diferente quando cortamos expressivamente lá atrás. E agora temos uma situação muito diferente em relação à inflação. No resto do mundo se debate o risco de deflação. Isso que o BCE está tentando combater, ainda mais com o petróleo em queda. No Brasil a situação é outra. Aqui tá pegando fogo.
FB – Tem uma análise de um banco grande, que não gostaria de citar o nome, mas que dos 22 mercados que ele monitora, 12 vão cortar os juros, 9 vão manter e apenas um, deve aumentar. Por acaso é o Brasil.

II – E com o aumento da liquidez mundial e os resultados do ajuste fiscal aqui dentro, os juros mais longos não tendem a recuar?
MC – Sim, tendem a recuar. Agora o juros mais longo é bem diferente do juros mais curto. O juros mais longo reflete a perspectiva de risco país, a perspectiva de rating e o ajuste fiscal. A ponta mais curta do juros reflete o que o Banco Central está fazendo para segurar a inflação. Algumas vezes vão em direções contrárias. Neste momento, podemos ter um aumento mais agressivo do juros curto, com a queda do juros longo. Você tem um Banco Central mais comprometido com o controle da inflação. São dinâmicas diferentes. Então, o ajuste fiscal contribui para derrubar a ponta longa do juros, mas cabe à autoridade monetária que o juros curto suba bastante pra segurar a inflação.

II – Como os economistas estão recebendo as medidas anunciadas pela nova equipe econômica? O mercado continua recebendo positivamente?
MC – Temos recebido muito bem. Há um enorme otimismo e torcida pelo Joaquim Levy e a nova equipe econômica e há uma convicção muito maior que o ajuste fiscal é possível com esse time. Então, a leitura é muito positiva. Claro que os desafios são muito grandes. Por outro lado, não é fácil imaginar alguém mais bem qualificado que o Joaquim (Levy) pra fazer o ajuste com crebibilidade.

II – Vocês acreditam que a nova equipe econômica vai continuar atuando com autonomia?
MC – Repito o que o próprio Joaquim (Levy) respondeu quando fizeram essa pergunta para ele. Respondeu que a autonomia será verificada no dia a dia. Até agora tivemos um conjunto de medidas que foram aceitas e são corretas. São medidas tanto do lado da arrecadação quanto dos gastos que são corretos.
FB – A cirurgia é difícil e o paciente está debilitado. Mas o cirurgião é competente. O resultado da cirurgia vamos descobrir daqui algum tempo. O pós-operatório também será importante.

II – Você acredita que o início da atuação da nova equipe econômica já está ajudando a reduzir o risco de perda do grau de investimento para o Brasil?
MC – Sim, está ajudando muito. No mínimo postergou e até pode evitar o downgrade da nota das agências. O risco ainda existe, ainda há a expectativa do que as agências vão dizer da dinâmica da dívida, da atividade econômica, do resultado fiscal. Então, se você tiver um ano de ajuste com atividade baixa e o resultado fiscal ainda aquém do necessário, mas apontando na direção de um futuro melhor, acho que as agências de risco devem ter a tendência de dar ao Brasil o benefício da dúvida. Elas devem esperar para ver se a mudança é realmente para valer. No cenário anterior, o risco era iminente. Agora com a nova equipe você reduziu e talvez consiga evitar.

FIPs em mercados maduros | Gestora da Pantheon defende investimento em private equity no exterior, começando por fundos dos EUA, onde a indústria é mais desenvolvida

Maureen Downey, da Pantheon InvestmentsEdição 266

 

Uma indústria que soma mais de US$ 3,5 trilhões em ativos sob gestão no mundo todo, de acordo com dados do relatório da Preqin Global 2014, o private equity ainda caminha a passos lentos no Brasil. Enquanto os fundos de pensão são responsáveis por US$ 1,8 trilhão desses recursos mundo afora, as fundações brasileiras aplicam apenas 2,8% do patrimônio nesse segmento, volume que não passa de R$ 18,5 bilhões, segundo estatísticas da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp).
Mesmo pequeno em volume, no Brasil, este é o nicho de maior expressão dentro dos estruturados. Quando o assunto é investimento no exterior, as fundações brasileiras ficam bem mais atrás: somente 0,1% do patrimônio é destinado a ativos off shore. A maior parte desses recursos fica alocada em ações. “Os fundos de pensão brasileiros investem muito pouco em private equity. E menos ainda no exterior. Dessa forma, não é uma tarefa simples convencer o mercado a aplicar em private equity lá fora, ainda mais com taxas de juros tão elevadas no cenário doméstico”, afirma Maureen Downey, sócia-diretora da Pantheon Investments.
Em setembro deste ano, a parceria entre a gestora global de private equity e a SulAmérica Investimentos completou um ano. A ideia das assets é lançar um fundo de private equity no exterior para fundações brasileiras. Mas o veículo, que terá oferta restrita, ainda está no forno. “Desde o começo sabíamos que seria necessário realizar um processo de educação com os potenciais investidores. Precisamos explicar para eles o que é o produto e como opera a Pantheon no mundo. Ainda estamos nessa fase de introdução e prospecção, sem data prevista para lançamento”, explica.
A Pantheon preferiu começar operações no Brasil por meio de uma parceria, modelo que pretende manter por enquanto. “Não temos intenção de abrir escritório no Brasil. Várias concorrentes nossas que fizeram isso sofrem com forte rotatividade de profissionais. Não queremos isso para nós”, diz a executiva.
Antes de ingressar na Pantheon - gestora que possui mais de US$ 20 bilhões em ativos sob gestão, e 85% dos clientes são fundos de pensão -, Maureen passou pela vice-presidência de investimentos do Goldman Sachs. Trabalhou também para o Merrill Lynch em Nova York, na mesa de operações de renda fixa. Atualmente, fica no escritório da Pantheon em São Francisco. Em entrevista à revista Investidor Institucional, Maureen fala sobre o mercado de private equity no mundo e seus entraves no Brasil.

Investidor Institucional – Quais as vantagens para um fundo de pensão em investir em private equity no exterior?
Maureen Downey – Diversificar a carteira com private equity é muito mais interessante para as fundações, pois ela permite acessar empresas em diferentes etapas de maturação e em localidades distintas, reduzindo o risco. Fundo de pensão não pode, pode exemplo, investir em venture capital ou fundo mezanino, mas pode ter essas estratégias dentro de um fundo private equity. O private equity internacional também tem a vantagem de ser um hedge natural de câmbio. Se a economia do país vai mal, por meio da diversificação no exterior reduz-se os impactos negativos na carteira.

II – As fundações brasileiras preferem ações quando apostam off shore. Quais as vantagens do private equity lá fora em comparação com a bolsa internacional?
MD – Investir lá fora ainda não é uma prática comum nas fundações brasileiras e, somado a isso, o private equity é de fato um produto bem mais complexo que a bolsa. O mercado acionário tem mais liquidez, o que justifica a preferência dos investidores. Porém, é possível sim vender ativos de private equity no mercado secundário internacional, que tem um fluxo de negócios de US$ 20 bilhões por ano, mas, no Brasil, o mercado secundário é muito pequeno. Em compensação, a rentabilidade do private equity é muito superior a de fundos de ações.

II – É mais difícil convencer os fundos de pensão quando as taxas dos títulos públicos estão em alta, não acha?
MD – O produto faz muito sentido na carteira, mas juros acima de 11% favorecem demais a renda fixa. Assim fica realmente mais difícil convencer o comitê de investimento e os conselhos a diversificar. Os investidores no Brasil ainda precisam entender que esta é uma estratégia de longo prazo para se sentirem confortáveis para aplicar lá fora.

II – Como alcançar melhores retornos com os private equities?
MD – Se a fundação ingressar no produto logo no primeiro quartil do investimento, o retorno é bem maior do que em renda variável. Claro, que as taxas também são mais caras e há bem mais restrição de liquidez. Entretanto, é importante ingressar no fundo no começo.
A diferença entre os retornos de renda variável e de private equity é enorme. Nos Estados Unidos, onde há um mercado bastante maduro em private equity, somente os planos de benefício definido investem em ativos alternativos e a rentabilidade deles têm superado a dos planos de contribuição definida. Nos últimos dez anos, a diferença é de 120 pontos base. Isso tem feito com que os planos CD, que são muito conservadores, pensem em incluir alternativos na carteira, principalmente private equity, para aumentar o retorno e diminuir a diferença atuarial com os BDs.

II – Para os fundos de pensão brasileiros, quais seriam os melhores mercados para começar a investir no exterior?
MD – Acredito que seria ideal começar pelos mais maduros. Se eu fosse criar uma carteira de private equity aqui hoje, eu não colocaria nada dentro do Brasil. Alocaria nos Estados Unidos, que tem um mercado muito mais maduro, com mais de 50 anos, e tem gestores para os mais diversos segmentos. A economia americana também está indo bem e setores estratégicos como saúde, tecnologia e energia, têm gerado retornos significativos.

II – E na Europa e demais mercados?
MD – Na Europa temos boas oportunidades em setores ligados à exportação, mas é preciso um pouco de cautela por conta da crise. Lá, a Pantheon trabalha apenas com aquisição de médias empresas, em formato buy-out (controle acionário). Outra parte dos recursos eu alocaria em Ásia e Austrália. Com destaque para China e Índia, onde o mercado consumidor torna bastante promissores os setores de varejo e serviços. Para investidores brasileiros, não recomendo um forte alocação em outros emergentes, pois o país já está bastante exposto a China, por por conta do comércio de commodities, por exemplo.

II – Como estão os contatos e o trabalho com os fundos de pensão brasileiros?
MD – Fizemos uma espécie de “road map” com investidores locais para desenharmos um fundo global. A oferta será restrita, então não posso detalhar o veículo. Ainda estamos em fase de educação financeira com as fundações. Desde o começo sabíamos que precisaríamos começar explicando o que é esse segmento e como trabalha a Pantheon no mundo. Private equity é uma classe de ativos relativamente jovem, e somente os grandes players atuam com captação no exterior. Lá fora, contudo, este é um mercado muito maior e mais complexo.

II – O processo está mais difícil do que esperavam?
MD – Essa fase educacional está demorando um pouco mais do que pensávamos, mas a economia doméstica tem contribuído para a dúvida dos investidores aqui. O custo de oportunidade de investir em private equity, quando a renda fixa apresenta boas rentabilidades e os juros básicos passam de 11% ao ano, tem sido levado muito em conta.
Nas conversas que já tive com os investidores percebi que eles entendem os benefícios, mas há muitas outras coisas em jogo. Eles ficaram aguardando, por exemplo, o resultado das eleições para definir as estratégias de 2015.

II – Quais fundações vocês estão buscando no Brasil?
MD – No Brasil, estamos conversando com instituições de todos os portes, de grande a pequeno. Mas acho que a adesão dos grandes fundos de pensão poderia dar mais confiança para os menores, que não têm equipe para fazer tal análise, investirem no fundo de private equity. Existem grandes oportunidades dentro desse segmento lá fora. Um mercado que tem percebido isso é o México.

II – Qual é o diferencial do México?
MD – Lá, as fundações podem investir 20% no exterior, e os reguladores estão pressionando os fundos para que ampliem a diversificação. No Chile, que quase não apresenta opções de investimento internamente, as fundações também têm buscado ativos no exterior. Embora o mercado brasileiro seja diferente, e um pouquinho mais diverso, as fundações locais podem se beneficiar muito do private equity internacional.

II – O fundo a ser oferecido no Brasil será customizado? De que forma?
MD – No Brasil as regras de alocação são peculiares, o que demanda um produto de private equity customizado às demandas locais. A Pantheon possui uma plataforma bastante flexível. Mas é assim também em outros países, como o Chile. Lá, as fundações não podem ter mais de 33% do patrimônio de um fundo, enquanto aqui esse limte é de 25%. Entretanto, no Chile existem apenas cinco fundações. É possível ter três institutos em um feeder, mas há pouco espaço para oferta. É preciso que todas estejam guiadas por estratégias muito semelhantes no mesmo momento para criar um fundo lá. No Brasil há muito mais fundações, mas somente as dez maiores concentram 80% dos ativos sob gestão do segmento. Ou seja, é também um mercado muito concentrado, uma dinâmica semelhante à do Chile. Um desafio parecido, portanto. Mas só poderemos aprender fazendo.

II – Por que ingressar no Brasil por meio de uma parceria?
MD – O caminho natural para que as fundações passem a investir em private equity é por meio de um feeder. Desta forma, pensamos em firmar parceria com uma gestora local. De fato, muitos dos nossos concorrentes estavam abrindo escritório aqui, mas com forte rotatividade de profissionais. Não queremos isso para nós, pois investimentos em private equity são de longo prazo e demandam confiança no gestor acima de tudo. Para nós, era importante a experiência de um parceiro local. Esse conhecimento leva tempo, assim como formar relacionamentos duradouros.

II – A Pantheon pretende eventualmente abrir escritório aqui?
MD – Não estamos procurando novas parcerias no momento nem queremos abrir escritório local. Preferimos entrar no mercado institucional brasileiro por meio de uma parceria. Para as fundações, investir no mercado lá fora é uma decisão muito complexa e demanda muita confiança na gestora. Por isso acredito que esse investimento deve ser feito por meio de uma instituição que já é conhecida por eles. Talvez algum dia, se tivermos muitos clientes, poderemos pensar em abrir escritório aqui, mas agora não.

II – Na sua opinião, como os investidores estrangeiros estão enxergando o mercado brasileiro?
MD – No private equity tudo depende de qual segmento você está observando. Investidores focados nas grandes empresas, que estão atreladas ao crescimento do PIB, têm mais cautela em relação ao mercado brasileiro. Mas há muitas empresas interessantes cotadas a um preço baixo, companhias que dependem de uma reestruturação bem feita para crescer. Nesses casos, é possível entrar no capital e vender partes lá na frente. Acho que alguns investidores estão observando que os preços no Brasil estão baixos e que isso pode representar oportunidades.

II – Quais segmentos são mais promissores no Brasil?
MD – A maior parte da economia brasileira está nas empresas menores, que não são acessíveis pela bolsa. O segmento de tecnologia é um exemplo. Nele existem boas compras para venture capital. O Brasil é o terceiro maior consumidor de tecnologias móveis e Internet e esse é um mercado que deve crescer muito. É sabido que o Brasil não crescerá tanto nos próximos anos, mas há muitas oportunidades para investir em private equity, que geram valor.

II – Em quais setores?
MD – Há diversos segmentos interessantes, como saúde, consumos básicos, logística, serviços, educação, infraestrutura. O país carece de investimentos em infraestrutura, mas para ingressar nele é preciso conhecer bem os outros investidores, que demandam um custo de capital diferente do estrangeiro. Às vezes você quer 20% de retorno e eles estão satisfeitos com 10%. Mas a Pantheon está constantemente investindo na América Latina em nome dos clientes e o Brasil é um mercado ainda bastante demandado.

II – Quais segmentos brasileiros compõem as carteiras de private equity da Pantheon lá fora?
MD – Temos cerca de cinco fundos que possuem ativos brasileiros, que oferecemos lá fora. São veículos que somam mais de US$ 100 milhões. Estão alocados nesses segmentos que eu listei como interessantes no Brasil, exceto infraestrutura. Além deles, investimos em serviços para energia e para agricultura. Acho que infraestrutura tem boas oportunidades, mas depende demais do que o governo pretende fazer.

II – Os investidores lá fora estão pessimistas em relação ao Brasil, que corre o risco de perder o grau de investimento?
MD – Acho que estão todos preocupados se o governo vai fazer os ajustes necessários para a economia voltar a crescer. Se nada mudar, o mercado vai ficar mais tímido e reticente em relação ao Brasil. Há muitos ativos subavaliados no mercado brasileiro, mas os investidores ainda estão observando muito os próximos passos do governo antes de retomar o apetite para investir.

Destravar a infraestrutura | Mesmo com baixo nível de poupança doméstica, novo governo terá de adotar estratégia clara para impulsionar investimentos no setor produtivo

Joaquim Levy, da BramEdição 265

 

Com uma visão comparativa entre mercados internacionais, o ex-diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ex-secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy ressalta a necessidade urgente de destravar os investimentos na infraestrutura do país como uma das principais mudanças do novo governo Dilma. Ao lado da retomada do equilíbrio fiscal, o executivo que atualmente é diretor superintendente da Bradesco Asset Management (Bram) aponta a falta de uma poupança doméstica mais robusta como uma das principais fragilidades da economia brasileira.

“Estamos tentando aumentar o investimento sem aumentar muito a poupança doméstica...”, diz Levy em entrevista exclusiva para a Investidor Institucional. Por isso, ele define que o governo deveria definir uma linha de ação em relação à formação de poupança doméstica e às ações necessárias para impulsionar os investimentos no setor produtivo. Os desafios são maiores diante de um cenário de menor crescimento da economia chinesa, bem diferente do início do primeiro mandato de Dilma em 2010. Levy cita o exemplo australiano, onde o novo governo percebeu as mudanças no cenário mundial e tem incentivado os investimentos no setor produtivo aliado a um aperto fiscal importante.
Confira entrevista na íntegra:

Investidor Institucional – O que deve ser mudado no novo governo?
Joaquim Levy – O novo governo começa com um cenário doméstico e externo diferente de 2010. A situação global, assim como a demanda por commodities e a liquidez internacional, mudou. O menor crescimento da China deve exigir mais de nós. Além disso, a urgência para destravarmos a infraestrutura aumentou, até pelo cenário global em que a produtividade será ainda mais importante. Finalmente, nesse novo quadro, a questão fiscal adquire um caráter diferente do “anticíclico” que deu para ser feito em 2009, quando o setor público estava muito enxuto.

II – Existe alguma grande fragilidade?
JL – O desafio para o Brasil é o nosso baixo nível de poupança que acaba demandando tanto dos fundos de pensão. Inclusive, as empresas não estão conseguindo poupar como no passado, quando lucros retidos eram cruciais para o investimento. Estamos tentando aumentar o investimento sem aumentar muito a poupança doméstica, e conscientes dos limites da poupança externa. Definir uma linha de ação em relação a isso é um imperativo para alinhar expectativas.

II – Mas há países com déficits persistentes na conta corrente. Qual a diferença com o Brasil?
JL – É verdade, a Austrália é um exemplo. Mas lá, a taxa de investimento tem sido mais alta, que no Brasil, inclusive depois de 2008. E o déficit de conta corrente deles vem diminuindo nos últimos anos. Aliás, a Austrália começou a mudar ao perceber as implicações da desaceleração chinesa. O novo governo está começando um aperto fiscal importante e os juros, ainda que observando as dilações do aperto nos EUA, têm sido pró ativos. E estão bem atentos a mudanças estruturais, no campo da concorrência, por exemplo – além de já terem um mercado de trabalho bastante flexível.

II – No Brasil, fala-se de reformas, mas dá prá fazer isso com a atual composição política do Congresso?
JL – O congresso brasileiro já mostrou inúmeras vezes que é capaz de responder aos desafios da nação, especialmente quando o Executivo enuncia uma estratégia com prioridades definidas. Então, acredito que o Congresso não vai ser impedimento. Pode-se dizer que, no vácuo, interesses específicos tendem a ter maior proeminência e gastos podem ser criados que têm justificativa individual, mas podem impactar o conjunto da economia de maneira inesperada. Mas isso é de qualquer democracia, e o governo tem como balizar os processos.

II – Qual o peso de um nome respeitado pelo mercado para o ministério da Fazenda?
JL – O ministro sempre tende a ser respeitado, e se as metas forem claras e o compromisso bem entendido, em geral ele contará com o apoio dos empresários, investidores e do trabalhador. Isso tem acontecido assim.

II – Qual a importância de recuperar o equilíbrio das contas públicas do novo governo? Como fazer isso? Onde cortar?
JL – Esse ano as contas públicas apresentam alguns desafios, mas há margem de manobra para evitar deterioração. O importante é definir uma estratégia que o mercado entenda. Quando o presidente Lula começou a governar, estabeleceu-se que não haveria “pacotes” e que os objetivos seriam definidos, anunciados e implementados de forma muito clara. Acho que isso foi um dos fatores do sucesso do seu mandato, até porque as pessoas podiam ver a compatibilidade entre os objetivos de longo prazo – da criação de uma nova classe média, de transformar vidas com o Bolsa Família – e o andamento da economia, da previsibilidade. Além da ação do ministro da fazenda, o presidente do Banco Central Henrique Meirelles sempre lembrava que menos incerteza, também em relação à inflação, tendia a aumentar o investimento privado. Acho que funcionou bem.

II – Como conciliar crescimento econômico, juros baixos e inflação controlada? Dá para achar um equilíbrio nessa equação?
JL – Vou fazer um paralelo com uma expressão comum nos EUA: o valor de uma casa é definido por três fatores, que são localização, localização, e localização. Pois bem, o equilíbrio aqui tem três ingredientes: fiscal, fiscal, e fiscal.

II – Como os investidores estrangeiros olham o Brasil? Eles devem continuar no segundo mandato? Eles são importantes?
JL – Os investidores estrangeiros olham o Brasil como um país estável, com instituições, muitas riquezas naturais e um povo aberto e com potencial. Para alguns investidores, as preocupações são diferentes daquelas do brasileiro mediano – a qualidade do minério ou outra matéria prima é mais importante do que o número de horas gastas no transporte público pelo trabalhador ou consumidor. E, desde que haja como escoar a matéria prima, está tudo bem. Então, as preocupações deles são mais concentradas. Para outros, por exemplo, na indústria e em alguns setores de serviços, as preocupações são mais abrangentes. Também há investidores para quem a combinação de juros reais positivos e estabilidade cambial é o fator determinante na sua decisão de investimentos.

II – As preocupações dos estrangeiros são diferentes daquelas de um fundo de pensão doméstico?
JL – No conjunto, não é muito diferente do investidor doméstico ou do conselho deliberativo de uma entidade de previdência fechada. Acho que todos vão procurar a confirmação dessa confiança. Quanto à importância dos recursos do investidor estrangeiro, o nosso déficit de poupança doméstica tende a aumentá-la.

II – Avalie a possibilidade de perda do grau de investimento da dívida soberana do Brasil. A perda é iminente ou pode ser evitada?
JL – Duas das três agencias têm o Brasil dois pontos acima do grau de investimento. Isso dá uma segurança, apesar da mudança para outlook negativo que a Moody’s anunciou quando o Ministro Guido avisou que não continuaria. Mas, apesar de algumas fragilidades mais recentes nas contas brasileiras, inclusive o nível da dívida bruta na casa de 60% do PIB não vejo, especialmente na comparação internacional e com a reputação que se construiu nos últimos 20 anos, motivos para o Brasil perder o “investment grade”.

II – Qual o papel e o tamanho do BNDES nos investimentos em infraestrutura e no setor produtivo do país?
JL – O BNDES terá um papel especial na próxima rodada de desenvolvimento da infraestrutura, em parceria com o mercado de capitais. Tornar as debêntures de infraestrutura uma “asset class” global é o desafio número um, e pode trazer vantagens grandes também para as entidades fechadas, mesmo que elas não tenham um diferencial tributário específico. Isso, junto com mecanismos de mitigação e diversificação dos riscos de construção, institucionais, e outros que são típicos da infraestrutura.

II – Como avalia a utilização dos bancos públicos?
JL – O importante é que haja planejamento de longo prazo e adequado nível de provisões. A grande recapitalização que o governo FHC fez na CEF e no BB, em um momento de stress fiscal enorme para todo o país, foi fundamental para saneá-los dos equívocos dos 20 anos anteriores, inclusive da herança do BNH. Foi aí que os bancos públicos deram uma virada, porque sentiram que havia real apoio e interesse na sua preservação, inclusive com uma governança reforçada. Mantido esse padrão, o banco público complementa o privado no papel de financiar e mover a economia. Quando se olha a contribuição do setor financeiro para programas públicos é sempre importante o foco no longo prazo.

II – Poderia dar algum exemplo?
JL – É o caso do crédito ao estudante através do FIES, que tem transformado a educação superior. Desde que o risco dos próximos cinco ou dez anos esteja bem medido e administrado, é uma estratégia positiva, que tem tido o apoio do mercado de capitais e do investidor institucional, porque vai ajudar no PIB na próxima geração.

II – Quais os impactos da subida da Selic para a indústria de fundos? Qual a sua previsão para o novo ciclo de abertura dos juros?
JL – A subida da Selic é positiva na medida em que sinaliza o compromisso com a estabilidade de preços. Ela aumenta a rentabilidade das carteiras de duration mais curta, sem prejudicar o longo prazo das carteiras institucionais. Mas o que realmente vai fazer diferença é um conjunto de políticas que permita os juros baixarem de maneira persistente e segura, tornando os investimentos de longo prazo cada vez mais atraentes. Esse é um trabalho diário, de muita paciência e humildade, mas fundamental para o Brasil.

II – Quais as perspectivas para a bolsa doméstica em 2015?
JL – Há setores que devem ir bem, e a bolsa está descontada, especialmente para o investidor estrangeiro. Portanto, parece haver um upside em algumas indústrias e, não só as mais relacionadas com o setor externo, ou que consigam pegar carona no crescimento americano, que já está influenciando nossas exportações. O Brasil, lá do seu jeito, continua em uma trajetória de melhoria, com novas gerações mais preparadas, um mercado de trabalho interessante. Cada vez mais olhamos empresas com gestão bem estruturada, e se a lucratividade se recuperar um pouco, a bolsa, especialmente uma carteira com ações bem escolhidas, pode surpreender positivamente.

II – Quais os desafios mais imediatos da bolsa?
JL – Há, sem dúvida, desafios de curto prazo, alguns difíceis de estimar ainda, como a questão das chuvas e seus impactos na economia, assim como a evolução da renda disponível em um quadro de ajuste. E novas variáveis, como a mudança do preço do petróleo, que pode aliviar várias empresas que importam esse produto ou seus derivados.

II – E além de 2015?
JL – Quando olhamos para horizontes mais longos, o pais precisa sinalizar o que quer. Como observei, o investidor vê várias coisas boas no Brasil, mas nossa capacidade de inovação vai ser cada vez mais desafiada. Alguns países da América Latina têm tomado riscos e ido bem – a Colômbia com a pacificação tem ido muito bem, o Peru cresceu muito nos últimos 15 anos, mesmo que esteja desacelerando. O Chile tem uma experiência bem conhecida. Até o México, deve ter um novo impulso com suas reformas. Tudo isso tem impacto nas decisões dos investidores e perspectivas para quem tem que garantir renda para os próximos quinze anos.

II – E a comparação com os pares do BRICs?
JL – Já que nos colocamos entre os BRICs, temos que avançar mais na área tecnológica. Nossos pares andam mandando naves para a Lua e até para Marte. Nós não temos muito para mostrar ou plano concreto, apesar de boas empresas com tecnologia. Então fica evidente que, mantendo a disciplina fiscal, há fronteiras a serem conquistadas, com potencial importante para nossa economia e a criação de emprego. Principalmente, com impacto relevante em horizontes de investimento que na época de menor estabilidade econômica e institucional não faziam sentido, mas que são típicas de sistemas mais maduros.

 

 

 

Não somos fundos abutres | Representante da Abrapp comenta propostas aos presidenciáveis, entre elas, os incentivos para ativos de infraestrutura e o fomento ao sistema

Carlos Alberto CaserEdição 264

 

Um dos pontos centrais da carta enviada pela Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar) enviada aos candidatos à presidência da República é o incentivo aos investimentos em infraestrutura. O vice-presidente da associação, Carlos Alberto Caser, que também é presidente da Funcef, é enfático ao defender maior participação dos fundos de pensão nos investimentos de infrestrutura, mas claro, desde que tenham um retorno e risco compatíveis com as obrigações atuariais dos planos. “Não são fundos abutres”, diz Caser ao comentar sobre os investimentos em infraestrutura que não visam retornos fabulosos, mas que são adequados às necessidades dos fundos de pensão. Na carta a Abrapp defende a desoneração dos ativos de infraestrutura, além do fomento da previdência complemenar.

Entre as propostas para o fomento do sistema estão o incentivo aos fundos setoriais e a adesão automática de participantes. Porém, a Abrapp não chegou a incluir propostas discutidas anteriormente como a compulsoriedade de participação em planos complementares para trabalhadores que ganham acima do teto do INSS. Segundo Caser, a intenção foi enviar propostas mais abrangentes, mas que podem ser detalhadas com o novo presidente, seja Aécio Neves ou Dilma Rousseff. Em um cenário eleitoral ainda indefinido, o representante mantém o otimismo, seja quem for o vencedor.

Investidor Institucional – Quais as perspectivas para a previdência fechada em relação ao próximo governo?
Carlos Alberto Caser – As perspectivas, na minha opinião, são animadoras. O Brasil precisa de investimentos pesados, cujos retornos são de longo prazo. Os fundos de pensão têm essa visão de mais longo prazo, então são aliados para o desenvolvimento do país. As fundações já fazem esses investimentos em obras de infraestrutura e isso vai continuar ocorrendo, independente do próximo presidente. Mas, por parte do participante, ainda existe uma visão negativa em torno dos investimentos dos fundos de pensão em obras com o governo. Acham que vamos jogar dinheiro fora. É uma visão absolutamente equivocada. As fundações avançaram muito em regulação e fiscalização. Se não tiver um mínimo de retorno esperado, os fundos não entram no projeto, afinal, é preciso bater meta atuarial.

II – Pouco se falou em previdência nos debates do primeiro turno, mas como o sr. avalia a visão dos candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves nesse segmento?
CAC – Ninguém falou de previdência, infelizmente. Apenas o fator previdenciário foi citado. Ele foi instituído no governo do PSDB, mantido no do PT e, sinceramente, não acredito que o próximo presidente vá mexer nisso. O Brasil é um dos poucos países que não possuem idade mínima para aposentadoria. O fator previdenciário veio para instituir essa idade mínima de forma indireta. Pessoalmente, acredito que dificilmente alguém vai acabar com o fator.

II – Diversos dirigentes consideram o primeiro mandato do presidente Lula como um período de fomento e avanço na previdência complementar. Qual a sua análise daquele período?
CAC – Acho que o governo do presidente Lula avançou bastante com pautas como a institucionalização do sistema, a desoneração tributária, a regulamentação de diversos tópicos da legislação, a criação da Superintendência de Previdência Complementar (Previc). Já no governo Dilma, o maior avanço foi a criação da previdência complementar do servidor público, o Funpresp. Acho que o mercado não deu a devida importância ao tema, pois seus efeitos no sistema virão apenas no longo prazo.

II – Quais os problemas gerados pela falta de crescimento da previdência complementar e da poupança interna?
CAC – Se a previdência complementar não cresce, ficamos sem dinheiro para investir. O país fica com cada vez menos recursos, que poderiam ser canalizados em investimentos de mais longo prazo. As taxas atuariais estão em torno de inflação mais 5,5%. É óbvio que os fundos de pensão pensam em maximizar os seus resultados. Mas, pra usar uma figura bastante conhecida hoje, eles não são fundos abutres. Não estão investindo para conseguir 40%, 50%, 60% de rentabilidade ao ano. Precisam de uma rentabilidade mínima, se esforçam para que ela seja a maior possível, mas não são abutres. Então, nós podemos fazer investimentos com retornos dentro das nossas necessidades de longo prazo.

II – Por que a previdência complementar fechada ficou estagnada nos últimos anos tanto em relação ao PIB?
CAC – Os salários no Brasil ainda são muito baixos, então se o teto do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é de R$ 4390 é óbvio que esse é um fator de inibição para quem ganha menos. O salário médio do brasileiro está na faixa de R$ 2 mil. Por que contribuir para a previdência complementar se o teto da previdência social vai cobrir o salário atual? E quem ganha salários nessa faixa não tem realmente como poupar. Acho que esse é um dos principais motivos, não obstante, ainda exista um número expressivo de pessoas que ganha acima disso e estejam fora do sistema complementar. Então, deveria haver incentivos adicionais para o setor privado contribuir para mudar essa realidade.

II – Quais incentivos devem ser criados?
CAC – Embora haja restrições de salários no Brasil, pois são baixos, é possível fazer algum tipo de incentivo tributário para que mais empresas se sintam estimuladas a participar do sistema complementar. Apesar de termos fundos de pensão em algumas empresas, ainda é grande o contingente que não adere aos planos. Na Funcef, por exemplo, tenho quase 3 mil funcionários que não são participantes. Precisamos de educação previdenciária, financeira, seja na escola, seja nos fundos de pensão. Somado a tudo isso, também precisamos de uma desoneração mais agressiva.

II – A desoneração não é uma proposta difícil de ser discutida?
CAC – Claro, desonerar qualquer coisa em um país com tantas carências é um processo difícil, a gente sabe que esbarra em orçamento da União, fluxo de despesas e receitas. Mas, uma vez que ela for feita, os recursos acabam voltando para o investimento do setor produtivo a um custo mais baixo.

II – Por que algumas antigas reivindicações do setor, como tornar a previdência complementar compulsória e deixar os planos mais semelhantes ao modelo VGBL ficaram de fora das propostas?
CAC – As reivindicações precisam ser mais amplas mesmo porque a proposta não é mexer na regulamentação do mercado. O que buscamos é apenas mais incentivos para a criação de fundos, sejam por meio de desoneração tributária ou flexibilização de regras, e simplificação de procedimentos. Nós achamos que uma carta pesada, burocratizada, cheia de regulamentos – que teríamos de encaminhar para diferentes órgãos no futuro – afastaria o empresário de se interessar por constituir um fundo de pensão. Não queremos a desregulamentação, mas queremos que as regras sejam maleáveis, que os custos administrativos sejam menores. Eventualmente, podemos discutir com o presidente eleito mais detalhes sobre as propostas.

II – Hoje apenas cerca de 3 milhões de pessoas participam de fundos de pensão em um universo de 100 milhões. As propostas da Abrapp são suficientes para ampliar o número de participantes?
CAC – Deixamos de fora da carta a obrigatoriedade do empregador contribuir para um plano de previdência complementar no caso do funcionário que ganha acima do teto. Mas é uma proposta que certamente aumentaria muito o universo da previdência complementar. Agora, como ela é uma medida polêmica, que envolve custos, que envolve aprovação em instâncias de governo, demanda uma discussão mais avançada.

II – Comente a proposta de novos fundos de pensão setoriais e novas modalidades de planos.
CAC – Aqui no Brasil se repete um mantra, que eu considero equivocado, de que os custos trabalhistas são muito altos. Ninguém faz comparação com outros países para ver que não estamos fora da média. Em alguns países, eu acho que poderíamos nos espelhar neles, a previdência complementar é obrigatória por lei. Acho que aqui no Brasil também poderia ser obrigatório para os funcionários que ganham acima do teto do INSS. Nisso entrariam os fundos setoriais. Eu acho que uma medida assim deveria passar pelo legislativo e por uma ampla discussão de todos os grupos de interesse. Porém, muita coisa ainda precisa ser debatida antes de defendermos um modelo compulsório.

II – O Sr. defende outros incentivos em investimentos na economia real - imóveis e empresas? O que deveria mudar na Resolução 3792?
CAC – Nós não entramos em detalhe sobre isso na carta e eu prefiro não opinar sobre o assunto enquanto vice-presidente da Abrapp. Enquanto presidente da Funcef, acredito que o percentual de investimento em imóveis, hoje limitado a 8% do patrimônio, poderia aumentar. Private equity também. A Funcef já está no limite de alocação em imóveis. Pessoalmente, acho que as fundações de maior porte poderiam ter mais flexibilidade. A nossa legislação é muito rígida. No mercado internacional, as instituições têm mais autonomia.

II – Também se está reivindicando mudanças na 3792 no sentido de flexibilizar os investimentos no exterior, mas isso não aparece na carta. Qual sua opinião?
CAC – Os fundos estão investindo muito pouco no exterior porque têm muitas oportunidades no Brasil. Os juros são altos, há muitos projetos de infraestrutura para serem feitos, então não faz muito sentido olhar para fora agora. Qual investimento no exterior vai gerar rendimentos maiores do que os ativos no Brasil? Por isso que o movimento ainda é tímido, as oportunidades existem aqui aos borbotões. Oportunidades de investimento aqui não faltam. Os investidores estrangeiros é que têm vindo para cá.

II – Comente a política de investimentos da Funcef no sentido de investir em fundos de participações e infraestrutura?
CAC – A Funcef acredita que existem ótimas oportunidades na economia real. Obviamente temos compromissos de curto prazo, mas a predominância é por performance no longo prazo. A Funcef desempenhou um papel relevante principalmente no começo da indústria de private equity no Brasil, sendo um dos primeiros fundos a investir fortemente nisso. Já percorremos uma longa estrada no segmento e muitas fundações já seguem na mesma direção. Fundos de pensão não fazem caridade nem filantropia com governo. Entramos nos investimentos porque também queremos ganhar dinheiro. Se não for assim, estaremos traindo a fidúcia dos participantes e da patrocinadora.

II – Por que transformar a Previc em agência reguladora, como defende a Abrapp na carta aos candidatos, traria benefícios ao sistema?
CAC – Porque traria mais estabilidade ao setor. Uma agência reguladora possui mandatos definidos e mais autonomia de gestão, por não possuir vínculo hierárquico com instâncias de governo. Isso a gente acha que vem em benefício de mais solidez e mais segurança para o sistema todo. Obviamente que o simples fato da Previc ter sido transformada em uma superintendência foi um avanço, sem a menor dúvida. Mas acho que sempre podemos avançar mais.

II – A carta fala da necessidade de reduzir os custos administrativos dos fundos. Por que os custos estão altos e quais os problemas gerados por isso?
CAC – Nós temos uma série de exigências regulatórias que acabam onerando as fundações. Quanto mais simples for o sistema, com menos exigências, menor os seus custos. Eu poderia citar como exemplo a resolução IN-5 (sobre informações aos participantes), que foi suspensa pouco depois de emitida. Eu, que represento a terceira maior fundação do país, não precisaria de uma consultoria para me adequar, mas os fundos de pensão menores, com pouca estrutura operacional, provavelmente teriam custos elevados pela resolução. Este é só um exemplo recente. A Abrapp acredita que algumas coisas podem ser simplificadas. A criação de um plano de previdência, por exemplo, poderia ser pré-aprovada quando seguisse as normas da Previc conforme uma cartilha a ser elaborada pela superintendência. Não seria preciso passar por um calvário de aprovações.

II – Por que os fundos instituídos pararam de crescer nos últimos anos? O próximo governo deveria retomar o fomento aos instituídos?
CAC – Há pouca informação e educação previdenciária no país, mas o problema maior não está na falta de incentivos do governo. Acho que há uma certa letargia das instituições de classe, os sindicatos e associações, que poderiam estar mais ativas nesse segmento. Umas estão mais avançadas, como as OABs, mas outras não querem saber do assunto.

II – A carta defende a adesão automática de participantes. Como ela seria feita?
CAC – A adesão automática é fundamental para o crescimento da previdência complementar no país. Não faz sentido uma empresa oferecer o benefício e deixar ao bel prazer do funcionário escolher se quer aderir ou não. Achamos que se deveria implementar a associação automática, dando um prazo de noventa dias para o participante escolher se quer permanecer.

II – Comente a proposta de flexibilizar a tabela regressiva do IR.
CAC – Uma vez que o beneficiário optou pela tabela regressiva ou progressiva, ele não pode mais mudar. Mas muita coisa muda até o recebimento do benefício, que só ocorrerá daqui a trinta anos. Acho que é importante que se dê um prazo maior para que o funcionário possa assimilar qual é o melhor modelo para ele. A regra não pode ser rígida demais. Mas também não acho que deve ser flexível demais. Ainda não cravamos qual é o prazo ideal para a escolha, mas achamos importante que ela exista.

Ações dos EUA seguem em alta | Em visita ao Brasil, CEO da americana Principal acredita que as bolsas americanas continuam com boas perspectivas para os próximos dois anos

Jim McCaughanEdição 263

 

Apesar das derrapadas na recuperação da economia americana, que ainda registra crescimento da economia e do mercado de trabalho inconstante, o mercado de ações dos EUA é a melhor aposta para os próximos dois anos. Essa é a previsão de Jim MacCaughan, diretor presidente da Principal Global Investors, que foi feita em entrevista exclusiva à Investidor Institucional em visita recente ao Brasil. O CEO da gigante americana de gestão de investimentos e de planos de previdência defende que as ações das companhias americanas ainda oferecem boa precificação e devem manter valorização no curto prazo. Por outro lado, ele acredita que as ações na Europa, apesar de mais baratas, devem ser prejudicadas pela recessão econômica na Zona do Euro.

Apesar das dificuldades de baixo crescimento da economia brasileira, o CEO da Principal continua apostando nos negócios da empresa no país. Prova disso, é que a Principal está investindo cerca de R$ 220 milhões de capital próprio para impulsionar três de seus fundos de investimentos – em parceria com a asset brasileira Claritas, empresa da qual detém 60% do controle. Dois deles, o global equity e o high yield são fundos no exterior voltados para fundos de pensão domésticos. Na entrevista, MaCcaughan fala ainda das parcerias estratégicas com o Banco do Brasil e com a AFP chilena Cuprum. Confira entrevista na íntegra:

Investidor Institucional – Como avalia as perspectivas da economia mundial?
Jim McCaughan – Uma das questões chave, pensando no mercado global, é que a economia dos Estados Unidos mantém processo de recuperação. Baixo custo da energia, resiliência e inovação tecnológica são fatores que elevam a produtividade. Todos esses fatores, são razões fundamentalistas para fazer com que os setores privados da economia americana tenham boa perspectiva. Claramente, tem sido uma recuperação lenta. Mas acredito que o resultado fraco do PIB no primeiro trimestre foi um resultado atípico abaixo das expectativas. Acho que nos próximos dois trimestres, o crescimento deve alcançar 2,5%.

II – Mas a recuperação tem sido mais lenta que as expectativas, não é mesmo?
JM – Na verdade, a recuperação tem sido mais lenta do que a previsão de algumas pessoas. A recuperação passada tem sido mais lenta que as previsões. Mas eu não generalizaria isso. Acho que o tema chave aqui é que a economia americana ainda tem um “gap”. E a capacidade de crescimento pleno para os próximo dois anos é algo mais seguro. O que estamos dizendo é que provavelmente o melhor lugar para se investir no curto prazo ao redor do mundo é a economia americana. Isso porque está ocorrendo uma queda do crescimento dos mercados emergentes, diria também que está ocorrendo uma quase recessão na Europa, que também afeta o Japão. Então, acho que os Estados Unidos é o lugar mais seguro e com melhores perspectivas neste momento.

II – Há boas oportunidades também na Europa?
JM – Muitas pessoas dizem que Europa está barata, tudo bem está barata, mas está passando por uma recessão. E para acumulação de longo prazo você pode considerar as ações na Ásia. Mas é uma opção difícil no momento por conta da contínua desaceleração na China. Para diversificação, é melhor olhar para um portfólio global, de qualquer forma.

II – As companhias americanas não estão muito caras?
JM – Não acredito, não ainda. Está mais caro que antes, mas ainda estão atrativas. Os mercados estruturados de valuation indicam que as ações americanas estão perto da média de longo prazo, em vez de estarem realmente caras.

II – E como avalia o crescimento da economia dos mercados emergentes. Está crescendo bem menos em 2014 que em anos anteriores, não é mesmo?
JM – Sim, os mercados emergentes estão em queda. Eu acho que a queda no crescimento ao redor do mundo foi uma grande surpresa em 2014. A maior parte do mundo está enfrentando isso, o ciclo de crédito não está nada amigável.

II – Quais serão os impactos sobre os mercados emergentes quando as taxas dos títulos americanos voltarem a subir?
JM – Acredito que o impacto sobre as economias dos países emergentes, estamos falando das taxas de juros dos títulos americanos de 10 anos, não serão maiores que os relacionados com a política monetária do Federal Reserve. Como sabemos, a política monetária tem sido bastante expansionista. Nós tivemos um papel de desenvolvimento do mercado financeiro e isso gerou extrema volatilidade sobre os mercados emergentes quando o tapering foi anunciado na metade do ano passado. Agora o tapering está bem estabelecido, ele deve terminar no final de outubro. Há bons sinais colocados que eu acho que o mercado não terá uma reação negativa. Essas não são notícias novas. A questão é a seguinte: quando o Fed vai elevar as taxas de zero para provavelmente um ou dois por cento no próximo ano?

II – E quando as taxas de juros dos títulos americanos irão voltar a subir?
JM – Eu diria que será provavelmente no segundo trimestre talvez no terceiro. Janet Yellen disse recentemente que a subida dos juros deve começar seis meses depois do final do tapering. Eu acho que isso é bem possível. Isso depende também da evolução da economia americana e do mercado de trabalho. Eu acredito que veremos no próximo ano as taxas entre um e dois por cento. Mas acredito que isso não vai impactar mais nos mercados emergentes do que o anúncio do tapering. Eu não vejo um impacto particularmente negativo no mercado brasileiro.

II – Os impactos do tapering foram antecipados no ano passado? E agora os investidores estrangeiros poderiam retornar para os mercados emergentes, inclusive para o Brasil?
JM – Eles poderão voltar sim, a questão é quando. O crescimento lento associado com instabilidade geopolítica na América do Sul continuam afetando a tolerância ao risco dos investidores globais. Eu acredito que haverá um prazo ainda para que o mercado brasileiro volte a ser global e popular novamente. Mas esse momento vai chegar. E depende muito do que o novo governo fará depois de outubro. Depende do que ele fará, se será amigável aos negócios e investimentos estrangeiros ou não. O novo governo terá que fazer ajustes que poderão gerar algumas dificuldades para a economia. Eu acho que o retorno não será muito forte em 2014 e também no próximo ano. Acho que pode levar uns dois anos para que os investidores voltem ao Brasil.

II – Por que o Brasil está em baixa na preferência dos estrangeiros?
JM – Acho que porque a queda do crescimento foi bastante severa. Muito mais severa que a queda da China. O Brasil estava crescendo há dois ou três anos acima de 5% ou mais. Agora deve crescer 0,5% nos próximos seis meses. Isso é uma mudança muito extrema, e isso explica porque os investidores estão preocupados com a economia brasileira. Mas você sabe que o mercado é cíclico e em algum momento os investidores irão retornar, devido aos fortes fundamentos do Brasil. O que podemos ver nas pesquisas sobre os mercados emergentes, que o apetite dos investidores de longo prazo continua forte pelos emergentes. Mas eles estão buscando também uma maior diversificação nos mercados emergentes globais e isto inclui Brasil.

II – O cenário de mudanças políticas no contexto das eleições presidenciais preocupa os investidores estrangeiros?
JM – Sempre os investidores estão atentos aos impactos das mudanças políticas ou da evolução do cenário eleitoral. Acho que no caso do Brasil, seja quem for o vencedor, os investidores esperam que haja políticas mais amigáveis na questão da regulação do mercado ou na tributação dos investimentos. Os investidores têm a expectativa de um incentivo aos investimentos no país. São algumas das expectativas que os estrangeiros têm em relação ao próximo governo.

II – Quais recomendações pode transmitir aos fundos de pensão brasileiros que estão começando a investir no exterior?
JM – Investir fora é algo natural para os fundos de pensão de diversos países. O Brasil se tornou um país muito mais rico nos últimos 10 ou 15 anos, teve um grande período de crescimento. Mas agora podemos dizer que o mercado Brasil está sobrecarregado em investimentos, e isso tende a fazer com que os fundos de pensão tenham uma preferência pela diversificação. Se o mercado brasileiro está performando mal, outro lugar no mundo está indo bem, e essa é outra razão para expandir a atuação internacional.

II – Onde estão as melhores oportunidades para investir no exterior?
JM – No curto prazo, o ganho mais provável e com maior perspectiva de sucesso é nos Estados Unidos. Temos visto um mercado muito forte nos últimos três anos, foi uma recuperação de uma crise muito severa e o Wall Street Journal divulgou um discurso do ex-presidente do Fed, Bernanke, cujo estudo acadêmico foi sobre a Grande Depressão, ele fez um comentário sobre a crise financeira de 2008 dizendo que foi pior que a de 1929 em alguns aspectos objetivos. Então essa recuperação é impressionante. Os pontos fundamentais da economia americana continuam fortes. E eu enfatizaria em uma base seletiva as ações americanas small e mid caps, pois elas são orientadas no mercado doméstico.

II – Que setores e tipos de empresas investir nos EUA?
JM – Tecnologia e indústria, que estão voltando a performar nos Estados Unidos. Todos os tipos de equipamentos produzidos nos Estados Unidos estão vendendo bem ao redor do mundo. As empresas de consumo estão mais devagar por conta da desalavancagem. Mas chegando o fim do ciclo de desalavancagem, as ações de consumo também podem ser bem atrativas.

II – Falando sobre os planos da Principal no Brasil, qual a importância da gestão de ativos no país e você acredita no crescimento da indústria?
JM – A gestão de investimentos está apenas no primeiro estágio de crescimento nos países emergentes. O Brasil não é mais um país de baixa renda, é um país de renda média. A última década de crescimento foi o suficiente para tornar o Brasil um país próspero de classe média. As pessoas melhoraram sua qualidade de vida, têm carro e outros bens. A próxima fase será a expansão dos serviços, incluindo serviços financeiros. Quando as pessoas aumentam sua renda, pensam em poupar por questões educacionais, para aposentadoria. Tem questões demográficas que favorecem o acúmulo de riqueza do país. Eu diria que o Brasil é um país interessante em termos de mercado de investimento para planos de aposentadoria. Se olharmos ao redor do mundo, o Brasil é com certeza uma de nossas principais apostas de crescimento.

II – Comente as parcerias da Principal com a Claritas e com o Banco do Brasil?
JM – Temos duas iniciativas aqui, uma é uma joint venture com o BrasilPrev. A outra é nosso trabalho com a Claritas, que é basicamente oferecer produtos de investimento e trabalhar com os investidores institucionais brasileiros, com os maiores investidores.

II – A Principal está investindo em seed money no fundo da Claritas. Quais as motivações para esses investimentos de capital próprio?
JM – A razão fundamentalmente é nosso otimismo de longo prazo de que o negócio no Brasil dará uma grande contribuição para nosso crescimento. Em termos técnicos, a razão para esse investimento com recursos próprios no fundo global equity, que é voltado para fundos de pensão, é a proporção máxima que um fundo de pensão pode ter. Para fazer funcionar bem com esses fundos de pensão, precisamos ser um investidor por um longo prazo e acreditamos que isso pode nos ajudar a oferecer algo com mais credibilidade.

II – A Principal está em busca de novas aquisições ou parcerias no Brasil?
JM – Ao redor do mundo sim. Nós estamos conversando com muitas pessoas, mas não temos nada específico por enquanto.

II – Como essas parcerias com a Claritas e o Banco do Brasil são complementares?
JM – A parceria com o Banco do Brasil começou 15 anos atrás, quando a maioria das empresas americanas não queria saber do Brasil. Nos últimos seis anos uma empresa mataria para ter um relacionamento tal qual temos com o banco. É uma parceria de longo prazo. A Brasilprev tem uma carteira de planos da ordem de R$ 100 bilhões em ativos. Acho que isso é um indicativo de como a parceria é efetiva. Quanto a Claritas, eles têm habilidade para serem mais especialistas em estratégias de valor agregado. Nossa parceria com a Claritas é basicamente com o objetivo de atrair uma parte dos recursos dos fundos de pensão, que é basicamente dominado por títulos do governo local, e oferecer capacidades de diversificação. Isso torna as parcerias complementares.

II – A Principal adquiriu o controle da AFP Cuprum do Chile em 2013. Quais os planos de vocês para a América Latina?
JM – O sistema de previdência chileno é bem diferente do brasileiro. No Chile existe um sistema compulsório. Lá também tem um mercado de capitais bastante restrito, o que faz com que os investimentos sejam mais globais. Há um estágio bem diferente de desenvolvimento no Chile, em alguns aspectos mais desenvolvido, em outros nem tanto. Em todo caso, acreditamos que ambos os casos são de mercados muito atrativos. Outro lugar em que estamos investindo é o México. Destacaria os três mercados principais, Brasil, Chile e México, onde estamos levando nossas equipes e tecnologia.

Mercado aposta contra Dilma | Longe de fatores fundamentalistas, subida do Ibovespa é impulsionada por novo cenário eleitoral que aponta para segundo turno presidencial

Luiz Gonzaga BelluzzoEdição 262

A trágica morte de Eduardo Campos e a entrada de Marina Silva como candidata presidencial tem impulsionado ainda mais a subida do principal índice da bolsa doméstica, o Ibovespa, que se aproximou dos 60 mil pontos na segunda metade de agosto. Se a realização do segundo turno na disputa presidencial era uma possibilidade, agora as recentes pesquisas eleitorais apontam para maior dificuldade para a reeleição de Dilma Rousseff em primeiro turno. “Existem expectativas negativas mais claras em relação à reeleição da Dilma”, diz Luiz Gonzaga Beluzzo.
Um dos mais respeitados economistas e pesquisadores brasileiros, Belluzzo realiza uma análise do impacto que o surpreendente cenário eleitoral está gerando para o mercado e para a economia brasileira. O ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda do governo Sarney (1985-1987) e professor titular da Unicamp, o economista comenta, em entrevista exclusiva à Investidor Institucional, como o mercado foi construindo uma forte aversão à política econômica do governo Dilma.
Além do cenário eleitoral, Belluzzo analisa ainda as tendências mundiais e as perspectivas para a política econômica do Federal Reserve (Fed). Segundo o economista, a recuperação da economia dos EUA ainda avança a passos lentos e a subida dos juros dos títulos americanos deve demorar mais que o previsto. Confira a entrevista na íntegra:
Investidor Institucional – Por que a bolsa está subindo com os resultados das últimas pesquisas eleitorais?Luiz Gonzaga Belluzzo – Hoje a maior parte do volume da bolsa é determinada pelos investidores estrangeiros. Os investidores nacionais e os institucionais domésticos caíram muito no volume da bolsa nos últimos anos. Os estrangeiros são mais sensíveis às notícias do cenário eleitoral, eles são mais sensíveis à formação de expectativas que está se construindo a partir das pesquisas eleitorais. Existem expectativas negativas mais claras em relação à reeleição da Dilma. Então, isso é o que predomina. Tem alguns especialistas que estão fazendo análise fundamentalista, mas não é isso o que predomina. Esse movimento não tem a ver com os fundamentos do mercado, e sim com o cenário eleitoral.
II – Então a perspectiva de ocorrer o 2º turno na eleição presidencial tem afetado o mercado e a bolsa nos últimos dias?LGB – Acredito que sim. Não sei do que o mercado gosta mais da Marina ou da Dilma. O fato éque hoje existe uma perspectiva maior de haver 2º turno.
II – E como está se formando as expectativas do mercado em relação ao cenário eleitoral?LGB – O movimento de valorização da bolsa tem a ver com essa formação das convicções do mercado, sobre o que vai ser a política econômica nos próximos anos. O investidor estrangeiro é mais sensível às variações de humor. Está com maior aversão do que vem sendo a política econômica da Dilma. Não estou discutindo se a política é boa ou má. Eu pessoalmente acho que se o governo seguir suas próprias concepções, teremos dias difíceis. Mas não estou avaliando isso.
II – E como foi formada essa convicção de aversão ao governo Dilma, é devido ao abandono do tripé econômico?LGB – É uma conjunção de fatores. A desaceleração da economia e a ideia que o Banco Central está agindo sempre atrás da curva. Eles acham que o Banco Central deveria ser mais agressivo, não deveria agir tanto no câmbio. É a história do tripé, que hoje é uma espécie de santíssima trindade. Eu não sei o que é o divino espírito santo, mas sei que o tripé é uma coisa quase religiosa para o mercado. É algo religioso, o mercado fala da política de metas como se fosse uma norma inviolável. Em política econômica, sabemos que no resto do mundo não é assim. Mas como isso é uma concepção de mercado, isso se torna um problema. Então, quando há uma queda no superávit primário, ainda que o Brasil não tenha uma situação fiscal desastrosa, ou quando o Banco Central tem uma gestão mais cautelosa das expectativas, o mercado reage mal.
II – O mercado interpreta que houve uma abandono do regime de metas?LGB – O regime de metas está construído para você administrar as expectativas em relação à inflação futura. O tripé tem a ver com as expectativas do mercado financeiro. A lógica disso é executar a política econômica de forma a garantir de forma adequada os serviços da dívida pública. Ou seja, o superávit primário é importante porque dá sinal que você terá condições de administrar corretamente a dívida pública compatível com a taxa de juros e com a inflação. Um nível de inflação que não desvalorize a dívida. Na Europa estão tentando produzir uma inflação para desvalorizar a dívida. Aqui a preocupação é que a inflação não seja tão alta de forma a preservar a dívida.
II – E qual é a sua análise sobre a tendência da inflação, existe um risco de descontrole?LGB – O último dado da inflação, o IPCA-15 está dando 0,14%. O que significa que a inflação está em uma trajetória de queda. Olhando a sequência de informações sobre a inflação, percebemos que a trajetória está em baixa. No entanto, nos últimos doze meses, a inflação está em próxima de 6,5%. Então como o mercado diz que tem que olhar para a inflação para frente e não para o passado, dizem que a inflação está perto do teto da meta, mas está com tendência de declínio. Mas o mercado ainda diz que tem os preços administrados, que tem a energia elétrica e os combustíveis, que a despeito da tendência de queda, ainda tem uma inflação represada. Então, por isso que há projeções para 2015 que estão perto do teto da meta. Se a economia continuar com uma desaceleração muito forte, é óbvio que há uma tendência de desaceleração da inflação.
II – O reajuste dos preços administrados é um dos principais desafios do próximo governo?LGB – Você tem alguns enroscos para o próximo governo. Os preços administrados são um exemplo. Certamente terá impacto sobre a inflação, mas depende do momento que você vai reajustar. Se você fizer em um momento que a economia está muito prostrada, muito frouxa, a capacidade de repasse de quem será atingido é muito baixa. Diria que no caso da gasolina, eu faria em um momento que a inflação estivesse sob controle. Quando a inflação estiver em torno de 5,5%, por exemplo, porque não dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas tem outra questão muito mais grave, que todo mundo foge que é a questão do câmbio, que está valorizado.
II – O senhor defende um movimento de desvalorização do câmbio? Como deve ser realizado?LGB – Esse movimento de desvalorização é muito mais delicado, mais difícil, porque certamente o impacto é muito maior hoje do que foi no passado, dada a mudança da estrutura de fornecimento da indústria e da economia brasileira. Houve uma transferência para os fornecedores externos de muito do que se produzia aqui. Esse é o preço que se paga pelo atraso cambial. Nesta questão, todo mundo foge da raia, porque todos dizem, vou esperar fazer um superávit primário parrudo, para depois desvalorizar, para ter uma segurança maior, então o impacto sobre a inflação será menor. Não há evidências e teorias que isso é verdade, a não ser uma afirmação vaga. Então se paga um preço enorme porque se deixou o câmbio valorizado. Foi uma patifaria feita nos anos 90 e que continuou até os dias atuais.
II – O governo Dilma não tentou conter a valorização do câmbio?LGB – A Dilma tentou minimizar o problema, seu governo não deixou o câmbio valorizar ainda mais, do jeito que se valorizou no período anterior. Mas isso é um problema que caiu no colo do governo atual, mas que não conseguiu resolver essa encrenca. Será um tema muito delicado para o próximo governo.
II – Poderia analisar melhor o movimento de valorização da bolsa, por exemplo, com a subida do valor das ações da Petrobrás?LGB – A Petrobrás tem também um pouco do desvio desse consenso. As perspectivas dos últimos meses estão mostrando que a Petrobras deve atingir as metas que tinha se proposto a atingir em relação à extração do petróleo. Hoje a empresa está produzindo 2,4 milhões de barris de óleo e gás. A Petrobrás vinha com uma produção de 1,9 milhão ou 1,95 milhão de barris, e agora houve um salto, e isso tudo mostra que o valor da ação não estava bem avaliado. Então, está havendo um reajustamento nos preços das ações da companhia. Conversando ontem mesmo com um grande empresário brasileiro, ele admitiu que era um contrasenso o valor da ação da Petrobras. Então, acho que o mercado está corrigindo o valor da ação da estatal.
II – O senhor já analisou um pouco as propostas da candidata Marina, o que pode representar sua vitória para a política econômica do país?LGB – Confesso que não tenho muita clareza a respeito das propostas econômicas dela. Olhando para seus assessores econômicos, eles não diferem muito das propostas dos assessores Aécio. Nenhum dos dois candidatos têm formação para comandar isso. Eles devem ser monitorados pelos assessores. Então as propostas não devem ser muito divergentes.
II – O viés ambientalista de Marina pode levar o mercado a interpretar como algo anti-desenvolvimentista?LGB – Não tenho ideia do que ela pensa a respeito, se ela tem alguma noção dos eventuais conflitos, se uma proposta de desenvolvimento hoje pode descuidar da questão ambiental. Nem acho que está descuidando hoje, acredito até que o Brasil é relativamente avançado nessa questão. Agora vai depender do grau de radicalismo que quiser adotar. Se tiver uma ideia naturalista do meio ambiente, voltar para condições de vida que são imaginadas como naturais, e que envolvem restrições mais duras contra o agronegócio e indústria, pode ser complicado. Mas não acredito que Marina, tão inteligente como é, seja tão radical, até porque será assessorada por outros.
II – Qual a sua avaliação sobre os cenários internacionais, sobre a recuperação da economia americana?LGB – A economia americana não está se recuperando bem, cresceu muito pouco no primeiro semestre, perto de 0%. Tá bom, cresceu 4% no segundo trimestre, mas tinha caído mais de 2% no primeiro. Continua com problema de emprego, eu não sei se está se recuperando. Ela cresceu 1,5% ou 1,7%. Tá bom, comparado com a Europa é um comportamento brilhante, mas comparado com o potencial de crescimento da economia americana, ainda é muito baixo.
II – Acredita então que a recuperação é lenta e que a subida dos juros dos títulos americanos vai demorar para ocorrer?LGB – A Janet Yellen já sinalizou que considera problemático realizar uma redução muito abrupta do quantitative easing. Ao mesmo tempo considera complicado subir os juros agora, até porque os efeitos vão bater não apenas na economia brasileira, mas em toda a economia mundial. Vai ocorrer um rearranjo global do dólar. Então, isso está sendo feito com muita cautela, pois afetaria inclusive o mercado americano, porque você também afetaria o estoque de papeis emitidos anteriormente, com as taxas antigas.
II – Como seria esse impacto sobre o mercado americano?LGB – Se for realizado de forma abrupta, ocorreria uma crise de avaliação dos papeis em estoque, como ocorreu anteriormente em 1994. Acho que eles vão fazer isso bem devagar com a chamada recompra reversa. É uma operação difícil, até mesmo por causa do grande volume. Não é uma operação trivial. Hoje tem uma bolha, tanto na bolsa americana, quanto nos bonds. É uma armadilha que a Janet Yellen está tentando desarmar. Ainda que a economia não consiga deslanchar completamente, quando você reverte, a bolha murcha.
II – Mas e se a economia americana voltar a acelerar o crescimento?LGB – Vamos supor que a economia americana comece a apontar para um crescimento de 3%. Aí, isso ocorreria em meados de 2015, é uma coisa muito delicada. Pois tem o estoque, o estoque reajusta seus valores muito mais rapidamente, muito mais que os fluxos. Então, quando o preço muda a taxa de juros, isso muda a avaliação de todos os ativos que estão na praça.
II – Como analisa o conflito da Argentina com a Justiça dos EUA e a possibilidade de default de nossos vizinhos?LGB – A palavra default é mal aplicada nesse caso. O que houve foi um absurdo da decisão do juiz. É claro que a Argentina também deu uma contribuição para aumentar a discussão, mas é algo completamente esdrúxulo. Como é que você submete a uma corte americana uma decisão que envolve interessados de um país, de uma dívida soberana! Isso é uma aberração jurídica. E o juiz decidiu muito mal. Não acredito que vai chegar a um default, essa situação não está configurada. Isso vai causar um distúrbio desnecessário, pois a Argentina já tinha renegociado 96% da dívida. E agora tem dois fundos picaretas. É uma situação que vai contra toda a toda a concepção do mercado financeiro, vai contra a necessidade de reestruturação, que está implícita, na relação débito-crédito.

Frutos da estabilização | Ex–presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique sintetiza o desenvolvimento da indústria de assets após 20 anos do Plano Real

Gustavo Franco, da Rio Bravo InvestimentosEdição 261

 

Considerado um dos pais do Plano Real, o economista Gustavo Franco fala nessa entrevista exclusiva à Investidor Institucional sobre o desenvolvimento do mercado de capitais após o país ter vencido a hiperinflação. “Esse universo de ativos alternativos foi uma criação da estabilidade, nunca existiriam em um mundo de inflação elevada”, diz Franco, que ocupou diversos postos nos dois mandatos do governo Fernando Henrique Cardoso, entre eles o de secretário adjunto de política econômica do Ministério da Fazenda, diretor de assuntos internacionais do Banco Central (BC) e presidente do BC.
O executivo que deixou o BC em 1999 e fundou a Rio Bravo Investimentos em 2000, asset da qual é hoje o estrategista-chefe. Na entrevista, ele analisa os rumos da economia e fala sobre o que considera como os principais erros dos governos petistas, como o abandono do tripé macroeconômico, ressaltando que sem retomar as reformas interrompidas há anos, principalmente na área fiscal, e sem dar o devido valor ao setor privado, o governo não encontrará o caminho para que o país volte a crescer de maneira vigorosa. “Precisamos de reformas que melhorem o ambiente de negócios no Brasil”.
Na entrevista Franco fala ainda sobre a dinâmica do mercado de fundos imobiliários ao longo do ano passado e sobre sua recuperação neste primeiro semestre, e aborda a atuação da Rio Bravo no mercado de private equity. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Investidor Institucional – Qual a sua avaliação sobre a evolução da indústria de assets no Brasil desde o Plano Real? Gustavo Franco – De um lado o Plano Real ajudou a trazer uma imensa valorização dos ativos existentes, basta ver o caso da nossa bolsa por exemplo, a diferença entre a capitalização do mercado brasileiro antes do Real e alguns anos depois. Fomos de um número inferior a US$ 100 bilhões para algo próximo a US$ 1 trilhão cinco anos depois. Em 2007 e 2008, nas vésperas da crise, o mercado atingiu US$ 1,7 trilhão. Esse aumento da capitalização de mercado decorreu de tudo que foi colocado em movimento no Plano Real. Acho que na renda fixa ocorreram coisas parecidas com os papéis mais longos, que também sofreram a valorização em decorrência da queda dos juros. No caso dos papéis da dívida externa também houve uma enorme valorização.
II – Qual a sua análise sobre o desenvolvimento de fundos estruturados, private equity, imobiliários e crédito privado, nas últimas duas décadas? GF – Esse universo de ativos alternativos foi uma criação da estabilidade, nunca existiriam em um mundo de inflação elevada, onde a única consideração para o gestor de ativos era a proteção patrimonial através da indexação. Depois que a inflação deixou de ser uma urgência, é que aparecem as securitizações, os produtos estruturados, os fundos imobiliários. A indústria de fundos passa a se diversificar para produtos com maiores variações. Isso é muito bom para o mercado de capitais, mas acho que ainda tem muito para caminhar.Parte desse desenvolvimento ainda está no futuro, tem a ver com a redução da importância da dívida pública dentro da indústria de fundos.
II – O que falta para chegarmos a esse próximo patamar?GF – Falta equilíbrio fiscal, falta o governo brasileiro reduzir a dívida pública, ter um superávit primário muito maior e viver dentro dos próprios meios, e com isso vai deixar de morder uma fatia tão grande das poupanças que estão dentro do mercado de capitais. Não mudou tanto assim o papel da indústria de fundos para o financiamento, o carregamento da dívida pública brasileira, hoje predominantemente doméstica.
II – Qual a sua avaliação sobre o desenvolvimento da bolsa doméstica? Por que o número de empresas com capital aberto ainda é reduzido?GF – Acho que íamos muito bem até 2008, pode-se falar que havia até um pouco de excesso de abertura de capital de empresas, mas a interrupção veio por uma causa externa, que foi a crise de 2008. Depois, em 2009, tem uma mudança doméstica de política econômica muito importante, que foi o abandono do tripé macroeconômico [metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante], e quando houve uma guinada na direção da heterodoxia. A partir daí tivemos uma deterioração fiscal que produziu inconsistências macroeconômicas, e desde então, a bolsa anda de lado. Agora com a inflação esticada, os resultados da empresas não são muito bons e o o crescimento estagnou.
II – Como analisa o abandono do tripé macroeconômico?GF – Quando o governo deixou o tripé no início de 2009 para fazer políticas anticíclicas, pensamos que isso significaria esquecer o equilibrio fiscal por ora, por um trimestre, um semestre no máximo, até passar os efeitos da crise. Só que isso se tornou uma transformação permanente. E as políticas públicas de lá pra cá só pioraram a situação fiscal. Desafortunadamente o Banco Central tinha confiança que a consistência macroeconômica ia voltar e reduziu os juros, como antecipando que a política fiscal ia voltar a ficar arrumada. Como não arrumou, o BC teve que voltar atrás. Isso foi muito ruim. Chegamos a ter uma Selic de 7,25% e já voltamos aos dois dígitos. Agora vamos ter um certo trabalho para que a taxa de juros caía de novo.
II – Como analisa a política econômica no primeiro período do Plano Real, na gestão de Fernando Henrique, comparado com o segundo período, das gestões Lula-Dilma?GF – É preciso ter clareza de que o primeiro governo FHC foi basicamente voltado para a consolidação da estabilização, que tomou praticamente todo o primeiro mandato do FHC. O segundo mandato já é uma história um pouco diferente, pois estamos lidando com uma economia que venceu a hiperinflação e tem dificuldade para fazer reformas numa conjuntura externa desfavorável. O governo Lula começa com uma situação vantajosa porque bastava beijar a cruz, ou seja, renegar suas posturas históricas, e passaria a desfrutar de uma conjuntura internacional extremamente favorável, e foi o que aconteceu. A primeira parte do segundo mandato do Lula foi em condições externas espetacularmente favoráveis, com demografia favorável, e também com isso foi possível tirar muita vantagem das reformas que foram feitas em períodos anteriores. Durante os governos FHC as reformas foram muitas e geraram algum atrito político. No governo Lula deliberadamente se optou por interromper as reformas e não se fez mais nada. Com isso os impulsos de crescimento, muito em decorrência do que foi feito no passado, chegou um momento que se esgotaram.
II – Foi um crescimento basicamente calcado no consumo?GF – O crescimento baseado exclusivamente no consumo, e no consumo alavancado, através do crescimento do endividamento familiar. Isso também perdeu ímpeto em algum momento e o país estagnou, que é onde estamos. A gestão Dilma não só pegou um momento de esgotamento desses impulsos que vieram do passado, como tentou uma guinada heterodoxa da política econômica que deu errado, não funcionou. Chegamos agora a um momento de decisão, em que é preciso, levando em conta essa eleição, muito importante para definir o que vai ser daqui pra frente.
II – Então, considera um erro a atual condução da política econômica que priorizou a demanda quando a oferta não tinha mais como crescer?GF – Foi um erro, claro que foi um erro.
II – A reforma fiscal deve ser a prioridade para o próximo governo?GF – O equilíbrio fiscal é um pré-requisito para se ter uma política econômica eficaz, não dá para atravessar a rua com uma dívida pública muito grande, é a situação que temos hoje, e isso precisa ser corrigido. Claro que não é só isso, uma vez estabelecida a sustentabilidade financeira e fiscal do Estado, é preciso que haja políticas públicas eficazes, que atuem do lado da oferta, recuperando a confiança do setor privado, estabelecendo com clareza a contribuição que o setor privado pode dar ao crescimento, que é muito grande, e hoje é mínima. Isso ocorre em razão do tratamento que o governo dá ao setor privado, que é muito irregular e às vezes até mesmo hostil. Precisamos de reformas que melhorem o ambiente de negócios no Brasil, isso é consenso entre todo mundo.
II – Mesmo com a estabilização econômica que o Plano Real trouxe ao país, depois de 20 anos o CDI ainda é uma das aplicações mais rentáveis do mercado financeiro. O que falta para que outros produtos da indústria possam rivalizar com o CDI?GF – O resultado fica muito diferente se fizermos a conta dos primeiros 10, 15 anos do Plano Real, e interrompermos antes da crise de 2008 e do que aconteceu depois. Sobretudo depois da crise de 2008 e da mudança na política econômica determinada pela presidente Dilma. Se você fizer a conta vai ver que o comportamento da Bolsa foi muito bom durante muitos anos até 2008. Também tivemos coisas excepcionais, como os primeiros dois anos do Real, em que tivemos taxas de juros excepcionalmente altas até em razão da estabilização. Depois passamos por um período crítico de crescimento da renda variável, produtos estruturados, que vão muito bem até 2008.
II – Qual a sua previsão sobre aperto monetário, deve prosseguir após as eleições?GF – Existe uma incerteza sobre isso. Estou entre os que acreditam que a medicação tem efeito sim, mas também acredito que a eficácia da política monetária tem muito a ver com o estado de confiança e credibilidade das autoridades, que não está em um momento bom. Ou seja, a percepção das pessoas, não tanto em relação ao BC, mas em relação às finanças públicas. Acho que isso prejudica a eficácia da política monetária. É como se as pessoas antecipassem que o BC vai ter de subir os juros de novo porque a política fiscal não vai ajudar, esse é o drama que vivemos hoje. Se a política fiscal ajudar a política monetária se torna muito mais eficaz e então vai funcionar.
II – Como as eleições de outubro afetam esse cenário?GF – Não vejo nenhuma alteração na política fiscal até haver alguma definição eleitoral, que só vai ocorrer no fim do ano. Por ora vai ficar como está, não vejo como possa ser alterado.
II – Quais estratégias além da alta da Selic o BC deve utilizar contra a inflação?GF – O BC tem também ferramentas hoje conhecidas como ‘macroprudenciais’, que incluem depósitos compulsórios e outras capacidades de interferência direta na concessão de crédito. Mas a limitação não é essa, o problema é a política fiscal. Com a política fiscal desordenada o BC não tem nenhum instrumento para fazer política monetária.
II – O mercado esperava que o processo de desvalorização do Real ocorrido em 2013 fosse continuar neste ano, o que acabou não ocorrendo. Esse movimento do câmbio chegou a surpreender?GF – A taxa de câmbio no Brasil tem sido basicamente governada pelas intervenções oficiais, e isso tem sido muito mais importante do que as tendências internacionais. Claro que as expectativas sobre a política monetária têm influência sobre o câmbio aqui, mas a influência predominante foi o BC.
II – O mercado claramente demonstra sua preferência pelo candidato Aécio Neves (PSDB) ao promover papéis de estatais quando o candidato sobe nas pesquisas. Por que isso ocorre?GF – Com as pesquisas eleitorais, o mercado financeiro mostrou uma preferência clara contra o governo. É preciso ver se isso vai continuar com o início oficial da campanha eleitoral. Estou muito curioso para saber como o governo vai se apresentar na campanha, como vai estabelecer as prioridades para o futuro.
II – A Rio Bravo tem forte atuação no mercado de fundos imobiliários (FIIs), que sofreu em 2013 com a alta da Selic e a queda do PIB. O senhor considera a queda nas cotas dos FIIs excessiva?GF – A queda talvez tenha sido um pouco excessiva sim. A queda nas cotas dos FIIs refletiu a grosso modo a variação nas taxas de juros longas, e mostrou uma percepção do mercado de que os fundos imobiliários são parecidos com papéis longos do Tesouro. Ao mesmo tempo, a queda nas cotações não interrompeu o fluxo de dividendos aos investidores, que é um dos aspectos mais encantadores desse produto. Em certo momento as cotações começaram a reagir, porque o investidor fez as contas e viu que as cotas mais baixas estavam mantendo os cupons. O pessoal voltou a comprar, houve um movimento de fundos de fundos, e o IFIX começou a voltar e já está em terreno positivo para o ano.
II – Na área de private equity, a Rio Bravo tem uma forte atuação concentrada na região nordeste do país. Porque? Novas regiões devem ser exploradas?GF – A região vem crescendo mais que a média do Brasil, sobretudo setores de consumo. Fizemos nosso primeiro fundo na região nordeste há dez anos, já temos o segundo e estamos indo para o terceiro agora. Como é comum na indústria de private equity, se constrói muito em cima do seu trabalho anterior. Nesses dez anos também é verdade que o panorama do private equity foi muito modificado com a chegada de gigantes globais, com isso o mercado ficou muito congestionado. Para uma casa como a nossa é interessante procurar nichos diferentes, onde não vamos competir com fundos gigantes.

Luz amarela acesa | Resultados da renda fixa no ano passado ativou sinal de alerta para os fundos de pensão e abriu caminho para os investimentos no exterior

Alcindo Canto, do HSBCEdição 260

 

Com as perdas sofridas pelos fundos de renda fixa atrelados à inflação no ano passado, o mercado ainda registra os efeitos da forte volatilidade dos juros. “Os fundos de pensão queriam voltar para CDI. E tentamos dizer que não, que estamos vendo o horizonte de 10 ou 20 anos, então as carteiras estão bem alocadas”, diz Alcindo Canto, novo diretor executivo da asset do HSBC. Ele entrou no lugar de Pedro Bastos, que recebeu uma grande missão para comandar a região da Ásia-Pacífico. A unidade responde por cerca de 45% dos ativos sob gestão (equivalentes a US$ 280 bilhões) de toda a asset global do HSBC.Economista com passagens pelo ABN AMRO Asset Management e Unibanco Asset Management, Canto tem agora a responsabilidade de tocar a asset do HSBC no Brasil. Ainda em referência à renda fixa, ele diz que o ano passado foi atípico. “Acendeu uma luz amarela para vermos que os fundos de pensão têm que sair um pouco do mercado local. É preciso começar uma diversificação de riscos” diz Canto. Para isso, o novo diretor revela que a asset tem planos para diversificar sua grade de produtos. Entre os novos focos da gestora estão os fundos multimercados e os investimentos no exterior. Confira a seguir a entrevista na íntegra:
Investidor Institucional – A renda fixa ainda é o negócio principal da asset do HSBC?Alcindo Canto – No Brasil, sim. Temos 85% de nossa asset hoje, que no mercado brasileiro tem US$ 40 bilhões, vendendo produtos de renda fixa. E globalmente o HSBC tem US$ 450 bilhões em ativos, então o Brasil é quase 10% da operação global. No resto do mundo é menor essa proporção renda fixa-variável, sendo 60% renda fixa, e 40% variável, mas ainda é a principal característica do HSBC ser um grande gestor de renda fixa ao redor do mundo.
II – O que vocês esperam em termos de juros e bolsa para o mercado doméstico?AC – A Selic deve ficar estável nos próximos meses e razoavelmente maior após eleição. A parte de investimento, valorização e precificação de bolsa, dependerá da visão do estrangeiro. O cenário está entre o neutro e o positivo. Já vimos o aumento de alguns riscos na carteira, mas a parte de bolsa ainda aguardamos como será no segundo semestre. A atividade está em linha como imaginávamos, com a dinâmica da política monetária atual. A economia real está estável, temos o pleno emprego, se olharmos os números reais, a economia cresce pouco, mas a renda real cresce. De alguma forma, as coisas não estão tão ruins, mas só vão melhorar realmente se tiver algum eixo político novo no cenário eleitoral.
II – Como você analisa a influência desse cenário político eleitoral?AC – O Banco Central já fez o trabalho pesado, subiu os juros. Existe um prêmio sobre a eleição, que está na curva de juros, nas emissões privadas, e o mercado está mais frio, esperando para fazer novas emissões de debêntures. No Brasil, a parte fiscal é ruim, mas a parte monetária foi razoavelmente bem feita, a inflação, com a Selic a 11%, dá um espaço. Tem o efeito Dilma versus oposição. Não operamos cenário político, mas está na hora de esperar um pouco e ver como isso vai caminhar ao longo dos próximos meses. Piora não vai ter. Ou é neutro ou melhora muito. E teremos que saber operar essa virada.
II – Como você avalia a reação da bolsa diante das pesquisas eleitorais?AC – De março a maio, o mercado deu um rali a favor por conta de pesquisas. Existem expectativas em relação a política, porque é dali que vai ou não vai sair uma melhora substancial. Estamos olhando e digerindo, e tentamos não deixar que o dinheiro especulativo nos influencie. Estamos vendo o fluxo a favor, mas nosso talento será em pegar a mudança na hora certa.
II – E como avalia os resultados do ano passado em que houve forte volatilidade na renda fixa?AC – No ano passado, quando a inflação e os juros subiram muito, a volatilidade dos portfólios aumentou demais. Foi exatamente no primeiro ano que as fundações decidiram aumentar esse benchmark híbrido de inflação mais pré-fixado. Isso machucou e assustou a todos. E nossa angústia na parte educacional era dizer que 2013 foi o primeiro ano muito ruim para renda fixa, com as cotas dos fundos com marcação a mercado negativas.
II– Como foi a reação dos investidores perante esse cenário?AC – Os fundos de pensão queriam voltar para CDI. E tentamos dizer que não, que estamos vendo o horizonte de 10 ou 20 anos, então as carteiras estão bem alocadas. O ano passado foi atípico, e é possível recuperar o que foi perdido. Mas acendeu uma luz amarela para nós para vermos que os fundos de pensão têm que sair um pouco do mercado local, da dependência do Banco Central, da taxa de juros nominal, da inflação e dos juros domésticos. É preciso começar uma diversificação de riscos.
II – Agora que está a frente do comando da asset, pretende diversificar a grade de produtos da asset?AC – Na parte de produtos, vamos rever a nossa grade. Lançamos no meio do ano passado a HSBC Global, família de seis fundos criados para atender o cliente private e o fundo de pensão. A diversificação talvez seja nossa maior bandeira para os próximos três anos, para os fundos de pensão e clientes pessoa física qualificados, super qualificados ou investidor profissional.
II – Como tem sido a transição desde a saída de Pedro Bastos e a sua promoção?AC – O processo de transição da gestão do Pedro Bastos para a minha está sendo bem tranquilo. Eu já era responsável pela área comercial, no time de distribuição, então na forma de atuação de projetos, relacionamento com cliente, já tinha proximidade. As novidades ficam mais para a parte de investimento. Contratamos um novo diretor de investimentos, em janeiro, o Guilherme Abbud.
II – A contratação do novo diretor de investimentos para a AL segue a estratégia de diversificação da asset?AC – Foi uma contratação bem negociada, pois ele pode dar uma energia nova e importante nos processos, principalmente em produtos de valor agregado, renda variável, multiasset, ou na parte crédito mais longo. Abbud vem de uma casa com esse DNA e ele tinha essa cabeça de diversificar fora das fronteiras de Brasil. Ele chegou em janeiro, tem trazido uma capacidade boa de gerenciar riscos desses portfólios com expertise legal.
II – Como a diversificação da grade de produtos pode atrair os clientes fundos de pensão?AC – Antigamente percebíamos que os planos de benefícos dos fundos de pensão tinham seu benchmark quase em 100% de CDI. Depois da crise de 2008, o juro real estava próximo de 1,5%, tirando a inflação. Os planos perceberam que precisavam ter uma carteira diferente com títulos que também acompanham a variação da inflação, mais um juro real para alongar a carteira e depois, nos próximos 30, 40 anos, ter a garantia de que o benchmark consiga pagar a meta atuarial dos planos. Em 2010, vimos as políticas de investimentos mudarem.
II – Qual foi a principal mudança?AC – Os fundos de pensão começaram a diversificar dentro da parcela de renda fixa o que era só CDI, e começaram a delegar aos gestores produtos com benchmark diferente. E nos diferenciamos nisso desde 2010. Temos uma família inteira com gestão ativa de inflação. Os fundos de pensão pediram para que a carteira de renda fixa que estava 100% no DI ficasse 70% no DI, 20% em uma inflação de 40 anos, então foi compondo o benchmark da renda fixa.
II – Como a diversificação pode ajudar os fundos de pensão?AC – Por exemplo, ano passado a bolsa local caiu e a americana subiu. Se os fundos tivessem a parcela de renda variável alocada 20% no S&P 500 ou em uma cesta de bolsas de países desenvolvidos, o retorno seria 15% nominal. Mas foi negativo, pois só tem Ibovespa na carteira. Então é essa a diversificação que estamos indicando. No médio e longo prazo, o benchmark da renda fixa tem que ser mais complexo, com inflação, juros pré-fixados e CDI, mas tem que ter uma parcela, que a legislação permite, para internacionalizar o portfólio.
II – Como vocês estão fazendo essa internacionalização?AC – O que pensamos em fazer mais ativamente, por termos assets em 20 países ao redor do mundo, é oferecer ao cliente institucional produtos geridos pelo HSBC fora do Brasil, portanto, com o mesmo processo de investimento que temos aqui. E dar a chance do investidor local diversificar suas carteiras através de um processo que ele já conhece aqui por já ser nosso cliente. Esse é um dos grandes projetos que temos para os próximos três anos.
II – Quais produtos no exterior vocês estão oferecendo para os institucionais?AC – Temos uma família de fundos no exterior que está com R$ 550 milhões de patrimônio. São seis FIs locais que seguem a norma 409, multimercados em reais, e 100% do dinheiro compra cotas de fundos administrados e geridos pelo HSBC lá fora.
II – Como você analisa a resposta dos clientes para esses produtos?AC – Temos alguns competidores com estratégia de BDR, coisas mais simples. Mas temos uma gestão ativa, queremos dar acesso a internacionalização, mas queremos ser um bom gestor do fundo em Hong Kong, nos EUA, etc. Temos que dar o benefício não só do acesso, mas da performance ativa lá fora. Percebemos muito na parte de renda variável e multiasset também. Vários clientes adaptaram sua política de investimentos para poder ter a parte estruturada de fundos multimercados. Tanto para a parte de renda variável, mutimercado e de investimento no exterior, os principais clientes aprovaram nossas políticas de 2014 e a possibilidade do gestor usar esse tipo de risco.
II – Quantos fundos de pensão investem nesses produtos?AC – Temos sete clientes que já usam a estratégia de investimento no exterior. Já é até acima do esperado. Os produtos, além dos retornos, têm variação cambial solta. Achávamos que o investidor ia demorar mais, mas foi uma surpresa. A Faelba é um exemplo disso (ver matéria na pág. 54), por estar fora do eixo Rio-São Paulo e ser um dos primeiros a alocar nisso. Hoje, o principal assunto é investimento no exterior. Temos sido lembrados pelos clientes como um das principais casas provedoras desse tipo de produto. Não podemos abrir o nome de outras fundações.
II – Quais mercados você avalia mais propícios para investimento?AC – Para o segundo semestre, na parte internacional, avaliamos que as coisas estejam melhor do que no último ano e meio. Uma das inseguranças do ano passado foi a questão do tapering, de quando os EUA ia aumentar juros para conter o risco da deflação. A transição da presidente do Fed foi boa nesse sentido, eles estão diminuindo os incentivos, mas o mercado descobriu que a magnitude do ajuste não vai ser tão severa. Desde o final de abril, o Banco Central Europeu jogou a taxa de juros da zona do euro pra baixo. Eles estão fazendo o que os EUA fizeram em 2008, 2009. Isso ajudou a Europa, que tinha uma situação complicada. A zona do euro conseguirá, com juros nominal e real mais baixo, ter mais crescimento.
II – E os outros mercados?AC – O Japão está estável, tem menos impacto, e a parte da Ásia cresce menos, China cresce menos, mas a gente descobriu que os 10% que ela crescia não era natural e talvez agora com 7% esteja bom pra manter o motor funcionando. No cenário externo as coisas melhoraram de janeiro pra cá.
II – Os países da Ásia apresentam oportunidade? Como está a presença de vocês na região?AC – Temos 45% da asset do HSBC na região, ou seja, US$ 280 bilhões em ativos. A economia lá é bastante aberta, somos banco líder em Hong Kong, que acaba sendo um hub para a gestão de recursos. Havia certa angústia em relação a dinâmica de crescimento da China, que impacta diretamente as operações da região, mas já se estabilizou. Eles vivem bem com crescimento de 7,5%. Agora queremos promover a região, levar América Latina e Brasil para esses países.
II – De que forma a ida do Pedro Bastos para a Ásia-Pacífico pode ajudar na aproximação com o mercado asiático?AC – Temos uma distribuição de varejo no Japão que compra fundos geridos no Brasil, renda fixa e variável, distribuídos para pessoas físicas no Japão. Queremos fazer o caminho inverso. No Japão os fundos de pensão são super fechados, então têm uma oportunidade de trazer investidores para o Brasil e América Latina. Esses mercados são geridos pelo mesmo time do HSBC. Um dos planos do Pedro é justamente aumentar a penetração dos investidores do Japão aqui no Brasil.
II – Vocês enxergam oportunidades nos mercados de fronteira?AC – Temos o produto New Frontier que estávamos analisando se vamos fechar para captação. Ficamos mais confortáveis em operar esse produto por saber que há inteligência do HSBC nesses mercados. Temos quatro ou cinco assets que cobrem os países da carteira. Esse é um produto que gostamos bastante, pois mistura ideia de setor, atividade econômica e crescimento. Não dá pra ter muito dinheiro alocado lá. Tem uma cesta de 14 países. A Irlanda por exemplo voltou a ser um país de new frontier. É um país que apresentou uma melhora após a crise.

Alternativas para o crescimento | Gigante mundial aposta em parcerias com instituições locais e não descarta aquisições para crescer no mercado brasileiro

Armando Senra, da BlackRockEdição 259

 

Maior asset mundial com US$ 4,4 trilhões de ativos sob gestão (Aum), a BlackRock ainda possui uma participação modesta no mercado brasileiro. Com cerca de US$ 2,6 bilhões sob gestão no Brasil, a asset ainda apresenta volume reduzido de recursos sob gestão se comparado a outros mercados da América Latina como México e Chile. No México, por exemplo, são mais de US$ 26 bilhões de ativos geridos pela BlackRock. Mas nem por isso, a empresa deixa de investir para ampliar sua participação na indústria brasileira. A mais recente novidade foi o lançamento do primeiro ETF de índice estrangeiro, o iShares S&P 500 (IVVB11), no Brasil.
Em entrevista exclusiva para Investidor Institucional, o diretor da BlackRock para América Latina e Ibéria, Armando Senra, revela algumas das estratégias da asset global para crescer no país. O executivo fala das iniciativas de crescimento orgânico, algumas delas em parceria com grandes instituições, como no caso do fundo no exterior voltado para os fundos de pensão, que começou a captar no início de 2014. Senra destaca a parceria com a BB DTVM e a presença dos primeiros investidores, em especial, da Previ.
Além do crescimento com as “próprias pernas”, o executivo não descarta as oportunidades de aquisições, não apenas de assets, mas também de plataformas e produtos da concorrência. “O crescimento de BlackRock em diversos países inclui transações inorgânicas”, diz Senra. Ele lembra que a própria entrada da asset na América Latina foi iniciada a partir da aquisição do Barclays Global Investors, que tinha a plataforma iShares de ETFs em alguns mercados da região. Ocorrida em 2009 e avaliada em US$ 13,5 bilhões, a aquisição até hoje é a maior da história das assets. Antes disso e depois, a BlackRock vem mantendo um ativo histórico de aquisições. Leia os principais trechos da entrevista:

Investidor Institucional – Por que o Brasil é um mercado importante para a BlackRock?Armando Senra – Queremos crescer na América Latina e o Brasil representa 70% do mercado da região. É um mercado muito atrativo. A indústria de asset management no Brasil é muito grande e diversificada. Há um crescimento de riquezas que fará com que surja maior quantidade de investidores. Então, desde o ponto de vista tanto do investidor institucional quanto do investidor privado este é um mercado muito atrativo. Se queremos ser relevantes na América Latina, precisamos ser relevantes no Brasil.
II – O projeto de crescimento no Brasil será exclusivamente orgânico ou pode incluir aquisições?AS – O crescimento de BlackRock em diversos países inclui transações inorgânicas. Então sempre estamos abertos a diferentes possibilidades de crescimento, tanto orgânicas quanto inorgânicas.
II – Pode dar exemplos de recentes aquisições?AS – Faz pouco tempo compramos uma companhia com o foco em real state que se chama MGPA, que tem presença na Ásia e na Europa. Essa foi uma das últimas. Ao longo de nossa história, tivemos várias aquisições, a maior foi em 2009, quando adquirimos o Barclays Global Investors. Antes disso, havíamos comprado Merrill Linch e também State Street. Houve várias pequenas aquisições, que poucos ficaram sabendo, por exemplo de pequenas assets de gestão de hedge funds. Não fizemos aquisições apenas de outros gestores, mas também estamos abertos para adquirir por exemplo, uma plataforma ou diferentes sistemas. No México compramos Naftrac, que é o equivalente ao Bova11 (índice do Ibovespa). É o ETF do principal índice do mercado mexicano.
II – Que tipo de aquisição pode fazer sentido para ampliar a atuação da BlackRock no Brasil?AS – Sempre estamos abertos a diferentes possibilidades. Pode ser uma asset com expertise de investimentos que não tenhamos e que seja interessante para nós. Sempre estamos abertos a possibilidades. Não posso dar mais detalhes, mas estamos abertos a novas alternativas.
II – A própria entrada da BlackRock na América Latina teve a ver com a aquisição dos Ishares não é mesmo?AS – Sim, a principal foi a aquisição de iShares. Antes disso, não estávamos presentes na região. Agora temos uma equipe de mais de 100 pessoas em vários escritórios. Temos escritórios no México, Colômbia, Miami, que também cobre investimentos na América Latina. Também temos no Chile e no Brasil.
II – Por que decidiram priorizar os ETFs no Brasil?AS – Os ETFs nos permitem participar do mercado local com um produto que temos know how. Não vamos tentar competir com a gestão ativa de renda fixa local, por exemplo, contra um banco doméstico. Não teríamos uma vantagem competitiva. Ao invés disso, através dos ETFs temos um instrumento que nos permite crescer no mercado local, oferecendo um produto diferenciado. Se fôssemos criar um produto ativo local, neste caso, não haveria nenhuma vantagem competitiva. Não estamos enfocados somente nos ETFs, por exemplo, lançamos um produto global para dar acesso aos fundos de pensão para diversificar a exposição no exterior.
II – Pode explicar quais são as dificuldades competitivas encontradas no Brasil em relação aos bancos domésticos?AS – Não queremos competir com as grandes instituições. Na verdade, nós temos buscado parcerias com elas. Acabamos de lançar esse fundo no exterior, que é o Global Equity Income, em parceria com o Banco do Brasil. É um trabalho em conjunto, que trazemos uma de nossas expertises internacionais, mas é um fundo que é lançado na plataforma do Banco do Brasil. Então, temos estratégias por exemplo de lançar um fundo ativo local mas em parceria com outro gestor. Neste caso, temos o benefício de acessar outra plataforma dentro do mercado brasileiro. Além da estratégia de ETFs, que nos permite participar do mercado local, ser um player relevante no mercado local, mas com uma estrutura diferenciada de transparência e de custos. Então, não estamos competindo com os grandes players diretamente. Estamos criando um outro caminho.
II – Por que é tão difícil convencer aos fundos de pensão a investir no exterior?AS – Não acredito que seja difícil, não é necessariamente diferente de outros mercados. As pessoas pensam que a dificuldade se limita aos mercados emergentes, mas se pensar nos Estados Unidos foi a mesma evolução. A princípio os investidores aplicavam inicialmente apenas em renda fixa local. Depois foram tomando posições em ações locais, depois me lembro quando comecei na BlackRock, há 20 anos, falávamos nos Estados Unidos para explicar ao investidor as vantagens de diversificar globalmente. No Brasil até agora, se é verdade que tem havido uma concentração muito forte no mercado local, nós pensamos no longo prazo. Pensamos que a diversificação global é uma parte importante.
II – E o novo ciclo de abertura das taxas de juros no Brasil não reduz o apetite para investir no exterior?AS – Subiram agora para 11%, mas estava em 20% há pouco tempo. Agora não estão mais neste patamar de 20%, não é o mesmo momento que em 2008 ou 2009. É verdade que aumentaram um pouco, mas ao final, se olhar as necessidades de um sistema de fundos de pensão de mais de US$ 300 bilhões precisa estar investido globalmente, tem que diversificar. O benefício da diversificação ficou claro nestes dois últimos anos.
II – Vocês utilizaram recursos próprios para impulsionar o fundo de ações no exterior? Como e por que fizeram isso?AS – Quando lançamos produtos, muitas vezes colocamos seed capital, para que o produto tenha a capacidade de crescer mais rapidamente. Neste caso, queríamos demonstrar nosso compromisso com o produto, colocando nosso próprio capital. E fazendo isso, aceleramos as possibilidades dos fundos de pensão em aplicar no fundo, por causa do limite de não exceder 25% do patrimônio do fundo. Então, o seed money abre possibilidades para a entrada de outros fundos de pensão.
II – Quais são as dificuldades que enfrentam em termos de regulação?AS – A regulação neste momento não é uma dificuldade, pois o regulador permite aos fundos de pensão investir até 10% internacionalmente, então, tem espaço para que cerca de US$ 30 bilhões sejam investidos fora do país. Até agora, tem menos de 0,1%. A regulação não é um entrave, espero que se acelere essa diversificação daqui para frente.
II – Mas como analisa a velocidade dos investimentos no exterior de mercados como México e até do Peru, que é mais rápida que no Brasil?AS – Em mercados como por exemplo de México, eles não podiam nem sequer investir em ações locais antes de 2008. São processos na região em geral, que demoraram mais que em outros países, mas depois começa um processo rápido. Então, no México passou de um momento que não podiam investir nem em renda variável, a poder investir em ações e a poder investir no exterior. Primeiro foi permitido investir em ações locais com produtos com capital garantido, depois em ETFs. Por isso, nosso negócio é tão grande no México. Depois passou a permitir o investimento em equity local, depois para levar produtos internacionais ao mercado. Então, acredito que esse processo no Brasil também vai se acelerar.
II – Pode explicar um pouco mais sobre a situação dos investimentos dos fundos de pensão mexicanos no exterior?AS – No México os fundos de pensão podem investir no exterior até 20%. E já estão próximos do limite, então agora os reguladores e os fundos de pensão, todos estão falando da possibilidade de aumentar o limite. Então em toda a região tem essa tendência de ter um regulador que pretende controlar o processo de diversificação. O regulador quer ver se os fundos de pensão têm a capacidade de investir fora do país, se tem os sistemas de risco e de gestão para investir no exterior, se existe um processo de educação e de entendimento desses mercados.
II – Como avalia o processo chileno?AS – O Chile abriu o investimento no exterior há mais de 15 anos. Então, é um caso extremo na América Latina. O Chile tem vários anos de abertura e também tem um diferença importante com o Brasil. É que o mercado de capitais no Chile não tem o tamanho do mercado brasileiro. Portanto, desde o princípio, quando os fundos de pensão chilenos foram crescendo, houve uma necessidade de investir no exterior. Senão teria um problema, não poderia investir no mercado doméstico.
II – Quais os principais mercados mundiais que oferecem as melhores oportunidades de retorno neste momento? Que tipo de ações?AS – Em termos de mercados, há uma recuperação da economia global, especialmente em mercados desenvolvidos. Percebemos investimentos voltando para ações, renda variável global, e estamos otimistas com a recuperação econômica de países desenvolvidos. Isso não quer dizer que não gostamos de mercados emergentes, que têm um papel importante na carteira global dos grandes investidores. Mas percebemos que os investidores terão que ser mais seletivos nos mercados emergentes ao escolher em quais deve investir.
II – Que tipos de ações são mais atrativas, por exemplo ações de empresas que pagam dividendos?AS – Depende do investidor. No caso dos fundos de pensão, lançamos o Global Equity Income que é um fundo de dividendos de ações globais. E eles gostaram muito porque eles têm tempo para esperar um pouco mais, e com os dividendos eles têm uma perspectiva mais defensiva do mercado. E o nosso fundo de dividendos não filtra apenas pelas ações que oferecem os maiores dividendos. Mas faz também uma análise fundamentalista que faz uma projeção do dividendo no futuro.
II – Vocês continuam otimistas com as perspectivas do Brasil?AS – Temos confiança no mercado brasileiro tanto no aumento de nosso negócio como investidores, temos mais de US$ 28 bilhões investidos em ações no país, como investidores, e mais outro montante semelhante investido em renda fixa de papeis do mercado brasileiro. Quando pensamos no crescimento demográfico, o Brasil continua atrativo, assim como o crescimento da classe média, do consumo interno. Tem várias companhias brasileiras que são relevantes globalmente, então, continuamos gostando da economia brasileira. Temos uma presença forte no Brasil e acreditamos que no longo prazo é um mercado com grande potencial de crescimento.
II – Quais são as metas de crescimento da BlackRock no mercado de assets?AS – Queremos ser um dos gestores mais relevantes no Brasil. Nossa intenção é atuar no longo prazo. Temos um compromisso com o país. Não somos um banco de investimentos que entra e sai. Queremos trazer para o país as diferentes especialidades de investimentos da asset.