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Apesar da incerteza, sistema tem espaço para novos avanços | Luís Ricardo Marcondes Martins

Edição 332

A palavra incerteza, substantivo feminino cuja frequ√™ncia nas an√°lises do que foram os √ļltimos meses e do que ainda est√° por vir, mais do que se justifica ao examinar o futuro. Exaustivamente repetida seja por simples prud√™ncia ou mesmo justificado senso de realidade, √© um termo que vem √† cabe√ßa dos dirigentes de nossas entidades nesse limiar de 2021.
Tanta incerteza, é verdade, nos torna a todos inevitavelmente mais cautelosos, mas nem por isso pessimistas, já que as EFPCs, como obra coletiva que são, induzem a um futuro promissor com responsabilidade.
E pensar para a frente nos traz sentimentos bons. Sem exagero, nessa entrada de 2021 o que podemos ver é mais crescimento, fruto do que plantamos e da capacidade de encontrar oportunidades em meio a tantos desafios.
Os planos para familiares criados pelos fundos de pens√£o h√° dois anos ‚Äď e uma das demonstra√ß√Ķes mais cabais de nossa capacidade de reinven√ß√£o - crescem r√°pido. Esse mundo novo no qual desembarcamos √© diferente por exigir de n√≥s uma imensa capacidade de inovar, de pensar e de fazer diferente, atrav√©s de novas pr√°ticas e produtos, e nisso certamente n√≥s temos nos sa√≠do muito bem.
Segundo dados da Abrapp, j√° s√£o 20 planos familiares em opera√ß√£o, com mais de 27 mil participantes e patrim√īnio de R$ 206 bilh√Ķes, com a expectativa chegar aos R$ 2 bilh√Ķes em dois anos. Entre as raz√Ķes desse crescimento est√£o a governan√ßa transparente e franqueada aos participantes, al√©m, √© claro, da gest√£o qualificada e do hist√≥rico de rentabilidade e das taxas de administra√ß√£o bem mais atraentes. Juntando tudo isso, o que se t√™m como resultado √© um alto poder de atratividade. Basta que cada participante consiga a ades√£o de um de seus familiares para que o sistema fechado de previd√™ncia complementar dobre de tamanho em um curto per√≠odo, algo que somado ao potencial dos planos institu√≠dos corporativos em gesta√ß√£o justifica o entusiasmo que se percebe.

O ano que se inicia é também com certeza a hora de muitos embates seguidos de vitórias, avanços na marcha pela conquista da inscrição automática e na implementação da previdência complementar dos servidores dos entes federativos País afora. Estados e municípios têm um prazo de 2 anos para se adaptar, parte dele já decorrido, por força da Emenda Constitucional 103. Será também o ano do CNPJ por plano na prática, bem como de afastarmos definitivamente o TCU e os TCEs de nosso sistema. Por isso dizemos, com força dobrada, triplicada, que vamos avançar.
Ao Pa√≠s interessa que tenhamos √™xito. E posso citar 3 raz√Ķes, entre outras. Um desses motivos √© o envelhecimento da popula√ß√£o, uma verdade estat√≠stica que prescinde de n√ļmeros aqui. Outro √© a crescente import√Ęncia da contribui√ß√£o dos aposentados para a forma√ß√£o da renda das fam√≠lias.
Mas h√° ainda um terceiro motivo pelo qual ao Brasil interessa ter um sistema forte. A tese n√£o √© nova e h√° algum tempo a Abrapp levanta bem alto a bandeira de que a forma√ß√£o de uma s√≥lida poupan√ßa previdenci√°ria √© imprescind√≠vel ao retorno dos investimentos e, consequentemente, e da atividade econ√īmica. Mas a exaust√£o causada pela queda de receita e aumento de despesas trazidas pela pandemia, vem deixando evidente os limites fiscais que tendem a reduzir ainda mais o investimento p√ļblico. Nos governos federal e estaduais n√£o se fala em outra coisa, toda vez que se trata de aporte de recursos na moderniza√ß√£o da infraestrutura, que n√£o seja em parceria com o capital privado. Os formatos podem ser variados, incluindo PPPs, privatiza√ß√Ķes e concess√Ķes, mas o objetivo √© sempre o mesmo, atrair investidores.
E trabalhar no sentido do fomento é o que os nossos dirigentes e suas equipes nas entidades mais têm feito. E como têm trabalhado. E voltamos a figurar na agenda prioritária do Governo. Somos outra vez vistos como parte da solução.
E n√£o nos faltam motivos para crescer, tal √© a demanda a ser atendida no p√≥s-reforma da Previd√™ncia, que deixou ainda mais claro para a classe m√©dia e brasileiros com maior rendimento em geral que a Previd√™ncia Social existe para fornecer apenas a renda b√°sica. Isto quer dizer um valor geralmente insuficiente para manter na aposentadoria padr√Ķes mais elevados de consumo. Incapaz, √© claro, de preservar melhores condi√ß√Ķes financeiras nesses novos tempos em que a vida se estende por mais tempo.
Vemos assim que, nesse momento que bem podemos chamar de histórico, o nosso sistema pode dobrar o contingente de trabalhadores protegidos. Ou triplicar. O limite está em aberto.
Al√©m de tudo isso nos ajuda tamb√©m termos um DNA notadamente social, fazendo coincidir a nossa alma de obra coletiva com o esp√≠rito da √©poca que vivemos. Nascidas do esfor√ßo somado de comunidades, sejam empresariais com patrocinadoras ou corpora√ß√Ķes profissionais que instituem planos, o que as nossas entidades vivenciam tem sempre a ver com a busca do bem comum.
E isso casa perfeitamente com um momento no qual pessoas e empresas se mostram mais preocupadas do que nunca com a sustentabilidade social e ambiental de seus pensamentos e atitudes. Acho que nunca se viu uma época em que se falasse tanto em se ter propósitos na vida, uma virtude sem a qual a resiliência fica parecendo inalcançável numa hora de tantos desafios.

Falando em prop√≥sitos e princ√≠pios, a eles a Abrapp deve os avan√ßos conseguidos na lideran√ßa de nosso sistema, valorizando o tempo todo a excel√™ncia, a √©tica, a credibilidade, a integridade, a inova√ß√£o e a sustentabilidade. Foi nesse revigorante contexto de valores e √≥timas pr√°ticas que a Associa√ß√£o encontrou a for√ßa para renovar drasticamente a sua grade de eventos, adicionando a ela ainda mais quantidade e mais qualidade de atra√ß√Ķes.
O formato 100% digital fez o resto, permitindo uma disseminação do conhecimento nunca alcançada. Não vou me alongar porque isso é algo que está acontecendo agora diante de nossos olhos, todos são testemunhas do que estou dizendo, bem como de tudo que a Abrapp sempre fez com dinamismo e competência e continuou fazendo.
Juntos conquistamos muito e, pelo tanto de resultados que alcançamos, pode-se até dizer que comemoramos pouco, mas também já deu para perceber que temos espaço e musculatura suficientes para novos saltos.

Luís Ricardo Marcondes Martins é Diretor-Presidente da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp)

Desafios para área de aconselhamento | Carlos Ambrósio

Edição 332

O cen√°rio de juros baixos vem provocando profundas transforma√ß√Ķes no mercado. A busca dos investidores e dos gestores por diversifica√ß√£o das carteiras est√° mudando o perfil de aloca√ß√£o, ao mesmo tempo que o mercado de capitais aumenta a sua participa√ß√£o na matriz de financiamento das empresas. O contexto, somado aos impactos macroecon√īmicos decorrentes da pandemia, sinaliza uma agenda de muito trabalho para 2021.
Do ponto de vista regulat√≥rio, assuntos importantes devem entrar ou ganhar celeridade na pauta do regulador. A t√£o aguardada revis√£o das regras dos fundos de investimento entrou em consulta p√ļblica no finalzinho de 2020 e j√° √© alvo de muito debate. Mudan√ßas significativas tamb√©m s√£o esperadas nas normas que regem as ofertas p√ļblicas.
Tudo isso deve acontecer em meio aos movimentos pr√≥prios da din√Ęmica do mercado, como a entrada de novos players, o avan√ßo dos canais digitais e a mudan√ßa nos modelos de neg√≥cio. Esses aspectos, combinados com a taxa reduzida de juros, est√£o revolucionando as pr√°ticas de aloca√ß√£o de recursos e a forma como os investidores buscam informa√ß√Ķes e aconselhamento para a tomada de decis√£o.
Essa mudança no comportamento do investidor impacta uma série de atividades que gravitam em torno do ecossistema de distribuição de produtos de investimento. Analistas, consultores e gestores oferecem serviços relacionados à alocação, em uma clara sobreposição de papéis decorrente de uma regulação construída para um cenário que não existe mais.
Como consequ√™ncia, as atividades se misturam e o investidor n√£o consegue identificar qual √© exatamente o servi√ßo prestado e os poss√≠veis conflitos de interesses envolvidos naquela intera√ß√£o. Isso √© particularmente grave no cen√°rio de juros em m√≠nimas hist√≥ricas, que estimula a busca por produtos mais complexos. O brasileiro est√° indo al√©m da caderneta de poupan√ßa (ainda que este continue sendo o principal destino das economias da maioria). Prova disso s√£o os n√ļmeros recordes de pessoas f√≠sicas na bolsa de valores, o aumento das emiss√Ķes de t√≠tulos privados (deb√™ntures, CRIs e CRAs) e o movimento crescente de neg√≥cios no mercado secund√°rio.
A diversifica√ß√£o por parte dos investidores vem acompanhada por uma demanda maior por informa√ß√£o e aconselhamento. Isso favorece o aparecimento de novas casas de an√°lise e recomenda√ß√£o, assim como a multiplica√ß√£o de canais e de atores que falam sobre o tema. A linha entre conte√ļdo educativo, recomenda√ß√£o, aconselhamento e an√°lise √© cada vez mais t√™nue, assim como a fronteira entre formadores de opini√£o e influenciadores digitais, pois as redes sociais se tornaram palco para todas as vozes.
Essa indefini√ß√£o quanto a pap√©is e responsabilidades √© resultado da lacuna deixada por uma regula√ß√£o defasada. Na aus√™ncia de regras claras para a atividade de aconselhamento, muita gente est√° ocupando esse espa√ßo. Influenciadores digitais, agentes aut√īnomos, gestores e consultores prestam o servi√ßo, em maior ou menor grau.
De acordo com a atual regula√ß√£o, a consultoria de valores mobili√°rios tem suas normas estabelecidas pela Instru√ß√£o CVM 592, publicada em 2017. A atividade engloba os servi√ßos de orienta√ß√£o, recomenda√ß√£o e aconselhamento sobre investimento, de forma independente, sem v√≠nculo com nenhuma institui√ß√£o financeira. Assim, √© esta a figura que representa os melhores interesses do cliente. Mas, por uma s√©rie de limita√ß√Ķes regulamentares, a atividade de consultoria n√£o cresce na mesma propor√ß√£o que a demanda do investidor por aconselhamento.
Outros profissionais est√£o ocupando este espa√ßo, especialmente os agentes aut√īnomos, figuras que, sem d√ļvida, v√™m desempenhando papel estrat√©gico na expans√£o da ind√ļstria de investimentos. A atividade √© regulamentada por uma instru√ß√£o de 2011, quando o mercado financeiro vivia uma realidade completamente diferente. Para atualizar o aparato regulat√≥rio que norteia o trabalho desses profissionais, a CVM lan√ßou em 2019 uma audi√™ncia conceitual. A revis√£o das regras, de fato, deve acontecer em 2021.

√Č certo que a reformula√ß√£o da regra √© necess√°ria, mas n√£o suficiente. Em paralelo, √© preciso rever tamb√©m os normativos que regem a atividade dos consultores de investimento. √Č necess√°rio fortalecer essa figura e prever pr√°ticas capazes de promover o melhor alinhamento entre os interesses dos investidores e dos agentes de distribui√ß√£o. Afinal, o momento √© oportuno para an√°lise de medidas que fomentem ainda mais a competi√ß√£o no segmento.
O esfor√ßo para adequa√ß√£o das regras √† nova din√Ęmica do mercado precisa alcan√ßar os v√°rios atores, e n√£o os tratar isoladamente. Foi justamente esse distanciamento que gerou situa√ß√Ķes como a que experimentamos hoje, com margem a indefini√ß√Ķes e poss√≠veis conflitos.
Internamente, a Anbima também olha para o assunto. Começamos por identificar quem são os players que realizam o serviço de aconselhamento no mercado brasileiro hoje. A ideia é entender o escopo da atividade com o intuito de melhor representá-la. Mais para a frente, vamos avaliar a possibilidade de incluir a consultoria no rol de atividades que seguem os códigos de Autorregulação e de melhores práticas da Anbima. A Associação, pioneira no desenvolvimento de requerimentos de suitability para a atividade de distribuição no mercado brasileiro, quer discutir se a autorregulação voluntária para a atividade de consultoria constituiria uma forma eficiente de fomentar melhores práticas no segmento.
Qualquer que seja a regula√ß√£o, tanto para agentes aut√īnomos como para consultores, seja na regula√ß√£o ou na autorregula√ß√£o, precisa partir de algumas premissas: √™nfase na transpar√™ncia, na clareza quanto aos servi√ßos prestados, aos custos e √† forma√ß√£o de pre√ßos, e na dissemina√ß√£o de padr√Ķes informacionais simples e compar√°veis. Temos a convic√ß√£o de que esse alinhamento preserva a multiplica√ß√£o de canais, o tratamento individualizado, o acesso de novos investidores e a especializa√ß√£o dos profissionais. Ao mesmo tempo, mitiga conflitos e vendas inadequadas, consolidando regras de conduta previamente estabelecidas, como o suitability. Em suma, fortalece todo o mercado.
A agenda de fortalecimento do mercado n√£o √© efetiva se n√£o valorizar o investidor e o colocar no centro do ecossistema. √Č em torno dele que devem girar as engrenagens, trabalhando em defesa dos seus interesses. Afinal, vem do investidor a garantia de sustentabilidade e perpetua√ß√£o do mercado.

Carlos Ambrósio é Presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima)

O cen√°rio de juros baixos vem provocando profundas transforma√ß√Ķes no mercado. A busca dos investidores e dos gestores por diversifica√ß√£o das carteiras est√° mudando o perfil de aloca√ß√£o, ao mesmo tempo que o mercado de capitais aumenta a sua participa√ß√£o na matriz de financiamento das empresas. O contexto, somado aos impactos macroecon√īmicos decorrentes da pandemia, sinaliza uma agenda de muito trabalho para 2021. 
Do ponto de vista regulat√≥rio, assuntos importantes devem entrar ou ganhar celeridade na pauta do regulador. A t√£o aguardada revis√£o das regras dos fundos de investimento entrou em consulta p√ļblica no finalzinho de 2020 e j√° √© alvo de muito debate. Mudan√ßas significativas tamb√©m s√£o esperadas nas normas que regem as ofertas p√ļblicas. 
Tudo isso deve acontecer em meio aos movimentos pr√≥prios da din√Ęmica do mercado, como a entrada de novos players, o avan√ßo dos canais digitais e a mudan√ßa nos modelos de neg√≥cio. Esses aspectos, combinados com a taxa reduzida de juros, est√£o revolucionando as pr√°ticas de aloca√ß√£o de recursos e a forma como os investidores buscam informa√ß√Ķes e aconselhamento para a tomada de decis√£o. 
Essa mudan√ßa no comportamento do investidor impacta uma s√©rie de atividades que gravitam em torno do ecossistema de distribui√ß√£o de produtos de investimento. Analistas, consultores e gestores oferecem servi√ßos relacionados √† aloca√ß√£o, em uma clara sobreposi√ß√£o de pap√©is decorrente de uma regula√ß√£o constru√≠da para um cen√°rio que n√£o existe mais. 
Como consequ√™ncia, as atividades se misturam e o investidor n√£o consegue identificar qual √© exatamente o servi√ßo prestado e os poss√≠veis conflitos de interesses envolvidos naquela intera√ß√£o. Isso √© particularmente grave no cen√°rio de juros em m√≠nimas hist√≥ricas, que estimula a busca por produtos mais complexos. O brasileiro est√° indo al√©m da caderneta de poupan√ßa (ainda que este continue sendo o principal destino das economias da maioria). Prova disso s√£o os n√ļmeros recordes de pessoas f√≠sicas na bolsa de valores, o aumento das emiss√Ķes de t√≠tulos privados (deb√™ntures, CRIs e CRAs) e o movimento crescente de neg√≥cios no mercado secund√°rio.
A diversifica√ß√£o por parte dos investidores vem acompanhada por uma demanda maior por informa√ß√£o e aconselhamento. Isso favorece o aparecimento de novas casas de an√°lise e recomenda√ß√£o, assim como a multiplica√ß√£o de canais e de atores que falam sobre o tema. A linha entre conte√ļdo educativo, recomenda√ß√£o, aconselhamento e an√°lise √© cada vez mais t√™nue, assim como a fronteira entre formadores de opini√£o e influenciadores digitais, pois as redes sociais se tornaram palco para todas as vozes.
Essa indefini√ß√£o quanto a pap√©is e responsabilidades √© resultado da lacuna deixada por uma regula√ß√£o defasada. Na aus√™ncia de regras claras para a atividade de aconselhamento, muita gente est√° ocupando esse espa√ßo. Influenciadores digitais, agentes aut√īnomos, gestores e consultores prestam o servi√ßo, em maior ou menor grau. 
De acordo com a atual regula√ß√£o, a consultoria de valores mobili√°rios tem suas normas estabelecidas pela Instru√ß√£o CVM 592, publicada em 2017. A atividade engloba os servi√ßos de orienta√ß√£o, recomenda√ß√£o e aconselhamento sobre investimento, de forma independente, sem v√≠nculo com nenhuma institui√ß√£o financeira. Assim, √© esta a figura que representa os melhores interesses do cliente. Mas, por uma s√©rie de limita√ß√Ķes regulamentares, a atividade de consultoria n√£o cresce na mesma propor√ß√£o que a demanda do investidor por aconselhamento. 
Outros profissionais est√£o ocupando este espa√ßo, especialmente os agentes aut√īnomos, figuras que, sem d√ļvida, v√™m desempenhando papel estrat√©gico na expans√£o da ind√ļstria de investimentos. A atividade √© regulamentada por uma instru√ß√£o de 2011, quando o mercado financeiro vivia uma realidade completamente diferente. Para atualizar o aparato regulat√≥rio que norteia o trabalho desses profissionais, a CVM lan√ßou em 2019 uma audi√™ncia conceitual. A revis√£o das regras, de fato, deve acontecer em 2021.
 
√Č certo que a reformula√ß√£o da regra √© necess√°ria, mas n√£o suficiente. Em paralelo, √© preciso rever tamb√©m os normativos que regem a atividade dos consultores de investimento. √Č necess√°rio fortalecer essa figura e prever pr√°ticas capazes de promover o melhor alinhamento entre os interesses dos investidores e dos agentes de distribui√ß√£o. Afinal, o momento √© oportuno para an√°lise de medidas que fomentem ainda mais a competi√ß√£o no segmento.
O esfor√ßo para adequa√ß√£o das regras √† nova din√Ęmica do mercado precisa alcan√ßar os v√°rios atores, e n√£o os tratar isoladamente. Foi justamente esse distanciamento que gerou situa√ß√Ķes como a que experimentamos hoje, com margem a indefini√ß√Ķes e poss√≠veis conflitos.
Internamente, a Anbima tamb√©m olha para o assunto. Come√ßamos por identificar quem s√£o os players que realizam o servi√ßo de aconselhamento no mercado brasileiro hoje. A ideia √© entender o escopo da atividade com o intuito de melhor represent√°-la. Mais para a frente, vamos avaliar a possibilidade de incluir a consultoria no rol de atividades que seguem os c√≥digos de Autorregula√ß√£o e de melhores pr√°ticas da Anbima. A Associa√ß√£o, pioneira no desenvolvimento de requerimentos de suitability para a atividade de distribui√ß√£o no mercado brasileiro, quer discutir se a autorregula√ß√£o volunt√°ria para a atividade de consultoria constituiria uma forma eficiente de fomentar melhores pr√°ticas no segmento. 
Qualquer que seja a regula√ß√£o, tanto para agentes aut√īnomos como para consultores, seja na regula√ß√£o ou na autorregula√ß√£o, precisa partir de algumas premissas: √™nfase na transpar√™ncia, na clareza quanto aos servi√ßos prestados, aos custos e √† forma√ß√£o de pre√ßos, e na dissemina√ß√£o de padr√Ķes informacionais simples e compar√°veis. Temos a convic√ß√£o de que esse alinhamento preserva a multiplica√ß√£o de canais, o tratamento individualizado, o acesso de novos investidores e a especializa√ß√£o dos profissionais. Ao mesmo tempo, mitiga conflitos e vendas inadequadas, consolidando regras de conduta previamente estabelecidas, como o suitability. Em suma, fortalece todo o mercado. 
A agenda de fortalecimento do mercado n√£o √© efetiva se n√£o valorizar o investidor e o colocar no centro do ecossistema. √Č em torno dele que devem girar as engrenagens, trabalhando em defesa dos seus interesses. Afinal, vem do investidor a garantia de sustentabilidade e perpetua√ß√£o do mercado. 
 
*Presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima)

Pandemia exp√Ķe duas verdades inc√īmodas | Piero Minardi

Edição 332

A crise causada pela pandemia da Covid-19 est√° escancarando duas inc√īmodas verdades econ√īmicas no Brasil. A primeira: com suas finan√ßas ainda mais arruinadas do que j√° eram, o Estado n√£o ter√° dinheiro para impulsionar a retomada. A segunda: com a taxa de juros num patamar baix√≠ssimo historicamente, investidores locais est√£o constatando que, para ganhar dinheiro, ter√£o de correr risco.
A combina√ß√£o dessas duas verdades pode fazer com que o Brasil finalmente acorde para a import√Ęncia e as oportunidades geradas pela ind√ļstria de private equity e venture capital. Um n√ļmero d√° a dimens√£o do poder de fogo dessa classe de ativos, e seu potencial para catapultar nossa economia: os fundos internacionais t√™m √† sua disposi√ß√£o ‚Äď a custo ‚Äď mais de 2 trilh√Ķes de d√≥lares investidos. Imaginando, de forma conservadora, um retorno de 2X, s√£o 4 trilh√Ķes que retornam ao mercado buscando aloca√ß√£o nos pr√≥ximos anos . Com uma fatia relativamente pequena desse bolo trilion√°rio, conseguir√≠amos consertar nossa infraestrutura, alcan√ßar as metas de investimento em saneamento, criar as empresas do futuro e ajudar os empreendedores nacionais a dar um salto de efici√™ncia. No ano passado, o total investido no Brasil superou 25 bilh√Ķes de reais. O potencial √©, obviamente, muito maior.
Mas n√£o estou falando apenas de capital estrangeiro. No Brasil, os fundos de pens√£o come√ßam uma transi√ß√£o em busca de alternativas de investimento que v√£o al√©m dos t√≠tulos p√ļblicos. S√£o centenas de bilh√Ķes de reais de seus pensionistas que, para atingir suas metas atuariais e de retorno, v√£o precisar encontrar alternativas de longo prazo com uma adequada rela√ß√£o risco-retorno.
O private equity, portanto, tem potencial para ajudar a resolver os dois problemas: financiar a recuperação da economia brasileira ao mesmo tempo em que dá retornos consistentes no longo prazo para os poupadores brasileiros.
H√° mais de 20 anos, essa ind√ļstria trabalha discretamente na constru√ß√£o de uma economia moderna no pa√≠s. Redes de farm√°cia, supermercados, companhias a√©reas, faculdades e escolas, plataformas financeiras, empresas de tecnologia: a cada dia, todos os brasileiros compram os produtos ou usam os servi√ßos de empresas que t√™m ou j√° tiveram fundos de private equity e venture capital como s√≥cios. Esses fundos n√£o d√£o s√≥ capital, mas ajudam as empresas a dar um salto ‚Äď modernizam a gest√£o, impulsionam o crescimento, regularizam sua situa√ß√£o fiscal. Seis de cada 10 empresas brasileiras que abriram seu capital nos √ļltimos 10 anos t√™m um fundo de private equity como s√≥cio. Os fundos de Private Equity tiveram e t√™m papel fundamental na forma√ß√£o, crescimento e consolida√ß√£o do mercado de capitais no Brasil. Protagonizaram, tamb√©m, a moderniza√ß√£o da economia brasileira -- basta ver como a economia digital, impulsionada por empresas investidas desses fundos, reagiu de forma brilhante durante a pandemia.
Na teoria, a coisa √© muito simples. √ďbvia, at√©. Mas, para que o private equity e o venture capital atinjam seu potencial no Brasil, ser√° preciso superar barreiras hist√≥ricas. A expans√£o desse tipo de investimento √© freada por um ambiente fiscal e jur√≠dico vol√°til, incerto e muitas vezes hostil e por uma s√©rie de distor√ß√Ķes em torno do que, de fato, um private equity faz. Passou da hora de atacar esses problemas.

Sem querer me alongar aqui, menciono o maremoto causado pela Receita Federal retroagindo de forma injustificada sobre a isen√ß√£o de ganho de capital do investidor estrangeiro, quest√£o essa clara, tratada e estruturada conforme feito em v√°rias outras jurisdi√ß√Ķes no mundo, mas que parece n√£o satisfazer nosso fisco.
O enfoque de ‚Äútodos est√£o aqui para fraudar o fisco brasileiro‚ÄĚ predomina , e j√° tem causado danos irrepar√°veis na atra√ß√£o e capta√ß√£o de capital estrangeiro de longo prazo, que j√° se manifestou mais de uma vez estarrecido pelo tratamento que aqui tem recebido, e que (como esperado) tem migrado para √°guas mais amig√°veis. Falamos aqui inclusive de fundos de infraestrutura , t√£o necess√°rios para desengargalar nosso pa√≠s, e que preferem investir no Sudeste Asi√°tico (Indon√©sia, Vietn√£, Filipinas) onde se sentem mais bem recebidos.
Mais recentemente, chama a atenção a forma pesada como o regulador tem atuado sobre os investidores institucionais brasileiros, com argumentos e multas incompreensíveis e criando um desincentivo para que esses investidores aloquem capital nessa classe de ativos, justamente no momento que mais necessitam dela.
Temos um problema sist√™mico e agudo de inseguran√ßa jur√≠dica. Talvez o caso mais irracional e vis√≠vel dessa tend√™ncia tenha sido a transforma√ß√£o da concess√£o da Linha Amarela, no Rio de Janeiro, em pol√™mica pol√≠tico-eleitoral. Sem nenhuma base, o prefeito e integrantes da classe pol√≠tica decidiram encampar a concess√£o, tendo como premissa a conclus√£o de que as tarifas do ped√°gio estavam caras demais e que, assim, estava tudo ‚Äúpago‚ÄĚ.

Estamos falando aqui de concess√Ķes de infraestrutura, sem d√ļvida o pilar de qualquer plano de longo prazo para aumento da produtividade brasileira. S√£o acordos de d√©cadas, com investimentos vultosos em seus primeiros anos e que precisam da estabilidade prevista em contrato para funcionar. No Brasil, no entanto, um prefeito em ano eleitoral pode desmontar tudo, com o inacredit√°vel apoio da c√ļpula do Judici√°rio. Naturalmente, outros pol√≠ticos veem a oportunidade e come√ßam a mirar outras concess√Ķes.
Resultado: freio nos investimentos. Como pedir a qualquer investidor que aporte bilh√Ķes de d√≥lares num contrato de d√©cadas quando esse contrato n√£o vale nada? O Brasil atrai o capital de longo prazo com uma m√£o, e o estapeia com a outra.
Vivemos, portanto, um momento absolutamente contraditório. Talvez, pela primeira vez em nossa história, o capital privado de longo prazo poderá se tornar protagonista em liderar os investimentos que podem vir a modernizar nossa economia. Uma amostra disto, insisto, pode ser vista pelo papel que esse capital já tem historicamente em alguns segmentos da nossa economia. Poderíamos trazer esse capital que rapidamente está indo para outras partes do mundo.
Poder√≠amos estar oferecendo aos nossos pensionistas e aposentados os retornos espetaculares que nossos gestores t√™m dado aos aposentados e pensionistas de outras partes do mundo. A ind√ļstria de VC e PE est√° pronta para isso. Madura. S√£o 20 anos de hist√≥ria, de amadurecimento e profissionalismo. A ABVCAP, junto com outras entidades, tem se posicionado e buscado atuar e esclarecer esses temas. Esperamos avan√ßar em 2021. Vamos continuar a mostrar para a sociedade brasileira e aos formuladores das leis que o nosso capital √© o mais parceiro e alinhado com objetivos de longo prazo, de constru√ß√£o de empresas, de apoio a empreendedores, e de constru√ß√£o de um Brasil melhor.

Piero Minardi é Presidente da Abvcap

A dif√≠cil concilia√ß√£o de situa√ß√Ķes conflitantes | Walter Mendes

Edição 332

Nos pa√≠ses desenvolvidos, a prioridade da sa√ļde da popula√ß√£o e o combate √† dissemina√ß√£o da Covid 19 parece muito clara, agora sem hesita√ß√£o nos EUA, ap√≥s a elei√ß√£o de Joe Biden. A resposta √† ‚Äúsegunda onda‚ÄĚ da pandemia tem sido o refor√ßo das medidas compensat√≥rias, seja no campo fiscal, seja no monet√°rio. Ao mesmo tempo, acelera-se a aprova√ß√£o das vacinas dispon√≠veis e o processo de imuniza√ß√£o da popula√ß√£o.
J√° no Brasil, evitou-se uma depress√£o na economia da ordem de 9%, como previa o FMI, com um pacote de gastos p√ļblicos e facilita√ß√£o de cr√©ditos da ordem de 10% do PIB, que reduzir√° a queda para pouco mais de 4% neste ano. Mas, atingimos um n√≠vel de endividamento p√ļblico extremamente alto para uma economia emergente, o que reduziu nossa margem de manobra.
Dessa forma, mesmo sendo claro que seria necess√°rio um novo programa de aux√≠lio emergencial, dado o ainda alto n√≠vel de desemprego, o baix√≠ssimo patamar de investimentos e os efeitos do recrudescimento da pandemia, teme-se que um novo crescimento da d√≠vida p√ļblica gere uma espiral de desconfian√ßa na pol√≠tica fiscal. Nesse caso, cairiam os pre√ßos dos t√≠tulos p√ļblicos, aumentando o custo da rolagem da d√≠vida, pressionando a SELIC e as taxas de juros do mercado privado e inibindo o investimento. O efeito seria uma frustra√ß√£o na recupera√ß√£o do crescimento esperado para o ano que vem. A concilia√ß√£o desses objetivos conflitantes exigir√° uma grande capacidade de coordena√ß√£o de expectativas e sintonia fina nas medidas compensat√≥rias. A ver como o governo dar√° conta desse desafio.
Para complicar esse desafio, uma nova vari√°vel voltou a incomodar: o aumento da infla√ß√£o. A alta do c√Ęmbio, fruto mais do aumento da incerteza do que da piora dos fundamentos, inflou o pre√ßo dos alimentos. Somada a esse efeito, a alta das commodities puxada pela demanda chinesa, pressionou os √≠ndices de pre√ßos ao consumidor e fez explodir os pre√ßos no atacado. A infla√ß√£o oficial ainda dever√° se manter abaixo dos dois d√≠gitos em fun√ß√£o do setor de servi√ßos, que segue deprimido. Por√©m, caso a economia realmente se recupere, seja atrav√©s de maior gasto p√ļblico, a infla√ß√£o dever√° acelerar ainda mais, provocando uma mudan√ßa na pol√≠tica monet√°ria expansionista do BC, que hoje convive tranquilamente com taxa b√°sica de juros real negativa. Essa alta dos juros poder√° abortar a fr√°gil recupera√ß√£o.

Recentemente, o Brasil tem ganhado tempo para pensar em como conciliar esses interesses. A farta liquidez internacional, que deve se manter com os pacotes de medidas compensat√≥rias nos EUA e na Europa, al√©m das promessas dos Bancos Centrais de n√£o aumentar as j√° muito deprimidas taxas de juros at√© que o crescimento se mostre s√≥lido, t√™m possibilitado uma impressionante valoriza√ß√£o dos ativos e um aumento do fluxo financeiro para investimentos de curto-prazo, incluindo os mercados emergentes. Assim, recentemente no Brasil, o pr√™mio do risco pa√≠s caiu para um n√≠vel confort√°vel, o mercado de a√ß√Ķes zerou as perdas do ano e as taxas dos t√≠tulos p√ļblicos ca√≠ram. Por√©m, quando se compara o desempenho do mercado brasileiro com o dos mercados desenvolvidos e o dos demais mercados emergentes relevantes, fica claro que estamos sendo apenas empurrados pela enxurrada da liquidez internacional. Nesse sentido, vale questionar a sustentabilidade dessa recupera√ß√£o. Os gestores ter√£o que conciliar esse conflito entre seguir o fluxo ou se pautar pelos fundamentos.
Entre os fundamentos monitorados pelos gestores, a situa√ß√£o financeira das empresas abertas tem ajudado na recupera√ß√£o. Como em outras crises do passado, as empresas bem administradas aproveitaram a crise para cortar despesas, rever processos, renegociar d√≠vidas e buscar o mercado internacional quando poss√≠vel, mostrando um desempenho at√© ent√£o melhor que o esperado. Se por um lado esses resultados deram alguma solidez √† recente recupera√ß√£o dos mercados, por outro lado, n√£o s√£o suficientes para justificar uma expans√£o significativa de m√ļltiplos ou a queda continuada dos pr√™mios de risco.
Os indicadores de valuation do mercado já estão bem acima da média histórica e os prêmios de risco de crédito bastante reduzidos. Claro que a taxa real de juros nunca esteve tão baixa, fora do contexto de hiperinflação e isso pode sustentar novos patamares de indicadores de valor do mercado. Porém, para quem prefere observar o filme, em vez de se fiar na fotografia, fica a pergunta de qual será o próximo movimento da taxa básica de juros: redução ou alta?
Esse cen√°rio de alta incerteza econ√īmica pode ser agravado, dependendo da gest√£o da imuniza√ß√£o da popula√ß√£o brasileira com as vacinas contra a Covid 19. Como se tem observado, o Brasil est√° atrasado na aquisi√ß√£o de vacinas e no planejamento da vacina√ß√£o. Ainda est√° para ser avaliado qual ser√° o efeito econ√īmico e pol√≠tico dessa postura.

N√£o se pode esquecer que a pandemia foi o grande acontecimento pol√≠tico e econ√īmico dos √ļltimos meses e provavelmente orientar√° grande parte das iniciativas do pr√≥ximo ano. Alguns l√≠deres pol√≠ticos se fortalecer√£o e outros perder√£o poder nesse contexto. Exemplo desse efeito pode ter sido a derrota de Trump. Provavelmente, sua postura d√ļbia no combate √† pandemia pode ter causado um desgaste suficiente para a perda da elei√ß√£o.
Sem d√ļvida, o sucesso da vacina√ß√£o trar√° um grande al√≠vio a toda a economia mundial. Esse processo de imuniza√ß√£o durar√° v√°rios meses, mas os mercados j√° anteciparam boa parte desse sucesso e do sentimento de al√≠vio que ele trar√°, antes mesmo da total imuniza√ß√£o. Certamente, isso ser√° um incentivo para as atividades econ√īmicas e para o investimento.
Para os países com margem de manobra quase inesgotável para lidar com essa situação, até que a economia comece a andar com os próprios pés, a incerteza será mais facilmente reduzida e o caminho da recuperação mais visível.
No caso do Brasil, a reduzid√≠ssima margem de manobra para lidar com essa transi√ß√£o e a dificuldade de lidar com os conflitos de pol√≠tica econ√īmica ainda dever√£o manter a incerteza em alto patamar, limitando a possibilidade de uma recupera√ß√£o econ√īmica consistente e sustent√°vel.

Walter Mendes é Presidente da Vivest (ex Funcesp)

Funda√ß√Ķes de servidores p√ļblicos vivem dilema paradoxal | Carlos Flory

Edição 332

Um paradoxo tem caracter√≠sticas contrastantes e contradit√≥rias. Pode-se dizer o mesmo sobre a natureza das funda√ß√Ķes de previd√™ncia complementar de servidores p√ļblicos. Se um paradoxo √© um racioc√≠nio aparentemente v√°lido oriundo de premissas verdadeiras que leva a uma conclus√£o aparentemente contradit√≥ria ou logicamente inaceit√°vel, a forma como o Estado brasileiro est√° lidando com suas entidades fechadas de previd√™ncia complementar destinadas √† administra√ß√£o de planos para servidores p√ļblicos √© paradoxal.
Para entender essa problem√°tica, √© sempre bom lembrar que as regras b√°sicas do regime de previd√™ncia complementar est√£o explicitadas no artigo 202 da Constitui√ß√£o Federal, no qual ficam claros quais s√£o seus principais aspectos: privado, autoŐānomo em rela√ß√£o ao regime geral da previd√™ncia social, facultativo e baseado na constitui√ß√£o de reservas que garantam benef√≠cio ao contratado. De acordo com as Leis Complementares 108 e 109, ambas de 2001, que regulam a norma constitucional, esse sistema deve ser administrado por entidades de previd√™ncia complementar organizadas ‚Äúsob a forma de funda√ß√£o ou sociedade civil, sem fins lucrativos‚ÄĚ, restritas a prestar servi√ßos relacionados aŐÄ administra√ß√£o e execu√ß√£o de planos de benef√≠cios de natureza previdenci√°ria.
Por sua vez, o artigo 40 da Constitui√ß√£o Federal obriga aos entes federativos a ado√ß√£o do teto do Regime Geral de Previd√™ncia Social (R$ 6.101,06 em dez/20) para os seus Regimes Pr√≥prios de Previd√™ncia Social (RPPS), destinado exclusivamente aos servidores p√ļblicos e tamb√©m que instituam a previd√™ncia complementar para os mesmos, efetivada por meio de entidade fechada ou aberta de previd√™ncia complementar. Isso ocorre por meio de lei de iniciativa do respectivo Poder Executivo e oferece planos de benef√≠cios somente na modalidade contribui√ß√£o definida.
Portanto, como se observa, a cria√ß√£o da entidade gestora da previd√™ncia complementar do servidor p√ļblico tem por base este mandamento constitucional. Entretanto, h√° ainda um fato curioso a respeito das funda√ß√Ķes de servidores p√ļblicos no que tange a sua natureza. Antes da Emenda Constitucional 103/2019, constava na reda√ß√£o do ¬ß 15 do art. 40 a express√£o ‚Äúnatureza p√ļblica‚ÄĚ como pr√©-requisito para a entidade fechada de previd√™ncia complementar destinada a administrar os planos de servidores. Com a mencionada emenda, n√£o somente caiu por terra esse pressuposto, como abriu-se a possibilidade de gest√£o desse tipo espec√≠fico de previd√™ncia por entidades abertas (bancos e seguradoras), n√£o somente fechadas, como constava antes.
Diante disso, fica claro o car√°ter privado, n√£o p√ļblico, do regime de previd√™ncia complementar. Alie-se a esse fato, a caracter√≠stica opcional e n√£o compuls√≥ria desse sistema, diferente dos Regimes Pr√≥prios de Previd√™ncia dos Servidores (RPPS) ou do Regime Geral de Previd√™ncia Social (RGPS/INSS). No caso de regimes de previd√™ncia complementar institu√≠dos pelo artigo 40, exclusivos para servidores p√ļblicos, acrescente-se ainda a impossibilidade de contribui√ß√£o patronal superior √† do participante.
Ainda por for√ßa da norma constitucional, pode-se inferir que as entidades fechadas de previd√™ncia complementar do servidor p√ļblico, mesmo institu√≠das por lei de iniciativa do Poder Executivo, s√£o organiza√ß√Ķes que operam na esfera privada, n√£o podendo ser confundidas com a estrutura do Estado, tendo, portanto, natureza jur√≠dica especial e at√≠pica. E mais: ainda que anteriormente possa ter havido alguma controv√©rsia a respeito da natureza das funda√ß√Ķes de servidores p√ļblicos, isso foi revertido por meio da Emenda Constitucional 103.
Vale ainda ressaltar que as funda√ß√Ķes de previd√™ncia complementar patrocinadas por entes federativos s√£o geridas por recursos pr√≥prios, independentes do or√ßamento p√ļblico para o custeio de suas despesas. Portanto, as funda√ß√Ķes de previd√™ncia complementar de servidores p√ļblicos s√£o administradoras com natureza privada, de recursos privados, uma vez que os mesmos s√£o incontestavelmente patrim√īnio exclusivo dos seus participantes e devem ser geridos no interesse destes.
Assim, mesmo que parte dos recursos sejam provenientes dos entes federativos na qualidade de patrocinadores, isso n√£o implica que esses recursos, p√ļblicos na origem, permane√ßam com essa caracter√≠stica ao serem incorporados √†s contas individuais dos planos de benef√≠cios dos servidores. Da mesma forma que os sal√°rios dos servidores, ao serem depositados em sua conta corrente transformam um recurso p√ļblico em privado, as contribui√ß√Ķes patronais destinadas √† previd√™ncia complementar passam por esta muta√ß√£o.

Todas essas dif√≠ceis reformas na previd√™ncia brasileira, principalmente depois da edi√ß√£o da Emenda 103/2019, tiveram por objetivo afastar do setor p√ļblico o risco previdenci√°rio representado pelos sal√°rios acima do teto do RGPS/INSS. Sendo assim, n√£o faz sentido o Estado, al√©m da qualidade de patrocinador, exercer qualquer influ√™ncia sobre como esses recursos s√£o administrados, nem impor suas regras estritas √† gest√£o administrativa dessas funda√ß√Ķes. Assim como n√£o faz o menor sentido impor a Lei de Licita√ß√Ķes para a contrata√ß√£o dos gestores de investimentos, uma vez que o interesse do participante √© melhor performance e maior seguran√ßa na gest√£o do patrim√≥nio, em detrimento do menor custo; n√£o cabe ao Estado exigir que as funda√ß√Ķes sigam regras da administra√ß√£o p√ļblica para contrata√ß√£o de pessoal ou de empresas especializadas, sistemas de informa√ß√£o, ou outras atividades que sejam necess√°rias para a consecu√ß√£o dos seus objetivos e metas.
Isso n√£o quer dizer que o Estado n√£o participa da gest√£o, uma vez que, enquanto patrocinador, ele indica a totalidade da Diretoria Executiva da entidade gestora da previd√™ncia complementar. Al√©m disso, e n√£o menos importante, √© prerrogativa do Estado a nomea√ß√£o parit√°ria, junto com os servidores, dos seus representantes nos √ďrg√£os Colegiados, tendo, inclusive o Voto de Minerva no Conselho Deliberativo, √≥rg√£o m√°ximo da administra√ß√£o das entidades de previd√™ncia complementar.
Tamb√©m, n√£o significa que essas entidades n√£o sejam fiscalizadas e possam agir de forma a n√£o ter consequ√™ncias. S√£o v√°rios controles espec√≠ficos, que t√™m por princ√≠pio garantir a boa gest√£o do patrim√īnio, das atividades e dos riscos, com o objetivo de garantir os benef√≠cios aos participantes em longo prazo e proteger seus interesses. Para isso, as funda√ß√Ķes est√£o sujeitas √†s normas do Conselho Monet√°rio Nacional (CMN) e do Conselho Nacional de Previd√™ncia Complementar (CNPC), √† fiscaliza√ß√£o constante e atenta da Superintend√™ncia Nacional de Previd√™ncia Complementar (PREVIC) e da Secretaria de Previd√™ncia, vinculada ao Minist√©rio da Economia.
Entretanto, apesar de todas essas caracter√≠sticas pr√≥prias acerca da natureza das funda√ß√Ķes de previd√™ncia do servidor p√ļblico, o fato de serem institu√≠das pelo poder p√ļblico tem, na pr√°tica, se sobressa√≠do, por causa de tal paradoxo. √Č verdade que as funda√ß√Ķes de previd√™ncia complementar destinadas exclusivamente a servidores p√ļblicos t√™m, por premissa, aliviar os entes federativos das responsabilidades financeiras com os benef√≠cios previdenci√°rios acima do teto do INSS, mas, em oposi√ß√£o, a forma pela qual s√£o administradas podem gerar √īnus aos cofres p√ļblicos em longo prazo.
Isso decorre do fato que, contrariamente a sua natureza ‚Äď privada e n√£o p√ļblica ‚Äď a √≥tica pela qual estas entidades v√™m sendo percebidas pelas inst√Ęncias federativas, cujo entendimento as classifica como apenas mais um √≥rg√£o da administra√ß√£o estatal, traz em seu bojo justamente o risco do ente federativo vir a ser responsabilizado pela totalidade desses benef√≠cios em longo prazo, pois n√£o respeita a autonomia administrativa e patrimonial das mesmas.
Quanto mais o Estado submeter essas funda√ß√Ķes a suas regras, menos clara fica sua natureza privada e suas caracter√≠sticas pr√≥prias e at√≠picas √† administra√ß√£o estatal. O que se percebe √© um equ√≠voco ou obscurantismo no que tange a esse novo modelo previdenci√°rio, que, por fim, cerceia sua linha de a√ß√£o e prejudica a obten√ß√£o dos resultados esperados por seus participantes, que nele depositam a esperan√ßa de uma aposentadoria mais segura, que independe da sa√ļde financeira do ente patrocinador.

Carlos Flory é Presidente da Prevcom

Pensar fora da caixinha é cada vez mais necessário | Ricardo Pena

Edição 332

O slogan da maioria das funda√ß√Ķes de previd√™ncia complementar aponta o futuro como o nosso neg√≥cio, mas estamos preparados para o futuro? Esta √© a reflex√£o que devemos fazer ao pensar em inova√ß√£o, que n√£o precisa ser uma ideia revolucion√°ria mas apenas uma maneira mais eficiente de fazermos uma mesma tarefa alcan√ßando o objetivo mais rapidamente e com menor custo. Inova√ß√£o e transforma√ß√£o digital entraram no vocabul√°rio das empresas de v√°rios setores e tem uma raz√£o de ser, pois √© preciso estar atento aos cen√°rios externos para n√£o ser surpreendido por uma onda de mudan√ßas.
Em 2020, al√©m da pandemia de covid-19, a previd√™ncia complementar dos servidores p√ļblicos precisou encarar mais um desafio anunciado no final de 2019: a possibilidade de enfrentar concorr√™ncia de bancos e seguradoras. At√© ent√£o, esse espa√ßo era reservado √†s entidades fechadas de previd√™ncia complementar (EFPC). A mudan√ßa veio com a Reforma da Previd√™ncia (Emenda Constitucional n¬ļ 103, de 2019) e ainda aguarda lei complementar espec√≠fica para disciplin√°-la. A Funpresp tem se fortalecido, buscando mais efici√™ncia e agilidade para poder disputar com institui√ß√Ķes financeiras tradicionais que j√° possuem estruturas robustas e grande escala.
Ao mesmo tempo, vislumbramos a possibilidade de administrar os planos de benef√≠cios de servidores das esferas municipal, estadual e federal. Em seus quase oito anos de exist√™ncia, a Funpresp provou sua capacidade, com gest√£o eficiente e compromisso com a transpar√™ncia, baixo custo, identidade com o servidor p√ļblico e certamente preparamos a casa para a disputa de mercado. Passamos por uma reestrutura√ß√£o organizacional para crescermos de forma coerente com o lugar que queremos ocupar e estarmos preparados para os dois cen√°rios.
A Funpresp j√° nasceu nessa trilha, e mudando paradigmas no setor p√ļblico ao ofertar previd√™ncia complementar e seguran√ßa aos servidores federais, tendo tamb√©m um importante papel para o equil√≠brio de longo prazo das finan√ßas p√ļblicas. Com sete anos de exist√™ncia, a Entidade foi erguida do zero (come√ßou na garagem) e, hoje, ultrapassa R$ 3,6 bilh√Ķes em patrim√īnio, arrecada√ß√£o mensal de R$ 93 milh√Ķes, 123% em rentabilidade acumulada e mais de 100 mil ades√Ķes, sendo uma refer√™ncia no setor de previd√™ncia complementar fechada, com destaques para projetos como ades√£o autom√°tica, perfis de investimentos, intelig√™ncia artificial no atendimento, consignado pelo aplicativo, FCBE e programa de cashback.

Para se adaptar √† nova realidade e ficar ainda mais alinhada ao mercado, a Funda√ß√£o come√ßou 2020 com mudan√ßas na sua estrutura organizacional, para adequar e guiar os novos rumos da Entidade para a nova d√©cada. Foi criada uma √°rea espec√≠fica para pensar novas solu√ß√Ķes para os participantes, o Laborat√≥rio de Inova√ß√£o, e uma √°rea comercial, para atuar na prospec√ß√£o de novos clientes e na venda de produtos. Foi realizado refor√ßo da seguran√ßa da gest√£o, com o fortalecimento das √°reas de governan√ßa e risco, al√©m da cria√ß√£o de uma √°rea exclusiva para ouvidoria.
Todas essas mudan√ßas agora impulsionam as a√ß√Ķes j√° consolidadas que possibilitaram a Entidade ser o que √© hoje. A principal delas foi a ades√£o autom√°tica, implantada em 2015. Ou seja, ao ingressar na administra√ß√£o p√ļblica, o rec√©m-empossado servidor √© inscrito no plano de maneira autom√°tica e, caso queira sair, pode abrir m√£o da ades√£o em at√© 90 dias, com a restitui√ß√£o corrigida de todos os valores contribu√≠dos. Antes de 2015, o servidor que ingressasse no servi√ßo p√ļblico teria de tomar a atitude de realizar voluntariamente a ades√£o √† Funpresp. Agora, ele s√≥ precisa agir se quiser se desligar do plano. Esta foi uma √≥tima solu√ß√£o para o que a Economia Comportamental chama de ‚Äúvi√©s do status quo‚ÄĚ, que diz que os indiv√≠duos preferem se manter em seu estado atual, mesmo que uma altera√ß√£o da sua situa√ß√£o seja mais vantajosa.
Ao implantar a ades√£o autom√°tica, medida incentivada pela Organiza√ß√£o para a Coopera√ß√£o e Desenvolvimento Econ√īmico (OCDE), a taxa de ades√£o √† Funpresp entre os novos servidores saltou de 11% para 89%. Com a implanta√ß√£o, buscou-se proteger aqueles que, por in√©rcia, estavam deixando de receber a contribui√ß√£o do √≥rg√£o patrocinador, de R$ 1 por cada R$ 1 contribu√≠do, ficando desprotegidos inclusive a fam√≠lia, sem as coberturas para morte e invalidez da Funda√ß√£o. Institu√≠da pela Lei n¬ļ 13.183, de 2015, a inscri√ß√£o autom√°tica foi implantada de forma pioneira e inovadora no Pa√≠s, promovendo a educa√ß√£o financeira e previdenci√°ria, estimulando a forma√ß√£o de poupan√ßa individual e seguindo modelos de sucesso de pa√≠ses como Inglaterra e Estados Unidos.
Ap√≥s o ingresso do participante no plano, a miss√£o da Funpresp √© proteg√™-lo no presente e no futuro. A maioria √© jovem e tem em m√©dia 33 anos. Ou seja, ainda vamos acompanh√°-lo por cerca de 35 anos, passando por v√°rias fases da vida, que t√™m caracter√≠sticas e necessidades pr√≥prias. Por isso, ao implantar a possibilidade de escolha dos perfis de investimentos, optamos por um modelo diferente do ‚ÄúEstilo de Vida‚ÄĚ, que tradicionalmente √© aplicado pelo mercado financeiro e engloba perfis como ‚Äúarrojado‚ÄĚ, ‚Äúmoderado‚ÄĚ e ‚Äúconservador‚ÄĚ.

Na Funpresp, ap√≥s 4 anos de estudos e benchmarking, constatamos que o mais apropriado seria ofertar perfis no modelo ‚ÄúCiclo de Vida‚ÄĚ. Como o nome diz, consideramos a fase da vida de cada cliente ao investir seu patrim√īnio em um dos quatro perfis de investimentos, com aloca√ß√Ķes em duas carteiras, ‚ÄúPerformance‚ÄĚ e ‚ÄúPreserva√ß√£o‚ÄĚ, que possuem graus distintos de exposi√ß√£o a risco. A primeira √© composta por pap√©is de renda fixa, fundos imobili√°rios e empr√©stimos aos pr√≥prios participantes. J√° a carteira ‚ÄúPerformance‚ÄĚ tem na cesta todos os produtos da ‚ÄúPreserva√ß√£o‚ÄĚ, aliados a pap√©is da renda vari√°vel, t√≠tulos privados e de investimentos no exterior.
A ideia do ‚ÄúCiclo de Vida‚ÄĚ √© a seguinte: quem tem mais tempo at√© a aposentadoria pode correr mais risco, pois tem mais possibilidade de recuperar eventuais perdas. Para quem tem menos tempo at√© l√°, o ideal √© apostar em investimentos com menor exposi√ß√£o ao risco de mercado. √Č claro que o participante que quiser um perfil diferente ao correspondente √† sua faixa et√°ria tem toda a liberdade para escolh√™-lo ap√≥s realizar um teste de adequa√ß√£o (suitability).
O modelo √© inovador, mas tivemos o desafio de comunic√°-lo aos participantes em 2020, j√° acostumados com o modelo ‚ÄúEstilo de Vida‚ÄĚ dos bancos e das corretoras. Para isso, constru√≠mos uma plataforma tecnol√≥gica de relacionamento amig√°vel, em que o participante √© auxiliado pela Vic, nossa atendente virtual. O p√ļblico da Funpresp √© bastante diverso: precisamos sensibilizar e entender as dificuldades de todos os servidores p√ļblicos federais. Isso significa conversar com professores, policiais, m√©dicos, diplomatas, auditores, analistas de finan√ßas, procuradores, entre outras mais de 120 carreiras. Mesmo assim, apenas dois meses ap√≥s o lan√ßamento da plataforma, em janeiro de 2020, mais de um quarto dos nossos clientes se engajaram com o novo produto, interagiram com a Vic e fizeram simula√ß√Ķes com diversos cen√°rios para escolher um dos quatro perfis de maneira consciente.
Continuamos preparando uma s√©rie de novidades para os pr√≥ximos meses. Nossas equipes est√£o reformulando nossa √°rea do cliente e nosso aplicativo para fornecer uma experi√™ncia ainda mais completa e individualizada, com simuladores, autoatendimento e gr√°ficos interativos. Outra novidade √© a oferta de cashback para previd√™ncia, que ser√° lan√ßada em breve. Ou seja, ao realizar compras nas mais de 400 lojas online parceiras, ele recebe um percentual do valor da compra de volta para sua conta previdenci√°ria na Funpresp. √Č uma forma de fazer as compras necess√°rias no presente mantendo o engajamento com o futuro.
Para 2021, o desafio √© aprofundar ainda mais o relacionamento tecnol√≥gico com o cliente, mas sem perder a humaniza√ß√£o. √Č avan√ßar do ponto de vista t√©cnico, mas olhar para tr√°s e entender que √© a conversa, a confian√ßa e o cuidado com o pr√≥ximo que nos faz humanos. A pandemia nos mostrou que, mais do que nunca, o que √© importa √© estarmos vivos, com sa√ļde e em contato uns com os outros. E, olhando por esse aspecto, o relacionamento com o participante √© o grande diferencial de uma entidade fechada de previd√™ncia complementar. Aqui, o ‚Äúdono‚ÄĚ √© o participante. N√≥s estamos perto dele nos momentos bons e dif√≠ceis, somos um porto seguro. Celebramos com ele a t√£o sonhada posse num cargo p√ļblico, damos suporte se alguma adversidade ocorre, como invalidez ou morte, e cuidamos do seu futuro para que possa viver da maneira que quiser ap√≥s tanto servi√ßo em prol da sociedade.

Ricardo Pena é Diretor-presidente da Funpresp-Exe

Conselhos das empresas precisam ter mais mulheres e mais diversidade | F√°bio Coelho

Edição 332

A pandemia de covid-19 acelerou grandes tend√™ncias que j√° estavam se desenhando no mercado de capitais brasileiro, mas poucas ganharam tanto destaque quanto a emerg√™ncia dos aspectos socioambientais na realiza√ß√£o de investimentos. Em 2021, o desafio de nossa ind√ļstria seguir√° esse caminho, incorporando tamb√©m aspectos de governan√ßa negligenciados ao longo do ano que passou. Nesse sentido, chamo aten√ß√£o para a diversidade de g√™nero, que dever√° figurar no topo da lista de prioridades.
Para entender os motivos pelos quais esse √© um dos maiores desafios atuais em termos de governan√ßa, √© preciso dar um passo atr√°s e analisar o atual contexto do mercado. Antes da pandemia, a bolsa brasileira rumava para seu quinto ano consecutivo de bull market, enquanto o n√ļmero de investidores pessoa f√≠sica quintuplicou em 5 anos.
O movimento, criado na esteira da redução dos juros, ganhou mais impulso quando a Selic atingiu a mínima histórica de 2% ao ano. O baixo custo de capital, aliado à distorção histórica no valor dos ativos causada por aqueles seis circuit breakers consecutivos, abriu uma oportunidade de compra, tanto para investidores de varejo quanto institucionais. Com a demanda aquecida e o fluxo de capital constante, a despeito de uma longa ausência dos investidores estrangeiros, as empresas passaram a ver a bolsa como uma alternativa mais viável para se financiar.
Seja para refor√ßar o caixa, investir em tecnologia, financiar aquisi√ß√Ķes ou dar sa√≠da a investidores, 26 IPOs foram celebrados at√© o in√≠cio de dezembro - incluindo o terceiro maior da hist√≥ria - um volume que seria inacredit√°vel no in√≠cio da pandemia.
A chegada desta nova geração de investidores e empresas coincidiu com a digitalização da economia real, forçada pelas medidas de isolamento, e com o boom dos princípios de investimento responsáveis, baseados no tripé Ambiente, Sociedade e Governança (ESG) no Brasil. Apesar de 2019 já ter sido um ano positivo para esta agenda, as desigualdades acentuadas pela emergência sanitária exigem uma resposta para o pós-pandemia.

Ao longo do ano, influenciado pelo movimento de investidores estrangeiros que veem a busca de cadeias produtivas mais sustentáveis como parte de seu dever fiduciário, o mercado de capitais - e, em especial, o setor financeiro brasileiro - deu seus primeiros passos rumo à economia de baixo carbono.
Nesse sentido, um dos marcos do ano, a carta do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustent√°vel (CEBDS) assinada por 38 CEOs pedindo medidas para conter o desmatamento na Amaz√īnia j√° rende frutos - como o an√ļncio de que bancos como Ita√ļ, Santander e Bradesco est√£o se mobilizando para financiar projetos sustent√°veis no Brasil. Tend√™ncias como esta devem ganhar ainda mais for√ßa, √† medida que o Banco Central se prepara para implantar sua agenda de sustentabilidade em 2022 com medidas como a publica√ß√£o obrigat√≥ria dos impactos financeiros das mudan√ßas clim√°ticas nos neg√≥cios dos bancos, nos moldes da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD).
Com isso, diversas assets e corretoras j√° est√£o se movimentando para lan√ßar produtos focados em ESG e integrar estes princ√≠pios em suas opera√ß√Ķes, seja por meio de √°reas espec√≠ficas ou de forma vertical.

Mas, enquanto o E parece bem encaminhado, ainda é preciso olhar com mais atenção para os aspectos envolvendo o S e o G. Em especial, uma intersecção entre ambos que têm potencial para promover diversas mudanças: a diversidade de gênero nos conselhos de administração.
Apesar de a discuss√£o ainda estar em seus prim√≥rdios no Brasil, mercados estrangeiros est√£o tomando medidas ambiciosas para garantir o equil√≠brio de g√™nero em altas inst√Ęncias de governan√ßa. A mais recente delas veio da Nasdaq, que pediu permiss√£o √† Securities and Exchange Commission (SEC) para adotar como norma a inclus√£o obrigat√≥ria de dois membros diversos no board, sendo ao menos uma pessoa que se identifique como mulher e outra que seja LGBT+ ou membro de minorias √©tnicas. As empresas listadas na bolsa teriam dois anos para se adequar e, caso n√£o o fa√ßam, devem prestar explica√ß√Ķes.
Essa política já vem sendo adotada há alguns anos por investidores globais como a gestora BlackRock - que redobrou seu compromisso com o tema da diversidade em conselhos para o ano que vem - mas pode ter um impacto ainda maior oriundo da Nasdaq. Isso porque apenas 22,5% dos assentos em conselhos de empresas da lista Fortune 500 eram ocupados por mulheres, segundo dados do estudo Missing Pieces Report, produzido pela consultoria Deloitte.
Mais do que uma simples medida de compliance, o pedido de mais diversidade nos boards encontra apoio em dados de performance. Como mostrou pesquisa da consultoria McKinsey, empresas com mais diversidade de gênero têm uma chance 21% maior de serem mais lucrativas. Além disso, empresas com maior representatividade feminina nos conselhos melhoram a performance do engajamento, diversidade e inclusão dos funcionários, indicaram dados da organização Diversity Inc compilados pela consultoria ESG Truvalue Labs.
O capítulo brasileiro do 30% Club, organização que se dedica a promover a inclusão feminina nos boards e tem lançado luz sobre o tema em nosso país, recentemente chamou atenção para o fato de que mulheres são apenas 10% dos conselheiros em empresas do IBrX-100, sendo que 34 destas companhias têm conselhos exclusivamente masculinos.
Mais preocupante ainda é o fato de que, entre as 17 empresas que estrearam na bolsa até setembro, 47% tinham seus conselhos integralmente compostos por homens. A tendência é visivelmente contrária ao observado no exterior, onde o banco americano Goldman Sachs já anunciou que não coordenará IPOs de empresas com menos de dois membros diversos no conselho.
Seria possível argumentar que a própria estrutura das empresas listadas no Brasil, com muitos grupos familiares com controlador definido ou estatais, é resistente à mudança e que, portanto, seria necessário adotar um padrão similar ao pleito da Nasdaq. Não obstante, vale ressaltar que mudanças regulatórias dependem, também, do compromisso dos regulados em torná-las práticas correntes.

Um exemplo conhecido dos brasileiros √© a Lei das Elei√ß√Ķes. Desde 1997, os partidos devem guardar a propor√ß√£o de 70/30 por cento entre os g√™neros em suas candidaturas. Vinte e tr√™s anos depois, as eleitas somam apenas 15% das vagas da C√Ęmara dos Deputados. E nas elei√ß√Ķes municipais deste ano, quando foi alcan√ßado o maior √≠ndice de participa√ß√£o feminina, com pouco mais de um ter√ßo dos candidatos, as vereadoras eleitas ocuparam somente 16% dos cargos dispon√≠veis.
No caso do mercado de capitais local, n√£o precisamos reinventar nenhuma roda para garantir essa representatividade. Recentemente, a pesquisa Pratique ou Explique 2020 do Instituto Brasileiro de Governan√ßa Corporativa mostrou que entre 360 empresas, somente 16,1% adotam a recomenda√ß√£o do ‚ÄúC√≥digo Brasileiro de Governan√ßa Corporativa ‚Äď Companhias Abertas‚ÄĚ de que o conselho de administra√ß√£o tenha maioria de membros externos e, no m√≠nimo, um ter√ßo de membros independentes.
Indicar mais mulheres a estas vagas seria um dos caminhos pelos quais investidores institucionais poderiam endereçar esses dois desafios de uma só vez. E a próxima oportunidade de promover essa mudança significativa ocorrerá com as assembleias gerais de acionistas de 2021, embora o debate deva se fortalecer ao longo de todo o ano.

Fábio Coelho é Presidente da Amec e ex-superintendente da Previc

Balanço sobre os ganhadores e os perdedores da Covid-19 | Marcelo Giufrida

Edição 332

O ano de 2020 termina e certamente ser√° hist√≥rico. Marcar√° nossas gera√ß√Ķes, e ser√° estudado no futuro por bi√≥logos e m√©dicos, soci√≥logos e historiadores, e naturalmente, por economistas e financistas.
Tal como em todos os segmentos, podemos dizer que no mercado financeiro a pandemia produziu ganhadores e perdedores.
No caso brasileiro, e especificamente para os fundos de pens√£o, a verdadeira montanha russa de eventos que marcou o ano colocou um enorme desafio de rentabilizar as carteiras num ambiente de forte press√£o nos dirigentes do segmento, oriunda tanto dos participantes como dos organismos de supervis√£o interna e externa.
Voltando ao final de 2019, naquele momento já era claro o desafio para as entidades em se adaptar a um ambiente de juros na mínima histórica, meramente empatando com a inflação, e a necessidade de ampliar o leque de investimentos, buscando aqueles que pudessem superar a meta, com o desagradável efeito colateral do aumento da volatilidade.
O que j√° era dif√≠cil ficou cr√≠tico. O Banco Central, mesmo sob alguma oposi√ß√£o, levou a Selic a inimagin√°veis 2% a.a. em julho, e desde ent√£o tem mantido a taxa inalterada, mesmo com a disparada da infla√ß√£o no √ļltimo trimestre, que dever√° fechar o ano acima de 4%, na medida do IPCA, e estonteantes 25% na estimativa do IGP-M.
Assim, aquela op√ß√£o de ir trocando a renda fixa por outras alternativas aos poucos ganhou um senso de urg√™ncia inusitado. Mas o que fazer? Em mar√ßo a bolsa brasileira derretia, com uma queda de quase 50% desde a m√°xima em janeiro. Compreens√≠vel, dada a prec√°ria visibilidade de como emergiria a economia ap√≥s as fortes restri√ß√Ķes de mobilidade implantadas em nosso pa√≠s. O cen√°rio se revelou menos dr√°stico, e, puxada pela recupera√ß√£o mundial, as a√ß√Ķes foram retomando suas cota√ß√Ķes, mas enquanto o S&P 500 voltou ao positivo em julho, o √≠ndice brasileiro s√≥ em dezembro deste ano voltou ao patamar do final do ano passado.

Na renda fixa o cen√°rio n√£o foi menos dif√≠cil. Ao mesmo tempo que a taxa di√°ria recuava, as taxas de longo prazo permaneciam err√°ticas, mas sempre mostrando uma inclina√ß√£o positiva, sinalizando a fragilidade fiscal das contas p√ļblicas. A taxa de juros pr√©-fixada de dez anos, por exemplo, tocou 10% a.a. no momento mais agudo do ano, e depois oscilou entre 7% e 9% a.a., refluindo um pouco em dezembro para o patamar de 7,5% a.a.
Como se n√£o fosse bastante, os t√≠tulos p√ļblicos voltaram a ser negociados com des√°gio, desde a vetusta LFT at√© as ariscas LTNs e NTNs, fazendo tamb√©m os investidores desse segmento amargarem perdas ao longo do ano, com um alento em dezembro, que finalmente levou tamb√©m os t√≠tulos indexados √† infla√ß√£o ao territ√≥rio positivo.
No lado dos ganhadores, se destacam naturalmente as aplica√ß√Ķes em d√≥lar, que no universo da EFPC geralmente s√£o escolhidas para a parcela das a√ß√Ķes internacionais. Uma pena que os limites desse segmento sejam t√£o pequenos. Penso que √© urgente ampliar a parcela de ativos externos permitidos nas carteiras das funda√ß√Ķes, n√£o devido aos ganhos passados, mas pela possibilidade de investir em setores e empresas pouco representados na bolsa brasileira, com tecnologia, sa√ļde e empresas ligadas √† economia ‚Äúverde‚ÄĚ.
A CVM já liberou a negociação de BDRs para o varejo, e os gestores e corretores estão cada vez mais bem aparelhados para oferecer alternativas seguras e diversificadas para os investidores institucionais.
Outro setor que se mostrou positivo foi o de fundos multimercados. Aqui é difícil fazer uma generalização, pois a latitude de alocação desses fundos leva a uma diversidade de resultados mais ampla. Analisando uma base de fundos mais representativos do segmento, notamos que a ampla maioria suplantou o CDI no ano, e o mais importante, com uma flutuação muito mais baixa do que o IBX e o IMA-B. Também aqui se nota o quão frustrante é o limite restrito dessa modalidade, o que vem impedindo os gestores se beneficiarem dessa alternativa de investimento que ganha cada vez mais adeptos globalmente.
No segmento de gest√£o profissional, os fundos de a√ß√Ķes tamb√©m entregaram bons resultados. Aqui a diversidade de fundos e abordagem √© ainda maior, e avalia√ß√£o predominante √© que como nos multimercados a gest√£o ativa mostrou seu m√©rito: a flexibilidade e agilidade foram fundamentais em dar aos gestores a oportunidade de ajustar suas carteiras ao longo do ano, levando em conta as diversas fases em que passaram os mercados desde que a Covid-19 dominou o notici√°rio.

Passado o pior momento da pandemia, e vislumbrando o in√≠cio das campanhas de vacina√ß√£o no Brasil e no mundo, podemos antever um 2021 mais parecido com um ano ‚Äúnormal‚ÄĚ.
Uma boa refer√™ncia seria o ano 2009, logo depois da crise financeira de 2008. A combina√ß√£o dos cortes de juros e uma forte recupera√ß√£o c√≠clica permitiram uma alta forte das a√ß√Ķes sem pressionar a infla√ß√£o, pois ainda havia bastante ociosidade, devido √† recess√£o iniciada no final do ano anterior. Aquele ano marcou o in√≠cio de um dos mais duradouros ciclos de alta nos mercados mundiais, que o Brasil n√£o soube aproveitar pelos seus problemas internos.
Da mesma maneira, o cen√°rio que se desenha para os pr√≥ximos anos repete a combina√ß√£o de ociosidade, juros baixos e expans√£o dos programas de gastos governamentais, sem maiores fontes de infla√ß√£o, que costuma ser muito positiva para os ativos financeiros. H√° tamb√©m a vantagem adicional de um cen√°rio de deprecia√ß√£o mundial do d√≥lar, o que beneficia as commodities e os pa√≠ses emergentes. Nesse contexto, uma vez mais o Brasil se arrisca a se atrapalhar nas pr√≥prias pernas e desperdi√ßar um ambiente externo favor√°vel por conta de quest√Ķes pol√≠ticas internas.
Finalmente, espero que os reguladores acelerem seu passo e promovem uma nova rodada de flexibiliza√ß√£o nas regras de aloca√ß√£o dos planos de previd√™ncia. E seria muito √ļtil uma conversa com os especialistas das finan√ßas comportamentais para trazer ideias inovadoras para temas ligados √†s regras movimenta√ß√£o dos participantes nos planos e no sistema de perfis de investimento que em certas circunst√Ęncias n√£o trouxeram os incentivos corretos para os agentes do sistema.

Marcelo Giufrida é CEO da Garde

Combinando arte e ciência nos processos de gestão de ativos | Sérgio Magalhães

Edição 332

Acreditamos que o ambiente atual de juros baixos e de recupera√ß√£o econ√īmica √† frente justifica, ou at√© demanda, aumento de risco nos portf√≥lios nos pr√≥ximos anos. Tamb√©m h√° quem diga que o verdadeiro desafio da humanidade est√° na longevidade, pois possivelmente viveremos mais do que estamos prevendo, dados os progressos impressionantes da medicina e da ci√™ncia. A medicina e tecnologia evolu√≠ram tanto que poucos imaginariam que ter√≠amos em menos de um ano diferentes vacinas contra esta doen√ßa que nos assola, indicando taxas de sucesso de imuniza√ß√£o acima de 90%.
Desafios como a longevidade, baixas taxas de juros no mundo e at√© negativas em alguns pa√≠ses, aliadas √† globaliza√ß√£o dos investimentos e um volume cada vez maior de informa√ß√Ķes que fluem para os mercados de maneira incrivelmente r√°pida, nos imp√Ķem um desafio ainda maior na arte de diversificar os investimentos e na necessidade de gerar valor para investidores. Aumento de risco √© uma sa√≠da? Mas aumento de risco necessariamente proporciona mais retorno? Qual o melhor caminho para aumentar o risco? Qual o melhor modelo de aloca√ß√£o?
Investir na diversifica√ß√£o √©, sem d√ļvida, um √≥timo caminho a se escolher. As √ļltimas crises mostraram que, em geral, portf√≥lios diversificados se comportaram melhor que os concentrados. Tamb√©m sabemos que 70% a 80% do resultado de um portf√≥lio √© proveniente da arte da escolha da melhor combina√ß√£o entre diversas classes de ativos.
H√° d√©cadas foram desenvolvidos v√°rios modelos que buscam escolher a melhor combina√ß√£o para cada necessidade, desde os que d√£o o devido peso √†s caracter√≠sticas do passivo dos investidores institucionais, amplamente conhecidos como Asset Liabilitity Management (ALM) ou Liability Driven Investments (LDI), onde os mais sofisticados usam ferramentas estoc√°sticas para buscar o portf√≥lio mais adequado para cada passivo considerando v√°rios cen√°rios macroecon√īmicos e horizonte de prazo mais longo de 10 ou 20 anos. Tamb√©m existem modelos mais voltados para encontrar o melhor portf√≥lio considerando v√°rias classes de ativos, suas correla√ß√Ķes e potencial de retorno desde Markowitz at√© Black-Litterman. N√£o podemos esquecer os processos tradicionais utilizados pela ind√ļstria de gest√£o de fundos multimercados, onde gestores buscam teses de investimentos com base na an√°lise do cen√°rio macro, combinando alpha, beta e demais letras gregas para encontrar o melhor portf√≥lio.

Com a popularização da tecnologia, aumento da capacidade computacional e volume de dados, o uso de modelos e algoritmos para filtrar, analisar e organizar esses dados torna-se cada vez mais essencial, caso contrário seria necessário um Maracanã lotado de analistas e gestores para digerir diariamente tantos dados e transformá-los em estratégias potenciais.
O tempo e as crises têm nos mostrado que não existem modelos perfeitos, pois estão em constante evolução, mas talvez a verdadeira questão não esteja em buscar o melhor modelo, mas sim como combinar o poder do julgamento humano nos processos de investimento, um fator que não deve ser desprezado.
Qual modelo incorporaria o fato da Tesla, uma startup de tecnologia focada em carros el√©tricos, que ap√≥s 16 anos seguidos de resultados negativos e em seu primeiro ano de baixo lucro recorrente se transformaria na montadora mais valiosa do mundo, desbancando a Toyota que somente no ano anterior vendeu 30 vezes mais ve√≠culos, com receita 10 vezes maior. Talvez fatores como momentum fossem capazes de capturar alguma parcela dessa tend√™ncia, mas eles s√£o ‚Äúcegos‚ÄĚ, apenas seguem o movimento da manada e poderiam ter perdido o ‚Äúmomento‚ÄĚ diversas vezes durante o per√≠odo turbulento que a empresa tentou se capitalizar, executar um plano de longo prazo e provar que era de fato vi√°vel.
Em 2007, quando o iPhone foi lan√ßado, nem mesmo Steve Jobs poderia ter previsto o volume de vendas e a domin√Ęncia dos smartphones e aplicativos em 2020 e como eles seriam essenciais para o mundo de hoje, como por exemplo a velocidade com que empresas tradicionais de vendas a varejo pudessem mudar completamente seus modelos de neg√≥cio para adaptar-se a uma nova realidade de vendas online imposta por uma pandemia. Certamente nenhum modelo com premissas realistas para a √©poca, poderia justificar o ‚Äúvaluation‚ÄĚ da Apple, que j√° valia muito mais que empresas tradicionais de tecnologia.

Podemos também ter alguns exemplos do julgamento humano no processo de tomada de decisão fora do mundo das finanças, quando o então Presidente Barack Obama, mesmo após relatórios oficiais com estimativas de probabilidade divergentes, toma a decisão de enviar oficiais militares para a missão bem sucedida na captura de Osama bin Laden em Abbottabad.
Claro que s√£o fatos e eventos completamente fora da distribui√ß√£o normal de probabilidades, mas ainda usando o paralelo militar, Donald Rumsfeld em um document√°rio intitulado ‚ÄúO desconhecido conhecido‚ÄĚ de 2013, ilustra o tema sobre eventos probabilisticamente improv√°veis em duas categorias: a primeira seria ‚ÄúO desconhecido conhecido‚ÄĚ, s√£o eventos de cauda que conhecemos e podemos tomar a√ß√Ķes para mitig√°-los, e a segunda s√£o os eventos que simplesmente n√£o conhecemos, o ‚Äúdesconhecido desconhecido‚ÄĚ, que tamb√©m sustenta a tese dos ‚ÄúCisnes Negros‚ÄĚ de Nassim Taleb e podem ser descritos como qualquer coisa que n√£o pode ser explicada ou replicada pelos modelos.
Para ambas situa√ß√Ķes, o apoio tecnol√≥gico e cient√≠fico ao julgamento humano √© essencial, pois a solu√ß√£o teoricamente n√£o seria assim t√£o complicada: riscos conhecidos devem ser sempre avaliados e modelados, ponderados pelos seus pesos probabil√≠sticos, incorporando esses cen√°rios de stress no processo de sele√ß√£o e dimensionamento das posi√ß√Ķes. J√° para os riscos desconhecidos, √© onde entra a arte: Esses riscos devem ser de alguma forma, atrav√©s da percep√ß√£o perif√©rica humana, identificados, contextualizados, modelados e tamb√©m incorporados aos modelos como novos cen√°rios de stress para os portf√≥lios.
Em eventos de crise, existem basicamente duas forças: Uma deriva do evento, que é a razão essencial da crise. A segunda vem da reação dos agentes àquele evento, que na maioria das vezes reagem de forma irracional, exacerbando os fundamentos que também mudam à medida que os novos dados vão fazendo parte da estatística e governos em conjunto com bancos centrais intervêm nos mercados. A narrativa criada ao redor das duas forças é que vai determinar o futuro da crise e a maneira que os mercados vão reagir à essas narrativas.

A arte, de novo, vem de como a percepção periférica humana vai julgar e antecipar essas narrativas que vão influenciar o comportamento dos investidores e o preço dos ativos.
Na ausência de tudo isso, o melhor hedge para riscos desconhecidos é a prudência na alavancagem e liquidez dos portfólios. Em todas as crises, a má gestão desses fatores amplificou ainda mais os efeitos nocivos da segunda força descrita acima.
A margem prudente de risco tamb√©m √© uma importante aliada, onde numa situa√ß√£o de stress, ter espa√ßo para poder tirar proveito das oportunidades e desequil√≠brios causados pelos agentes ‚Äúsufocados‚ÄĚ ao inv√©s de ter que ceder posi√ß√Ķes a qualquer pre√ßo para adequa√ß√£o de risco e satisfazer liquidez para o portf√≥lio. Todos esses fatores fazem parte de um modelo de gest√£o moderno e bem constru√≠do.
Em resumo, acreditamos que a parceria entre a arte e ci√™ncia √© uma poderosa combina√ß√£o para os processos de investimento. De um lado a ci√™ncia, que diante da crescente capacidade de processamento computacional aliada ao uso de Big Data e t√©cnicas de Intelig√™ncia Artificial como Machine Learning traz ferramentas essenciais para traduzir, analisar e organizar o volume de informa√ß√Ķes dispon√≠veis no mundo hoje, criando efici√™ncia e escala para um processo capaz de encontrar o melhor portf√≥lio com maior retorno para cada unidade de risco, ap√≥s analisar como nenhum c√©rebro humano seria capaz, dezenas de classes de ativos, milhares de cen√°rios e d√©cadas de correla√ß√Ķes entre eles.
Por outro lado, a incerteza dos riscos conhecidos e desconhecidos pode ser acolhida pela arte do julgamento humano, que aliado à ciência, pode ser capaz de gerar uma fonte duradoura de criatividade, entusiasmo e resultados consistentemente positivos.

Sérgio Magalhães é head comercial da BRAM - Bradesco Asset Management

Construindo uma nova ind√ļstria de asset management | √Ālvaro Gon√ßalves

Edição 332

Para entender a ess√™ncia da ind√ļstria de asset management presente no pa√≠s e no mundo, √© preciso voltar quarenta anos para recordar os desafios de 1981, no auge da crise do petr√≥leo que desestabilizou pre√ßos em cadeia e criou uma base de infla√ß√£o rampante e crescimento baixo.
Uma atitude severa dos Bancos Centrais, a partir do Federal Reserve de Paul Volcker, elevou os juros no mundo, segurando a infla√ß√£o e o crescimento de forma violenta ‚Äď os juros americanos foram parar na casa espetacular dos 20%aa (quem diria?!) e abriram a temporada de recess√£o global.
A partir daí, veio o esforço doloroso de 15 anos para preparar e fomentar o crescimento. E quando o caminho de baixa das taxas de juros na segunda metade dos anos 1990 impulsionou o empreendedorismo, represado da década anterior, tivemos uma combinação de ganhos de produtividade com alguma irracionalidade.
Viemos de duas d√©cadas -80 e 90- em que a aloca√ß√£o de ativos dependia de uma an√°lise predominantemente definida pelos movimentos macro e pelas pol√≠ticas p√ļblicas ‚Äď o que foi determinante para a corrente de pensamento que dominou o ferramental anal√≠tico at√© hoje. Um tempo em que s√≥ o ‚Äúmacro‚ÄĚ importava e empreendedorismo ainda n√£o estava no dicion√°rio.
O que importava era o movimento macroecon√īmico e o posicionamento estrat√©gico dos setores da economia vis-a-vis esse movimento. Os l√≠deres dessas ‚Äúasset macro‚ÄĚ eram (ou s√£o) tipicamente cr√≠ticos de pol√≠ticas p√ļblicas, mas n√£o se arriscam muito sobre a estrat√©gia das empresas em que investem e sequer comentam seus planos de marketing ou sua capacidade de gerar caixa operacional, pois isso est√° distante do ‚Äúolhar macro‚ÄĚ. Isso tem mudado, felizmente...

Com o nascer do novo século veio a bolha da internet para atrapalhar um pouco aquela direção virtuosa na direção do empreendedorismo. Ou talvez tenha vindo corrigir os excessos, para depois voltar com maior vigor.
Esse per√≠odo foi ent√£o uma escorregada de volta ao macro-puro, repaginado por produtos processados. Foi o auge da tentativa de rotular (ao inv√©s de compreender) a atividade micro, pasteurizando a an√°lise com base na codifica√ß√£o de rating e refer√™ncias cruzadas em geral. E os produtos da moda visavam empacotar, securitizar e multiplicar ‚Äď criando produtos e entidades empresariais altamente t√≥xicas.
E veio a crise financeira em 2008-2009, que levou v√°rios gurus do per√≠odo macro embora, junto com alguns bancos hist√≥ricos. Mas os empreendedores n√£o tinham desaparecido. Desafiadores persistentes (Mercado Livre, Amazon, Microsoft, Apple e seus milhares de disc√≠pulos) e novos atrevidos (Google, Tesla, Facebook) pareciam m√ļsica fora da partitura ‚Äď mas n√£o eram.
E os juros iniciaram o longo caminho de baixa, para chegar ao patamar minimalista atual.

Os ganhos de produtividade passaram a falar mais alto do que qualquer teoria monetarista. A capacidade computacional dobrou a cada dois anos nos √ļltimos 40, com custos est√°veis ‚Äď como nos demonstrou a Lei de Moore, at√© recentemente. Isso, sim, foi transformador e capaz de conter solu√ßos inflacion√°rios mesmo com juros baixos.
O empreendedorismo voltou √† linha de frente. Agora n√£o mais rotulados pelos macro-pensadores como ‚Äúirracionais exuberantes‚ÄĚ, os persistentes p√≥s-bolha da internet assumiram o protagonismo global.
√Č interessante notar a migra√ß√£o de valor no ecossistema econ√īmico a partir da√≠ ‚Äď em conceito e ordem de grandeza. No conceito, o valor migrou de setores oligopolistas estrat√©gicos para os ‚Äúdisruptores digitais‚ÄĚ. Os portf√≥lios de produtos e servi√ßos (General Electric e Berkshire Hathaway) desceram a escada, para a eleva√ß√£o das plataformas digitais (Apple, Amazon e Alphabet).
E na ordem de grandeza a migra√ß√£o foi ainda mais not√°vel. No ano 2000, as a√ß√Ķes das cinco maiores empresas abertas do mundo, somadas, valiam US$ 1.6 trilh√Ķes. Em 2020, 4 das 5 maiores s√£o de tecnologia (ou tem uma base operacional digital-tecnol√≥gica) e o valor combinado chega a US$ 8.5 trilh√Ķes. No grupo mais antigo, as empresas tinham perfil industrial e de petr√≥leo. No grupo mais recente, tecnologia digital. E esse grupo vale mais de cinco vezes o anterior.
√Č muito simplista pensar que juros baixos causem apenas (!) uma redistribui√ß√£o de renda fixa para vari√°vel. O valor est√° migrando e exige um novo conceito de gest√£o ativa. Uma nova ordem na fronteira de an√°lise, de produtos e de ALM. Uma nova realidade para a ind√ļstria de asset management, depois de 40 anos.

Os mercados privados (private capital markets) são a nova fronteira do asset management global, saindo da condição de nicho e tomando o centro do fluxo principal.
Segundo entrevista que a L√≠der Global de Research do JPMorgan, Joyce Chang, concedeu √† rede CNBC, existe US$ 1 trilh√£o em compasso de espera para entrar no mercado de a√ß√Ķes.
Resta uma certeza: faltam ativos! A plataforma de asset management dos anos 2021-2025 terá que combinar a busca e análise profunda de novos ativos, com preparação de uma base nova de empresas com aderência aos novos critérios de seleção baseados em ESG.
Ora, com pelo menos 1 trilh√£o de d√≥lares a caminho, o mercado come√ßa a produzir formas de capturar ativos al√©m da fronteira das bolsas. Produtos como SPACs (do ingl√™s ‚Äėspecial purpose acquisition companies‚Äô) se juntam aos fundos de private equity listados em bolsa, para fazer a ponte e garimpar novos ativos.
O n√ļmero de gestores de Private Equity abrindo capital e ampliando suas estruturas bateu o recorde hist√≥rico em 2019-2020. E as plataformas de ‚Äúequity stake‚ÄĚ ou ‚Äústaking funds‚ÄĚ, que capitalizam e agilizam a evolu√ß√£o das estruturas de gest√£o de ativos privados, tamb√©m bateram marcas hist√≥ricas com centenas de bilh√Ķes de d√≥lares para aportar.
A agilidade ‚Äďsem perder de vista a cadeia de cust√≥dia- vira pe√ßa chave. Os fundos secund√°rios tamb√©m ganham escala e v√™m fazer o sincronismo de liquidez entre as carteiras e os passivos dos investidores. Trata-se de um movimento global, virtuoso e r√°pido, de resposta a uma demanda crucial dos investidores: a busca por ativos, al√©m da fronteira dos mercados l√≠quidos.

Precificar ativos de renda variável sempre trouxe algum desconforto a investidores e também a reguladores. O problema é maior ainda quando se fala de precificação de equity privado, ou seja, sem a referência de um universo de compradores independentes formando e estabilizando um patamar de preço.
E para piorar o desafio, o pre√ßo do ‚Äėequity‚Äô privado tipicamente inclui parcela pelos direitos acess√≥rios e instrumentos de controle, tornando invi√°vel a comparabilidade - seja com outros ativos ou com o mesmo ativo em outro momento ou com direitos diferentes. A padroniza√ß√£o n√£o se resolve por laudos de avalia√ß√£o e sim por aplica√ß√£o do ferramental t√©cnico apropriado.
Os produtos (fundos e valores mobili√°rios) precisar√£o incorporar esse perfil de transa√ß√£o, como j√° ocorre nos principais mercados do mundo. E nossos reguladores, que mal tiveram tempo de acompanhar a transi√ß√£o para renda vari√°vel tradicional, j√° precisam incorporar conceitos de transa√ß√£o de ativos il√≠quidos. Um bom interc√Ęmbio com reguladores internacionais e com a academia √© urgente.
Em 2025, os asset-managers com perfil macro tendem a ocupar um espa√ßo hist√≥rico, tamb√©m j√° superado pelas evolu√ß√Ķes mais recentes. A compet√™ncia chave agregou o conhecimento das plataformas empresariais e a capacidade de compreens√£o de suas habilidades e riscos. As redes de empreendedores retornaram ao fluxo de informa√ß√Ķes e capacita√ß√Ķes privilegiadas.
Essa transição é extremamente virtuosa, já começou e deve acelerar rapidamente. Que venha 2021 para coroar o avanço mais concreto desse novo período, e finalmente alinhar o investidor institucional, o asset-manager moderno e o empreendedor brasileiro!

√Ālvaro Gon√ßalves √© S√≥cio do Grupo Stratus