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Repensando a alocação em tempos de crise | Opinião: Jorge Simino

Obviedade inicial: o mundo e o Brasil enfrentam, desde janeiro deste ano, uma crise sanitária e econômica. O Brasil em adição também apresenta sinais de turbulência política.
Algumas breves palavras sobre esta última. Constatação também óbvia é a existência de muito ruído na condução política. Como os ruídos afetam os preços dos ativos financeiros depende basicamente da sensibilidade auditiva e da lateralidade de cada agente econômico. Independentemente da escolha de cada qual, uma coisa é certa: ruídos não ajudam; ruídos atrapalham.
Um ditado antigo diz “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Pois bem, nos últimos meses o lado médico, agora com especialização em epidemiologia, assolou as áreas de análise econômica. Gráficos, tabelas e modelos estatísticos povoam os relatórios numa tentativa, legitima, diga-se de passagem, de antecipar algum sinal de declínio da pandemia. Mas a verdade é que a ciência apesar de todos os esforços, e neste curto espaço de tempo, ainda não conseguiu desenvolver um fármaco eficiente e muito menos uma vacina. Neste sentido é preciso absorver a ideia que as incertezas provocadas pela pandemia tão cedo não serão dissipadas.
Assim sendo, devemos concentrar nossos esforços para entender a evolução da crise em termos econômicos e financeiros.
Duas especificidades podem ser atribuídas a esta crise. Primeira, pela natureza sanitária, e pela inexistência de um tratamento eficaz a adoção da técnica do isolamento social para restringir a propagação atingiu a oferta e a demanda simultaneamente. Segunda, é a velocidade com que tanto a doença quantos seus efeitos se espalharam.
Tempos excepcionais, medidas excepcionais. Nos países desenvolvidos em geral, e particularmente nos Estados Unidos, a magnitude dos estímulos fiscais e monetários superaram tudo o que já foi visto no passado, inclusive na crise financeira de 2008. Do lado fiscal, o governo americano aprovou no Congresso um pacote de 2 trilhões de dólares para socorrer pessoas físicas e jurídicas. Do lado monetário, o FED (banco central americano) cortou os juros básicos para praticamente zero em duas reuniões extraordinárias em março e usou seu balanço para comprar ativos no mercado (os ativos do seu balanço montavam a 3,8 trilhões de dólares, no final de 2019, voltaram a crescer nos últimos três meses e atingiram a cifra de 7,2 trilhões de dólares). Em resumo, a injeção de liquidez na economia foi gigantesca.
No Brasil tivemos movimentos análogos, com alguma hesitação inicial, dado o conjunto de nossas limitações. Também tivemos redução de juros e pacotes de ajuda fiscal, seja para pessoas físicas seja para empresas.
Lá e cá a dúvida central está na velocidade e na magnitude da recuperação econômica e no típico jargão do mercado as possíveis recuperações recebem apelidos usando letras: V, U W e por aí vai.
Para além das letras, creio que seja mais razoável perguntar como as famílias, as empresas e o próprio governo (nos três níveis – federal, estadual e municipal) se comportarão dado que todos sairão da crise mais endividados, com remuneração menor (leia-se rendimentos, receitas operacionais e tributos, respectivamente)? E dada a capacidade ociosa, que já existia antes da crise, e que certamente se ampliou com seus efeitos, a variável investimento também não deveria despertar muito entusiasmo. Tudo posto fica difícil imaginar uma recuperação mais robusta em 2021.
A questão fiscal é outro ponto que me parece claramente subestimado. As projeções de déficit primário para este ano giram ao redor de 10% do PIB. Mas para 2021 as expectativas giram ao redor de 3% do PIB, um ajuste de sete pontos percentuais do PIB. E sem aumento de tributos!
Enfim, um ajuste de contas públicas em magnitude nunca vista nos últimos vinte anos. Temos aqui um sinal claro de muito otimismo (e não custa lembrar as palavras de Candido – personagem de Voltaire: “o otimismo é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal”).
Para os investidores em geral, e para as Entidades Fechadas de Previdência Complementar em particular, os desafios de investimento aumentaram muito. De um lado, o custo de oportunidade nunca foi tão baixo, mas por outro lado as incertezas associadas a alocação em ativos de maior risco são também imensas.
Conclusão: o cenário DP (Depois da Pandemia) é completamente diferente do cenário AP (Antes da Pandemia) e, assim sendo, a gestão do portfólio também há de ser diferente. O processo de alocação em ativos de maior risco continuará sendo necessário, mas precisará ser repensado com cuidado.

A reeducação do mercado | Opinião: Carolina da Costa e Luiz Fernando Figueiredo

Na Teoria Econômica, há uma máxima que dita que o comportamento dos agentes econômicos é função dos incentivos oferecidos. São, portanto, reações. No âmbito do mercado financeiro, seleção e alocação de ativos são perfeitas expressões da lógica reativa. Mercado é consequência. Causa “mercado” a política econômica, que propõe incentivos (nem sempre produzindo o que intencionou), novos fatores de produção, assim como mudanças profundas em hábitos e valores morais dos agentes econômicos. Se pretendemos inovar estruturalmente naquilo que fazemos, questionar a lógica de causalidade pela qual explicamos efeitos é um bom ponto de partida. Na ciência, essa rotina tem sido responsável pelo surgimento de diversas teorias que ora conflitam, ora se complementam, mas sempre expandem conhecimento. Por exemplo, na biologia para explicar adaptação das espécies, no desenvolvimento humano para explicar fenótipos, na física para explicar movimentos planetários e por aí vai. E no âmbito do mercado financeiro, há espaço para mais protagonismo que cause transformação?
A crise que vivemos trará enormes consequências sociais. Estima-se que até o final desse ano, haverá cerca de 15 milhões de desempregados, 4,4 milhões de crianças abaixo da linha da pobreza, dívida pública brasileira acima de 90%, 6% de queda no PIB nacional. Todas as esferas da sociedade perderão renda, exceto a máquina pública cujo peso do gasto com funcionalismo se amplificará desproporcionalmente aos demais setores. Uma adequada política fiscal será fundamental para direcionar corretamente o comportamento dos agentes e gerar mais proporcionalidade e equilíbrio no balanço de perdas. O mercado financeiro também deverá contribuir com a sua cota de sacrifício. Não simplesmente por arcar com a diminuição dos ativos sob gestão (R$74bi saíram de fundos desde o início desse ano), mas também pela necessidade de repensar sua forma de atuar para co-liderar mais ativamente um processo de transformação já em curso.
A consciência dos impactos da crise intensificou entre os gestores de ativos e alocadores o discurso sobre longo prazo e impactos sociais e ambientais dos investimentos. Boa notícia vermos a sigla ASG (Ambiental, Social e Governança ou, em inglês, ESG) cada vez mais presente nas pautas. Estudos mostram que o volume de ativos sob gestão no mundo em finanças sustentáveis ultrapassa U$ 31 trilhões (dados GSIA). O S&P 500 ESG index mostrou retornos 3% acima quando comparado ao benchmark S&P 500 (2019/2020) e 6 em 10 fundos ASG tiveram retornos superiores aos convencionais na última década (FT, 13/6/20). A somatória de ativos em fundos de impacto relacionados com algum dos 17 ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) ultrapassa U$ 500 bilhões (segundo GIIN). Tudo isso impulsionado por mudanças regulatórias recentes que contribuem para reprecificar riscos, incentivar novos projetos ambientais (ex. na linha de redução de emissões de carbono) e crédito “verde”. Novas abordagens de rating passam também a incluir aspectos sociais e ambientais (exemplo da MorningStar que comprou a Sustainalytics). É bastante motivador notar a qualidade de porta-vozes de diferentes indústrias defendendo mudanças estruturais para um novo capitalismo. Destaque para grupos de estudo atuando nesse momento na ANBIMA, ABVCAP, além de importante advocacy puxado pela Converge Capital e CEBDS. O recém lançado Capital Reset é agora leitura essencial sobre o tema.
Mas ainda há um longo caminho para verificarmos até que ponto discursos se tornarão prática efetiva. Acreditamos que estamos diante de uma grande oportunidade de reeducar o mercado financeiro para uma atuação mais protagonista, para além da seleção e alocação de ativos. Não é mais suficiente investir em um ativo pela “barganha” de hoje, pois um pouco mais à frente, quando os preços se equilibrarem, o real valor se dará com base em novo paradigma de valuation que abarque amplo impacto para sociedade. Podemos criar novos negócios baseados em ecossistemas que promovam relações mais simbióticas entre investidores e investidos (muitos ainda aguardando oportunidades decentes de acesso ao capital). Podemos abrir espaço para profissionais advindos de outros setores com formatos inovadores de interação em rede para a construção conjunta de soluções. Podemos promover novos mindsets sobre o que significa “ganhar, perder e servir”.
Estamos diante de uma oportunidade histórica de reinvenção que se dará para aqueles que aceitarem o desafio da reeducação para maior protagonismo social. Esse movimento não é apenas para o benefício de nossos negócios, mas para o legado que intencionamos deixar para as futuras gerações e para o planeta.

Perfis de investimento em tempos de crise | Opinião: Ricardo Pena

A pandemia da Covid-19 pegou o mundo de surpresa e tem causado estragos incomensuráveis. Nessa crise de saúde pública, a preservação da vida humana é o ponto de partida para qualquer ação e preocupação elementar esperada daqueles que têm a responsabilidade para decidir. A crise é um momento de reflexão e de humildade. Todos teremos que lidar com as consequências das decisões tomadas. A primeira e mais importante decorrerá da resposta à pergunta: “Fomos solidários e responsáveis?”. Gestores do patrimônio financeiro de milhares de pessoas, como nós, terão mais perguntas a enfrentar: “Agimos com transparência? Atuamos com eficiência e prontidão? Protegemos nossos participantes, assistidos e funcionários?”
Todos os planejamentos estratégicos de curto, médio e longo prazo foram afetados decisivamente pelas incertezas. Inegavelmente o cenário exigiu um realinhamento de diretrizes, metas e indicadores. Além disso, muita flexibilidade foi necessária para qualquer gestão estabelecer um patamar mínimo de segurança nas suas operações.
No caso da Funpresp, essa profunda mudança coincidiu com a implementação da oferta por perfis de investimentos para seus participantes, fruto de mais de quatro anos de estudos. Tudo foi planejado detalhadamente para entregar ao participante o protagonismo sobre as suas preferências e expectativas quanto à evolução das suas reservas previdenciárias e de seu benefício futuro.
O produto elaborado pela Fundação permite que participantes de um mesmo plano de benefícios tenham sua poupança individual tratada de maneira customizada, conforme suas características pessoais. O parâmetro utilizado foi o de ciclo de vida, que combina faixas etárias pré-definidas (em função do estágio de vida) com tipos de investimentos adequados a maior ou menor tolerância a riscos. São quatro perfis oferecidos em duas carteiras distintas, batizadas com os nomes “Performance” e “Preservação”. Os próprios nomes deixam antever a natureza de cada uma delas e como o ciclo de vida se encaixa perfeitamente nas alocações predominantes nessas carteiras. Para cada uma delas, diretrizes de investimento claras e longamente refletidas foram estabelecidas. Esse modelo tem se mostrado robusto no enfrentamento da crise, trazendo perspectivas de recuperação no médio e longo prazo.
Reforçamos a comunicação com o participante de forma a prover informação objetiva, transparente e orientação em suas decisões de investimento. Nesse momento, a Funpresp busca garantir aos seus participantes todo o apoio para decisões racionais, que não resultem, à frente, em prejuízos ao esforço de longo prazo que os planos de previdência envolvem. Mais do que nunca, é preciso reforçar os laços de confiança e cuidado.
Aprofundamos análises de cenários de forma a garantir o aproveitamento de oportunidades. Já em abril, observamos recuperação das perdas registradas em março, em especial nos perfis com maior presença de ativos de renda variável. Nossa expectativa é ao final deste ano estarmos alinhados ao planejamento de 2020.
A Fundação diversificou a distribuição dos ativos financeiros da sua carteira de investimentos, reduzindo os títulos públicos federais de curto prazo para aumentar os de longo prazo, com taxas de juros reais superiores a 4%a.a. A Funpresp também adquiriu cotas de fundos de investimento no exterior, reduzindo o risco da carteira, e cotas de fundos de investimentos em ações (com Ibovespa abaixo de 70 mil pontos).
Apesar de ser uma Entidade jovem, a Funpresp já é considerada robusta: conta com mais de 96 mil participantes e R$ 2,65 bilhões de patrimônio. Está ainda na fase exclusiva de captação de reservas uma vez que tem uma população jovem, (idade média de 36 anos) e paga pouco mais de 100 benefícios. Independentemente disso, o cenário atual de muita oscilação dos mercados, devemos seguir atentos e cautelosos na gestão dos riscos. Ainda mantemos a estratégia conservadora, de preservação de valor, com 93% do portfólio em títulos públicos federais, que vem norteando a política de investimentos da Entidade desde a sua criação. Mas sem deixar de operar no monitoramento constante dos mercados, observando as oportunidades do momento e as diretrizes estabelecidas pelas políticas de investimentos dos planos que administramos.
Nossa atitude tem sido de análise sistemática pois sabemos que ainda não é possível mensurar todas as consequências da pandemia no cenário econômico, nem como se comportará a retomada do mercado. Todos estão ainda sujeitos a variações negativas, mas estamos dispostos a não desviar o nosso foco e planejamento que são os ganhos de longo prazo.
Esse é o recado que passamos diariamente aos nossos participantes. Estamos exercitando a transparência ativa como forma de passar tranquilidade sobre o que a Funpresp está fazendo e como vem se comportando perante as adversidades. Como uma fundação de previdência que tem uma relação de longo prazo com seus participantes, entendemos que esse é o momento de reforçar os laços de confiança que nos unem. E isso tem sido realizado com uma comunicação clara, autêntica e verdadeira, pois sabemos que só com essa união e solidariedade iremos ultrapassar todas as dificuldades que hoje se apresentam.

As escolhas no mundo pós Covid-19 | Opinião: Eliane Lustosa

Nesses tempos líquidos, como diz Bauman (Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês), no qual nada é estável, tudo flui, conceitos como solidariedade e coletividade são substituídos por individualismo e consumismo. No mundo atual, muitas vezes denominado de VUCA (ou VICA, na sigla em português para Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), vemos muito desencanto, perplexidade, medo e até desespero - agora aguçados pela crise mundial de saúde pública. A pandemia nos levou a cenário de isolamento, desaceleração e, consequentemente, muita reflexão a respeito das profundas desigualdades sociais, que desaguaram em movimentos globais de solidariedade. Nesse contexto, investidores e consumidores conscientes e responsáveis, que consideram as consequências, ainda que marginais, de suas ações individuais no coletivo, poderiam ser o motor propulsor de novo paradigma civilizatório, migrando para o conceito de stakeholder value, ou seja, levando em conta todas as partes interessadas.
O mundo pré covid-19 já evidenciava severos desafios - mudanças climáticas, escassez de água, desigualdade crescente, fome, pobreza estrutural e guerras, dentre outras distopias. Com a crise, que atingiu ricos e pobres, afloraram reflexões ainda mais profundas sobre o agravamento do atual estado de coisas e a enorme desigualdade na sociedade contemporânea. Teremos capacidade de refletir e modificar os critérios que balizam nossas escolhas e prioridades, especialmente em relação à forma que lidamos com a saúde, o meio ambiente e a desigualdade social? Não se trata de algo tão abstrato como abraçar árvores, mas tomar decisões concretas pautadas por esses conceitos básicos. Um exemplo simples: em nossas aplicações financeiras, questionamos o grau de responsabilidade social e ambiental das empresas em que investimos, seja via equity ou dívida?
À medida em que cresce a consciência social dos indivíduos, que passam a cobrar “qualidade social” em suas aplicações financeiras, cria-se círculo virtuoso, aumentando o incentivo de gestores e investidores institucionais a exercer suas respectivas responsabilidades fiduciárias, buscando alocar seus recursos em investimentos mais inclusivos e de impacto. Dito de outra forma, ao passo em que investidores pressionam, empresas buscarão se ajustar para atrair esses recursos. Aqui observa-se importante oportunidade de políticas públicas mais inclusivas, qual seja: utilizar os chamados instrumentos de blended finance para alavancar o capital privado em prol de investimentos com forte conteúdo ASG (Ambiental, Social e Governamental, ou ESG, na sigla em inglês) via instrumentos de mercado de capitais.
Os Investidores Sociais, ao atrair atenção para determinadas ações de cunho filantrópico, podem atuar para conscientizar e alavancar iniciativas com externalidade positiva relevante para a sociedade. Nesses casos, ao ajustar a relação risco-retorno de um projeto, assumindo parcela mais do que proporcional dos riscos, pode-se atrair e alavancar capitais de mercado para viabilizar o volume de recursos necessários à sua implementação. Trata-se, portanto, de ‘jogo de soma positiva’, formado pela sinergia de interesses entre ações filantrópicas e de impacto com instituições e agentes financeiros, públicos ou privados.
No que se refere a infraestrutura, investimentos privados com forte conteúdo ESG podem ser incentivados pelos chamados investidores concessionais (como agências multilaterais e bancos de fomento) utilizando instrumentos de reforço de garantias, notadamente no período pré completion, quando os riscos do projeto são mais elevados. Após o início da operação, com a relação risco-retorno mais equilibrada, o incentivo inicial pode ser significativamente reduzido ou eliminado, permitindo, via mercado de capitais, a substituição dos recursos públicos por capital privado. Importante notar que, uma vez maduros, investimentos bem estruturados podem e devem prescindir da intervenção pública, o que se mostra especialmente relevante em contexto de forte restrição fiscal
Dentre as ferramentas de reforço de crédito utilizadas para atrair recursos privados com foco no atingimento dos ODSs, pode-se destacar seguros de performance, fundos garantidores ou, ainda, instrumentos de mercado de capitais, como cotas subordinada ou junior em estruturas de FIPs (Fundos de Investimentos em Participações), FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) ou social impact bonds, estes ainda pouco utilizados. Crowdfunding e fundos patrimoniais (endowments), também poderiam alavancar recursos para causas sociais, especialmente se a atual mobilização de cunho solidário for duradoura.
É diante de uma grande ameaça, como a atual pandemia, que podemos quebrar paradigmas, para sairmos mais fortes, coesos e preparados para os novos desafios que o mundo pós Covid vai desvendar. Solidariedade, cooperação e coordenação de esforços por uma sociedade mais justa e inclusiva também devem fazer parte do dia a dia dos agentes de mercado. Sim, a responsabilidade é de todos nós!

Desastre natural de duração indefinida | Opinião: Marcelo Toledo

O melhor paralelo a ser realizado em relação à crise atual não é com o que ficou conhecido como a Grande Recessão de 2008, mas sim com um desastre natural. Contudo, é um desastre natural com duas características muito raras: o fato de atingir simultaneamente diversos países e, mais importante, ser de duração indefinida. O alcance deste “terremoto” também não é puramente definido pelas leis da física (ou da biologia no nosso caso), uma vez que o comportamento da epidemia em um determinado país depende de forma muito relevante da resposta do sistema público de saúde. Haverá custos econômicos desse desastre natural, sendo maiores ou menores dependendo do sucesso de cada país em controlar a crise de saúde pública até que haja uma solução definitiva por meio de um tratamento eficaz ou uma vacina disponível em larga escala.
Ao final de março, as medidas adotadas em diversos países já permitiam estabelecer algum tipo de padrão: países com frequentes e rigorosas restrições à mobilidade de pessoas e fechamento de setores econômicos; países que estavam obtendo sucesso, até o momento, em conter a epidemia sem tantas restrições. A China havia atravessado a primeira forma e ingressado com sucesso no segundo padrão. Os prejuízos à atividade econômica eram diretamente proporcionais à intensidade das restrições.
O impacto econômico dos períodos de rigorosas restrições ficou claro com os dados econômicos da China durante o mês de fevereiro (retração de cerca de 20% das vendas no varejo, sendo de 90% em veículos, e de 30% da produção industrial). Com o fim das medidas mais restritivas, houve retomada relativamente rápida da atividade, mas ainda para patamar abaixo do pré-crise. Assim, observamos um padrão de recuperação rápida, mas no qual a retomada não ocorre de forma completa, com o PIB permanecendo abaixo do pré-crise possivelmente por um período prolongado. Em termos gerais, contudo, podemos considerar que quanto maior a duração do período de contração, menor será a velocidade de retomada e mais duradoura a queda da atividade para um determinado país (o caso da Itália aponta para uma recuperação prolongada e difícil).
As respostas de política monetária e política fiscal dos países têm sido bastante intensas e rápidas. Do lado dos bancos centrais, foco em medidas de estabilidade financeira (como a provisão de liquidez para o sistema bancário e o mercado de capitais) e queda de taxas de juros. O Fed liderou o movimento, com redução dos juros para zero. Do lado da política fiscal, ações para transferência temporária de renda para famílias e empresas. As “pontes” de crédito para empresas e famílias atravessarem um período temporário de queda de receitas e renda têm sido providas tanto pelos bancos centrais (programas de provisão direta ou indireta de crédito) quanto pelas autoridades fiscais (postergação de impostos e antecipação de benefícios).
Nesse contexto, a elaboração de cenários permite construir três possibilidades mais relevantes para os países: (1) uma rápida contenção da crise de saúde com medidas pouco restritivas (caso da Coreia); (2) um período de rigorosas restrições à mobilidade, seguido por uma política mais branda (como na China); (3) períodos de rigorosas restrições sendo intercalados pelo afrouxamento das restrições em ciclos até o fim da epidemia.
Devemos reconhecer que o momento é de substancial e atípica incerteza, tendo em vista a natureza da crise atual. Contudo, é preciso construir cenários que possam servir de referência. Considero, para o caso do Brasil, a segunda e a terceira possiblidades como pontos de referência adequados. Ao mesmo tempo isto reconhece a dificuldade de conter processos velozes de disseminação e também a dificuldade em termos sociais de períodos intensos e muito prolongados de restrições à mobilidade.
Do ponto de vista das reações da política econômica, o cenário contempla continuidade da queda de juros (para a faixa dos 3%), medidas adicionais de provisão de liquidez e políticas fiscais temporárias com impacto da ordem de 4% do PIB. Dessa forma, a política econômica está provendo suporte para que a economia possa atravessar o desastre natural. Será importante que as medidas fiscais tenham efeitos apenas temporários e, frente ao aumento da dívida pública em decorrência dos estímulos, que haja medidas de médio prazo para trazer a política fiscal de volta ao equilíbrio em 2021.
A retração do PIB precisa ocorrer da forma mais organizada possível. A intensidade dessa contração e a recuperação posterior dependerão essencialmente da duração da crise de saúde, que por sua vez está relacionada ao sucesso do sistema de saúde. A epidemia terá um final, mas cabe à sociedade encontrar o mais breve possível uma maneira que se possa controlar o desastre natural até uma solução definitiva.

É hora de repensar investimentos | Opinião: Edivar Queiroz e Marcos Fava Neves

Quando o assunto é investimentos, 2020 pode ficar marcado como um novo divisor de águas. Diferentemente das crises de 2001, 2008 e até 2014, o ano começou com uma crise de saúde pública mundial sem precedentes. O temor e a rápida expansão do novo coronavírus (COVID-19) afetou o dia a dia de milhares de pessoas, impactando os mais diferentes setores da economia e, obviamente, o sistema financeiro.
Apesar das iniciativas dos Bancos Centrais, com a redução das taxas de juros e injeção de capital nos sistemas produtivo e financeiro, os mercados desabaram, os juros futuros subiram e a busca por dólar acelerou, levando as cotações para novos recordes.
Trazendo o cenário de pânico e caos para o mundo dos investimentos, vemos a maioria das carteiras de fundos de investimentos, incluindo os chamados renda fixa, com rentabilidade negativa. Em alguns casos, dependendo da alavancagem, as perdas são muito maiores do que a própria desvalorização do Ibovespa.
Todo este contexto mostra uma nova realidade, principalmente, para gestores de grandes volumes, como os institucionais e fundos de pensão. Se já estava difícil atingir o retorno desejado com os juros nos níveis mais baixos da história, agora, com o mercado financeiro em crise, a situação torna-se ainda mais crítica. E como resolver a situação? A resposta está no setor produtivo.
O patrimônio dos fundos de pensão brasileiros soma cerca de R$ 1 trilhão. Direcionar parte destes recursos para empresas privadas, com incentivo à pesquisa e inovação, pode ser a saída para a dificuldade de rentabilidade dos fundos e o acesso a capital para as empresas. E boas oportunidades de investimento em inovação no Brasil não faltam.
Para escolher um dos setores, é só olhar para a formação do nosso PIB. Se tiver de escolher apenas um, destacaria o agronegócio. Este, sem dúvida, continua - e continuará - sendo uma oportunidade fantástica para quem quer investir em um segmento no qual somos referência global.
Muito mais que simplesmente “um país com vocação agrícola”, o Brasil é um país com “competência agrícola”. Não somos considerados o “celeiro do mundo” porque temos “vocação”, mas sim por conta dos esforços contínuos de diferentes agentes das cadeias produtivas. Na contramão de muitos setores da economia, nas últimas décadas, o agro se mostrou uma verdadeira máquina de criação de riqueza à sociedade brasileira.
Se considerarmos apenas as exportações, o agronegócio foi o grande responsável pela entrada de dólares no País, favorecendo o preço do câmbio e permitindo a importação de outros bens, principalmente durante os booms de comercialização de commodities. Temos mais de 400 produtos provenientes do agronegócio em exportação. Além de muitos grãos e das carnes, o Brasil ainda sobe no pódio dos maiores produtores e exportadores de outros produtos como açúcar, algodão em pluma, papel e celulose, café e suco de laranja. Há também inúmeras oportunidades de agregação de valor em muitos destes produtos.
De modo geral, podemos destacar quatro megatendências que já começaram a mudar a agricultura. A primeira é a da Economia Digital e Tecnologia. Com a utilização de drones, máquinas e sensores, o conceito de hectare está sendo substituído pelo metro quadrado, trazendo resultados mais eficientes às propriedades.
A segunda é a Inovação e Diferenciação. Produtos orgânicos, vegetarianos, veganos, supremos são alguns exemplos que começam a ocupar as prateleiras das redes varejistas. Dessa forma, se faz necessário a revisão da proposta de valor e criação de diferenciais competitivos condizentes com o ambiente atual.
A terceira consiste na Economia Circular, a ideia de integração de atividades, de modo que o subproduto ou resíduo de uma atividade se torne o insumo de outra, aproveitando materiais e reduzindo impactos ambientais.
A última tendência diz respeito à Economia Coletiva e Compartilhamento. Nos próximos anos, os agricultores não terão mais a necessidade de possuir inúmeros equipamentos, nem tantos ativos e máquinas, porque tudo poderá ser compartilhado, dentro do modelo Uber, por exemplo.
Além disso, os desafios mundiais daqui para frente são enormes, com as mudanças no ambiente socioeconômico mundial, aumento populacional, aumento na expectativa de vida, urbanização e novos padrões de consumo etc.
Ou seja, se precisamos repensar os investimentos e redirecionar os recursos com foco em retorno no médio e longo prazos, migrar para o setor produtivo, especialmente para o agronegócio, pode ser uma excelente alternativa para diversificação do portfólio. O agronegócio brasileiro precisa estar preparado para, não apenas continuar sendo o protagonista da nossa economia, como também para assumir o protagonismo alimentar de 10 bilhões de pessoas em 2050.

Os critérios ESGI são o novo normal | Opinião: Marcelo Wagner

Uma frase atribuída erroneamente a Charles Darwin diz que “não são as espécies mais fortes que sobrevivem nem as mais inteligentes, mas as que melhor se adaptam às mudanças”. O sucesso da citação faz sentido, mesmo com autor desconhecido: resiliência e inteligência são sempre muito bem-vindos, mas saber se adaptar num mundo que muda o tempo todo, cada vez mais rapidamente, é fundamental.
Questões que pareciam um pouco mais distantes quando ingressei no mercado de trabalho atualmente são temas de constante interesse. Aquecimento global, desmatamento e corrupção são alguns dos assuntos discutidos em escolas, casas e até mesas de bar. A humanidade está mais atenta aos critérios ambientais, sociais, de governança e integridade — ou simplesmente ASGI, como são conhecidos. E os mercados também refletem essa mudança de comportamento.
Investir levando em consideração esses critérios vai muito além de simplesmente atender expectativas. Se pensarmos no longo prazo, é uma questão de sobrevivência. O investimento responsável é sustentável, na plenitude do termo: algo que consegue ser preservado. Estudos mostram que, quando se investe em questões ambientais, sociais, de governança ou de integridade, existem menos riscos no longo prazo. Estamos falando de futuro, precisamente o foco das entidades de previdência complementar. Mas como fazer isso?
Os princípios ASGI devem ser observados em todas as classes de ativos, desde a participação em empresas até a compra de títulos de empresas privadas, passando pela seleção de gestores de fundos. Deve ser avaliada a qualidade do ativo em termos como transparência, governança, controle, integridade e responsabilidade socioambiental.
Dessa forma, ASGI passa a fazer parte do valuation dos investimentos, ou seja, da própria avaliação sobre o preço justo do ativo.
No Brasil ainda existem poucos investimentos desse tipo, mas um potencial enorme para criá-los, notadamente em ativos ambientais de renda fixa. Mas para isso o pipeline — ou, simplesmente, a linha de produção — desse tipo de ativo precisa ser mais consolidado e conectar oferta, estrutura e demanda.
Uma maneira interessante de operacionalizar ativos ASGI é usar a estratégia de offshore como uma alavanca, para aprender com mercados em que esse segmento já é muito desenvolvido. Ao fazer esse tipo de alocação, existem dois benefícios. O primeiro é que, ao realizar esses investimentos, é aberto um canal de comunicação importante, em que é possível aprender as metodologias e tecnologias de um caminho que o Brasil precisa trilhar. Aprender com quem já possui experiência sobre um conhecimento ainda inexistente no país, tanto no mercado quanto na academia. O segundo benefício é a diversificação, já que muitas vezes esses ativos possuem uma baixa correlação com a carteira local, o que pode melhorar a fronteira eficiente do portfólio.
Se o primeiro benefício pode não parecer muito tentador para alguns, o segundo não tem como não ser. No atual cenário econômico de juro baixo, diversificar é imprescindível. Se antes era possível atingir a meta atuarial com uma alocação majoritariamente em renda fixa, agora a diversificação é o fator-chave para rebalancear e rentabilizar a carteira de investimentos.
Essa conjuntura pode ser um fenômeno recente no Brasil, mas não nos mercados internacionais. Vivemos um novo normal, um cenário em que o desempenho financeiro deixou de ser o único critério para avaliação do valor de um ativo. A sociedade está cada vez mais atenta à forma como as companhias lidam com as questões ASGI. Por isso, os investidores institucionais possuem, mais do nunca, uma obrigação com o longo prazo.
Quando as entidades de previdência complementar se comprometem a auxiliar os participantes a formar suas poupanças previdenciárias, também estão se comprometendo em investir numa sociedade melhor para o futuro, quando os associados estarão usufruindo de seus benefícios. Este é o maior sentido dos critérios ASGI: associar rentabilidade com perenidade.

Impacto econômico do coronavírus | Opinião: Adriana Dupita

Quando os primeiros casos de COVID-19 surgiram na China, a grande preocupação – do ponto de vista econômico – era como a forte desaceleração da segunda maior economia do mundo iria afetar os demais países, seja por conta de menor demanda por exportações, seja por conta da ruptura de cadeias de produção. Menos de três meses depois, com uma pandemia declarada, a discussão é se e como a política econômica vai conseguir evitar uma recessão na maior parte do planeta.
Nenhum de nós que estamos hoje no mercado passamos por uma circunstância nem remotamente parecida. A pandemia atual combina um índice de contágio muito elevado com letalidade relativamente baixa, mas relevante o suficiente para justificar medidas draconianas de saúde pública. Dentre elas, as medidas de distanciamento social – que são cruciais para evitar congestionamento no serviço de saúde – são as que mais tendem a afetar a economia. Seus efeitos dependerão crucialmente de sua duração – ainda imprevisível – e da resposta de política econômica adotada por cada país.
Mas que tipo de política econômica pode ser mais eficaz em resposta a uma crise como esta? Sem nenhum episódio recente em que se basear, é difícil afirmar com certeza o que funciona e qual a dose necessária. Porém, as últimas semanas trouxeram um grande debate entre economistas acadêmicos, de mercado e com experiência em política econômica, e alguns consensos parecem começar a emergir:
Com a maioria dos bancos centrais já praticando juros muito baixos, é incerto o quão efetivos novos cortes serão em dar suporte à economia. No entanto, tão ou mais importante que cortar juros, é garantir acesso rápido e barato ao crédito a quem efetivamente precisa – principalmente para as pequenas empresas do setor de serviços, que são as mais impactadas pela menor circulação de pessoas nas cidades em que o distanciamento social foi adotado.
O setor público precisa estar pronto para ajudar e eventualmente resgatar empresas de relevância sistêmica – bancos e empresas de transporte, entre outras – em caso de problemas.
Do lado fiscal, o primeiro foco de ação é garantir recursos para o sistema de saúde. Mas outras medidas são importantes para mitigar o impacto econômico e a própria evolução da pandemia: por exemplo, garantir que os trabalhadores infectados tenham direito a licença; facilitar acesso a mecanismos de suporte à renda para aqueles trabalhadores que precisem ficar em casa, seja para cuidar de familiares, seja para evitar a propagação do vírus; algum mecanismo de ajuda a empresas e trabalhadores informais, para que consigam atravessar a queda de demanda. Postergação na cobrança de impostos em determinadas situações é outra ferramenta que pode fazer a diferença.
Esta lista não esgota todas as medidas em discussão, e a evolução da pandemia e da economia será importante para mostrar onde o apoio da política econômica será mais necessário. Mas como regra geral, o “espírito” das medidas deveria ser fazer o que for necessário para evitar que a pandemia – que, espera-se, será temporária – tenha efeitos de longo prazo, por ter quebrado empresas e famílias.
Apesar destas medidas serem pensadas para países desenvolvidos, as recomendações não diferem muito para a economia brasileira – embora sua adoção comporte alguns riscos. No contexto atual, a autoridade monetária tende a se preocupar mais com os riscos de a inflação ficar abaixo do que acima da meta – por isso, corte de juros e aumento de liquidez são cartas sobre a mesa do BCB. A mudança de patamar do real – causada em grande medida pelo aumento da aversão a risco no mundo – dificilmente pode ser revertida com intervenção no mercado de câmbio; ao BCB talvez a melhor opção seja oferecer ao mercado swaps, provendo proteção cambial a empresas sem erodir as reservas internacionais.
No âmbito da política fiscal, a situação é mais complexa. Continua sendo verdade que, com déficit primário e dívida elevada, o governo não dispõe de espaço fiscal para estimular a economia em condições normais. Mas não estamos em condições normais, e as circunstâncias absolutamente extraordinárias justificam o uso dos mecanismos de créditos extraordinários previstos nas regras fiscais vigentes, como também justificam a ampliação da meta de déficit primário para o ano. O sucesso do estímulo fiscal, porém, depende de dois aspectos cruciais. Primeiro, se os recursos serão usados com sabedoria – em medidas de proteção social, como as sugeridas acima, ao invés de investimentos públicos. Segundo, se a sinalização será de uma piora fiscal temporária ou de uma deterioração fiscal permanente – o que aconteceria, por exemplo, caso o teto de gastos seja revertido.
No meio de tantas incertezas, resta a esperança de que a resposta de política econômica – aqui e fora – seja rápida, bem desenhada e bem implementada, para que uma grande crise econômica não acentue o drama do que já é um enorme problema de saúde pública.

Um tsunami, cheio de riscos, chamado ESG | Investidores, analistas e empresas terão que aprender novos conceitos para se adaptarem

Investidores brasileiros estão pouco acostumados com a palavra “sustentabilidade”, mesmo com o recente aumento da atenção a estes temas. Ainda são poucos os que incorporam fatores socioambientais em suas análises atualmente e, ainda assim, por vezes são marginalizados em seus argumentos, sendo tratados como periféricos ou ideológicos.
Nos Estados Unidos, e principalmente na Europa, tais fatores têm ganhado relevância nos últimos anos e já se encontram no topo da agenda entre os investidores institucionais. No Brasil, o desastre de Brumadinho em 2019, assim como os incêndios na Amazônia e o vazamento de óleo no Nordeste colocaram um grande holofote sobre o tema ambiental. Em janeiro de 2020 a BlackRock, maior gestora de ativos do planeta, declarou que a mudança climática passará a estar no cerne de sua política de investimentos. Já não mais é possível ignorar o ESG.
Como um tsunami, os conceitos de ESG (Meio Ambiente, Sustentabilidade e Governança) atropelarão investidores, analistas e empresas, que terão que tirar o atraso e se adaptarem a este novo mundo. O que perguntar? O que reportar? O que é relevante? Como incorporar isso nas contas?
E é daí que vem o alerta: o desembarque do ESG no Brasil traz riscos. E eles são enormes!
Para início de conversa, é leviana demais a maneira maniqueísta que muitos tratam o ESG, tentando separar os bons e os ruins. ESG é muito mais complexo do que isso. Ao simplesmente adotar um filtro de exclusão buscando eliminar as empresas altamente controversas, automaticamente estar-se-ia tratando tudo que não é extremo como se igual fosse.
A complexidade do tema requer uma sofisticação analítica a qual os atores no Brasil ainda não possuem e, com isso, estão sujeitos a tomarem decisões equivocadas, seja por desconhecimento, seja por estarem apoiados em falsas premissas. Enfatizo: falsas premissas.
O crescimento abrupto do ESG em um campo ainda fértil tem provocado outro fenômeno denominado greenwashing, que nada mais é do que empresas, fundos e investidores tentando simular melhores práticas do que de fato possuem.
Ou seja, estamos iniciando no Brasil um novo capítulo na vida dos investimentos, no qual dois perigosos fenômenos coexistem: o desconhecimento e o greenwashing. Isolados, são perigosos. Juntos, são uma verdadeira bomba.
Quando fazemos a análise financeira de uma empresa, é natural iniciar o trabalho examinando as demonstrações financeiras, que são reportadas em documentos trimestrais obrigatórios. Nestes, figuram obrigatoriamente informações contábeis relevantes, como receita, custo, despesa, dívida, patrimônio, entre muitas outras.
A análise socioambiental, quando iniciada pelo Relatório de Sustentabilidade, já inicia com dois problemas. O primeiro é a não obrigatoriedade de sua divulgação. E o segundo é a não obrigatoriedade e nem padronização de seu conteúdo. É muito possível (e igualmente frequente) empresas não apresentarem tais relatórios, bem como apresentarem relatórios que desviem a atenção do verdadeiro problema.
Por exemplo, uma empresa de varejo têxtil deveria endereçar em seu relatório de sustentabilidade as questões de uso de água, gestão de resíduos, crueldade animal, mão de obra infantil ou semiescrava, que são os fatores críticos para a sua atividade no âmbito socioambiental.
Contudo, é comum encontrarmos um relatório repleto de interessantes iniciativas na área de educação ou apoio a ONGs, que são, sem dúvida, louváveis, mas não tratam do que deve ser tratado. A empresa, neste caso, vende-se como socialmente responsável, sem que de fato o seja. Desavisado, o analista conforta-se por entender que a empresa faz o bem. E erroneamente a considera como tendo alto padrão de ESG.
A questão é ainda mais complexa. Companhias estatais brasileiras, por exemplo, pontuam muito bem no lado social dos rankings globais de ESG por terem um baixo turnover de funcionários, mas tais rankings não levam em consideração que isso não advém das políticas de retenção, mas da impossibilidade legal de demissão.
Os analistas apressados estranham que os shoppings brasileiros de maior consciência ambiental têm péssimos índices de gestão de lixo comparados com os americanos, mas deixam de considerar que os shoppings aqui têm uma área de alimentação muito mais relevante do que nos Estados Unidos.
Aliás, se simples fosse, concluiríamos que a Natura é a companhia mais corrupta do país. Afinal, segundo seu próprio relatório anual, em 2018 foram identificados 23 casos de corrupção interna. Serão eles os mais corruptos ou os mais transparentes? A resposta é óbvia...
Não podemos esquecer as lições da história recente: os maiores escândalos brasileiros de governança corporativa ocorridos na última década ocorreram justamente em empresas do “Novo Mercado”, que deveriam ostentar o selo da boa governança.
O exponencial interesse dos investidores institucionais por temas socioambientais certamente implicará na melhora dos padrões nas companhias, mas, paralelamente, levará empresas, fundos e gestores a se venderem pelo que não são ou fazem. O tema, que antes era descuidado, agora exige cuidado redobrado.

A política monetária funciona, analisa Yuki em artigo | Juros baixos turbinam crédito e economia, elevando PIB para 2,1% no ano

A política monetária se manifesta de diversas formas. A baixa taxa de juros está impulsionando a concessão de crédito e a atividade econômica. O ritmo de crescimento do PIB real deverá acelerar de 1,2% em 2019 para 2,1% em 2020. A melhora da demanda doméstica aumenta nossas importações e prejudica o saldo comercial. Deterioração das contas externas favorece a tendência de desvalorização cambial. Assim, a combinação de maior tração no consumo e desvalorização cambial devem acelerar gradualmente os núcleos de inflação ao longo do ano.
Os impactos da redução da taxa Selic sobre a economia brasileira já estão muito evidentes. A combinação de taxa de juros no menor patamar histórico, baixa taxa de inadimplência e nível adequado de comprometimento de renda das famílias com serviço de dívida têm incentivado a concessão de crédito para pessoa física, que acelerou de 10,5% em 2018 para 14,4% no ano passado. A defasagem natural da política monetária sugere que o mercado de crédito continuará forte nesse ano.
Enquanto isso, o mercado de trabalho continuará crescendo gradualmente e a taxa de desemprego atingirá 11,1% em dezembro desse ano. A lentidão na geração de novos postos de trabalho é consequência da ociosidade existente dentro das próprias empresas. Nossa medida de produto por trabalhador recuou substancialmente durante os anos de recessão e ainda não retornou para o patamar anterior. Isso significa que as empresas podem aumentar a produção sem contratação significativa de novos trabalhadores, o que inibe uma expansão mais vigorosa da massa de salários.
Assim, a política monetária expansionista sustenta nossa expectativa de aceleração do ritmo de crescimento do consumo das famílias de 1,9% em 2019 para 2,5% em 2020.

Figura 1. Redução da taxa de juros impulsiona o mercado de crédito.


Os investimentos das empresas devem acelerar gradualmente em 2020. A melhora do consumo, a baixa taxa de juros e a estabilização do ambiente político tendem a elevar a confiança dos empresários e beneficiar os investimentos.
Parte da nossa demanda doméstica é atendida por produtos estrangeiros. Assim, as importações também devem acelerar no próximo ano e levar o déficit em transações correntes para 3,5% do PIB ao final do ano, patamar que requer atenção.
Além disso, não podemos esquecer que a baixa taxa de juros continuará desestimulando o ingresso de recursos para renda fixa e estimulando a diversificação dos nossos investimentos para o exterior.
Esses fatores ajudam a explicar a saída líquida de USD 45 bi do País no ano passado, o pior desempenho do fluxo cambial da série histórica. Maior demanda por dólar implica em desvalorização cambial. Não existe mágica, juros abaixo do equilíbrio gera câmbio mais desvalorizado.

Figura 2. Deterioração das contas externas


Assim, a recuperação da atividade e a desvalorização cambial devem acelerar gradualmente os núcleos de inflação. Estimamos IPCA em 3,5% neste ano, incluindo deflação em proteína animal.

Figura 3. Inflação deverá acelerar gradualmente


Portanto, a política monetária possui vários canais de transmissão. A aceleração da atividade e a desvalorização cambial deverão pressionar gradualmente os núcleos de inflação ao longo do tempo, o que levará a autoridade monetária a normalizar a taxa Selic no próximo ano.