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A Índia além da ioga _ Adacir Reis

Edição 366

Reis,Adacir 23abrPara Warren Buffet, 94 anos de idade, “a Índia tem oportunidades inexploradas”. Para Mark Mobius, 87, a Índia vai se tornar um grande centro mundial de semicondutores e dividir com a China o palco de software e produção industrial. Tais investidores têm décadas de história, mas continuam olhando para o futuro.
Se previdência é “pré-vidência”, precisamos ver agora o que vai acontecer na Índia amanhã.
Ao acompanhar o dinâmico embaixador da Índia no Brasil, Suresh Reddy, em visita à Abrapp, pude testemunhar seu entusiasmo ao falar das potencialidades nas relações entre Brasil e Índia no campo dos investimentos, do comércio e da cooperação técnica, inclusive em previdência. Keneth Nóbrega, embaixador do Brasil na Índia, tem a mesma visão.
De fato, a Índia é hoje o país mais populoso do mundo (passou a China), tem crescido a um ritmo de 7% ao ano, inflação e dívida sob controle e é hoje a quinta maior economia mundial.
É comum ouvir que na Índia há muita pobreza, sérios problemas de habitação, de saneamento e de infraestrutura. É verdade. Mas também tem riquezas e enorme potencial de crescimento. A classe média indiana já supera a população inteira do Brasil. A população da Índia tem, em média, vinte e nove anos de idade. É muito consumidor pela frente!
A visão eurocêntrica e ocidental, que decorre de nossos laços históricos e de nossa formação cultural, tende a considerar que o centro do mundo é a Europa e os Estados Unidos (EUA). Mas isso tem mudado. Sem menosprezar tais relações, o importante é ver o mapa-múndi e o que está acontecendo noutras regiões.
A balança comercial entre o Brasil e a Índia tem melhorado, mas ainda é acanhada frente ao seu potencial. Se existem áreas em que os dois países são competidores, há também setores em que se complementam, como na bioenergia e saúde.
Apesar de tensões religiosas, multiplicidade de línguas, desigualdade social e um sistema de castas que resiste, a Índia tem promovido grandes avanços nos campos da indústria automotiva, farmacêutica, de software, possuindo centros de tecnologia comparáveis ao MIT em nível de exigência e performance.
A partir dos anos 1990, a Índia vem abrindo sua economia para a iniciativa privada. Recentemente, com a incrível ascensão da China e a consequente elevação das tensões com os EUA, o país de Gandhi e Nehru tem recebido investimentos externos e diretos, como é o caso da Apple com sua produção de iphones, e a inserção de fundos de pensão estrangeiros em projetos de infraestrutura.
A partir de 1998 a Índia passou a dominar a tecnologia das armas nucleares. Especialmente sob o governo nacionalista do Primeiro Ministro Narendra Modi, a Índia tem se mostrado mais ambiciosa no cenário global. Ultimamente tem investido pesado em tecnologia militar e naval.
Embora neste ano Joe Biden tenha recebido Modi na Casa Branca com todas as honrarias, a Índia não cedeu às pressões para tomar partido em favor da Ucrânia ou para interromper seu intenso comércio com a Rússia. Sobre o conflito no Oriente Médio, a Índia tem estreitado relações com Israel e, simultaneamente, defendido “a solução dos dois estados”, com a criação do Estado da Palestina.
Ao mesmo tempo em que integra o BRICS, agora ampliado, a Índia aceitou fazer parte do Quad (Quadrilateral Security Dialogue), fórum Indo-Pacífico de viés militar, ao lado dos EUA, Austrália e Japão.
Ao presidir o G20 em 2023, fórum que nasceu com a crise financeira de 2008 e que reúne as vinte maiores economias do mundo, a Índia mostrou que suas pretensões têm base real. Que o Brasil possa ter o mesmo sucesso ao ser o anfitrião dos chefes de Estado do G20 em 2024!
Sob a hábil condução de S. Jaishankar, Ministro das Relações Exteriores, a Índia tem conseguido conciliar, como poucos, a firme defesa do interesse nacional e a valorização dos fóruns multilaterais. Em uma ordem mundial em crise, em que o risco geopolítico, assim como o ambiental, deve ser avaliado como um item obrigatório para a realização de qualquer investimento, a Índia tem mantido e aprimorado sua política de ser “aliada”, não “alinhada”. Assim como o Brasil, a Índia tem procurado falar com todos, sem levar em conta seu regime político.
Portanto, a Índia vai muito além da ioga, bandeira com a qual exerce muito bem seu soft power. Em 2030 a Índia será a terceira maior economia do mundo e o Brasil, quem sabe, estará entre as cinco maiores. Portanto, há um campo extraordinário de oportunidades no estreitamento das relações bilaterais.

Adacir Reis é sócio do Escritório Adacir Reis Advocacia e ex-Secretário de Previdência Complementar - O conteúdo dos artigos reflete estritamente as opiniões e pontos de vista de seus autores