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É como se fosse uma cidade aquática _ Jorge Luiz Berzagui

Edição 366

Berzagui,Jorge 19abrPor aqui continua tudo muito difícil, embora, quero crer, que o pior momento já tenha passado. Nós começamos a sentir os efeitos da enchente no dia 03/05/24, ainda de manhã, quando as águas do Guaíba começaram a avançar para o Centro Histórico de Porto Alegre, onde fica a sede da Fundação Banrisul - FBSS.
Às 09h da manhã tomamos a decisão de interromper os serviços, desligar os equipamentos, o CPD e proteger as nossas vidas. Quando chegamos no andar térreo do prédio a água já havia tomado conta de nosso hall de entrada, as ruas do entorno estavam completamente tomadas pela água. A água avançava pelos bueiros e por uma estação de bombeamento que colapsou e que fica a 50 metros da nossa sede.
Em pouco tempo a empresa de energia, a CEEE Equatorial, como medida de prevenção desligou a energia elétrica de todo o Centro Histórico de Porto Alegre, que continua sem fornecimento de energia até hoje, quase quinze dias transcorridos. Em quase toda Porto Alegre fomos afetados pelos alagamentos, pela falta de energia e pela falta de água.
Na sede da FBSS a água na rua alcança a altura de 2 metros e meio. No saguão da FBSS, no térreo, chega ainda mais alto, está alcançando 3 metros de altura. Não tem como chegar nem perto do prédio. Nosso CPD2 fica no prédio do Banrisul, que também está vivenciando o mesmo problema de alagamento. No centro de Porto Alegre só transitam barcos, lanchas, botes etc, como se a gente estivesse numa cidade aquática.
A FBSS ficou 100% offline de 03/05 até o dia 08/05, quando gradativamente voltamos a operar, sistema por sistema, rotina por rotina. O site e o App da fundação também ficaram fora do ar, tendo retornado à operacionalidade somente nesta semana (o relato é do dia 17/5).
Mas estamos nos reinventando para sairmos dessa grande crise mais fortes e unidos. Mais de 30% de nossos empregados foram desalojados de suas casas, e alguns ainda continuam nessa situação, com muitas perdas materiais. Porém, agradecemos que estamos todos bem e com saúde, que é nosso maior patrimônio.
Já conseguimos reativar nossos principais serviços na FBSS, inclusive já reativamos nossas principais rotinas, como a folha de pagamento de benefícios. Dos nossos empregados, quem pode está trabalhando em home office, num esquema de rodízio com as poucas estações de trabalho que conseguimos habilitar, na nuvem.
Nosso Estado está, de fato, destruído. Várias cidades ficaram arrasadas e muitas ainda estão inacessíveis. Os estragos continuam a acontecer com deslizamentos na Serra Gaúcha e com a enchente se deslocando para o Sul do Estado, onde têm grandes cidades como Pelotas e Rio Grande. O cenário é de pós guerra, de terra arrasada. Muito triste mesmo. Quase 200 mil famílias estão desalojadas, diversas cidades, estradas e pontes estão literalmente destruídas. A reconstrução não será nada fácil, mas com a união, solidariedade e acolhimento que o povo gaúcho tem demonstrado, assim como todo o povo brasileiro e também de outros países, tudo vai ficar menos difícil.
Na FBSS nós continuamos matando um leão por dia. Minha previsão é que nosso retorno ao trabalho presencial só acontecerá por meados do mês de junho, se daqui para a frente os problemas forem diminuindo, que é o que todos nós esperamos. Registro que somente foi possível manter os serviços essenciais da FBSS graças ao empenho, coragem, dedicação e engajamento de nossas equipes internas e dos colaboradores contratados. Todos cresceram muito nesse cenário de adversidades.
Tenho orgulho de comandar uma equipe de profissionais dedicados, engajados e responsáveis. Vamos sair dessa crise ainda mais fortes e sem dúvida saberemos aproveitar a crise para transformá-la numa oportunidade de crescimento. Fica para todos nós a lição de que devemos respeitar a natureza, pois ela se rebelou, mostrou sua ira e inundou nosso estado. Vamos ter que recuperar os estragos que ela nos deixou e ao mesmo tempo assimilar essa lição, a de reaprender a respeitá-la.
O ponto forte de tudo isto é a solidariedade e o acolhimento que veio da sociedade civil gaúcha, da sociedade brasileira e da sociedade internacional. Parece que o sofrimento do povo gaúcho se transformou em um vetor de forte união da sociedade civil.
Passados 15 dias do início da tragédia ainda continua muito difícil para todos, e continuará difícil até a plena reconstrução do estado do Rio Grande do Sul, lar dos gaúchos. Lamentamos, e muito, que as vidas de mais de 150 pessoas, tragicamente perdidas, não serão recuperadas. Mas garanto que também não serão esquecidas!

Jorge Luiz Berzagui é presidente da Fundação Banrisul de Seguridade Social (FBSS) – O relato foi escrito no dia 17/5, duas semanas após o início das enchentes que inundaram 95% das cidades do Rio Grande do Sul, deixando até a data um total de 154 mortes, 806 feridos, 98 desaparecidos, 540 mil desalojados e 78 mil pessoas morando em abrigos