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Como investir com juros altos? _ Fernando Lovisotto

Edição 367

Lovisotto,Fernando(VinciPartners) 22abr sumarioJá escrevemos algumas vezes nessa coluna sobre a importância da diversificação e rebalanceamento das classes de ativos quando tratamos de investimentos que possuem volatilidade (renda variável, fundos imobiliários, investimentos no exterior e outras). Esta disciplina na construção e gestão das carteiras continua sendo essencial. Por outro lado, em momentos de juros altos como o que vivemos atualmente, as pessoas tendem a encurtar os prazos dos ativos e procurar investimentos atrelados a taxa de curto prazo. Em janelas menores, essa decisão parece acertada pois não se sente a volatilidade dos mercados, mas será que essa é a melhor decisão pensando numa carteira de previdência?

Para ajudar nessa reflexão, vamos elencar alguns fatores:
1 – Efeito “manada”. Em geral, quando há este movimento de encurtamento, ele ocorre num período relativamente curto de tempo, quando os investidores “jogam a toalha” e correm, em geral, para os mesmos ativos. Esse movimento joga os “spreads” destes ativos para baixo, ou seja, esses ativos que são comprados sendo considerados “sem risco” acabam sendo negociados a preços altos pois há grande demanda.
2 – O juro real implícito no CDI ex-post nos últimos 20 anos foi 4,9% aa e nos últimos 10 anos foi 3,3% aa enquanto juro real ex-ante de 10 anos (negociados pelas NTN-Bs) está em 6,4% aa. Quando encurtamos a carteira, assumimos dois riscos: a) risco de reinvestimento, ou seja, risco de termos que investir numa taxa menor quando os títulos vencerem; b) risco de acertar o timing do mercado, ou seja, assumimos que saberemos o melhor momento de alongar os investimentos.
3 – As curvas de juros impactam todas as classes de ativos do mercado, assim, quando os juros sobem, os ativos de risco tendem a se desvalorizar. Para se realizar o encurtamento, os investidores têm que vender suas posições nesses ativos a preços baixos, portanto.

Resumindo: o movimento de encurtamento envolve venda de ativos que já se desvalorizaram, compra de ativos caros e investimentos em taxas de curto prazo que no longo prazo não são suficientes para o atingimento das metas de rentabilidade.
Quais características têm o investimento previdenciário?
Acreditamos que o investimento previdenciário deveria ter as seguintes características: ser de longo prazo (para evitar o risco de reinvestimento já mencionado), ser protegido de inflação (num horizonte longo o que se busca é o ganho real) e ser diversificado (concentração é aumento de risco).
Logo, o movimento de encurtamento não se enquadra nesses itens e deve ser visto como algo tático (para atravessar períodos de maior volatilidade) e para diversificação de pequena parte do patrimônio, somente isso.
Por outro lado, nesses momentos de maior volatilidade as oportunidades costumam aparecer e em geral elas “casam” com as necessidades previdenciárias.
A – Renda fixa atrelada à inflação. Estes títulos sofreram muito e podem ser boas oportunidades. Neste espectro, estão os títulos públicos e o crédito privado (em especial a parte não isenta de IR pois a parte isenta já teve seus spreads fechados como o movimento descrito acima).

B – Investimentos em equity. Ativos reais, em geral, têm proteção quanto à inflação em janelas longas de tempo. Se considerarmos o nível atual de preços e a baixa exposição que os investidores têm a esta classe (considerando tanto renda variável quanto private equity) parece fazer sentido um aumento de alocação pensando numa janela longa de tempo.
C – Investimentos no exterior. Além de fonte importante de diversificação, acreditamos que o nível atual de juros nos mercados desenvolvidos traz consigo diversas oportunidades, em especial, na renda fixa.
A construção desse portfólio pode ser feita de modo gradual, mas o nível de prêmio deve ser aproveitado pelos investidores. Somente assim, as metas serão atingidas quando olharmos anos a frente os retornos obtidos.

Fernando Lovisotto é CIO da Vinci Partners, responsável por estratégias de curto prazo que incluem hedge funds e investment solutions