Mainnav

O ano começou mal, e daí? _ Everaldo França e Flávio Bacellar

Edição 364

O ano começou difícil para os mercados, o que obviamente impactou negativamente as carteiras das EFPC. Isso deve nos preocupar? Até que ponto?
Em primeiro lugar, vamos nos lembrar da tirania do calendário. A precificação dos ativos não obedece às datas estabelecidas arbitrariamente para contar o giro da Terra ao redor do Sol, ou pelo menos não deveria, porque às vezes, em mercados pequenos, coisas estranhas acontecem.
O ano de 2023 foi o ano da paciência. Os resultados, nas carteiras de ações, só vieram em novembro e dezembro, levando o Ibovespa a retornar belos 22,3% no ano, contra um CDI de 13,0%, um bom prêmio pelo risco no período. Por que isso? Bom, em primeiro lugar, porque os mercados de ações não avisam com antecedência os seus movimentos. Conforme as informações novas, a turma reprecifica os ativos e pronto. Quem perdeu a paciência até o terceiro trimestre e reduziu posições “deixou dinheiro na mesa”.
É fácil notar em conversas com o mercado que o ano de 2024 se iniciou com perspectivas muito mais positivas do que o mesmo mês do ano passado. No ano anterior, o ciclo de cortes da Selic ainda não havia iniciado e o cenário externo era nebuloso, com o FED promovendo altas de juros em patamares não vistos há décadas. Mesmo com a bolsa local desvalorizada, o que era uma visão quase unânime, era difícil enxergar um vetor que desse início a uma valorização, diante das incertezas políticas vigentes (formação da equipe econômica, agressões verbais ao presidente do BACEN, risco de descontrole fiscal etc.) e do ambiente externo deteriorado geopoliticamente. Agora, começamos o ano em meio ao ciclo de flexibilização da Selic, as perspectivas fiscais são mais favoráveis e vínhamos de uma forte revisão positiva do cenário externo, em especial os EUA, que viram a Treasury de 10 anos passar de 4,99% em 19/10/2023 para 3,79% em 27/12/2023, impressionante queda de 120 bps. Uma sensível melhora que reverberou no mundo todo, provocando quedas de juros e altas das bolsas globais. Com um cenário externo mais positivo e nossas contas um pouco mais ajustadas entende-se que há amplo espaço para retirar prêmio da curva e ver a bolsa se valorizar, ao menos para nível de valuation compatível com a sua média histórica.
No entanto, não foi isso que se observou no mês de janeiro. Os primeiros dados de atividade e inflação nos EUA não corroboraram o cenário do mercado. As taxas de juros longas americanas voltaram a subir, embora não aos patamares observados no 3º trimestre de 2023. Entendeu-se que houve um quê de exagero nos meses de novembro e dezembro de 2023 e que uma correção era devida, o que impactou os ativos brasileiros.
A vida não tem sido fácil para a gestão ativa. As rápidas e intensas variações da Treasury de 10 anos americana, uma das principais referências do investidor global, têm dificultado a gestão ativa, muitas vezes minando a convicção daqueles que se atêm a fundamentos. Sinal disso é a baixa frequência de sucesso de fundos ativos de renda variável em 2023 e os decepcionantes resultados das estratégias multimercados. São percalços que fazem parte da vida do investidor de longo prazo, pouco afeito a movimentações bruscas e arriscadas em seus portfólios, mas que deveríamos esperar serem contornados pelos gestores dos tradicionais fundos Multimercado Macro, que vendem exatamente a sua capacidade de serem ágeis e mudarem de posições rapidamente.
Se observarmos a categoria de fundos Multimercado como um todo, representada pelo índice IHFA (cuidado com essas médias!), no primeiro bimestre de cada ano, de 2020 a 2024, veremos que apenas em 2022 se superou o retorno do CDI. Nos outros, ou já começou mal em janeiro ou desandou em fevereiro.
O mesmo se passa, agravado, com o mercado de ações, para o qual o único primeiro bimestre positivo foi o de 2022, em que o Ibovespa retornou quase 8%. Portanto, afinal, quando é que o ano começa bem?
Com os índices de renda fixa não tão ruins nesses períodos e o CDI nos sorrindo com juros reais bastante elevados, fora as outras classes de ativos, vem a lição de sempre: diversificação (ver Guia de Melhores Práticas em Investimentos da Previc).
Por falar em diversificação, vale lembrar a performance exuberante do mercado acionário dos EUA, puxado pelas grandes empresas de tecnologia. Até quando vão continuar subindo, não sabemos, mas uma posição num mero S&P500 exposto ao câmbio retornou 10% neste primeiro bimestre. Isso nos deve lembrar de outro perigo importante: a tentativa de adivinhar para onde vai a taxa de câmbio.
Em suma, o primeiro bimestre teve desempenhos prejudicados pelas oscilações oriundas do combate à inflação promovido pelo FED nos EUA, mas também pelos ruídos políticos da cena doméstica, que não deveriam nunca nos surpreender. Continuemos com paciência e tomemos cuidado com a tirania do ano calendário.

Everaldo França e Flávio Bacellar são consultores e sócios da PPS – Portfólio e Performance