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Geopolítica, macro e microeconomia _ Jorge Simino

Edição 365

Simino,Jorge(Funcesp) 19fevA geopolítica tem assumido um papel cada vez mais destacado na discussão da economia. Atualmente a quantidade de focos de tensão e conflitos abertos parecem estar acima da média histórica, mas o pior, talvez, seja o déficit de lucidez nas lideranças políticas do planeta. No passado o mundo tinha nomes como Eisenhower, Churchill, De Gaulle, Adenauer. E hoje, bem...
A lucidez escassa das lideranças aumenta a possibilidade de desatinos com graves consequências sobre as variáveis estritamente econômicas. Conclusão: vivemos num mundo muito perigoso e alocação de ativos deve levar isto em conta.
Na macroeconomia internacional o tema dominante é o mesmo dos últimos três anos, qual seja, a normalização da política monetária nos Estados Unidos. E aqui temos marchas e contramarchas. O banco central americano passou quase 18 meses acenando com a interpretação de que a inflação era “temporária”; depois subiu os juros básicos (março de 2022); e a partir de meados de 2023, começou a acenar para o início do processo de redução da taxa de juros. O mercado financeiro, que por definição desconhece a moderação, no final do ano passado começou a acreditar em até seis cortes nas taxas de juros ao longo de 2024 (lembrando que o FED faz oito reuniões por ano). Como efeito desse “entusiasmo” os juros dos títulos de dez anos recuaram de 4,93%, em outubro de 2023, para 3,88% no fim de dezembro. O SP500 subiu quase 13% em novembro e dezembro. Pois bem, quatro meses se passaram e os índices de inflação continuaram caindo discretamente, mas o lado real da economia prossegue dando mostras de um forte desempenho – mercado de trabalho em destaque. E de repente, ou não tão de repente, o “entusiasmo” do fim de 2023 transformou-se em dúvida e aflição de que talvez tenhamos apenas dois cortes de juros (alguns analistas comentam a possibilidade de não acontecer corte algum).
Mas os problemas macroeconômicos da maior economia do planeta não terminam aí. O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO – Congressional Budget Office) no seu relatório de março de 2024 aponta para um déficit público como proporção do PIB de 5,6%, em 2024; 6,1% em 2034 e 7,3% em 2044. Como consequência a dívida em poder do público, também como proporção do PIB, evoluiria como segue: 99%, em 2024; 116%, em 2034 e 139%, em 2044.Tudo isso no cenário base. O mesmo relatório indica que as receitas tributárias oriundas do imposto de renda das empresas evoluíram como segue (sempre como proporção do PIB): 2,0%, em 2024; 1,3%, em 2034 e 1,4%, em 2044.
Diagnóstico preliminar: a disfuncionalidade da economia parece clara. De um lado, temos a narrativa da Inteligência Artificial justificando que o valor de mercado das “sete magníficas” alcance um valor equivalente a 50% do PIB americano (as outras 493 empresas do SP500 ficam com os outros 50%). E, de outro lado, uma trajetória de déficit e dívida do governo federal que é insustentável. Simplesmente fingir que a solução surgirá por combustão espontânea é um amalgama de ingenuidade com estupidez.
Sobre a China (segunda maior economia do planeta): o problema maior é uma mega alavancagem que perpassa todos os agentes econômicos – empresas, bancos, províncias e governo central que, querendo ou não, há de ser o repositório do imbróglio todo.
E chegamos ao cenário doméstico. A macroeconomia em geral, vai bem. Mercado de trabalho forte; o crescimento do PIB, este ano, deve ficar ao redor de 2,0%; inflação entre 3,5% e 4,0%; SELIC ao redor 9,5%; taxa de câmbio ao redor de 5 reais por dólar. A questão fiscal, tirando as idas e vindas, deve mostrar um déficit primário ao redor de 0,7% do PIB. Cenário sem exuberância, mas dentro do paradigma do Brasil como um aluno nota 6.
Onde está o problema então? Na esfera microeconômica, em boa parte. E um bom exemplo disso é a discussão envolvendo a Petrobras e o pagamento de dividendos extraordinários. Essa é uma crise totalmente artificial, no sentido que a empresa vem apresentando um bom desempenho econômico-financeiro, mas a natureza das observações foge desse escopo. Pois bem, para além de qualquer juízo de valor, o fato é que este tipo de discussão afetou e afeta as ações da Petrobras e de outras empresas que, no conjunto, representam 16% do índice Ibovespa, ou seja, para um Ibovespa de 129.020 pontos (29 de fevereiro de 2024) estamos falando que 20.640 pontos que não reagem em função dos fundamentos dessas empresas, mas dos “ruídos” provocados por elementos exógenos ao funcionamento das companhias.
O resultado dos três elementos apresentados no título é que a alocação em ativos de maior risco simplesmente não está a pagar o incremento de volatilidade que traz aos portfólios.
Simples assim, triste assim.

Jorge Simino é diretor de investimentos da Vivest