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Gigante canadense no Brasil | Ao abrir escritório próprio no país, fundo de pensão do Canadá, de US$ 187,6 bilhões, planeja ampliar investimentos no mercado brasileiro

Mark Machin, do CPPIBEdição 258

 

Não são apenas os private equities e fundos soberanos que estão abrindo escritórios no Brasil para ampliar seus investimentos em nosso mercado. Gigantes como Carlyle, KKR e até um fundo soberano de Cingapura já possuem unidades próprias de gestão no mercado brasileiro. Um caso novo é o de um grande fundo de pensão que decidiu abrir uma unidade de investimentos no país. É o Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB), um dos maiores fundos de pensão do mundo, que conta com ativos da ordem de US$ 187,6 bilhões. O CPPIB já tem investimentos avaliados em US$ 2,18 bilhões alocados no Brasil, e sua presença local fará esse volume crescer de maneira significativa nos próximos anos.
A ascensão da classe média brasileira é vista com bons olhos pelo CPPIB, que entende que segmentos como infraestrutura e imóveis ainda podem se beneficiar dessa mudança social e apresentar importantes retornos. A fundação já conta com diversas participações nessas duas áreas no país, como uma fatia da Aliansce Shopping Centers, e joint ventures com a Cyrela Commercial Properties e com a Global Logistic Properties.
“O modelo preferido pelo CPPIB fora do Canadá é o de investir em conjunto com fortes parceiros locais, que nos oferecem um profundo conhecimento local e capacidade operacional”, afirma Mark Machin, vice-presidente sênior e chefe da área internacional do CPPIB. De acordo com o executivo, apenas no ano fiscal de 2013, foram feitas 85 transações que ocorreram via seus escritórios regionais em Londres e Hong Kong.
A maior parte do portfólio do CPPIB está mesmo no Canadá, que detém uma fatia de 35,7% do patrimônio do fundo, mas o restante está espalhado por diversos países e regiões, o que pode até mesmo servir como exemplo para seus pares brasileiros, de que o investimento além fronteiras não é nenhum bicho de sete cabeças. Na própria América do Norte, excluindo seu país de origem, estão outros 32,1%, com 15,6% na Europa e 10,4% na Ásia.
Machin, que está na fundação desde março de 2012, passou 20 anos no Gold­man Sachs, onde ocupou o cargo de vicepresidente para a Ásia, excluindo o Japão, quando esteve sediado em Pequim. Confira a entrevista exclusiva que o executivo concedeu à Investidor Institucional.

II – Há quanto tempo vocês estudam vir para o Brasil? Por que vieram agora?MM – Em 2012, o CPPIB estabeleceu o aumento de escala nos mercados emergentes como um dos seus principais objetivos de negócio, com foco na Ásia e na América Latina. A abertura de um escritório na América Latina fazia, portanto, parte desse plano, refletindo a presença que já havíamos estabelecido na Ásia com a abertura de um escritório em Hong Kong, em 2008. A América Latina é cada vez mais importante para o CPPIB, que já investiu mais de US$ 4,56 bilhões na região, sendo US$ 2,19 bilhões no Brasil. São Paulo é a capital financeira do Brasil e, a partir desse escritório, trabalharemos para identificar oportunidades de investimentos em cinco mercados principais: Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.
II – Quais são as principais dificuldades que o fundo de pensão já encontrou, ou espera encontrar, para iniciar sua trajetória no Brasil?MM – Esperamos uma competição maior por boas oportunidades de investimento à medida que fundos soberanos, fundos de pensão e muitos outros investidores reforçam sua busca por ativos ao redor do mundo.
II – O CPPIB fará contratações de profissionais brasileiros para ajudar na prospecção de negócios, ou pretende trazer uma equipe de fora?MM – Esperamos ter uma mistura de profissionais do Canadá, do Brasil e de outros países à medida que aumentamos nossa equipe em São Paulo. Acreditamos na importância de ter profissionais com conhecimento local em nossos escritórios regionais.
II – O fundo tem uma previsão de quanto de seu patrimônio deve ser alocado no Brasil? E em quais setores?MM – Não temos metas de alocação de ativos, mas economias em crescimento como a do Brasil oferecem oportunidades de investimento de longo prazo em setores que tendem a se beneficiar pela ascensão da classe média, como infraestrutura e imóveis.
II – O CPPIB já tem capital alocado no Brasil? Em quais setores?MM – Nossos investimentos no Brasil incluem uma participação de 27,6% na Aliansce Shopping Centers, uma participação de 25% no Botafogo Praia Shopping, no Rio de Janeiro, e duas joint ventures com a Cyrela Commercial Properties para investimentos em imóveis comerciais e industriais. Também criamos uma joint venture com a Global Logistic Properties por meio da qual adquirimos ativos na área de logística. Também aplicamos mais de US$ 1 bilhão em diversos fundos que investem no Brasil, incluindo o BTG Pactual Global Emerging Markets & Macro Fund e o Tarpon Partners Fund.
II – Como foi a expansão dos investimentos no Brasil em 2013?MM – No ano passado, expandimos consideravelmente nosso portfólio imobiliário no Brasil, incluindo participações em mais de 50 propriedades de varejo, escritórios e logística. Parte dessas propriedades está em desenvolvimento e, quando concluídas, somarão mais de 325 mil metros quadros de área para aluguel.
II – Quais os veículos preferidos ao realizar seus investimentos: diretamente nas empresas ou imóveis, ou através de fundos de investimentos?MM – O CPPIB realiza seus investimentos de várias formas. Temos investido em fundos de private equity e continuaremos a buscar oportunidades nesse sentido. Também investimos diretamente em imóveis e infraestrutura. O modelo preferido pelo CPPIB fora do Canadá é o de investir em conjunto com fortes parceiros locais, que nos oferecem um profundo conhecimento local e capacidade operacional.
II – Como avaliam as oportunidades de investimentos em infraestrutura no Brasil?MM – Geralmente estamos interessados em ativos de infraestrutura que nos ofereçam um retorno de longo prazo relativamente estável e que operem em ambientes regulatórios fortes, além de oferecer um risco relativamente baixo de substituição de tecnologia e um risco mínimo de substituição. Buscamos investimentos de longo prazo que possam ser mantidos por períodos de 20 a 30 anos. Entre os ativos de infraestrutura com essas características estão a transmissão e distribuição de energia elétrica, distribuição e transmissão de gás, companhias de água e esgoto e certos ativos da área de transporte, como rodovias, ferrovias, pontes, túneis, aeroportos e portos.
II – Como avaliam as perspectivas no setor imobiliário?MM – O Brasil é particularmente atraente a partir de uma perspectiva de longo prazo no setor de incorporação imobiliária. O significativo progresso da classe média brasileira está ajudando a fortalecer a demanda por imóveis para o varejo. Além disso, o crescimento econômico gera demanda por imóveis industriais de alta qualidade. Como a maior economia da América Latina, o Brasil oferece o tipo de oportunidade de grande escala para investir de forma eficiente.
II – Poderia explicar o modelo organizativo do CPPIB, que inclui a abertura e manutenção de escritórios próprios em alguns países fora do Canadá?MM – A execução bem-sucedida de nossa estratégia requer que sejamos cada vez mais globais. Para sermos vistos como parceiro preferencial nas melhores oportunidades de investimento mundo afora, precisamos construir e manter uma presença nas regiões nas quais investimos. A presença local nos ajuda a estabelecer uma marca forte. Profissionais locais nos oferecem insights, conexões e acesso ao fluxo de oportunidades que simplesmente não estariam disponíveis se não estivéssemos fisicamente presentes naquela região. Além disso, nos ajuda a desenvolver relacionamentos com parceiros locais. Constatamos o valor dessa estratégia em nossos escritórios em Londres e Hong Kong, que nos ajudaram a concluir mais de 85 transações apenas no ano fiscal de 2013.

Uma boa nota para o Fed | Diretor da UBS elogia criatividade e resultados da política de Bernanke à frente do Fed e aponta mercados atuais com melhores oportunidades

Bruno Bertocci, do UBSEdição 258

 

Ao analisar os resultados da política conduzida por Ben Bernanke à frente do Fed (Federal Reserve), o diretor de investimentos e gestor sênior da UBS Global Asset Management, Bruno Bertocci, não evita demonstrar uma visão bastante otimista. Ao falar sobre o processo de recuperação da economia dos EUA ele resume: “é basicamente a melhor recuperação do mundo”. Em entrevista exclusiva à Investidor Institucional, Bertocci lembra da tese de doutorado do ex-presidente do Fed, que falava sobre medidas extraordinárias tomadas por bancos centrais para evitar a depressão em países como o Japão. Desta forma, ele considera a política implantada por Bernanke como eficaz e coerente com suas ideias.
E isso reflete nas projeções otimistas para o crescimento da economia americana. Apesar de uma recuperação mais lenta e complicada, o diretor da UBS, acredita que o mercado de ações na Europa oferece atualmente melhores perspectivas que as bolsas nos EUA, ainda que estas também ofereçam boas perspectivas de ganhos. Leia os principais trechos da entrevista:

Investidor Institucional – Quais são as projeções de crescimento da economia dos EUA para 2014 e 2015?Bruno Bertocci – Devemos ter algumas coisas em mente. O Fed (Federal Reserve) deixou bem claro que retiraria os estímulos somente se tivesse sinais concretos de melhoras na economia. Se houvesse qualquer sinal de fraqueza por qualquer razão, obviamente o tapering seria interrompido. No geral, a economia dos EUA está na verdade se recuperando há algum tempo. Vimos números de desemprego divulgados e eles são significativamente melhores que o esperado.
II – Há outros indicadores que reafirmam a recuperação?BB – Vemos os salários reais começarem a se arranjar. Mais importante, vemos números do setor de habitação melhorando. Um relatório que recebemos mostra que os preços da habitação nos principais mercados crescem de 10% a 15%. O tom é bom. Eu esperaria que esse ciclo continuasse a expandir ao longo do balanço deste ano e provavelmente até 2016. A economia não está nem perto de operar com sua capacidade total. Então ainda temos um caminho a percorrer.
II – Que avaliação vocês fazem do trabalho que foi conduzido por Ben Bernanke no Fed nos últimos anos?BB – Temos que olhar sua trajetória anterior. Sua tese de doutorado olhava para a recuperação fracassada do Japão. Ele foi um estudante de medidas extraordinárias tomadas pelos bancos centrais para promover recuperação e evitar a depressão e claramente colocou todo seu aprendizado em prática, começando em 2008 efetivamente. O Fed teve ações incomuns, como comprar ativos para construção de seu balanço, tudo com o propósito de evitar a depressão e evitar um resultado deflacionário, que é exatamente o que aconteceu no Japão. Nem tudo que Bernanke tentou funcionou, mas não importa, pois ele tentou o suficiente. Se você olhar para o passo da recuperação dos EUA, é basicamente a melhor recuperação do mundo.
II – Explique um pouco melhor por que a política de Bernanke foi mais eficaz do que a política de outras regiões?BB – Os ganhos corporativos nos EUA têm sido aceitáveis, o acúmulo de ações na área habitacional que falharam está se desfazendo, então dou uma boa nota, no geral, por tentar coisas incomuns que tiveram um efeito positivo. É bem contrastante com a política do Banco Central da Europa, que não adotou a mesma linha. O papel deles é totalmente focado em inflação, não têm metas acerca de crescimento ou desemprego. A recuperação tem sido mais difícil na Europa.
II – Como a UBS tem avaliado os primeiros passos de Janet Yellen na presidência do Fed?BB – Janet Yellen tem uma experiência similar, seu conhecimento técnico é muito forte. Acredito que ela continuará no mesmo caminho. A transição tem sido relativamente suave, levará um tempo para encontrar suas propostas em seus discursos em público. No entanto, ela tem bastante experiência e entende a necessidade de não retirar estímulos muito rápido. E não podemos esquecer que ela é apoiada por Stanley Fischer, que são pessoas boas olhando a economia.
II – Quais as projeções para as taxas de juros dos títulos do governo americano?BB – Está claro que tivemos uma taxa de juros extremamente baixa. Por alguma razão o Fed manteve as taxas de juros em um nível baixo para tentar ajudar a economia. Em geral, isso teve sucesso. Então deveríamos esperar que as taxas fossem revertidas para um nível mais “normal”, não o nível mais alto. Não é o caso do Fed tentar desacelerar a economia ao elevar as taxas de juros. Portanto, um pouco semelhante ao tapering, na medida em que o Fed sentir que a economia está sólida e mais estabelecida, voltaremos a ter uma taxa de juros normalizada.
II – Qual o impacto sobre o mercado de ações?BB – Se você olhar para ciclos anteriores, o mercado de ações pode atuar muito bem em um ambiente onde a taxa de juros está retornando ao normal, pois isso é uma indicação de que a economia está sólida e crescendo.
II – Os fundos de pensão brasileiros estão investindo no exterior. Qual a sua análise sobre esse movimento?BB – O fato dos investidores brasileiros estarem investindo no exterior é algo bom no longo prazo, pois isso diversifica suas participações, reduz riscos e expõe seus portfólios para fontes alternativas de crescimento. A economia do Brasil é fortemente impulsionada por preços de commodities. Não é bom colocar todos os ovos na mesma cesta.
II – O que você recomenda a esses investidores em relação a setores e regiões para investir?BB – Eu posso falar sobre esse tópico ao apontar para onde o nosso próprio portfólio global está investido, e eu diria que modestamente subestimamos o mercado de capitais dos EUA. Não porque somos negativos em relação a ele, mas simplesmente por esse mercado ser o que se recuperou primeiro e a apreciação do valor é um pouco mais alta. Nos EUA gostamos dos setores mais cíclicos e aqueles setores com perspectivas de expandir ganhos ou com valor mais atraente. Os setores defensivos de ações de dividendos elevados são pouco atraentes, mas TI, consumo discricionário, relacionados com habitação, varejo e bancos selecionados são atraentes.
II – Quais os tipos de ações de empresas que deveriam atrair a preferência dos fundos de pensão brasileiros no exterior? BB – De modo geral, vemos um foco de vários anos por parte dos investidores em ações atreladas a dividendos, e isso é impulsionado principalmente pelo fato das taxas de juros sobre o rendimento de instrumentos fixos serem muito baixas. Portanto, as pessoas estão tratando as ações atreladas a dividendos como um substituto de títulos. Em bases históricas vemos que essas ações são muito caras. Dá para fazer muito mais dinheiro com elas? Não sei, mas certamente ações relacionadas a rolagem de ganhos e fluxo de caixa são muito mais atraentemente valorizadas e operarão de forma melhor em relação a recuperação econômica.
II – Quais são as suas previsões para as bolsas americanas para 2014 e 2015?BB – O mercado de ações é impulsionado por ganhos no fluxo de caixa. Então, se você tiver fatores econômicos aceitáveis, expansão dos ganhos e fluxo de caixa, os ganhos podem aumentar. Definitivamente há espaço para ganhos mais altos. O S&P-500 vai arrecadar entre US$ 108 e US$ 112 por ação. Não estamos perto do topo. Não faço projeções para o mercado, mas é fácil analisar que os picos de ganhos chegarão a US$ 130, US$ 140, então dá para colocar uma apreciação mais alta no mercado de ações quando atingir esses valores.
II – A Europa é um bom lugar para se investir agora?BB – Na perspectiva de valores, a Europa é um pouco melhor que os EUA. Está mais barato investir lá que nos EUA, mas o crescimento econômico é mais incerto. A Europa começou a se recuperar desde o verão de 2013 até o fim do ano passado. O mercado em crescimento tinha limites muito fortes. Agora, estamos esperando futuras expansões cíclicas, rolagem de ganhos, e a apreciação do valor na Europa está de 10% a 13% abaixo a dos EUA. As perspectivas são boas. As companhias europeias geralmente têm custos fixos maiores que as dos EUA, então quando as receitas aparecem, as alavancas operacionais são bem grandes e dá para ter uma boa melhora nos ganhos.
II – Quais são as projeções de crescimento para a Zona do Euro?BB – Quando falamos sobre Europa, temos que dividi-la em pedaços. As regiões do norte da Europa, Alemanha e países da Escandinávia têm uma economia muito forte e eficiente, se beneficiaram de um euro fraco, as exportações vão bem. A economia da Alemanha está indo muito bem, o mercado de ações também. As regiões do sul da Europa, e isso inclui Espanha, Portugal, Itália, são economias que tiveram os maiores problemas e estão trabalhando mais para se recuperar. Então, esses mercados não têm ido tão bem, mas estão definitivamente se recuperando.
II – O que tem sido feito para que esse cenário melhore?BB – O mais importante que temos que lembrar é que em um ambiente onde a produtividade da Alemanha faz seus salários serem muito mais competitivos, outras economias devem ter um ajuste para competir. Você vê isso acontecendo, por exemplo, na Espanha ou em Portugal, em certa medida no leste e em certa medida na Itália.
II – Por que a Alemanha tem se destacado em termos de crescimento?BB – Os alemães têm educação muito boa, mão de obra qualificada, empresas que conseguem valorizar muito e de forma única seus produtos com valores altos e margens altas, sem muita competição. O salário da Alemanha é um dos mais altos do mundo e eles são extremamente competitivos em produtividade, e isso é devido à mão de obra altamente qualificada e ao fato da indústria se focar em áreas nas quais têm vantagem tecnológica.
II – A Espanha tem apresentado melhoras na economia?BB – A Espanha teve uma das maiores bolhas imobiliárias da Europa, e a criação de um “bad bank” e o interesse por parte de investidores estrangeiros em comprar propriedades espanholas reduziu a valorização para ajudar a colocar um piso nos preços. Muitos investidores estrangeiros compram, por exemplo, propriedades de férias, e nossos contatos lá dizem que o mercado imobiliário da Espanha começou a melhorar. Os preços baixos ajudam os balanços dos bancos na maioria dos problemas que estão ligados a maus investimentos imobiliários. O mercado imobiliário está muito atrelado à recuperação dos gastos do consumidor.
II – Os conflitos da Ucrânia com a Rússia podem prejudicar a Europa?BB – Duvido. É muito mais um problema político. Claramente vai levar ao isolamento da Rússia, mas em termos de efeito na economia europeia, não acredito que seja tão significativo.
II – Quais outras regiões do mundo apresentam oportunidades?BB – O Japão está começando a se recuperar. Eles passaram por cerca de 10 anos de recessão. O Banco do Japão está fazendo o possível para manter o estímulo na economia, salários estão começando a melhorar. Estão começando a focar em rentabilidade em vez de apenas market share. Se as empresas continuarem nesse caminho, as perspectivas serão muito boas.
II – Falando sobre os mercados emergentes, qual a visão da UBS sobre a desaceleração do crescimento chinês?BB – O crescimento histórico da China foi extremamente rápido, impulsionado por obras de infraestrutura, estradas, ferrovias, pontes, aeroportos, e outras infraestruturas necessárias e muitas hidrelétricas, etc. Então a economia chinesa cresceu entre 8% e 10% em termos reais, mas a população não cresce tão rápido assim, portanto não é possível que a economia chinesa cresça tanto no longo prazo sem obras pesadas de infraestrutura. Acredito que a China está no processo de fazer uma mudança de longo prazo baseada no consumidor e capital. O que naturalmente leva a uma taxa mais baixa de crescimento. Mas seria entre 6% e 9%, o que é uma boa taxa entre a maioria das outras economias.
II – Quais mudanças precisam ser feitas para o Brasil voltar a ser mais atraente sob o olhar dos estrangeiros?BB – O principal é a estabilidade política. As pessoas querem saber que a política está estável. Há uma questão de salvaguarda de ativos estrangeiros. É um tópico ao redor de todo mercado emergente. Outro aspecto é que grande parte da economia é impulsionada por petróleo ou commodities. No geral, houve muitos investimentos pesados nas áreas de materiais no momento em que o desenvolvimento da economia na China desacelerou. Provavelmente temos mais abastecimento e demanda no Brasil. Obviamente a economia de consumo é muito atraente e a Copa do Mundo deve levar um bom fluxo no turismo, há infraestrutura de estádios e hotéis. Isso atrai os investidores com certeza.
II – O rebaixamento do rating do Brasil pela S&P pode afetar investimentos?BB – Provavelmente isso não é positivo, mas o rebaixamento por si só é um sinal em relação a economia e política. Não é a classificação, mas sim sua consequência. Mas o Brasil é um ótimo país com grandes perspectivas e economia muito vibrante que tem boas projeções no longo prazo. Agora há alguns problemas que precisam ser resolvidos.

Crescimento dos alternativos | Private equities, real state e hedge funds avançam com aumento da alocação dos fundos de pensão dos EUA após a crise de 2008

Saimir Pandiri, do BNY MellonEdição 257

 

Antes de ocupar o posto de vice- presidente e chefe global da área de serviços financeiros do BNY Mellon, o indiano Samir Pandiri atuou na área de investimentos alternativos da mesma instituição. Por isso, acumulou experiência e presenciou a evolução do mercado de private equity, real state (imobiliário), hedge funds e infraestrutura. Em visita ao Brasil no final de fevereiro passado, Pandiri concedeu entrevista exclusiva para Investidor Institucional e contou como foi o desenvolvimento e as principais tendências dessa indústria que já acumula recursos da ordem de US$ 3 trilhões. Como um dos principais executivos de uma das maiores instituições financeiras globais – US$ 27,4 trilhões em recursos sob custódia e administração –, o indiano acumula experiência na relação com os fundos de pensão e gestores do mercado americano.
Sua visita ao Brasil serviu para acompanhar de perto a adaptação do novo comando do BNY Mellon no país, após a contratação de Adriano Koelle e Carlos Alberto Salamonde no final do ano passado. Apesar de não querer comentar sobre os motivos que levaram ao afastamento da antiga direção, comandada por Zeca Oliveira, o vice presidente do BNY Mellon falou sobre os planos de expansão da operação do escritório brasileiro. Ele ressalta que todos os projetos anteriores estão mantidos, principalmente, em relação ao novo serviço de custódia centralizada, iniciado no primeiro semestre de 2013. Confira a entrevista na íntegra:

Investidor Institucional – Qual a sua avaliação sobre a evolução do setor de investimentos alternativos nos EUA depois da crise de 2008?Samir Pandiri – Se você olhar para 15 anos atrás, praticamente não existia a indústria de investimentos alternativos. Daqui dois a três anos, ela movimentará quase US$ 5 trilhões. Hoje ela já atinge quase US$ 3 trilhões, a maioria proveniente de private equity e imobiliários, mas também incluindo hedge funds, infraestrutura e recebíveis. Então houve um grande crescimento em investimentos alternativos, principalmente após a crise.
II – Qual o principal motivo para o forte crescimento dos alternativos?SP – Há uma razão muito simples para isso. Primeiro, as pessoas querem maior rendimento, mais alpha. Então eles procuram os alternativos como um meio de fazer isso. Em segundo lugar, é a diversificação. Se você investe tudo em ações muito longas ou renda fixa, você não terá a diversificação que precisa. E em terceiro, as pessoas ganham muito mais flexibilidade em relação à gestão do portfólio de investimentos quando têm um investimento em private equity ou em um hedge fund.
II – Como tem sido o crescimento dos investimentos alternativos entre os fundos de pensão dos EUA?SP – Estatisticamente, se você olhar para os fundos de pensão dos Estados Unidos, há 10 anos eles tinham pouca exposição aos alternativos. Atualmente, 24% dos ativos desses fundos de pensão são investidos em alternativos. Em alguns casos chega a ter até 60% de seus investimentos em alternativos.
II – Por que os fundos de pensão ampliaram a demanda por private equity? De que forma os riscos e a rentabilidade são compatíveis com as necessidades desses investidores?SP – Para os fundos de pensão ou para as seguradoras, eles têm compromissos de longo prazo. É preciso ter uma porcentagem de seu portfólio que pode ser ilíquida, o dinheiro não precisa ser usado amanhã, mas sim em 3 anos, 5 anos ou 10 anos. Então, na hora de combinar os ativos e seus compromissos, para muitos deles a responsabilidade é de longo prazo, então está tudo bem assumir um risco de longo prazo. Pois eles precisam combinar os prazos e a rentabilidade.
II – Essa tendência de crescimento inclui os investidores de varejo?SP – Acredito que a próxima grande tendência disso será investidores de varejo. Os produtos do varejo alternativo estão estourando nos Estados Unidos e na Europa e será o próximo fenômeno. Antes você precisava de US$ 5 milhões ou US$ 1 milhão para um investimento alternativo, mas agora você consegue investir com US$ 5 mil ou US$ 10 mil, como um indivíduo.

II â€“ Quais as modalidades de private equity que mais cresceram? Por que?

SP – Hoje há uma variedade muito grande de fundos. O private equity tem se tornado um investimento muito customizado. Pode ser de uma fábrica, pode ser de uma empresa, de qualquer coisa. O que diferencia é como esse mix é estruturado. Antes costumava ser estruturado de acordo com que era requisitado por uma determinada empresa. Agora está sendo consolidado em estruturas que têm recebíveis, renda fixa, ações, ou seja, é uma estrutura muito complexa, então talvez para uma transação de private equity, a administração propriamente dita dessa estrutura terá que lidar com diferentes ferramentas. Há muito mais derivativos, muito mais ativos colaterais sendo aplicados junto com recebíveis, renda fixa e ações. Você deve ter habilidade de servir diferentes tipos de estruturas para uma transação de private equity. O que é muito diferente de 5 anos atrás.
II – O que mudou na indústria de investimentos alternativos após o anúncio do início do tapering (retirada dos estímulos pelo Fed)? Quais as principais tendências com o novo cenário?SP – Ainda teremos muito mais crescimento nesse setor. Mas o tipo de crescimento será diferente. O que acredito que veremos é uma maior customização especificamente para clientes individuais. Por exemplo, com o surgimento de plataformas de conta gerenciadas, pois o fundo de pensão tem muito mais experiência, entende desses investimentos, então eles querem ter uma gestão dedicada de conta exclusiva para seu investimento e não em um grupo. Essa será a primeira tendência, eles não investirão em grandes grupos, e sim terão contas gerenciadas, o que é muito customizado.
II – Pode explicar melhor a tendência de customização?SP – Com o tempo, as pessoas considerarão muitos tipos de investimentos não-tradicionais, não só em private equities, mas também hedge funds e até imobiliários. Teremos ideias muito mais estruturadas sobre como o negócio é estruturado, pois diferentes investidores podem querer vantagens tributárias, outros rendimentos, outros querem retorno de longo prazo ou valorização do capital. Eles podem querer proteção cambial; as estruturas serão muitas mais customizadas dependendo das necessidades do investidor.
II – Quais são as principais mudanças na regulação do private equity e investimentos alternativos no mercado dos EUA?SP – Especialmente após a crise financeira, os órgãos reguladores querem mais divulgação e mais informação. Eles querem muito mais transparência acerca dos investimentos, eles querem ter certeza que o investidor está protegido no fim do dia. Em segundo lugar acredito que terão estrutura muito mais complexa, veremos estruturas inteiras sendo adaptadas para investidores individuais de acordo com suas necessidades. A terceira tendência, já falamos, serão plataformas de contas gerenciadas, veremos esse crescimento ao longo do tempo.
II – Como o mercado está se adaptando a essas novas regulamentações?SP – Historicamente, com o crescimento de private equities, muitos dos gestores faziam eles mesmos toda a administração. Acredito que outra grande mudança, provavelmente muito similar ao Brasil, será a terceirização da administração. Se pegarmos os hedge funds como exemplo, quase 70% do back office e middle office são terceirizados para administradores de recursos. Mas se olharmos para private equity, o número é apenas 20%, ou seja, 80% do trabalho ainda é feito internamente. Acredito que daqui alguns anos aumentará a terceirização profissional da administração.
II – Os fundos de pensão brasileiros estão começando a investir no exterior. Poderia dar algumas recomendações para esses investidores?SP – A primeira é ter bons parceiros estratégicos, com forte reputação financeira e capacidades globais. É importante selecionar um parceiro bem conceituado para trabalhar. A segunda recomendação é definir quais os mercados que o investidor pretende acessar. Pode ser um problema querer acessar muitos mercados de maneira muito rápida. Acredito que é melhor acessar alguns poucos mercados que a sua área de pesquisa apontar. A terceira recomendação é que tenha uma boa área de gestão de risco, com informações transparentes para os investimentos selecionados.
II – Tem algum outro ponto a considerar na hora de selecionar os investimentos no exterior?SP – Outra recomendação que ressalto é acompanhar as mudanças na regulação. Por exemplo, nos EUA há uma série de mudanças regulatórias, como a Dodd Franck, ou a Emir, na Europa. O investidor deve estar atento para as mudanças nas regras, então novamente é importante trabalhar com um parceiro que entende a acompanhe essas mudanças e que possa ajudar no gerenciamento e adaptação dos investimentos.
II – O que o BNY Mellon tem feito para reduzir o risco e melhorar a conformidade dos seus produtos e serviços na administração de fundos?SP – Tentamos fornecer todas as informações sobre o que chamamos de nosso serviço de Soluções Globais de Risco (GRS), que fornecemos a todos os clientes. Então, se você estiver investindo em fundo hedge e quiser saber como esses fundos estão atuando, como andam os investimentos, quais os valores mobiliários subjacentes, nós fornecemos essas informações. Também temos análise de performance e risco, então, todo mês ou trimestre ou fim do ano nós calculamos esses dados. Também estamos fornecendo cada vez mais um serviço que chamamos de análise de perspectivas de risco. Então o cliente mostra o portfólio e pergunta, por exemplo, o que acontecerá se as taxas de juros crescerem 2%? O que acontece se a inflação cair 2%? Ou seja, como afeta meu portfólio e como ele se comportará no ano que vem ou próximo trimestre.
II – Você pode comparar a regulamentação do mercado brasileiro com o mercado dos Estados Unidos?SP – Acredito que o mercado norte-americano tem muito mais regulamentações, mas o Brasil é um mercado muito estabelecido e sofisticado. Os reguladores são muito atentos a todos os problemas e é uma industria muito bem regulamentada.
II – Quais os planos do BNY Mellon para a unidade brasileira em 2014 e nos próximos anos?SP – Nos próximos anos acredito que vamos ver muita inovação no Brasil em relação a novos produtos como estruturados, custódia, etc. Entre esses novos produtos está o GRS. No Brasil apenas olhamos o risco quando ele acontece. Isso é um exemplo do que queremos desenvolver localmente. Outra área que queremos integrar o Brasil junto ao resto do mundo é a contabilidade dos fundos em algumas das nossas plataformas de tecnologia principais. Queremos ter uma plataforma global. Então, por exemplo, se um gestor estiver usando dados aqui no Brasil e quiser usar em Dublin, queremos usar a mesma plataforma. Outra coisa que faremos é ampliar setores. Possivelmente seguro, veremos muito mais desenvolvimento aqui no Brasil.
II – Qual a importância da operação do BNY Mellon no Brasil dentro do conjunto da América Latina?SP – O Brasil é, de longe, o mercado mais importante da região. Representa cerca de 85% de todo o negócio da América Latina. É o maior mercado único, todos os produtos estão aqui e construímos o negócio no Brasil nos últimos 15 ou 20 anos.
II – Quais os planos para os outros países da América Latina?SP – A equipe daqui está fazendo uma avaliação para ver onde mais vamos investir. Talvez México, Peru, Chile. No Caribe já temos grandes negócios.
II – O que representa a contratação de Carlos Salamonde e Adriano Koelle para dirigir as operações no Brasil?SP – Da minha perspectiva, eles são ótimos gestores. Eles conhecem o Brasil, conhecem a América Latina e conhecem nosso produtos. Antes de contratarmos Adriano, o time sênior da América Latina estava baseado em Nova York. Agora, eles estão baseados na América Latina. Isso é um sinal de avanço para nós como companhia por termos uma equipe local maior e mais experiente.
II – Como tem sido a transição da equipe antiga para a nova?SP – Temos uma equipe madura, todos os nossos clientes estão fazendo negócios conosco, ninguém nos deixou, e continuamos crescendo no Brasil. A transição tem sido fácil e suave. Lembro que embora tenhamos mudado toda a equipe sênior, não perdemos nenhum cliente nessa transição, o que mostra a força da relação com os clientes. Temos mais de 250 gestores independentes de ativos no Brasil e 20 investidores institucionais.

Capacidade de conciliação | Novo presidente da Abrapp escuta reivindicações das grandes fundações e consegue manter unidade de representação do sistema

José Ribeiro Pena Neto, da AbrappEdição 256

 

Quem conhece um pouco do perfil de José Ribeiro Pena Neto, novo presidente da Abrapp, logo percebe que, como bom mineiro, é um sujeito que mais escuta do que fala. Diretor de um dos maiores fundos de pensão do país, a Forluz, de Minas Gerais, ele desempenhou papel central para evitar uma divisão no sistema associativo dos fundos de pensão. Ele e seus pares mais próximos conseguiram não apenas evitar a saída das grandes fundações, Previ, Petros e Funcef, que ameaçavam deixar a Abrapp, como também ajudaram a levar para o sistema os novos fundos de pensão dos servidores.
José Ribeiro foi figura chave nas negociações com as grandes fundações que culminaram na formação de uma composição mais representativa para a diretoria e conselhos da entidade. Na primeira reunião do conselho da Abrapp, realizada no final de janeiro em São Paulo, estavam presentes figuras de peso como Ricardo Pena, atual presidente do Funpresp-Exe, e Carlos Flory, presidente do SP-Prevcom (ler matéria na pág. 24).
Confira entrevista exclusiva concedida à Investidor Institucional em que fala dos planos e desafios para a nova gestão:

Investidor Institucional – Quais as prioridades na próxima gestão e linhas de atuação que vocês vão defender para o sistema complementar fechado?
José Ribeiro Pena Neto – O primeiro ponto é a questão da sobrevivência do sistema. Temos falado muito nos últimos tempos sobre fomento, de crescer o sistema. Isso é importante, também está no nosso radar, mas precisamos cuidar de manter o que já está aí. Há algumas ameaças à previdência complementar, e precisamos cuidar disso para dar o segundo passo, que é o fomento.

II – Quais são as principais ameaças ou desafios nesse momento, ou para esse próximo período, para o sistema de fundos de pensão?
JN – A primeira é o ambiente econômico que estamos vivendo. Fatos recentes são muito interessantes. Nos sentimos desafiado por um cenário de queda de juros. Tivemos que começar a conviver com um sistema o qual não estávamos acostumados. Os fundos de pensão e a economia brasileira conviveram nos últimos tempos sempre com juros altos. Então tínhamos “facilidade” de ter altas rentabilidades com risco relativamente baixo. A queda sistemática nos juros “forçou” os fundos de pensão a buscarem alternativas de investimento, que tinham um pouco mais de risco, para poder alcançar nossas metas. E na hora que estávamos nos acostumando a isso, começando a ser desafiados, tivemos esse ano de 2013, que é um ano que todos nós queremos esquecer.

II – Como você avalia os resultados de 2013?
JN – O ano foi péssimo. Do lado renda variável, a bolsa se comportou mal. Acredito que as entidades que conseguiram, na sua carteira de renda variável, uma rentabilidade negativa, mas superior ao Ibovespa, estão se dando por satisfeitas. E na parte de renda fixa, houve uma volatilidade que nunca tivemos. Começamos o ano com as NTN-Bs de longo prazo com taxas reais menores que 4% ao ano. Mas, no final do ano, nós tivemos NTN-Bs pagando mais que 6,5%. Então isso é uma coisa que o nosso participante começou a questionar, a rentabilidade negativa em renda fixa.

II – Como os participantes estão reagindo?
JN – É uma coisa difícil de explicar. Temos certeza que os fundos de pensão, na sua grande maioria, têm uma situação de longo prazo equilibrada, mas no curto prazo tem sido complicado. Isso se soma à regulação. Temos essa regra, que acima de 10% de déficit você deve tomar medidas imediatas para equacionar.

II – Com relação a essa regulação, existe uma proposta da Abrapp para aumentar esse nível de déficit para 15%. Esse será um dos focos já no início da nova gestão?
JN – Há um pleito da Abrapp hoje, que nós continuaremos fazendo. Estamos tendo uma receptividade boa, mas o tema ainda não foi debatido, discutido e deliberado no CNPC [Conselho Nacional de Previdência Complementar]. É importante deixar claro que a Abrapp nunca defendeu a existência de planos desequilibrados. O que defendemos na época em que havia superávits significativos nos planos, e continuamos defendendo no momento em que apareceram alguns déficits, é que não se tomem medidas de curto prazo para resolver problemas de longo prazo.

II – Mas e a ampliação do prazo para equacionamento dos déficits, que o CNPC decidiu ampliar para mais 12 meses? Isso não resolve?
JN – Deu um refresco, mas não resolveu. Achamos que é necessário, além disso, pelo menos como uma medida temporária, que se amplie essa faixa para o déficit. É isso que pleiteamos, que seja aumentado de 10% para 15%.

II – Existe alguma outra ameaça, algum desafio no início da sua gestão?
JN – Há outro ponto que teremos que monitorar com cuidado. Foi feito um escalonamento para as taxas de desconto do passivo, chamadas metas atuariais, que caem até 4,5% ao ano em 2018. Isso foi feito em 2012 em um cenário nítido de queda de taxa de juros, que foi completamente revertido em 2013. Não sabemos o que vai acontecer em 2014. Esperamos que se retome essa tendência de queda, mas os sinais recentes na economia não são esses. Teremos que monitorar isso de perto, ou corremos o risco de ter que avaliar o nosso passivo com taxas absolutamente irreais.

II – Vocês devem rever essa questão das taxas atuariais?
JN – Com certeza. A expectativa dos agentes da economia é que isso não se reverta em 2014. Esperamos que não seja tão difícil quanto 2013, mas não há uma expectativa de uma reversão no quadro. Então teremos que cuidar disso, com certeza.

II – O que você acha que pode mudar na Abrapp com a sua gestão? Adotará uma linha mais conciliadora ou um estilo mais de ação e de pressão sobre os órgãos reguladores ou governo?
JN – O nosso compromisso é com as associadas, que achamos que não é muito diferente do compromisso que o [José de Sousa] Mendonça tinha, de ouvi-las e entender que o nosso sistema é muito diverso. Ele é heterogêneo, não dá para tratar uma entidade de grande porte, como Previ, Funcef ou Petros, da mesma maneira que tratamos uma pequena entidade. É preciso entender também as diferenças entre um patrocínio estatal e um patrocínio privado, entre o multipatrocinado e o monopatrocinado. Estaremos sempre atentos a isso.

II – A conciliação e a unidade foi uma das prioridades ainda no momento de formação da chapa para a eleição no final do ano passado?
JN – Sim, nossa proposta é de conciliação, tanto é que foi assim que formamos a chapa única. A maior ameaça que o sistema de previdência complementar fechado pode ter é uma quebra, uma desunião, um racha entre entidades. Foi isso que tentamos evitar quando montamos a nossa chapa, e é esse o nosso compromisso durante o mandato.

II – Como foi possível evitar que as grandes fundações deixassem a Abrapp? Como elas ameaçaram a saída?
JN – O processo foi simples, de conversar e ouvir as demandas. De um modo geral, o apelo que nos foi feito é que essas grandes entidades e mais um grupo de entidades que está ligado a elas fossem sempre ouvidas nos processos da Abrapp. Não eram queixas em relação à ação da Abrapp. Há um reconhecimento da importância da associação no passado e em vários momentos importantes e difíceis do sistema de previdência complementar. Mas havia uma queixa de falta de participação dessas grandes fundações em determinados momentos. Nosso compromisso com elas foi de, primeiro, sinalizar que estávamos abertos. Então, houve o pleito para que indicassem um vice-presidente, que acabou sendo o [Carlos Alberto] Caser, que é um grande nome do sistema, e ligado a uma grande entidade [Funcef].

II – Como foram as conversas que chegaram a essa chapa? O que significa a figura do Caser na vice-presidência?
JN – Nos foi pedido que a vice-presidência ficasse com uma das três entidades. E elas optaram por indicar o Caser, que foi muito bem recebido por nós. É uma pessoa conhecida, competente, que está no sistema há muito tempo, e um batalhador pelo sistema. Em paralelo a isso, foram apresentados alguns pontos que eles pediam que fossem considerados e incluídos no nosso programa de trabalho. Todos eles foram aceitos, acho que a grande maioria já era compromisso nosso, e o que não era, nós incluímos.

II – Essa conversa envolveu o papel do conselho deliberativo?
JN – Sim, nos comprometemos também a fazer com que o conselho deliberativo exerça, efetivamente, o papel de órgão máximo da Abrapp. Todas as correntes diversas que temos na Abrapp devem ser representadas nesse conselho. Temos um compromisso de envolvimento do conselho deliberativo na gestão da Abrapp, para que ele cumpra o papel estatutário que tem. O ponto que talvez tenha sido crucial na insatisfação das três grandes fundações em determinado momento foi o da representatividade das entidades no conselho da Abrapp.

II – E de que forma seria isso? O papel do conselho será revisto, priorizado como órgão deliberativo? Como enxerga a relação entre conselho e diretoria?
JN – Do ponto de vista normativo e estatutário, não se pretende fazer nenhuma mudança no estatuto da Abrapp em relação a atuação do conselho. Quer dizer, o conselho, pelo estatuto da Abrapp, é o órgão máximo e tem as atribuições que garantem a ele esse status. O que a gente propôs, e o que nos foi pedido, é que exista um debate maior com o conselho, talvez com a criação de comissões temáticas. Obviamente não cabe a nós, diretoria, indicar a melhor maneira, mas estaremos empenhados a fazer com que o conselho participe e dê um feedback para a diretoria nas grandes questões.

II – Um ponto de conflito no ano passado foi os investimentos em infraestrutura. As grandes fundações reivindicavam que a Abrapp tivesse uma postura mais ativa. Isso também vai mudar?
JN – Essa questão não surgiu nas conversas de formação da chapa. Acredito que, nesse ponto específico, não cabe à Abrapp interferir na gestão das entidades associadas. O que a Abrapp sempre fez, e continuará fazendo, é ser o fórum técnico para discussão. Criamos os canais, seja através da comissão técnica ou através de fóruns e seminários específicos, para que se discuta investimentos no exterior. Infraestrutura também já foi e certamente continuará sendo tema de eventos na Abrapp, da comissão técnica de investimento e outros fóruns que temos.

II – Mas há algum exemplo?
JN – Há um ponto fundamental, que já estava no nosso radar e depois dessas conversas com certeza voltou a discussão, que é o fato de 2014 ser um ano de eleição. Faremos uma aproximação da Abrapp com os possíveis candidatos para motivá-los, sensibilizá-los a priorizar realmente a previdência complementar. Em 2002, conseguimos isso, o candidato eleito foi o Lula e ele tinha entre as suas prioridades a previdência complementar. Tanto é que houve uma reviravolta grande na estrutura de governo na previdência complementar, que foi a época que chegou Adacir Reis na secretaria dessa área, e esperamos que os candidatos de 2014 também dêem essa prioridade para a previdência complementar.

II – Qual será o posicionamento da Abrapp em relação à Previc?
JN – A Abrapp sempre procurou manter um diálogo com os órgãos de governo. Hoje, eu diria que esse relacionamento é excelente, tanto com a Previc quanto com a SPPC e com o próprio ministério. O que pleiteamos para a Previc, especificamente, é a questão da burocracia. Ainda precisamos desburocratizar um pouco o trâmite das questões regulares dos fundos de pensão, seja na questão de alterações de regulamento, seja criação de planos, seja criação de entidades. Isso precisa ser agilizado lá dentro para tirar algumas amarras que emperram o crescimento do sistema.

II – A Previc deveria mudar algum aspecto de sua organização?
JN – Há outro ponto relativo à Previc, não com o órgão exatamente, mas com o governo. Defendemos que a Previc precisa realmente se transformar em um órgão de estado e não de governo. Quando surgiu o projeto da Previc, a ideia era que os dirigentes tivessem um mandato. Infelizmente, quando houve a aprovação, isso foi tirado do projeto.

II – Mas seria no molde de uma agência reguladora, ou não necessariamente?
JN – Não necessariamente. Na forma como a Previc está estruturada, mudou-se o ministro, mudou-se o governo, e ninguém pode chegar lá e falar “vou tirar o fulano e colocar o sicrano”, ou se “fulano” tomar uma decisão que não agrade ao governo, troca-se essa pessoa. Pode continuar como uma superintendência vinculada ao Ministério da Previdência, mas as pessoas que estão lá precisam ter mandato.

Nicho em franco crescimento | Fundos multicedentes e multissacados continuam se expandindo mesmo com a crise dos Fidcs dos bancos médios e a nova regulamentação CVM

Alexandre Silveira, da AnfidcEdição 255

 

Mesmo com os problemas enfrentados pelos Fidcs (fundos de investimentos em direitos creditórios) de bancos como o Cruzeiro do Sul e BVA, que afetou todo o mercado desde o ano passado, há uma classe de fundos que continuou em franca expansão. Os chamados Fidcs multicedentes e multissacados cresceram em média 20% ao ano desde o final de 2011. Por conta da pulverização dos cedentes de direitos creditórios e dos sacados de contratos, esses Fidcs apresentam menor nível de risco, explica Alexandre Silveira, presidente da Associação Nacional dos Fidcs Multicedentes e Multissacados (Anfidc).
Fundada há cinco anos, a associação vem desenvolvendo uma série de ações para dar maior transparência ao segmento. Mesmo com a continuidade do crescimento, Silveira admite que os problemas com os Fidcs dos bancos afetou a imagem de todo o setor. Com isso, ficou mais difícil manter o nível de captação de recursos juntos aos investidores institucionais. Por isso, a associação está desenvolvendo projetos como a criação de uma central de risco e de um selo de certificação para padronizar os procedimentos dos Fidcs dos associados – hoje em 58 fundos.
O total do segmento tem cerca de 125 Fidcs multicedentes e multissacados, que apresentam patrimônio de R$ 6 bilhões. Leia entrevista exclusiva concedida para Investidor Institucional:

Investidor Institucional – Qual a sua avaliação sobre o mercado de Fidcs em 2013? Por que houve uma forte desaceleração no lançamento de novos Fidcs?Alexandre Silveira – Os Fidcs que estavam abaixo dos bancos tiveram um desaquecimento sim, devido a alguns problemas que ocorreram com vários produtos. Mas é importante diferenciar que os problemas estavam concentrados nos produtos dos bancos. No nosso caso, dos Fidcs multicedentes e multissacados, não tivemos os mesmos problemas e nem registramos desaceleração. A média de crescimento do patrimônio líquido dos fundos dos últimos dois anos, para o nosso segmento, girou em torno de 20% ao ano.
II – E por que os Fidcs multicedentes e multissacados não foram afetados?AS – O principal diferencial tem sido a questão do risco por conta da concentração. No caso dos Fidcs monocedentes e monossacados, a concentração é muito alta. É bem diferente no caso dos nossos fundos. Pra dar uma noção de números, hoje quando se fala nos Fidcs multicedentes e multissacados, eles têm em torno de R$ 500 mil em média por cedente, e em torno de R$ 4 mil a R$ 5 mil por sacado.
II â€“ Explique um pouco melhor porque os Fidcs multicedentes e multissacados são mais seguros.AS – O principal fator é a desconcentração dos cedentes em cada Fidc. Além disso, tem a questão da garantia da cota subordinada, em que os cotistas subordinados são as empresas que prestam serviços ao fundo que originam. Ou seja, está atrelado primeiro o risco de quem origina. Esse, para mim, é o grande ponto nessa questão: a segurança do produto.
II â€“ Então o segmento que a Anfidc representa não foi prejudicado por essa crise dos Fidcs dos bancos médios?AS – Não. Para nós não respingou na questão da originação, porque nós estamos concentrados nos produtos na indústria. Ocorre que, logicamente, por ser um Fidc, acaba acontecendo um problema de imagem devido à captação, junto às fundações, junto aos RPPS. Isso acaba ocorrendo por ser um produto chamado Fidc.
II â€“ Nesse segmento em que vocês atuam, houve problemas em quantos Fidcs recentemente?AS – Foram poucos casos de problemas. O último problema foi em uma holding, que estava atrelada à empresa prestadora de serviços de um fundo. Houve perda de recursos na holding, mas os cotistas sênior do fundo não tiveram perda. Os gatilhos foram acionados, paralisou-se o fundo, e consequentemente foram devolvidos os recursos aos cotistas sênior. O subordinado é que perdeu recurso. As cotas subordinadas dos Fidcs são de 30%, e isso é margem bem segura para os investidores.
II â€“ Então não chega a ter problemas como a gente viu em Fidcs de bancos como o BVA ou o Cruzeiro do Sul?AS – Não, não tivemos problemas semelhantes. Nestes casos citados, os problemas foram decorrentes de fraudes mesmo, de irregularidades.
II â€“ E qual é a perspectiva de crescimento dos Fidcs multicedentes e multissacados?AS – A tendência é continuar com esse crescimento dos últimos dois anos, porque antes de 2012 a alavancagem era até maior. Devido à redução das linhas de crédito pelos bancos, o nosso produto, que está atrelado a linhas de crédito para a indústria, não está sentindo esse desaquecimento no mercado.
II â€“ Qual é o tamanho, hoje, do segmento de vocês, e qual a perspectiva para o ano que vem, ou para os próximos três anos?AS – Hoje o nosso tamanho está próximo dos R$ 6 bilhões, e deve fechar o ano que vem em torno de R$ 7,5 bilhões. Essas são as perspectivas para 2014, falando do universo total do mercado.
II – E a quantidade de lançamentos de novos fundos multicedentes também aumentou ou se manteve?AS – O número de fundos também aumentou. Só pra você ter uma noção, nos últimos 2 anos, para ter o mesmo comparativo, a associação saiu de 45 Fidcs, para, hoje, 58. Subiu 13 Fidcs nos últimos 2 anos. A indústria, como um todo hoje, está em torno de 120 a 125 Fidcs multicedentes e multissacados.
II – Como vocês estão trabalhando essa questão da imagem para retomar a captação em níveis mais adequados junto aos investidores institucionais?AS – A associação está entrando no quinto ano de existência. Essa questão da nova norma da CVM, que é a 531, que entra em vigor pleno a partir de fevereiro de 2014, veio a contribuir muito para essa imagem. A partir de fevereiro, todos os fundos deverão ter a assinatura dos documentos digitalmente. O controle é muito maior, a segregação será também muito maior. Isso contribui para dar mais transparência. Fora isso, nós iremos implantar até o final de 2014 a autorregulação própria da Anfidc, que chamamos de selo. Ou seja, haverá um selo de qualidade, com vários itens que os fundos deverão cumprir para ter esse selo.
II – Como vai funcionar esse selo?AS – Servirá para certificar as melhores práticas nos fundos, com um formato de checagem disso em cada período. Isso precisa ser uniforme para dar transparência ao investidor, não pode ocorrer que cada fundo tenha critérios diferenciados.
II – Quando o processo de certificação começa a funcionar?AS – O processo já está bem adiantado e pretendemos implantar até o final de 2014. Fora isso, nós também estamos para fazer um evento, em nível nacional, entre abril e maio, justamente para passar todas essas informações ao mercado, inclusive convidando as fundações, RPPS, agências de rating, a CVM, e todos os players.
II – A associação tem algum outro projeto nesse sentido?AS – Atrelado à 531, a Anfidc está implantando, dentro da auto-regulamentação também, a nossa central de risco.
II – Sobre a central de risco, como vai funcionar, e quais vantagens trará ao mercado?AS – Essa central de risco que a associação está desenvolvendo e deve colocar no ar a partir de janeiro de 2014, em que todos os associados que forem fazer operações nos Fidcs, encaminharão esse arquivo para a central. A central fará uma varredura para saber se aqueles títulos já não foram operados em outros Fidcs, se aquelas notas fiscais estão válidas.
II – Qual o objetivo dessa central?AS – Todos os fundos associados passarão por essa central de risco justamente para mitigar a fraude de quem origina, de enviar o mesmo recebível para dois fundos distintos. Essa central de risco é, para nós, a grande novidade em 2014, no item relacionado à fraude. Com isso, visamos mais transparência aos fundos.
II – Mas isso não é um papel do custodiante, fazer esse controle?AS – Sim, o custodiante tem que controlar, mas ele não tem como mitigar se a mesma nota fiscal está andando em dois fundos distintos, não tem mecanismos pra isso. Ele tem que controlar a documentação, checar se está toda em ordem. Mas ele não consegue enxergar se uma mesma nota andou em dois fundos distintos, isso não cabe a ele. Até mesmo porque um fundo pode estar com custódia em um banco, e o outro, com custódia em outro banco.
II – Os Fidcs voltam a ficar mais atrativos para os RPPSs e para os fundos de pensão? Você acredita que vai voltar essa demanda na captação?AS – A demanda não parou. Os fundos continuam captando. Acredito que houve, em um determinado período, uma dificuldade um pouco maior nos comitês de investimentos das fundações e dos RPPS, devido ao produto se chamar Fidcs e alguns fundos terem dado problema, mas isso ocorreu com os Fidcs dos bancos. Acredito que em 2014 vai ter um volume grande de captação junto às fundações e RPPS, até mesmo pelo volume de dinheiro que as fundações têm e pelas opções do mercado.
II – Por que acredita que os Fidcs são opções atrativas neste momento?AS – Devido à qualidade dos ativos e a pulverização, que levam à redução dos riscos, os Fidcs conseguem remunerar o que as fundações e RPPS precisam para atingir as suas metas atuariais.
II – Mesmo com o novo ciclo de abertura das taxas de juros, agora com a Selic próxima aos dois dígitos novamente, os Fidcs continuam atrativos?AS – Vamos fazer um comparativo, em números. Hoje, os Fidcs estão ofertando mais ou menos o IPCA + 7,5%, essa é a média. Se nós considerarmos o IPCA a 6% ou 6,5%, nós estaríamos falando de 13,5% a 14% ao ano. A Selic está em 10%. Acredito que ainda haja uma grande diferença, que ainda seja uma boa opção, devido à segurança do produto.
II – A segregação de funções para evitar o conflito de interesses também melhorou com a nova regulamentação da CVM? Em que aspecto?AS – Melhorou muito. Exemplo: tinha certos produtos que traziam a possibilidade de serem feitos dentro da mesma casa, e hoje já não pode mais. Então a nova resolução segregou muito, carimbou o que é função da custódia, o que é função do administrador e o que é a grande função do gestor, que antes estava muito vaga. Agora ficou bem específica. Então, a segregação que a 531 está exigindo é um ponto muito importante.
II – Estamos ouvindo de alguns gestores que a nova regulamentação, apesar de necessária, aumentou muito os custos de estruturação e manutenção dos Fidcs. Qual é a sua avaliação neste critério?AS – Houve aumento sim dos custos, até mesmo na questão da assinatura eletrônica, que demanda investimentos. Houve também aumento do custo por parte da custódia, pois aumentou o preço do produto. Mas eu acredito que os benefícios da segregação e da assinatura eletrônica são muito maiores do que propriamente o custo que isso originou. Não que não seja importante, mas no “troca-troca” acaba compensando.
II – Em qual setor da economia estão concentrados os originadores dos contratos para os Fidcs multicedentes e multissacados?AS – Praticamente 80% dos ativos que estão dentro desses Fidcs multicedentes e multissacados estão concentrados em créditos da indústria. A indústria vende a prazo, e os gestores antecipam os recebíveis dentro do produto Fidc. Então, a nossa diferença, é a concentração que está em 80%, mais ou menos, dentro dos recebíveis da indústria. Os outros 20% divididos entre serviços e comércio.
II – Como está a demanda da indústria e de quem tem necessidade de financiamento do crédito?AS – Para os fundos crescerem 20% em 2013, não foi devido ao aumento do PIB, porque o PIB está muito menor, consequentemente a indústria também. Ocorre que houve uma diminuição de linhas de crédito nos bancos, e isso acabou nos beneficiando no crescimento do crédito, principalmente na indústria. E também pela escala, e pelo volume de recurso, estamos conseguindo ter uma taxa atrativa em relação à indústria.
II – Como a redução de crédito dos bancos reflete no segmento de vocês?AS – A redução do crédito pelos bancos foi devido a não conseguir enxergar as operações no dia a dia, por ter automatizado muito os seus processos. Hoje, nos fundos, em média, cada 10 ou 12 clientes têm 1 gerente. Você estaria muito mais próximo do cliente do que o banco. Quando os bancos resolveram se concentrar mais em prestar o serviço, e em aplicar os recursos nos títulos públicos e assim por diante, acabaram abrindo espaço para estarmos mais próximos do cliente, que era o que eles não estavam conseguindo fazer.

Europa está saindo da recessão | Economista–chefe do grupo Allianz mostra que a Zona do Euro está se recuperando da crise após reformas e corte nos gastos públicos

Edição 254

 

Analisando a situação econômica da Europa, ainda não dá pra falar com otimismo. Ninguém pode supor que os países da Zona do Euro vão voltar a crescer aceleradamente nos próximos anos. Porém, os recentes indicadores de países mais preocupantes, mostram que o pior da crise está passando. A análise é do economista-chefe de um dos maiores grupos seguradores do mundo (o maior da Europa), a Allianz, Michael Heise, que publicou em maio passado, o livro “Emerging from the debt crisis” (editora Springer-Verlag Berlin Heidelberg). O grupo Allianz atua também na indústria de gestão de recursos com duas empresas de asset management, a Allianz Global Investors e a Pimco - esta última abriu escritório no Rio de Janeiro em 2012.
Em seu livro, Heise já antecipava a perspectiva de recuperação de países do sul da Europa como Portugal, Espanha e Grécia, que foram confirmadas com os recentes indicadores econômicos do terceiro trimestre de 2013. No início do ano, a perspectiva era de um crescimento negativo de 0,3% para a Europa neste ano. Agora, o economista projeta um crescimento de 0% para 2013, e de 1,5% para 2014.?
Michael Heise visitou o Brasil em outubro e concedeu entrevista exclusiva para a Investidor Institucional. Ele participou de evento promovido pela Allianz que discutiu a questão do envelhecimento da população e a necessidade de reformas para evitar problemas de aumento dos déficits como aqueles enfrentados pela maioria dos países da Europa. Na entrevista, Heise fala que vários países europeus já fizeram ajustes e reformas nos sistemas previdenciário e trabalhista que estão começando a dar resultados agora. Ele critica, porém, que os analistas do mercado financeiro ainda estão sub-avaliando os resultados de tais reformas.
O economista fala ainda dos processos de reforma da previdência na Itália e na Alemanha. No caso do sistema italiano, a reforma foi feita tardiamente, mas deve começar a dar resultados a partir do próximo ano. Já a Alemanha tinha se antecipado à crise, e o processo de reformas iniciado entre 2003 e 2005 foi um dos responsáveis pela manutenção do crescimento vigoroso da economia alemã, mesmo em época de crise da Zona do Euro.
Ele aborda também os efeitos do “tapering” (retirada dos estímulos do Federal Reserve) sobre a economia mundial e os impactos sobre os mercados emergentes. Heise prevê que a economia da América Latina voltará a crescer com mais força a partir do ano que vem, com uma taxa média anual de 3,5% entre 2014 e 2017. Os países da Ásia emergente devem crescer 6,2% por ano em média no mesmo período. Ele acredita que os mercados emergentes como Brasil, Índia e China terão cada vez maior participação na economia mundial. Já em 2025, os emergentes serão responsáveis por 50% da PIB mundial, disse o economista da Allianz. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Investidor Institucional – A Europa está saindo da crise? Como?
Michael Heise – Afortunadamente, a Europa está saindo da crise. O que não significa que todos os problemas foram resolvidos. Os desafios ainda não foram superados, mas a pior parte da crise parece ter acabado. A recessão que durou os últimos anos, sobretudo no sul da Europa terminou no segundo trimestre deste ano, mas isso não quer dizer que o crescimento interno será muito forte na Europa.

II – Quais os desafios que ainda continuam?
MH – Os desafios persistem na questão do equilíbrio das dívidas fiscais, da situação de déficit fiscal e na redução da dívida privada que muitos países acumularam durante os anos do boom econômico. Isso continua como um desafio para os próximos anos. E isso vai manter um crescimento baixo nestes países.]

II – Poderia nos passar alguns indicadores que demonstram essa recuperação dos países da Europa?
MH – Bem, quando a recessão entrou o ano de 2013, tínhamos a previsão que o crescimento seria de menos 0,3% no ano. Mas com a aceleração neste segundo semestre e com a perspectiva de melhoria para o próximo ano nós trabalhamos com uma perspectiva de crescimento de pelo menos 1,5% em 2014, que é a taxa de crescimento que provavelmente será sustentada também no médio prazo, nos próximo anos. Temos a previsão que a Europa vai crescer 1,8% ao ano em média entre 2014 e 2017.

II – A recuperação atinge os países mais afetados pela crise, tais como Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia.
MH – Sim, também nesses países em crise que você menciona eles estão em recuperação, isso é verdadeiro para Espanha, Portugal e Grécia. Irlanda tem se recuperado também nos últimos meses, e a situação lá já não é tão ruim. Esses países têm realizado ajustes muito grandes, estão ocorrendo reformas que os mercados estão subestimando, ou melhor, que muitos observadores estão subestimando nos últimos tempos. Se você olhar para o corte dos gastos em massiva redução em alguns desses países, você verá que o grande déficit que existia até alguns anos atrás, basicamente desapareceram na Espanha, Portugal e na Grécia. Então, você pode observar massivos ajustes macroeconômicos.

II – E a recuperação na Itália, qual a sua avaliação?
MH – Na Itália não houve um ajuste que foi tão longe ainda, mas que está sendo grande também. A Itália também está realizando algumas reformas, especialmente em seu sistema de previdência. Quando Mário Monti assumiu o governo ele fez uma grande reforma que ainda é subestimada pelo mercado. Outras reformas têm sido iniciadas mas seus efeitos ainda são pequenos. Então, a economia da Itália está se movendo vagarosamente, o crescimento ainda será negativo neste ano. Nós acreditamos que será levemente positivo no próximo ano.

II – Você poderia comentar um pouco mais sobre a reforma da previdência na Itália?
MH – O sistema previdenciário de lá tem uma taxa muito alta de manutenção do salário da ativa na Itália. Pessoas se apóiam no estado na terceira idade. Havia uma baixa idade de aposentadoria. Agora as coisas estão mudando. A parte mais importante da reforma foi que a idade de aposentadoria aumentou para 67 anos, o que começará a ocorrer de agora em diante. Claro que isso terá efeitos depois da mudança, apenas no ano que vem. Mas de agora em diante as pessoas serão colocadas na situação de ter que trabalhar mais tempo. Se você se aposentar cedo, terá redução em sua aposentadoria normal. Então isso é realmente um grande e verdadeiro esforço para mudar o sistema de aposentadorias na Itália. Se você olhar para os estudos da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] você verá que os chamados gastos com a previdência social na Itália vão ficar bem mais baixos com esta reforma. Por isso, a impressão que nada está sendo feito na Itália durante a crise não é totalmente correta. Há algumas coisas que estão sendo feitas, podem não ser suficientes, mas as mudanças estão ocorrendo.

II – Quais os impactos do provável tapering [retirada dos estímulos] à economia do FED sobre a Europa?
MH – Acredito que os efeitos do “tapering” sobre a Europa não será tão forte quanto nos mercados emergentes. Mas acredito que o início do “tapering”, quando se tornar realidade, vai aumentar a volatilidade massivamente nos mercados financeiros. E vai colocar estresse nos mercados financeiros. Isso vai afetar a economia como um todo, e claro que a economia europeia também será afetada. Acredito que isso vai acontecer daqui a pouco. Se o remédio é forte, se você gosta do remédio, da liquidez barata, não será fácil tirar o remédio sem criar um efeito global na economia. Nós vimos uma amostra disso quando Ben Bernancke começou com os comentários sobre o fim dos estímulos. Mesmo os comentários já causaram grandes movimentos. Eu acho que se olharmos para o futuro, e há diferentes escolas que estão falando sobre isso, sobre os efeitos do “tapering” real. Janeth Yellen terá os reais efeitos quando um monte de recursos forem retirados dos mercados. Será um mundo que vai mudar totalmente, não haverá mais dólar barato, investimento em crédito com altos ganhos. As características irão mudar rapidamente.

II – Quais os principais efeitos do tapering?
MH – Haverá muito mais volatilidade nos mercados financeiros. Será uma experiência que vai marcar a história e ficará nos livros de economia que irão contar para nós quando ocorreu a mudança da política monetária que o Fed realizou, o que aconteceu nos EUA, o que aconteceu em outros lugares, que enfrentaram esse momento. Então eu acredito que o principal impacto será o aumento da volatilidade.

II – O que os mercados emergentes devem fazer para se preparar para o início da retirada dos estímulos?
MH – Bem, eu posso descrever algumas pequenas coisas que deveriam ser feitas, uma delas é claro, é cortar aquilo que gera déficits, especialmente, os déficits podem ser prejudiciais nesta situação de flutuação do capital. Além disso, deve-se acumular reservas, certamente também é simples, e talvez não gastar as reservas muito rápido em resposta à depreciação da moeda. É melhor deixar depreciar um pouco, manter as reservas. Quando houver movimentação do câmbio, é melhor esperar um pouco até que se estabilize. Ou seja, não gaste todas as reservas com intervenção sobre o câmbio. E ver a questão dos déficits que acontecem com a fuga do capital. Afortunadamente no caso do Brasil, existe um investimento estrangeiro de longo prazo, que é uma pré-condição que o tapering não bata tão forte. Não há tanto capital do tipo “hot” que foge de imediato.

II – Quais as reformas que foram realizadas na Alemanha e que ajudaram a manter a economia alemã vigorosa mesmo neste período de crise?
MH – As reformas que foram realizadas na Alemanha foram terminadas em 2010. Foram reformas iniciadas entre 2003 e 2005 com o governo social-democrata, que não foi reeleito justamente porque fez as reformas. A parte mais importante da reforma foi no seguro social. A reforma reduziu alguns benefícios, de acordo com as mudanças demográficas. Esse tipo de mudança foi importante. Também fez com que o bem estar social focasse nas reais necessidades, tornou mais restrita a ajuda do bem estar social do estado. 

II – Você pode explicar um pouco mais sobre as mudanças no sistema previdenciário alemão?
MH – A reforma introduziu um fator demográfico no cálculo das aposentadorias. Então um número maior de pessoas com mais idade aumentou a expectativa de continuar trabalhando. Isso também ajudou a reduzir o número de pensionistas. Mas a mudança mais importante para e economia alemã no curto prazo foi a mudança no mercado de trabalho e no seguro desemprego, que foi reduzido. O seguro desemprego sofreu uma redução massiva. Antes as pessoas tinham direito ao seguro desemprego até 32 meses com cerca de 65% do rendimento salarial. Depois o seguro foi reduzido para 16 meses e depois para 12 meses.

II – Quais as consequências dessas mudanças?
MH – Isso fez com que as pessoas percebessem que tinham que procurar emprego e aceitar trabalhos que usualmente elas não aceitavam, porque o seguro era bastante generoso. As mudanças não foram muito bem aceitas no início, não foram muito populares, mas seus efeitos foram de criar uma onda de desenvolvimento econômico e uma redução forte do desemprego. Nós vimos as pessoas saindo do seguro social em busca de emprego. As taxas de desemprego que eram de cerca de 6%, caíram para algo em torno de 2% recentemente. O efeito da redução do desemprego é que agora temos uma onda de crescimento que tem sido muito boa para a economia alemã. As reformas foram muito importantes para que a economia pudesse enfrentar a crise da Zona do Euro a partir de 2010. Desafortunadamente, os últimos governos não continuaram com as reformas nos últimos anos.

Dias melhores no horizonte | Chefe de pesquisa de renda variável da BlackRock prevê menor pressão dos juros americanos e melhoria nos níveis de crescimento mundial

Stuart ReeveEdição 253

 

Ainda que não se possa afirmar que a turbulência tenha passado para os mercados emergentes, as previsões para os próximos meses começam a mostrar maior otimismo. A pressão do aumento das taxas de juros dos títulos americanos de 10 anos ainda preocupam, mas segundo Stuart Reeve, diretor de pesquisa da equipe de renda variável da BlackRock, o maior impacto já foi antecipado. Executivo de uma das maiores assets globais de fundos de renda variável, com US$ 3,8 trilhões de recursos sob gestão, o gestor visitou o Brasil em meados de setembro e concedeu entrevista exclusiva para a Investidor Institucional.
Responsável também pela gestão dos fundos globais de dividendos da asset, o gestor comentou as perspectivas dos cenários globais e as oportunidades de investimentos nos mercados estrangeiros. A BlackRock vinha atuando no mercado brasileiro exclusivamente com fundos de índices, do tipo ETF (Exchange Traded Funds), com R$ 1,81 bilhão de recursos sob gestão, mas agora a asset se prepara para oferecer fundos no exterior para um grupo de fundações brasileiras.
Segundo Reeve, que se juntou à BlackRock em 2006, a partir da fusão com a Merrill Linch, onde atuava desde 2005, os fundos de dividendos são uma opção apropriada para cenários de crescimento global moderado. Esses investimentos oferecem menor risco para os investidores que adotam um horizonte de longo prazo. Veja os principais trechos da entrevista a seguir:

Investidor Institucional – Qual a sua avaliação do desempenho das bolsas mundiais em 2013?
Stuart Reeve – Em termos gerais, as bolsas internacionais tiveram resultado razoavelmente positivo. O mercado global teve rentabilidade de 10% em dólar. Claro, que os resultados foram diferentes de uma região para outra. Nos EUA os resultados foram bem fortes. Na Europa e Japão foram fortes. No Japão foi muito forte em relação ao iene, mas em dólar também foi muito bem. Mas nos mercados emergentes não foi tão bem. Na verdade, foi fraco. Brasil, China, Índia e Rússia, todos eles tiveram retorno negativo até agora.

II – E por que as bolsas nos mercados emergentes estão indo mal neste ano?
SR – Basicamente são dois os motivos. O primeiro é que o crescimento desacelerou um pouco. E sabemos que são mercados que dependem dos níveis de crescimento para subir. E o segundo motivo são as taxas de juros nos EUA. Elas vinham ajudando muito essas economias. Com o ambiente de taxas muito baixas nos EUA, isso encorajava os investidores globais a investir em outras partes do mundo. Porque o ganho é muito mais atrativo em vários mercados.

II – E o cenário mudou com os anúncios do Fed de retirada de estímulos?
SR – Obviamente que depois que Bernancke sugeriu que os estímulos à economia americana seriam retirados gradualmente, claro que isso empurrou as taxas de juros nos EUA para cima, tornando-as mais atrativas para os investidores. Eles passaram a investir mais nos EUA e menos em outros mercados, especialmente nos emergentes. Então, nós tivemos o encontro de duas forças: a desaceleração do crescimento no Brasil e na China e também a questão da preocupação com as moedas, com o retorno dos investidores para os EUA.

II – E quais são as incógnitas neste momento?
SR – A questão agora é saber qual a pressão que continuará sobre os mercados emergentes. Eu acho que o problema do baixo crescimento será resolvido. Não haverá uma forte reação de aceleração de crescimento em nenhum lugar do mundo, mas acho que voltará a ser positivo. Não acredito que haverá recessão, a menos que ocorra alguma crise cambial em mercados emergentes. Então, a menos que ocorra uma crise de desvalorização cambial, que acho que não irá ocorrer, acredito que o crescimento voltará a melhorar. E a questão que fica é realmente quanto a taxa de juros americana vai continuar aumentando.

II – Quais as projeções que vocês estão trabalhando em relação às taxas dos títulos dos EUA?
SR – A referência é a taxa dos títulos de 10 anos. Em abril passado, as taxas estavam em 2%, este era o yield. E hoje estão em quase 3%. São quase cem basis points a mais em apenas quatro meses.

II – Qual a sua projeção para 2014?
SR – Essa é a dúvida, até que ponto vai continuar subindo. Se as taxas de juros vão se tornar cada vez mais altas, isso depende da recuperação da economia dos EUA. Quanto mais elas subirem, maior será a pressão sobre as divisas dos mercados emergentes. Eu acho que agora, em uma conversa que tivemos no comitê global da BlackRock, as taxas dos títulos dos EUA devem ir se estabilizando daqui pra frente. Não há razão para que suba muito mais. Possivelmente pode subir mais vinte ou trinta basis points, passando de 2,8% para 3,1%. Mas não acredito que saltará de 3% para 4%.

II – Se os juros americanos se estabilizarem e os mercados emergentes voltarem a crescer, voltam a ser atrativos para os investidores?
SR – Acredito que em geral os mercados emergentes, na perspectiva da valuation das ações, parece ficar um pouco mais atrativo. Em uma perspectiva de longo prazo, analisando a relação entre patrimônio e lucro por ação, a valuation continua atrativa. Acho que o crescimento voltará a ficar ok, provavelmente porque muito das pressões sobre o câmbio já foram antecipadas. Então, acho que os mercados emergentes terão desempenho muito melhor daqui em diante.

II – Quais são suas projeções para a economia brasileira?
SR – O que posso dizer é que o crescimento desacelerou no Brasil. Mas a economia continua muito forte. Eu acho que vai melhorar. O que acontece é que sempre que algo dá errado, a tendência é que as pessoas façam uma previsão terrível para o futuro. Acho que a autoridade monetária está conseguindo controlar a inflação. Mas isso não é o mais importante. Muito mais importante é a análise individual das companhias listadas que estão oferecendo boas oportunidades de investimentos para os investidores globais. Acho que muitas das companhias brasileiras vão seguir a situação econômica global, pois o Brasil hoje não é muito diferente do resto do mundo. E o crescimento global será positivo.

II – Quais as projeções para o crescimento dos mercados emergentes?
SR – Penso que o crescimento global médio será de 3%, e no mercados emergentes será de 5%. A economia americana provavelmente vai crescer algo em torno de 2%. E esta é uma situação que já vem dos últimos cinco anos. Acho que deve continuar nos próximos dois ou três anos.

II – Os fundos de pensão brasileiros estão começando a investir no exterior. Quais as suas recomendações de empresas ou países?
SR – Acredito que as oportunidades internacionais dependem de uma visão de longo prazo. O crescimento global atualmente não é espetacularmente bom. Então, não se pode ter uma visão de curto prazo, por exemplo, de três meses. Eu penso que as valuations das empresas neste momento do Japão e da Europa oferecem boas oportunidades de investimento. Os EUA estão obviamente em recuperação, mas acho que a valuation do nível médio do mercado já não é tão apropriada. Acho que as perspectivas sobre a Europa, por exemplo, não podem ser de curto prazo, pois a volatilidade ainda vai permanecer alta. Se você está investindo agora, irá receber os melhores retornos dentro de três a cinco anos.

II – E as oportunidades de investimentos em mercados emergentes?
SR – Os emergentes também são potencialmente interessantes, mas os investidores brasileiros devem pensar também na liquidez. Tem uma questão de liquidez dos mercados, por exemplo, no Japão há maior liquidez, assim como na Europa. Há algumas oportunidades interessantes nos emergentes, mas deverá ter um visão de longo prazo também.

II – Quais os tipos de fundos você recomendaria para as fundações? Os fundos de dividendos são os mais apropriados neste momento?
SR – Eu recomendaria este tipo de fundos por várias razões. Acredito que os cenários favorecem as boas companhias que podem aumentar as receitas com as vendas, lucros e os fluxos de caixa. Não é um cenário que favorece todo mundo. Se o crescimento global fosse de 4% a 5%, isso ajudaria a todos. Mas com um crescimento entre 2% a 3% você deve ter bons negócios para crescer neste ambiente. Negócios de qualidade, de alta qualidade que estarão bem em qualquer cenário. Então, acreditamos em companhias que têm operações multinacionais, que atuam em todo o mundo. Esta é a melhor maneira de diversificar os riscos. Ter boas e fortes posições competitivas. Isso dá vantagens competitivas.

II – Quais as características das companhias que vocês procuram?
SR – São companhias capazes de gerar fluxo de caixa para dividir com seus investidores. Em um ambiente de baixo retorno, você precisa procurar companhias que entreguem retornos em dividendos e mais uma apreciação de capital. Acredito que no período dos próximos três a cinco anos é o investimento mais apropriado.

II – Uma das críticas à bolsa brasileira é que o Ibovespa é muito concentrado. Como promover a diversificação com as oportunidades no exterior?
SR – Obviamente as oportunidades globais são muito diversas, no índice global temos mais de 2500 companhias em diferentes setores e diferentes regiões. Mas em geral, eu indicaria companhias da área de saúde, farmacêuticas. Para dar alguns exemplos, companhias como a Pfizer, Merck, Novartis, não necessariamente essas, mas similares, possuem negócios muito atrativos. Também há companhias em algumas áreas tecnológicas, cujo crescimento será bem atrativo. Também algumas companhias com boa gestão na área de consumo de produtos básicos. Ainda recomendo algumas companhias do setor industrial que são menos cíclicas.

II – E quais companhias você não recomendaria?
SR – Há ainda muito nervosismo para investir nos bancos europeus, acho que é um lugar difícil para os investidores irem porque há uma incerteza ainda sobre as posições do capital e o equilíbrio dos balanços. Você pode ter grandes retornos, mas também terá que assumir um risco muito alto.

II – E o hedge cambial deve ser feito nos investimentos dos fundos de pensão fora do país?
SR – Se você vai rodar um portfólio de ações globais, o menor risco ocorre quando não se faz o hedge cambial. A razão é que se você roda um certo número de companhias globais, já terá uma ampla faixa de exposição cambial. Então, você já terá uma exposição a várias moedas em seus investimentos internacionais. Se você tem um portfólio global, as empresas terão exposição cambial em vários mercados não só onde ela está listada, mas também na parte de suas receitas. Ela terá receitas em diferentes moedas. Se tiver esse portfólio global, você terá uma proteção natural para o risco global de moedas.

II – Você poderia comentar a estratégia da família dos fundos de dividendos que você é responsável?
SR – Seguimos duas linhas de atuação em nossa família de fundos globais de dividendos. A primeira é que tentamos maximizar os retornos com dividendos. Então, enquanto a média do yield do mercado global é de 2,5%, nós temos ações que entregam de 6% a 7% de dividendos. Isso está bem, claro que você tem que sacrificar alguns aspectos como provavelmente o crescimento. Então, buscamos um portfólio que entregue o máximo de yield em dividendos. A outra linha é buscar companhias que entreguem dividendos acima da média, estamos falando de 3% a 4%, mas também que possam combinar com um crescimento. É uma estratégia de companhias que entregam yield atrativo mas também alcançam um crescimento de capital ao longo do tempo.

II – Qual o tempo que as ações permanecem na carteira?
SR – Quando selecionamos uma companhia, nós mantemos por um longo período de tempo, em média por cinco anos, para conseguir um retorno de preço. O maior retorno deve vir através dos dividendos e através do crescimento. Isso não ocorre a cada três meses, mas em média a cada cinco anos. Você consegue o melhor retorno em um horizonte de longo prazo.

II – Quais as vantagens em termos de riscos?
SR – Com um portfólio desta forma, com ações de companhias globais, você tem uma carteira com menos risco que uma carteira típica de ações. Em média, as carteiras de dividendos apresentam dois terços do risco de um portfólio típico. Isso ocorre porque se obtém um dividendo atrativo, entre 3% a 4%, e um crescimento entre 5% a 10% ao anos. Se for mantido o horizonte de longo prazo, haverá bons retornos com menos risco. Ocorre uma proteção natural de mercado.

 

 

 

Pessimismo é exagerado | Ex-presidente do BNDES acredita que o Brasil está passando por “ressaca” após longa fase de crescimento e que recuperação virá depois de eleições

 Luiz Carlos Mendonça de Barros, da QuestEdição 252

 

Um dos principais expoentes do processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente do BNDES e ex-ministro das telecomunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, acredita que o mercado está se orientando com um excesso de pessimismo. Atualmente como sócio-fundador e estrategista da Quest Investimentos, ele acredita que o mercado está superestimando a fuga de capital dos mercados emergentes, devido às mudanças na política do Federal Reserve (Fed). Isso porque se a economia americana vai voltar a crescer mais aceleradamente a partir de 2014, então, os mercados emergentes também vão se beneficiar com o aumento da demanda dos países mais ricos. 

Por outro lado, ele critica a atuação da equipe econômica do governo Dilma, que não soube realizar um diagnóstico apropriado dos problemas da economia. Ele explica que o Brasil está vivendo um momento de “ressaca” depois de um longo período de crescimento que começou com o Plano Real e durou até 2010, no final do governo Lula. “Depois de um crescimento longo, em qualquer economia, são geradas distorções”, diz. O problema é que o governo atual continuou aplicando os mesmos incentivos ao consumo do governo anterior, o que fez agravar a situação de estagnação. Além disso, não sinaliza claramente se é favor ou contra a participação do capital privado nas concessões.
Para ele, 2014 será ainda um período difícil mas só até as eleições. Neste momento, ocorrerá um debate necessário, se a sociedade vai escolher uma linha mais intervencionista ou outra mais liberal. Confira a entrevista na íntegra:


Investidor Institucional – Como o sr. analisa as mudanças na política e na economia americana sobre o Brasil?
Luiz Carlos Mendonça de Barros – O Brasil vive um momento interessante em que há uma convergência de pessimismo dentro e fora do país por razões diferentes. A razão principal do pessimismo lá de fora com os emergentes é a mudança da política de incentivos do Fed e da economia americana. Todos estão pensando o seguinte: como os juros vão subir nos Estados Unidos, vai ocorrer uma saída de capital do mundo emergente, que volta para lá. Com isso, teremos uma crise nos emergentes. Tem um erro claro nessa análise, no meu ponto de vista.

 

II – E por que essa análise não está correta?
LCM – É que os juros ficaram muito baixos nos Estados Unidos devido à falta de crescimento nos países desenvolvidos. Veio a crise nos EUA e o medo de uma recessão muito forte. Eles esquecem que a volta dos juros, a normalização das taxas, ocorre porque a economia americana voltou a crescer. Estamos voltando para o que deve ser o cenário normal da economia mundial com os países avançados em crescimento. Então é uma interpretação errônea.

 

II – E como os emergentes podem não se prejudicar com as mudanças?

LCM – Se os juros estivessem subindo sem a recuperação da economia americana, tudo bem. Ora se voltou o crescimento nos Estados Unidos, e na Europa também está voltando, isso reanima a economia mundial, você chega aos emergentes pelo lado da demanda. Os estímulos aos emergentes pelo lado do capital, tentando uma rentabilidade maior, vai ocorrer com o aumento da demanda dos países avançados. Isso parece que é um erro, mas não tem jeito, pois o mercado se convenceu disso.

 

II – O sr. vê sinais claros de recuperação da economia americana?

LCM – Isso não tenha dúvidas, os Estados Unidos vão crescer 2,5% a 3% no ano que vem. Até a Europa também está revertendo o quadro de crise. Mas não adianta, o mercado se convenceu dessa tese, então você tem os emergentes sofrendo com isso. Temos a desvalorização do câmbio, que tem um lado interessante de estímulo, porque isso estimula as exportações. Mas temos esse excesso de pessimismo que vem de fora, dessa avaliação incorreta do que está acontecendo, e do que vai acontecer, principalmente no ano que vem.

 

II – Quer dizer que as mudanças do FED não deveria ter um peso tão grande na crise dos emergentes?
LCM – Evidentemente que o Fed ao mudar sua política, saímos de uma situação de juro muito baixo, com a perspectiva de aumento das taxas. Então todos pensam: o dinheiro que foi para os mercados emergentes agora volta todo para os Estados Unidos e com isso você reduz o crescimento do mundo emergente. Correto. Mas essa é apenas uma das mãos. Tem a mão dupla. A outra mão é que com o aumento da demanda das importações americanas, que chega aos países emergentes, compensa a saída do capital. Essa é a compensação que não se está olhando.

 

II – E o pessimismo aqui dentro, porque está ocorrendo?
LCM – E aqui dentro você tem também um pessimismo de uma economia que desacelerou bastante. Primeiro pela incorporação do pessimismo externo. Como nós estamos desacelerando, dizem tá vendo, isso já está afetando o Brasil. Agora tenho uma outra interpretação. No fundo, o Brasil teve um longo ciclo de crescimento que começou em 1993 e 1994, com o Plano Real, que vai até 2010, no fim do governo Lula. Nestes 17 anos, a renda per capta brasileira dobrou, o que corresponde a uma taxa de crescimento de 4,7% ao ano, que é um crescimento extraordinário.

 

II – E por que existe um pessimismo tão forte?
LCM – É o que sempre digo, não é possível que tenhamos um crescimento tão expressivo durante tanto tempo, veja como a sociedade mudou. Dois terços da população é considerada como parte da classe média, vivendo com contratos formais de salário e empréstimo. Não dá pra dizer que o país virou uma catástrofe. Mas por que a economia desacelerou? Por causa do ajuste normal que acontece depois de um longo período de crescimento. Normalmente o ciclo de crescimento é mais curto, é de sete ou oito anos, em nosso caso foi maior. Em qualquer economia, seja aqui ou nos EUA, depois de um crescimento longo, são geradas distorções.

 

II – Que tipo de distorções?
LCM – Falta de investimento, excesso de demanda, ou desequilíbrio na parte monetária. Com 5,5% de taxa de desemprego, está abaixo do que os economistas dizem que é o nível de equilíbrio do emprego. Com essa taxa, sendo que o grosso dos 5,5% é mão-de-obra sem qualificação. Então começa a ter pressão de aumento de salário. E você tem inflação. E ao mesmo tempo, houve uma expansão extraordinária do crédito. Mas, bateu no teto, não dá mais pra aumentar o crédito de consumo pela simples razão que a renda das famílias já está comprometida.

 

II – Qual a sua previsão para o PIB?
LCM – Acho que vai ser dois e dois. Devemos fechar o ano em 2%, e repetir 2% em 2014. É ressaca de crescimento, faz parte do DNA das economias de mercado.

 

II – O que deve ocorrer para que a economia volte a crescer?
LCM – Primeiro, precisa de uma freada de arrumação como toda economia de mercado. O que é isso? Reduz a demanda, principalmente do mercado de trabalho, leve a correções desse desequilíbrio de oferta e procura. Com a redução do consumo, é possível aumentar o investimento. Porque investimento e consumo brigam pelo mesmo espaço na economia. O problema é que a presidente Dilma não entendeu isso. Fez uma leitura que tinha que continuar com os incentivos de crédito para o consumo e aumento do salário mínimo, iguais do governo Lula, e não era isso.

 

II – E agora a equipe econômica não está tentando corrigir com o ciclo de aumento dos juros e outras medidas?

LCM – Tudo bem, o aumento dos juros é um dos componentes para isso. Mas não é suficiente. Se olhar o PIB do trimestre, tem informações importantes. A formação de capital bruta subiu, foi bastante alta. Chegou a 18,6% do PIB. Números anteriores eram 15% ou 16%. E o consumo das famílias que antes crescia a 5% ou 6%, cresceu 2,3% ou 2,4%. Ou seja, os números do PIB mostram ajustes na direção correta, redução de consumo e aumento do investimento. Mas isso deveria ser reforçado por uma política econômica de governo, que reforçasse essa direção. E isso é feito pelo mercado de forma autônoma.

 

II – Então, os indicadores estão melhorando?
LCM – Estão melhorando, mas é aquela história do copo meio cheio e meio vazio. O Brasil tem ainda uma economia dinâmica, passando por problemas de natureza conjuntural absolutamente normais. Não tem nada mais grave. Esse é o copo meio cheio, de uma crise normal de uma economia que cresceu durante um período longo. O outro lado, é que o governo não entendeu isso, e por não ter o diagnóstico correto, não consegue lidar com os problemas associados a essa situação.

 

II – E quais as medidas que o governo deveria adotar?
LCM – Tem que reduzir os gastos do governo e aumentar os investimentos. Ter uma política clara que incentive os investimentos privados na infraestrutura. O governo Dilma está no terceiro ano e ainda não conseguiu resolver se é a favor ou contra a privatização. Então, fica no pior dos mundos que é no meio. O governo tenta fazer as privatizações mas coloca tanto empecilho nos contratos que o setor privado não entra.

 

II – E os fundos de pensão como é que ficam neste contexto dos investimentos em infraestrutura?
LCM – Eles sozinhos não têm condições de financiar tudo. Os institucionais são peças complementares do capital privado. Tanto que vemos as privatizações das telecomunicações foram uma combinação disso. Os fundos de institucionais, de pensão no Brasil, são o elo mais importante da poupança interna. Agora não pode deixar o peso todo em cima deles. Eles são parceiros do investimento privado. E o investidor privado só entra se o governo respeita a dinâmica do capital privado. Essa é a principal crítica que faço ao governo atual.

 

II – E o que deveria ser feito em termos de taxas e garantias dos leilões de concessão?
LCM – Primeiro, eles deveriam deixar claro que a participação do setor privado é absolutamente fundamental. De maneira clara. Tem um pedaço pequeno do governo que diz isso, mas tem uma parte grande que diz o contrário. Tem um viés estatizante, que eu costumo chamar de soviético, que acha que o estado que tem que liderar esse processo, que o setor privado é especulativo.

 

II – Está sendo um ano muito complicado para os fundos de pensão. Como o sr. avalia as opções de gestão mais ativa oferecidas pelas assets?
LCM – Milagre ninguém consegue fazer. Efetivamente tem sido um ano muito complicado para as fundações. Tivemos a flutuação muito forte dos juros e, portanto, afetou um pedaço importante da carteira, e as bolsas com um resultado muito duro. Então, afetou bastante o resultado dos institucionais. O que 2013 está mostrando, é que há opções para quem operou em um segmento mais específico, de empresas do mercado interno, e fugiu das blue chips, que são mais afetadas pelo mercado internacional, tivemos resultados, não brilhantes, mas retornos mais favoráveis.

 

II – E qual a sua previsão para 2014?
LCM – Acho também que será um ano muito difícil, será um ano muito complexo. Vai ficar claro para o mercado que a economia mundial está se recuperando. E vai entrar em um ciclo de crescimento normal de um prazo de 6 ou 7 anos. Acho que vai ficar claro que a China conseguiu fazer uma mudança na política econômica, na direção de fortalecer o consumo interno e diminuindo a dependência de exportação de produtos baratos e investimento do governo. Esse é o lado positivo. Mas tem o lado negativo que será um ano eleitoral e tem uma presidente sendo questionada.

 

II – O crescimento mais consistente viria depois desses 6 ou 7 anos?
LCM – Não, não. Acho que o crescimento começa a acontecer a partir do final de 2014.

 

II – Tem um risco político mais evidente para o ano que vem?
LCM – Não acho que há um risco político grande. Vamos ter que discutir duas linhas. Uma delas é a linha mais intervencionista, e a outra, mais liberal.

 

II – E quem será o representante dessa linha mais liberal?
LCM – Eu acho que naturalmente será o Aécio. Mas também o governador de Pernambuco deve assumir um discurso mais pró-mercado. Ou se não for isso, será menos pró-estado.

Bem me quer, mal me quer... | Crítico do governo, economista diz que valorização do dólar é resultado de erros na política econômica e descaso com o capital estrangeiro

Edição 251

 

Por mais que o governo queime as reservas internacionais, a alta do dólar continua pressionando. Chega agora ao Planalto a conta por ter, em épocas de abundância de liquidez, “maltratado” o capital estrangeiro. Essa é a opinião do economista Alexandre Schwartsman, conhecido por suas fortes crenças e críticas.

Schwartsman foi diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) e membro votante do Copom, de novembro de 2003 a abril de 2006, e economista-chefe para o Brasil do Banco Santander de maio de 2008 até março de 2011, após passagem como economista-chefe para América Latina do Banco Real ABN AMRO. Doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), e sócio-diretor da Schwartsman & Associados Consultoria Econômica, o economista ainda é professor do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa.
O erro de prognóstico em relação ao problema econômico brasileiro realizado pelas autoridades competentes em um passado recente, que tem gerado uma série de medidas de controle de preços, que soam com ares de improviso aos ouvidos dos agentes de mercado, é um dos pontos abordados por Schwartsman nessa entrevista exclusiva à Investidor Institucional. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Investidor Institucional – Além da redução dos estímulos por parte do Federal Reserve (Fed), quais outras razões para a alta do dólar em 2013?
Alexandre Schwartsman – A alta do dólar tem sido mais intensa no Brasil do que em outros lugares por duas razões. Uma é que a economia do país não está bem como um todo. O crescimento é baixo, e isso reduz a atratividade do país como destino de investimentos. A outra razão é que acredito que o país tem maltratado o capital internacional. No período de abundância, o Brasil deixou claro, por meio das suas políticas, que o capital estrangeiro não era bem-vindo. Agora estão fazendo regras para incentivar o ingresso, mas no primeiro sinal que mudar o ambiente internacional vão fazer regras para dificultar o ingresso de novo. O Brasil tem apresentado um histórico ruim no tratamento destinado ao capital estrangeiro.

II – Não devemos voltar a ter o real mais forte no curto e médio prazo?
AS – Tenho a impressão que não, principalmente porque os sinais são de uma recuperação mais firme da economia americana. Olhando para o conjunto de informações que temos disponíveis, mesmo com cenário do ajuste fiscal compulsório que tiveram de fazer, a economia se manteve crescendo, mesmo remando contra a maré. Parece estar se consolidando o cenário que o Fed estava projetando, no qual a economia recupera, e a autoridade pode tirar o pé do acelerador monetário, o que significa alguns movimentos de fortalecimento do dólar. Percebemos os mercados reagindo em antecipação. Ninguém vai esperar para o momento em que o Federal Reserve anunciar o fim dos estímulos. Todos vão tentar antecipar isso. É um cenário no qual o dólar tende a se fortalecer globalmente.

II – Qual sua projeção para o dólar ao final de 2013?
AS – Alguma coisa perto de R$ 2,40.

II – Até por conta da antecipação que o mercado costuma fazer, quando o Fed realmente começar a tirar os estímulos, o impacto pode ser suavizado?
AS – Acredito que sim, porque em alguma medida já está no preço. Sempre tem o primeiro momento de algum ajuste quando as coisas vão ficar mais claras, mas já está de maneira geral trabalhando no sentido de fortalecer o dólar.

II – Qual o ponto de equilíbrio para o dólar de maneira que não prejudique nem importadores nem exportadores?
AS – O equilíbrio da taxa de câmbio é o balanço de pagamentos. Esse é o papel da taxa de câmbio, não é fazer outra coisa, não é resolver nossas ineficiências. O câmbio de equilíbrio não é uma variável gravada em pedra com letras de fogo. Se o preço das commodities subiu, o câmbio de equilíbrio é mais forte. Se o dólar está globalmente mais forte, então o câmbio de equilíbrio é mais fraco e vice-versa. São essas as variáveis que determinam.

II – Dentro do mercado de capitais, temos como traçar uma linha clara de quem ganha e quem perde com esse movimento?
AS – Não. Setores ligados à exportação seriam ganhadores, mas isso é muito geral. Vai depender se a empresa já fez o hedge, se não fez o hedge, se fez em excesso. Não dá para adotar o lema 'one size fits all'. Obviamente setores exportadores tendem a ganhar mais, mas não vai poupar o analista do trabalho de ter que olhar o balanço de cada uma das empresas e ver como elas estão. Elas ganham mais na exportação, mas precisa ver como está o endividamento delas, se é em reais, em dólares, se está ou não hedgeada, se já vendeu em um câmbio mais baixo ou deixou para vender agora. Tem todas essas considerações que tem que ser feitas, não há como conseguir uma resposta geral para todas essas questões olhando só para a taxa de câmbio no momento.

II – O governo dispõe de instrumentos para combater a alta do dólar?
AS – Não, porque o grosso disso acontece lá fora. Tem o caminhão de reservas, mas não vai resolver, e seria um mau uso das reservas. A beleza do câmbio flutuante é que ele flutua. Ao tentar impedir a flutuação dele, em geral você vai perder. Veja o exemplo de todos os países que tentaram sustentar a taxa de câmbio e basicamente queimaram reserva. Primeiro reclamavam que o câmbio estava muito forte, agora vão reclamar que está fraco demais. Tem que respeitar o que o mercado está dizendo.

II – E o que o mercado está dizendo?
AS – Está dizendo que estamos em um mundo onde os Estados Unidos crescem mais, em que a taxa de juros da região em algum momento vai voltar à normalidade e esse caminhão de liquidez será menor. Então é um cenário no qual vamos ter um dólar mais caro. Essa é a mensagem que estamos recebendo, agora por que não queremos entender essa mensagem? Porque deixamos a inflação escapar, e como ela está muito perto da meta, podemos ficar tentados a segurar o câmbio, mas podemos estar fazendo isso pelos motivos errados.

II – A alta do dólar não é prejudicial para o crescimento da economia?
AS – Não, ela é o que ela é. Não tem que ser feito nenhum julgamento moral. E quando estava apreciando? Também não. Em ambos os casos eram reações aos fenômenos de mercado. Tínhamos um mundo no qual os Estados Unidos cresciam pouco, as taxas de juros americanas ficaram lá embaixo, então se tinha uma configuração de taxa de câmbio. Se tem um mundo que é diferente, vai ter outra configuração de taxa de câmbio. Em outras circunstâncias até poderia prejudicar, se estivéssemos muito endividados em moeda estrangeira, poderia colocar um peso sobre as empresas e sobre o governo, mas não é o caso.

II – E o movimento do câmbio não pode prejudicar as empresas?
AS – As empresas, de maneira geral, em que pese ter dívida externa, estão capitalizadas. O grosso do passivo externo brasileiro está em investimentos, portanto devido em reais, não em dólares. Esse tipo de coisa não gera os mesmos efeitos nocivos do ponto de vista de balanço que gerava há dez ou 15 anos.

II – Então por que o governo fica atuando para evitar a desvalorização do real?
AS – A economia está mais preparada para aguentar uma desvalorização cambial. De fato, não tem motivo para ficar combatendo a desvalorização cambial que não seja a preocupação com a inflação, porque o Banco Central (BC) não tem condições de combater a inflação com o instrumento que ele deveria usar, então ficam fazendo esse controle com a taxa de câmbio.

II – Com a alta do dólar, a tendência é que o ciclo de aperto monetário tenha de ser maior do que o inicialmente projetado pelo BC?
AS – Deveria, agora se vai ser, é um outro problema. Tem um certo consenso de que o BC não vai conseguir colocar a taxa de juros em dois dígitos, porque politicamente é inviável.

II – A inflação mais alta prejudica a entrada de investimentos estrangeiros?
AS – Nem tanto. Para o investidor estrangeiro, a inflação não é necessariamente uma coisa ruim. Inflação em reais não afeta o poder de compra dele. O que interessa para ele é a taxa de juros nominal. Inflação mais alta, taxa de juros mais alta, para ele tudo bem, não tem nenhum problema com isso.

II – Uma troca no comando do Ministério da Fazenda poderia trazer algum alívio ao câmbio?
AS – Nenhum. O Mantega não é o formulador de politica econômica. Vejo o ministro Guido Mantega como atavicamente incapaz de formular qualquer coisa. A formulação de política econômica vem da Presidência da República. O Mantega é um mero executor de políticas que são formuladas em outro lugar, mau executor diga-se de passagem. A ruindade da política econômica não vem dele, ela passa por ele, ocasionamente é ampliada por ele, mas os erros têm origem na Presidência da República mesmo, não em outro lugar.

II – Podemos atribuir ao papel político da Dilma parte da desaceleração econômica na qual estamos?
AS – Por mais que me agradasse dar uma resposta positiva para isso – e certamente a política não está ajudando, acho que tem um erro de diagnóstico – a questão é a seguinte: o crescimento que ocorreu anteriormente, veio da conjugação de fatores que eram razoavelmente independentes da política econômica. Foram essencialmente dois fatores. Lá fora as condições eram extremamente favoráveis para produtores de commodities, basta ver o crescimento extraordinário da China. A outra parte é que esse ciclo mundial pegou o Brasil em uma situação em que o mercado de trabalho era muito frouxo, com uma taxa de desemprego alta. Isso permitiu que o país crescesse basicamente colocando mais gente para trabalhar, tinha uma disponibilidade de mão-de-obra que permitiu que quando se tinha impulso para crescer, tinha condições de responder a esse impulso.

II – E quais os maiores erros do governo atual?
AS – O que tem no caso do governo Dilma é uma incompreensão acerca desse fenômeno anterior. Os generais sempre lutam a última guerra. A reação do governo sempre foi reagir à última crise. O governo viu a desaceleração do crescimento e inferiu que a demanda é insuficiente, e tratou de colocar mais demanda na economia. Só que se faz isso num cenário de desemprego baixo o resultado não é crescimento, é inflação. Interpretaram a desaceleração econômica como resultado de uma demanda fraca, e na verdade era resultado de limitações no lado da oferta.

II – Esse foi o principal erro do diagnóstico por parte do Planalto?
AS – Esse foi o principal erro, que tem levado a uma série de consequências ruins. Errou o diagnóstico e a inflação subiu. Para lidar com a inflação, passou a lidar com uma política supostamente nova para controlar os preços. Segura o preço da gasolina, quebra a Petrobras e também o setor de etanol, que investiu acreditando no governo e está colhendo agora sua crença. Fez a redução forçosa das tarifas de energia elétrica, e descapitalizou o setor. A sensação de improviso que vemos na política econômica é essencialmente resultado desse erro de diagnóstico.

II – Como fazer para, em um cenário com a taxa de desemprego perto do zero, fazer a oferta crescer?
AS – Não faz mais, já perdemos a chance de fazer. Isso deveria ter sido feito há três ou quatro anos. Agora é pisar no freio, trazer a inflação para baixo, e dar tempo para criar um tanto de ociosidade na economia e voltar com uma política mais amigável ao investimento. Tem o programa de concessões, que pode ajudar, mas tenho sérias dúvidas sobre o sucesso da política de concessões, porque é feito por um grupo que não acredita no setor privado, e tem uma obsessão quase doentia por regular o retorno.

II – Os fundos de pensão começam a olhar para o exterior como nova forma de investimento. Este é um bom momento para isso?
AS – Não existe uma resposta geral para isso, depende do perfil de passivo de cada investidor. O passivo atuarial é IGP ou IPCA, e tem um descasamento importante nessa história, de IGP ou IPCA tendo ativos em dólar. Os fundos estão fazendo de fato uma aposta direcional na taxa de câmbio, não tem uma resposta definitiva.

Manifestações são positivas | Diferente de muitos gestores, especialista global em mercados emergentes prevê que protestos no Brasil trarão mudanças favoráveis para a economia

Mark Mobius, do Franklin TempletonEdição 250

 

Mudanças positivas para a política e para a economia. Essa é a expectativa de Mark Mobius, um dos gestores de recursos mais influentes do mundo, ao comentar a recente onda de manifestações que tomou as ruas de centenas de cidades brasileiras. Chefe global da área de gestão de recursos em países emergentes da Franklin Templeton, com experiência de mais de 40 anos de mercado, o especialista elogia a reação do governo federal brasileiro ao lidar com os protestos massivos. “Todos os demais governos ao redor do mundo não aceitaram as manifestações e tentaram reprimi-las. Mas no Brasil, elas foram bem recebidas, e isso é um sinal muito bom”, diz Mobius em entrevista exclusiva à Investidor Institucional.
Considerado um dos 50 profissionais mais influentes do mundo em 2011 pela Bloomberg Markets magazine's, Mobius não acredita que os investidores estrangeiros vão deixar de investir no Brasil por causa das manifestações. Ao contrário, ele acredita que a maioria dos investidores e gestores de recursos, inclusive ele mesmo, estão torcendo para que a onda de protestos seja aproveitada para impulsionar o necessário processo de reformas da burocracia brasileira. “Eu continuo otimista com as perspectivas do Brasil”, diz.
O especialista ainda compara o processo de manifestações no Brasil com outros lugares como Turquia e Egito e também analisa a situação de países como a Grécia, que enfrentaram ondas de protestos anteriormente e que agora voltam a se recuperar. Confira entrevista na íntegra:

Investidor Institucional – Qual é a sua análise sobre as recentes manifestações massivas que tomaram as ruas de diversas cidades brasileiras e mobilizaram milhões de pessoas?Mark Mobius – O que eu tenho visto é que as manifestações são muito positivas, nós estamos felizes em ver que elas estão acontecendo. Os protestos massivos devem impulsionar mais o processo de reformas do governo brasileiro, então nós estamos muito felizes em ver essas manifestações pacíficas.
II – Você escreveu recentemente em seu blog que as pessoas estão reivindicando o direito de ser ouvidas. Você poderia ampliar um pouco mais essa ideia?MM – Em primeiro lugar, isto é um fenômeno global como você deve saber. Com a era da internet, com os telefones celulares usados por muitíssimas pessoas ao redor do mundo, elas agora são capazes de estar juntas muito facilmente e trocar ideias. E isso é um excelente progresso, não apenas para o Brasil, mas também para o resto do mundo.
II – Quais as características do processo de manifestações que você encontra no Brasil que tem sido diferente de outros lugares?MM – As diferenças são que no Brasil as manifestações têm sido muito pacíficas, e mais importante que isso, as manifestações foram tomadas pelo governo como uma coisa boa, positiva. Todos os demais governos ao redor do mundo não aceitaram as manifestações e tentaram reprimi-las. Mas no Brasil elas foram bem recebidas, e isso é um sinal muito bom.
II – Como você analisa a reação do governo federal, da presidente Dilma, para enfrentar essa situação?MM – Acredito que o governo teve uma reação muito boa conforme eu tenho lido. Agora eu acho que falta apenas concretizar um novo passo para mudar e avançar com o processo de reformas. É um bom momento para aproveitar as acusações contra a corrupção de alguns congressistas e tomar uma direção correta. A presidente Dilma tem se esforçado para encaminhar essa situação, encontrando com as lideranças dos protestos e as autoridades locais e pedindo para os brasileiros não usarem a violência.
II – E quais os possíveis impactos negativos para a economia brasileira? Os protestos massivos podem afetar negativamente o crescimento da economia?MM – Acredito que não. Se o governo levar adiante as reformas necessárias, os impactos sobre a economia brasileira serão muito positivas. O risco é que o governo não faça nada, que o governo fique paralisado e não tenha nenhuma reação. Esse é o maior risco. Mas eu não acredito que isso vá acontecer neste caso. Acredito que eles vão tomar as ações necessárias e avançar alguns degraus para introduzir as mudanças reais. Mas esse processo deve continuar e deve ser ampliado.
II – Então, você acredita que o fenômeno das manifestações no Brasil pode trazer benefícios para a economia?MM – Para as pessoas e para os negócios, deveria ser apropriado melhorar os serviços públicos. Nesse sentido, nós estamos incentivando as manifestações porque achamos que o Brasil pode melhorar, e pode experimentar até mesmo um crescimento mais acelerado que no ano passado. Com o twitter, celulares e outras formas de comunicação eletrônica, a população pode expressar seus sentimentos para os políticos, e estes podem liderar uma mudança positiva.
II – Os investidores estrangeiros estão assustados com o tamanho das manifestações que tomaram conta do Brasil nas últimas semanas? Qual é a sua percepção como um importante investidor estrangeiro que aplica recursos no mercado brasileiro?MM – Nos não estamos assustados com as manifestações, nós realmente estamos encorajando que elas continuem, especialmente na forma que elas têm tomado, de uma maneira pacífica e progressiva. Eu não acho que os investidores estrangeiros vão deixar o Brasil por causa do processo de manifestações. Eu acho que é o contrário, que os investidores agora estão incentivando que os protestos sigam, especialmente para gerar as mudanças necessárias no governo do país.
II – Porém, percebemos que no curto prazo os recursos dos estrangeiros estão saindo da bolsa de valores brasileiro, para citar um exemplo, você não percebe esse fenômeno?MM – Nós não estamos saindo. Mas sim, há outros que estão saindo pois existe uma tendência geral recente de deixar os mercados emergentes, não apenas o Brasil, mas outros mercados emergentes porque os investidores estão achando que os mercados dos EUA estão mais atrativos. Mas acredito que seja um fenômeno temporário que não deve durar muito tempo.
II – Quais os impactos da recuperação da economia dos EUA e as prováveis mudanças na política de incentivos do Federal Reserve sobre as economias dos países emergentes?MM – A atual política do Federal Reserve é bem diferente da política adotada durante a crise financeira da Ásia. Naquela época, o FMI recomendou aos países asiáticos que eles deveriam apertar seus orçamentos e reduzir os gastos. Durante a crise dos EUA a recomendação é aumentar os gastos. No caso da crise asiática, a recuperação foi mais rápida, mas também mais dolorosa. No caso da crise dos EUA, temos também um processo de recuperação, mas no longo prazo as consequências podem não ser muito boas. Então, temos que esperar para ver o que acontece no futuro.
II – Com os indicadores negativos da economia brasileira, que vem desde o ano passado e continuam em 2013, os investidores estão preferindo investir em outros países da América Latina? Quais países?MM – A economia brasileira é a maior da América Latina e, por isso, há muita dificuldade para que os investidores não considerem as oportunidades no Brasil. Então, eu não diria que os investidores estão buscando outros países, que estão trocando o Brasil, mas que estão olhando para outras opções atrativas. Então, além do Brasil, podem considerar as oportunidades em países como Colômbia, Chile, Peru e México.
II – Alguns analistas fizeram comparações entre o cenário de manifestações no Brasil e na Turquia, devido às semelhanças no processo de forte crescimento da economia dos dois países e agora com a ocorrência dos protestos massivos. Você também poderia comparar os processos dos dois países?MM – Sim, é muito importante perceber que a reação do governo turco foi bastante diferente da reação do governo brasileiro e isso tem muito a ver com a maturidade dos sistemas políticos dos dois países.
II – Você poderia comentar um pouco mais sobre as diferenças entre os processos de manifestações do Brasil e da Turquia?MM – As manifestações no Brasil tem se desenvolvido em um ambiente mais pacífico e ordenado enquanto o processo da Turquia tende a ser mais violento.
II – Quais os impactos dos protestos e da reação do governo turco sobre o mercado de capitais naquele país?MM – Tem ocorrido algum problema em função do cenário social, mas os impactos não foram muito significativos ainda.
II – Há algum outro país que pode ser comparado ao Brasil e a Turquia neste processo de manifestações? Por que?MM – Sim, o Egito. Lá no Egito houve um processo similar de manifestações massivas. Porém, lá a população tomou as ruas contra as políticas e medidas adotadas pela irmandade muçulmana. Contra as políticas iniciadas quando a irmandade muçulmana venceu as eleições. Então, no caso do Egito, os protestos começaram quando as mudanças foram chegando nas pessoas. As pessoas repudiaram as mudanças que tornavam o país mais conservador.
II – Outro país que enfrentou protestos anteriormente foi a Grécia. E recentemente a Grécia teve a nota de rating soberano elevado novamente, voltando a figurar no grupo dos países emergentes. Quais as lições que podem ser tiradas do processo grego?MM – Acho que a primeira lição é que a Grécia e todos os países europeus estão mudando, estão implantando reformas institucionais, porque sem isso, não será possível voltar a crescer no futuro. Isso é uma primeira lição. A segunda lição que falamos há muito tempo, é que não há motivo para a Grécia deixar a Zona do Euro ou deixar a Europa. A única coisa que deve ser feita é instituir as reformas necessárias, que agora estão sendo feitas. Devemos ter fé e paciência em casos como o da Grécia.
II – Recentemente você esteve no nordeste do Brasil, em Recife. Você acredita que é uma região com boas oportunidades de investimentos?MM – Sim, eu percebi que há um forte desenvolvimento no nordeste do Brasil e isto é um bom sinal.
II – E sobre outras regiões ou setores da economia brasileira, o que você enxerga com boas perspectivas de desenvolvimento?MM – O que é mais interessante é que há um esforço para propiciar uma melhor distribuição da riqueza. Isso é uma coisa muito boa, colocar mais dinheiro nas mãos das pessoas mais pobres é realmente muito positivo. Então, eu diria que estas políticas de distribuição são muito bem sucedidas e devem ser elogiadas.
II – Você continua otimista com as perspectivas da economia brasileira?MM – Sim, eu continuo otimista com as perspectivas do Brasil, porque a economia é muito bem diversificada. Os índices da agricultura estão indo bem, o setor manufatureiro está bem e o mais importante é que os indicadores de consumo estão bem. Então, a combinação de todas essas coisas aponta que a economia brasileira vai continuar se desenvolvendo bem. Nós não perdemos a esperança no potencial da economia e seguiremos buscando oportunidades de investimento no Brasil.