Problemas com a União

Edição 234

Carlos Henrique Flory, da SPPrev

Os deputados estaduais da oposição ainda tentaram adiar a votação do novo modelo de previdência dos servidores do Estado de São Paulo. Eles alegavam que não havia sentido em aprovar o novo fundo paulista (SP-Prevcom) antes do projeto da União, que ainda patinava nas discussões do Congresso Nacional. Mas o idealizador do projeto de São Paulo, Carlos Henrique Flory, sabia que a antecipação da votação era importante para evitar discussões e reivindicações que poderiam acontecer se o fundo dos servidores federais (Funpresp) passasse por um processo de flexibilização.
Dois meses depois da votação do SP-Prevcom, aprovado em dezembro, o que era uma preocupação vem se concretizando, conforme explica o superintendente da São Paulo Previdência (SPPrev) em entrevista exclusiva a Investidor Institucional. Confira as críticas que o ex-presidente da Petros faz em relação às mudanças do projeto do Funpresp. Ele explica como isso deve criar problemas para os estados que deixarem para votar a previdência complementar depois da União. Ele também detalha o desenho da nova previdência de São Paulo e mostra as projeções do que deve ser um dos maiores fundos de pensão do mundo em algumas décadas.

Investidor Institucional – Por que mudar o modelo de previdência dos servidores públicos?
Carlos Flory – As pessoas que começam a atividade profissional hoje são cada vez em menor número do que as que já estão aposentadas. Então, a relação entre ativos e aposentados está caindo drasticamente. Em São Paulo especificamente, a relação de ativos com os beneficiários de aposentadoria ou pensão, é de 1,2. Essa relação vai se reduzindo não só aqui, mas no mundo inteiro. Vejamos as crises na Grécia, na Itália, na Espanha e outros lugares: elas não aconteceram só por isso, mas têm um forte componente no problema da previdência, porque tem cada vez mais gente vivendo da aposentadoria.

II – Qual foi o impacto nas contas do Estado de São Paulo em 2011?
CF – Em 2011, foram pagos R$ 16,7 bilhões. Esse valor corresponde ao total de benefícios pagos aos aposentados e pensionistas do Estado de São Paulo. E nós arrecadamos com contribuições dos ativos, dos inativos e dos pensionistas, R$ 2,7 bilhões. A contribuição patronal deu R$ 4,5 bilhões, que corresponde a uma alíquota de 22%. Pra fechar a conta faltaram R$ 9,5 bilhões no ano passado. Não era possível continuar com o regime de repartição simples. Por isso, estamos implantando o novo sistema de previdência complementar para os novos servidores.

II – Como o sr. projeta o crescimento do fundo complementar de São Paulo?
CF – A grande maioria dos servidores da ativa, que são 540 mil atualmente, deve se aposentar nos próximos 12 anos. Cerca de 30% ganham acima do teto. Então estamos falando em 160 mil servidores que estarão contribuindo para esse fundo de previdência. É o pico da pirâmide em termos de remuneração. A maioria dos fundos de pensão hoje não possui essa massa. E muitas fundações também estão caminhando para a maturidade, com grande número de aposentados. Aqui estamos tratando de um fundo que terá somente entradas, só alguns poucos pensionistas em caso de falecimento.

II – Como será o ritmo de capitalização desse novo fundo?
CF – Se o fundo fosse criado há 40 anos, teríamos um plano de R$ 285 bilhões, quase o dobro da Previ. Em dólar seriam US$ 165 bilhões, o que nos colocaria logo após o CalPERS. Seríamos o sétimo maior fundo de pensão do mundo, isso se a decisão tivesse sido tomada lá atrás. Então é razoável supor que dentro de 40 anos estaremos nesse patamar. Imagine se a União e outros estados também entrarem na previdência complementar – será muitas vezes maior do que todo o sistema fechado hoje.

II – Por que São Paulo se adiantou e aprovou o sistema de previdência complementar antes da União?
CF – O fato de definirmos um caminho para a reestruturação do sistema do estado independe do modelo da União, por um motivo muito simples. Os mandamentos do novo sistema estão previstos na Constituição, que diz que cada ente da federação pode estabelecer o teto de remuneração igual do regime geral desde que crie o regimento complementar – isso está no artigo 40 da Constituição. Diz também que isso deve ser feito por meio de entidade fechada. Toda a regulamentação da previdência complementar está definida pelas Leis 108 e 109. Todo o enquadramento já está dado, não precisávamos esperar.

II – Tem alguma diferença na comparação com o modelo que deve ser aprovado pela União?
CF – Em São Paulo decidimos não mexer com o direito adquirido e nem com a expectativa de direito. Já o projeto da União prevê a possibilidade de o atual servidor, que está no modelo antigo, migrar para o novo. O novo modelo de São Paulo é exclusivo para os novos servidores. O que fizemos, ao contrário do que a União pretende adotar, foi não mexer com os antigos e atuais funcionários, que estão hoje. Aqui nós não fizemos essa abertura. Apesar de isso ser possível pela Constituição, o governador Alckmin dicidiu que o novo modelo serve somente para quem vai entrar no estado daqui para a frente.

II – Essa é uma das dificuldades para a aprovação do fundo dos servidores federais?
CF – Tem outras dificuldades também, mas essa é uma delas. Quando você mexe nos funcionários da ativa, você aciona toda a resistência da organização sindical. No caso do Estado de São Paulo, não houve nenhuma reação contrária ao projeto da parte sindical, porque simplesmente não estávamos mexendo com nenhum funcionário. Estávamos mexendo apenas com alguém que nem entrou no estado ainda, que não está representado aqui.

II – Vocês tiveram algum tipo de receio, por exemplo, de que o fundo da União fosse adiado ou modificado, como aliás tem acontecido, e que isso dificultasse a aprovação do fundo estadual?
CF – Logicamente alguns deputados da oposição utilizaram esse argumento, para esperar a aprovação do projeto da União. Mas nós explicamos que não havia nenhuma necessidade de esperar. Porque o projeto da União não será vinculante. Óbvio que os estados que esperarem o projeto da União terão menos flexibilidade para fixar o seu modelo. Por exemplo, o Estado de São Paulo está adotando um modelo paritário, com o limite de 7,5% para 7,5%. No federal já está se prevendo 8,5% para a União. Se for aprovado o federal com 8,5%, os outros estados não vão conseguir fazer 7,5%.

II – Então, pelos cálculos atuariais adotados em São Paulo, a contribuição de 7,5% é suficiente?
CF – Os cálculos atuariais simulam que muito poucas carreiras precisam de algo acima de 7,5% com expectativa de receber 100% na aposentadoria. São aquelas carreiras que não têm a obrigatoriedade de 35 anos de contribuição. Então essas carreiras poderiam ter alguma dificuldade. No federal, está se generalizando, está se dando uma benesse aos funcionários que vão se aposentar com 120% ou 130% do último salário. Isso não é justo para com a sociedade que tem que pagar a conta.

II – Quais os outros aspectos que estão mudando no modelo da União?
CF – Por exemplo: no projeto da União deverão ser criadas três entidades distintas, uma para cada poder. Eles vão triplicar a estrutura, o que provoca, na minha opinião, a perda de massa crítica, de escala, e aumenta os custos. Em São Paulo conseguimos evitar a divisão em três fundações, como está no federal agora. Nós conseguimos colocar dentro de um único órgão gestor a previdência do executivo, do legislativo e do judiciário, do Ministério Público, das universidades. Estão todos dentro de uma mesma fundação. O federal também foi concebido originalmente assim, mas depois foi mudando.

II – E como será solucionado o problema da diferença das carreiras dos distintos poderes em São Paulo?
CF – Nós teremos um plano para o executivo, um para o legislativo, um para o judiciário e outro para os demais funcionários. São carreiras diferentes, são tempos de contribuição diferentes. Para cada poder, pode ter até mais de um plano, por exemplo, para os procuradores e outras carreiras. Precisa ver se são diferenciadas o suficiente para ter um plano específico. Há muitas carreiras que não tem necessidade disso e podem entrar em um plano geral.

II – Está prevista a possibilidade de adesão de municípios? E de outros estados?
CF – Nós não nos atrevemos a administrar a previdência de outros estados, então nos limitamos aos municípios do Estado de São Paulo. Se algum estado quiser aderir à gestão de outro fundo, terá que aderir ao federal, não do Estado de São Paulo. Mas outro município de São Paulo poderá aderir ao nosso fundo de pensão e contar com um plano específico para seus servidores. Ou entrar em um plano genérico. Por exemplo, a cidade de São Paulo poderia ter um plano específico, pois o quadro de servidores dela tem massa crítica, mas há uma porção de cidades do interior que não têm massa crítica pra fazer sozinhas, então vamos ver qual o modelo pra cada uma delas.

II – O sr. teve a experiência de ampliação do multipatrocínio quando estava à frente do fundo de pensão da Petrobras, a Petros. O desenho do fundo de São Paulo segue o modelo da Petros?
CF – A motivação pra ter um multipatrocinado no Estado de São Paulo é de outra natureza. Lá na Petros, o multipatrocínio se deu em função da necessidade do futuro, em que víamos que, em algum momento, os participantes do fundo ficariam maduros. Fundos como a Petros e a Previ têm planos que já começam a ter mais gente usufruindo de benefícios do que contribuintes. Então, como manter a capacidade de subsidiar a estrutura para custear tais planos? É óbvio, tínhamos que expandir a base para outras patrocinadoras que têm mais gente contribuindo. Aqui, no caso de outros municípios, o multipatrocínio tem outra finalidade.

II – Mas em termos de custos e escala acaba obtendo vantagens também?
CF – Claro, os custos acabam sendo reduzidos. Tem mais participantes para ajudar a pagar o custo de administração da entidade.

II – Quais os próximos passos para o SP-Prevcom entrar em funcionamento?
CF – As Leis 108 e 109 foram pensadas para empresas. Tem muitas regras que não servem para os entes públicos. Por exemplo: tem uma regra que diz que o funcionamento da entidade tem que ser autorizado pela Previc. Mas isso é válido para uma empresa, que contrata o atuário, faz o estatuto, manda pra Brasília, e espera a autorização. No caso de um ente da federação, que está cumprindo o artigo 40, precisa primeiro de uma lei estadual. O primeiro passo é uma lei, e a lei já foi criada. Então, é muito difícil a Previc dizer “não, São Paulo não pode criar a sua fundação”. A aprovação pela Previc ficou formal – o órgão pode fazer algum comentário sobre o estatuto, mas não impedir que a entidade seja colocada em funcionamento.

II – Então, dá pra implementar de imediato?
CF – Isso. O que nós fizemos foi o seguinte: à medida que a lei tramitava na Assembleia, já fomos escrevendo o estatuto. Passamos por todas as instâncias internas de decisão do governo. O estatuto já foi publicado (no dia 10 de fevereiro passado). Agora estamos levando para o registro em cartório pra criar a fundação. Depois de criada a fundação, podemos formar os conselhos e nomear os dirigentes. Enquanto isso, vamos elaborando o regulamento do plano de benefícios – esse sim tem que ir para a Previc, que precisa aprovar. Nossa perspectiva é que até o final de março já estaremos em condições de promover a adesão de participantes ao plano.

II – Quais devem ser os primeiros participantes do fundo?
CF – Devem ser os celetistas, que também foram incluídos no projeto. Temos cerca de 17 mil celetistas que ganham acima do teto da previdência social. Eles são candidatos naturais a primeiros participantes do plano, a partir do primeiro dia de adesão.

II – E como está prevista a gestão dos recursos do fundo complementar?
CF – A lei não diz que a gestão tem que ser obrigatoriamente terceirizada. Pode ser própria, mista ou terceirizada. Óbvio que no começo do plano, teremos poucos recursos, e a estrutura será montada aos poucos – em termos de contratação de pessoas e de criação dos processos para a gestão dos recursos, porque as aplicações serão muito básicas. Vamos colocar o dinheiro lá e falar as regras básicas para a gestão. Mas à medida que os recursos forem se avolumando e os planos forem se diversificando, teremos também uma diversificação de aplicações. A estrutura de governança prevê a criação de um comitê para cada plano.

II – Haverá espaço para investimentos em infraestrutura em virtude da queda das taxas de juros?
CF – Em 2011 acho que pouquíssimos fundos de pensão bateram suas metas atuariais. Aqui no Ipesp, temos duas carteiras que bateram a meta atuarial. Não inventamos muito, não ficamos brincando de aplicar em bolsa quando não temos estrutura para isso – fazemos uma gestão interna, com uma equipe reduzida. Então, como somos conservadores, buscamos oportunidades na área de crédito privado, com papéis de grandes empresas que precisam captar.

II – O sr. deve ficar no comando do fundo de pensão?
CF – Isso quem vai definir é o governador. Até agora estamos levando o projeto adiante. Mas a nomeação é política, para saber seria preciso perguntar ao governandor.

II – Se o sr. for nomeado, poderia acumular a função com a direção do SPPrev?
CF – Em princípio a ideia não é acumular. Até mesmo para dar uma ideia clara da divisão da previdência básica do estado e da previdência complementar, para os novos funcionários. Então, não tem sentido manter a mesma gestão para as duas.

II – Como o sr. resume sua trajetória à frente da previdência dos servidores de São Paulo?
CF – Já faz cinco anos que estou na função. Entramos ainda na gestão do governador Serra. Primeiro ajudei a criar e estruturar a São Paulo Previdência. Depois fiquei para a gestão Alckmin, já faz um ano e um mês, quando conseguimos criar a previdência complementar, que era nosso principal objetivo desde o início. Mas há cinco anos isso era um sonho e agora, tornou-se realidade.

II – Como tem sido o contato com outros estados, que estão te procurando para elaborar seus projetos?
CF – Até agora, oito estados nos procuraram. Eles estão mais interessados em aprender com nossos erros e acertos, saber quais os caminhos que escolhemos e evitar as dificuldades. Eles querem vir aqui para conversar.

O gargalo da produtividade

Edição 233

Marzo Bernardi, da Western Asset

A escassez de capital sempre foi apontada como um grande obstáculo para que o Brasil passasse a crescer de forma sustentada. Mas, para que a figura do voo de galinha seja deixada para trás e o País entre em um ciclo de crescimento a taxas mais elevadas sem gerar inflação, é preciso estar atento a outro gargalo que está dando seus sinais: a escassez da mão de obra.
Esse foi o ponto central de um encontro promovido pela Western Asset no início de dezembro de 2011 em São Paulo (SP). Vieram para os debates executivos da gestora em outros cantos do mundo – Jim Hirschmann, CEO da Western Asset; Gordon Brown, portfolio manager da Western Asset Londres; e Keith Gardner, head de mercados emergentes da Western Asset Pasadena –, assim como membros da equipe brasileira da asset – Guilherme Abbud, head de investimentos renda fixa; Adauto Lima, economista-chefe; Paulo Clini, head de investimentos, e Marzo Bernardi, diretor executivo da Western Asset São Paulo. Além deles, foram convidados a participar das dicussões Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa; Eduardo Loyo, economista-chefe do Banco BTG Pactual; Fábio Giambiagi, economista; Eduardo Giannetti, PhD em Economia pela Universidade de Cambridge e Cientista Social pela USP; Gustavo Ioschpe, economista especializado em Economia da Educação; e Marcos Lisboa, vice-presidente de Seguros e Risco Operacional do Itaú Unibanco.
Em entrevista exclusiva a Investidor Institucional (concedida poucos dias depois do evento), Marzo Bernardi fez um apanhado dos pontos principais abordados no encontro, que está em sua terceira edição. “Eu diria que um resumo do que foi debatido é que, sim, existe uma limitação para o País crescer de forma sustentada sem gerar inflação”, disse o executivo, que citou a baixa taxa de poupança como um dos fatores que limitam o crescimento sustentado. “Mas o grande ponto em comum aos debates é que o Brasil veio crescendo nos últimos anos contando com um estoque de mão de obra. Só que hoje nós chegamos em um nível de desemprego de 5% a 6%, o que nos leva a estimar que em algum momento o País chegará a uma situação de pleno emprego. Isso impõe uma limitação ao crescimento por parte do vetor relacionado ao aumento de participantes no mercado de trabalho. E é aí que surge a questão da produtividade. É preciso aumentar a produtividade da mão de obra para continuar crescendo”, completou ele.
Bernardi comentou ainda que a educação é um tema central quando se debate produtividade e que não basta aumentar o volume de recursos destinados a essa área no Brasil se o dinheiro não for aplicado de maneira apropriada. “O Estado deveria olhar para a educação como uma necessidade para o Brasil continuar crescendo, e não enxergar o ensino como basicamente um benefício dado à população. A educação tem que ser vista como um investimento que está sendo feito no País”, afirmou o executivo.
Na conversa, ele tratou de outros pontos debatidos no encontro, como a necessidade de se ter regras claras e estáveis para que o País se desenvolva. A crise na Europa, como não poderia deixar de ser, também teve seu espaço nas discussões. “A solução para a Europa hoje é meramente política, o que deixa ainda mais difícil imaginar o que é que pode acontecer. Mas acredita-se que a Alemanha esteja caminhando lentamente na direção de suportar uma Europa unida, e a lentidão não acontece por nenhum outro motivo senão forçar seus pares a serem fiscalmente mais responsáveis. De qualquer forma, essa é uma visão otimista, porque não acredita que o euro vá acabar, mas sim que a Europa vai conseguir lidar com essa situação, com um esforço de responsabilidade fiscal coletiva, ou um maior controle fiscal dos países membros”, disse Bernardi. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Investidor institucional – Como vocês chegaram ao tema do Western Asset Debates de 2011?
Marzo Bernardi – Esta foi a terceira edição do evento, e a escolha do tema vem muito das nossas discussões internas. De forma geral, costumamos abordar temas macro, não micro. O micro é o nosso dia a dia, todo mundo está sempre discutindo esses assuntos – mesmo porque todo mundo acorda todo dia tendo que tomar alguma decisão
–, por isso nós tentamos evitar. Não vamos fazer um debate em torno da subida ou do corte nos juros, em quanto vai ficar a taxa, porque sobre isso o mercado inteiro fala e nós seríamos apenas mais um a tocar nesse ponto. Então nós procuramos promover discussões mais abrangentes sobre onde estão os grandes desafios que vão ter que ser superados para que o Brasil continue caminhando na direção correta. Resumidamente, o tema vem das nossas principais preocupações surgidas durante o ano.

II – Quais eram as preocupações nos anos anteriores?
MB – Fizemos o primeiro evento em 2008, um pouco antes de o Brasil receber o investment grade. Ok, todo mundo sabia que era uma questão de tempo para o País chegar ao grau de investimento, mas a nossa proposta foi discutir o que viria depois. O que poderíamos esperar do Brasil com investment grade? Em 2009 nós não fizemos o evento, até que no ano passado [2010] decidimos que ele seria anual. Em 2010, nós falamos de desafios ao crescimento sob o ponto de vista de geração de financiamento para o gargalo de infraestrutura que nós enfrentamos no País. Isso passou por uma discussão a respeito de como as empresas poderiam se financiar para continuar crescendo e atendendo a uma demanda crescente. O foco foi do lado da restrição de capital, porque naquele momento nós ainda não tínhamos tanta clareza de que o País viria a sofrer com restrição de mão de obra. Esse tema da mão de obra é um debate mais recente. Em 2010, a preocupação ainda era com o capital. [Entre os temas debatidos no evento em 2010 estavam “Tendências globais: próximos desafios”, “O Brasil é capaz de manter o ritmo de crescimento atual?” e “Limitações de captação: como financiar o crescimento futuro”]

II – Mas em 2011 essa passou a ser uma grande preocupação...
MB – Olhamos para a questão do crescimento sustentado, ou qual seria a maneira de o Brasil poder crescer a taxas mais elevadas sem gerar inflação. Evidentemente, não tem como escapar de falar um pouco de mercado, de crise na Europa e de como isso poderia se refletir no Brasil. Mas a questão principal foi de fato crescimento sustentado e produtividade. Sempre olhamos para questões relevantes, que não vão impactar a economia na próxima semana ou no próximo mês. São temas mais abrangentes. Nesse ano, procuramos discutir onde estão as dificuldades e limitações ao crescimento sustentado.

II – E o que foi apontado nos debates de maneira geral?
MB – Eu diria que um resumo do que foi debatido é que, sim, existe uma limitação para o País crescer de forma sustentada sem gerar inflação. Os mais otimistas estão com números na casa de 4% ou 4,5%, e os não tão otimistas, dado o cenário mundial, veem algo em torno de 3%.

II – Para quando eles estimam esse crescimento?
MB – Não estipulamos um período determinado, como de hoje a daqui dez ou 15 anos. A ideia era falar sobre de hoje até quando se consegue mais ou menos prever como será o crescimento. Na realidade, a discussão era a seguinte: para o Brasil não crescer a essas taxas, mas sim conseguir crescer a taxas mais elevadas sem que isso se converta em inflação, alguma coisa tem que mudar.

II – Quais seriam as principais limitações ao crescimento sustentável?
MB – As limitações vêm de vários fatores, e um deles é a baixa taxa de poupança, principalmente se comparado o nível de poupança do Brasil ao de outros países no mundo. Mas o grande ponto em comum aos debates é que o Brasil veio crescendo nos últimos anos contando com um estoque de mão de obra. Só que hoje nós chegamos em um nível de desemprego de 5% a 6%, o que nos leva a estimar que em algum momento o País chegará a uma situação de pleno emprego. Isso impõe uma limitação ao crescimento por parte do vetor relacionado ao aumento de participantes no mercado de trabalho. E é aí que surge a questão da produtividade. É preciso aumentar a produtividade da mão de obra para continuar crescendo. E eu diria que os dados são alarmantes quando comparamos a produtividade brasileira com outras ao redor do mundo.

II – Que dados são esses?
MB – Por exemplo: usando os Estados Unidos como referência, se a produtividade lá é 100, no Brasil é 20, o que significa que em última instância enquanto lá eles produzem cinco, aqui se produz um. Nos debates, o ponto seguinte foi como aprimorar a produtividade brasileira, e a questão da educação é um tema extremamente relevante. No Brasil, nós comemoramos quando todas as crianças estão no ensino básico ou fundamental, enquanto a Coreia está quase colocando 100% de seus jovens na universidade. Existe uma diferença de nível aí.

II – Como poderíamos avançar em relação à educação no Brasil?
MB – O problema é grande e, por mais que a sociedade possa fazer alguma coisa, seja por meio de iniciativas individuais ou coletivas, não é o suficiente para fechar esse gap. O Estado deveria olhar para a educação como uma necessidade para o Brasil continuar crescendo, e não enxergar o ensino como basicamente um benefício dado à população. A educação tem que ser vista como um investimento que está sendo feito no País.

II – Seria preciso destinar mais recursos para a educação no País?
MB – Na realidade, um ponto abordado nos debates foi a necessidade de, no fundo, usar o dinheiro de forma mais apropriada. Falta um gerenciamento mais profissional de ensino, e isso começa, por exemplo, na falta de cursos preparatórios para diretores. Tem escolas com dois mil alunos que são tocadas por um professor que virou diretor sem ter um preparo para exercer essa função. Por isso, não adianta colocar mais dinheiro em educação se esses recursos forem desperdiçados. Aumentar o que é aplicado hoje em educação não resolve o problema se isso não for voltado para a produtividade. Temos que criar cidadãos produtivos.

II – O que mais além da questão da educação foi levantado nos debates?
MB – Um ponto abordado se refere às regras e instruções. Por exemplo: vários palestrantes falaram sobre sua experiência em fechar e abrir empresas no Brasil. Esse é um processo difícil, que demora muito. Não estamos falando de meses, mas de três ou quatro anos para conseguir fechar uma empresa. Um dos palestrantes disse que, se fosse possível abrir e fechar empresas mais rápido, o empreendedorismo estaria sendo estimulado, com a criação de pequenas e médias empresas e geração de emprego. Agora, se o fechamento de empresas é muito dificultado, as pessoas não são estimuladas a abrir pequenos e médios negócios. Enfim, as regras e instruções, da maneira que são colocadas, estimulam e facilitam (ou não) determinados comportamentos. O mais importante é que as regras sejam bem feitas, que sejam claramente aplicáveis e perdurem para que não seja necessário trocar a regra o tempo inteiro. A constante melhora das instituições criadas para monitorar e aplicar essas regras também contribui para o desenvolvimento do País. E a questão da estabilidade de regras é um ponto muito observado por investidores. A ausência ou constante modificação de regras deixa os investidores preocupados.

II – Apesar de a agenda de debates ter o Brasil como foco, vocês também abordaram assuntos internacionais.
MB – Somos um gestor global, por isso sempre gostamos de abrir o evento com uma visão global nossa. Nesse ano [2011] o tema foi Europa porque é para lá que as atenções estão voltadas atualmente. Há uma grande interrogação sobre como os problemas serão solucionados diante da falta de uma unificação fiscal na Europa. E a solução hoje é meramente política, o que deixa ainda mais difícil imaginar o que é que pode acontecer. Espera-se que em algum momento a Alemanha, como grande beneficiada pelo euro nos últimos anos, ceda um pouco em suas posições. Acredita-se que a Alemanha esteja caminhando lentamente na direção de suportar uma Europa unida, e a lentidão não acontece por nenhum outro motivo senão forçar seus pares a serem fiscalmente mais responsáveis. A Alemanha vai ajudá-los, mas eles serão obrigados a tomar medidas para lidar com seus problemas, o que caminha em direção ao que a Alemanha quer. De qualquer forma, essa é uma visão otimista, porque não acredita que o euro vá acabar, mas sim que a Europa vai conseguir lidar com essa situação, com um esforço de responsabilidade fiscal coletiva, um maior controle fiscal dos países membros.

II – E para os Estados Unidos, o que se pode esperar?
MB – Resumidamente, eu diria que o cenário comporta um crescimento baixo nos EUA, mas ainda assim um crescimento, não uma recessão.

II – E na China?
MB – Para a China se vê uma desaceleração suave, não abrupta. E se para o Brasil esse cenário não é dos melhores, também não é catastrófico. É um cenário desafiador.

II – Por falar em desafios, já é possível saber qual será o tema do evento em 2012?
MB – O tema do ano novo vai ser descoberto ou escolhido ao longo de 2012. Vai ter um assunto que vai começar a permear parte das nossas preocupações ao longo do ano, um tema de caráter mais estrutural, e a partir dele nós poderemos montar uma agenda. Se a preocupação for a mesma desse ano, fica um pouco sem nexo fazer um evento como esse, mas sempre tem uma preocupação nova surgindo no mundo. O mundo é dinâmico o suficiente para que nós não fiquemos entediados com as mesmas preocupações sempre.