Nada podia com o CDI

Cássio Antônio Calil, do  JP Morgan

Edição 243

De volta ao Brasil depois de mais de duas décadas nos EUA, o brasileiro Cássio Calil avalia que os mercados de risco não cresceram no País porque o CDI inibia tudo.

O brasileiro Cássio Antônio Calil traçou sua carreira profissional nos Estados Unidos, onde vivia desde o final dos anos 80. Depois de atuar na tesouraria da IBM, transferiu-se em 2004 para o JP Morgan, empresa global que possui US$ 1,2 trilhão de recursos sob gestão ao redor do mundo. Agora está encarando o maior desafio de sua carreira: dirigir os negócios da asset global no Brasil. Como presidente do JP Morgan Asset Management no País, ele retornou em maio de 2011 para dirigir o escritório localizado na avenida Faria Lima, em São Paulo. Ainda passa boa parte do tempo em Nova York, onde atua na distribuição de produtos e ativos brasileiros para investidores no exterior.

O retorno de Calil coincide com a valorização dos negócios da unidade do Brasil, com movimento de R$ 16,4 bilhões dos quais R$ 7,75 bilhões na área de gestão de recursos de terceiros, segundo levantamento da última Top Asset. Coincide também com a retomada das atividades de gestão no país, quase uma década depois de sua saída no início dos anos 2000, quando ainda mantinha a denominaçao JP Morgan Chase. Calil ressalta que o Brasil volta a ser um dos mercados prioritários para o JP Morgan no mundo. Prova disso foi a compra de 55% da Gávea no final de 2010. Confira entrevista exclusiva a seguir:

IIComo analisa a posição da indústria de gestão de recursos no Brasil dentro do cenário global atual?
CAC – O Brasil na área de fundos mútuos está entre os sete maiores do mundo. Considerando o volume de ativos, é o sexto maior do mundo, mas não tem uma diversificação de um país como a Inglaterra, que tem praticamente o mesmo volume de recursos sob gestão do Brasil. Porém, a Inglaterra tem uma arquitetura extremamente aberta na qual os investimentos não são feitos na boca do caixa; são feitos através de gestores profissionais. Isso dá mais agilidade e dinamismo na movimentação de capital da economia. Outra diferença importante com a Inglaterra é o market share, pois o maior gestor de lá não comanda mais de 10% do mercado de recursos sob gestão. É uma diferenciação bem grande com o Brasil que tem 3 ou 4 gestores que comandam uma fatia bem grande do mercado.

IIPor que o mercado de capitais no Brasil seguiu por um caminho diferente?
CAC – No Brasil, você tem um ativo, o CDI, que garantia uma taxa de juros bem alta. Então você tinha uma concentração na estratégia de gestão na renda fixa. Para o investidor era o mundo perfeito: retorno alto, liquidez diária, sem volatilidade. Não existia nada no mundo que pudesse combater este produto, então o governo brasileiro conseguiu passar para o investidor estes três elementos de investimentos que fez este processo muito fácil. Então, foi diferente do que houve nos Estados Unidos e na Inglaterra que tiveram sua indústria de fundos violentamente expandida desde a Segunda Guerra Mundial. Acho que a gente vai começar a viver este momento agora, assumindo que teremos uma taxa de juros mais condizível para isso.

II Como analisa os entraves do mercado brasileiro em termos de regulação e exigências?
CAC – Acho que a parte da regulamentação no Brasil precisa mudar. Na questão da alocação de ativos, existe muita ambiguidade. Como principais gargalos vejo a limitação de investimentos e quantidade de ativos, que envolve a discussão do investidor super qualificado e as limitações de alocação. Acho que isso retarda o crescimento da indústria.

IIQual a sua expectativa para o crescimento da economia brasileira?
CAC – O Brasil entrou o ano com uma expectativa de crescimento alta, acho que era consenso, todo mundo esperava um crescimento do Brasil de 4% a 5%. Realmente vários motivos brecaram essa taxa de crescimento para um patamar que deve ficar na casa de 2% em 2012. Percebemos um aumento da oferta de crédito no Brasil um pouco acima da capacidade de crescimento da produção doméstica, com expectativa de inflação reajustada de acordo com o crescimento de consumo doméstico. Ou seja, a produção industrial local não conseguiu acompanhar a expansão do crédito.

IICom que projeção de taxas de juros e inflação vocês estão trabalhando para o ano que vem para a economia brasileira? Os patamares atuais dos juros serão mantidos ou não?
CAC – A opinião oficial do banco de investimento é que a Selic esteja em 7,25% no final deste ano e 8% em 2013. No primeiro trimestre de 2014, deve chegar a 8,75%. Acho que na inflação, a gente vê um comportamento dentro da faixa dos 5%, sem nenhuma surpresa. O aumento é justificado porque a gente espera uma atividade econômica mundial mais alta em relação a 2012.

II Mas como é que você analisa a trajetória dos juros reais, é uma redução que pode voltar ao patamar anterior ou é uma tendência que veio para ficar?
CAC – Espero que a nossa Selic não se comporte como um Jumbo 747 que tenta aterrissar em Congonhas. Ele pousa por um instante e tem que decolar rapidamente porque não tem pista suficiente para segurar a inflação baixa. Não acredito que seja o caso da volta de uma taxa de juros alta no Brasil devido a uma inflação descontrolada. Se tem uma correlação de uma taxa de juros nominal com a inflação e você consegue conter as expectativas, daí tem uma série de fatores que serão necessários serem incorporados na nossa produção doméstica para alimentar o consumo doméstico ao invés de aumentar a importação. Temos pilares para rodar uma economia com uma taxa de juros nominal de 7% ou 8%, com uma taxa real de longo prazo de 4%.

II E como isso afeta o mercado de capitais no Brasil? Como você analisa o atual estágio do mercado brasileiro?
CAC – É uma rota esperada pelo que acontece em países onde a volatilidade fica mais definida. Você tem uma migração para ativos de maior risco, até por efeito do estágio racional do investidor, o Brasil tem na média 10% alocado em renda variável, e praticamente 60% em renda fixa. Mesmo o segmento de multimercados, você tem uma alocação de 85% em renda fixa e 15% em renda variável. Essa correspondência entre ativos não existe em nenhum lugar do mundo. Nos EUA, a renda variável corresponde a 53% de alocação, enquanto a renda fixa fica com 34%. Na Europa, 41% de renda variável e 36% de renda fixa.

IIQuais as áreas de negócios que que o JP Morgan está focando no Brasil, o que vocês vão priorizar?
CAC – A gente conseguiu definir na cabeça de muitos dos nossos clientes que temos capacidade de adicionar valor devido a nossa expertise na gestão global de equities. Temos uma inteligência muita mais holística de como o investidor vê um país como o Brasil. Com esse viés acentuado e uma visão mais global do mundo e do Brasil, conseguimos desenvolver de maneira até bem rápida nosso mundo de renda fixa crédito privado. Estamos nos tornando a casa de crédito do Brasil. Estão crescendo nossos fundos de liquidez diária e também os fundos de liquidez um pouco mais alongados com mais risco. Estamos nos posicionando para um crescimento de renda variável também, que é um ativo no qual a gente acredita que quando você tiver uma estabilização um pouco mais acentuada e previsível da economia mundial nós vamos começar a ver de novo a retomada do fluxo de capitais para o Brasil.

IIQuais são as estratégias para os produtos de renda variável e investimentos estruturados?
CAC – Estamos posicionados com três fundos de ações no Brasil, um deles mais atrelado ao Ibovespa. Outro fundo está atrelado às dez melhores apostas do mercado e, por fim, temos um fundo de dividendos, que é uma área que no Brasil ainda não é muito bem explorada como nos Estados Unidos. E obviamente, estamos posicionados no mundo de investimentos alternativos, devido ao investimento que a gente fez na Gávea, quando compramos 55% da empresa.

II Como é realizada a complementação com a Gávea na estratégia de negócios do JP Morgan no Brasil?
CAC – Os clássicos da gestão de ativos são feitos pela placa JP Morgan e os alternativos feitos pela placa Gávea. A gente consegue servir ao nosso cliente do Brasil com os respectivos produtos de cada segmento. Temos uma qualidade dos nossos investidores que é o que a gente mais preza. Acho que você pode dizer que o JP Morgan é um clássico de gestão global, que no Brasil não era tão clássico. E agora com a Gávea, temos uma massa crítica melhor, estamos nos tornando um gestor com porte elevado e por isso resolvemos fazer esta parceria.

II O nome Gávea continua ou vocês vão incorporar a marca ao JP Morgan?
CAC – A Gávea continua como começou, nada muda.

IIAinda sobre essa sinergia, pode ter algum problema de concorrência, porque eles têm fundos de renda variável também? Pode ter algum tipo de concorrência ou vocês separam bem a grade de produtos?
CAC – Ao invés de concorrência, vemos como maneira de acessar e ganhar mais mercados em relação aos concorrentes e não entre nós. O cliente tem opção de escolher entre duas casas em um mesmo grupo econômico, é muito mais poderoso do que só ter um produto em uma casa. E, obviamente eles tem que performar, se os dois tiverem indo muito bem, este é um problema gostoso de ter.

IIVocês estão olhando oportunidades de outras aquisições? Tem algum setor que vocês acham que ainda falta, que vocês gostariam de atuar?
CAC – Olha, no momento estamos procurando crescer. Nosso objetivo primário é crescer de acordo com as necessidades do cliente. Se percebermos que há outro viés de necessidades, vamos estar na frente desta demanda, vamos onde a indústria estiver indo. Acho que estamos bem, temos que solidificar nosso crescimento local com os produtos que a gente tem.

II Algumas assets globais acabaram fechando o negócio de asset management no Brasil, o caso mais recente foi o Goldman. Isso cria uma dificuldades para vocês, globais que como eles também tinham abandonado o mercado brasileiro uma década atrás?
CAC – Olha, eu não colocaria desta maneira. Não é justo classificar o global versus local. Cada empresa tem suas premissas com relação ao futuro e sucesso de um negócio. Todo negócio tem suas metas e objetivos que devem ser cumpridos para continuar sendo viáveis e eu procuro demonstrar a todos os participantes a grande oportunidade que o Brasil hoje representa para nosso grupo. E estamos bem posicionados no mercado local e global. Agimos localmente com inteligência global.

II E qual a meta para os próximos 5 anos? Quais são os objetivos de gestão entre recursos de investidores globais e domésticos?
CAC – Temos expectativa de crescimento forte no Brasil, não só devido ao crescimento orgânico do país. Temos uma meta de roubar market share, ampliar nossa fatia de mercado assim como temos feito em 2012, vamos fazer em 2013. Até atingir um perfil que seja confortável de que atingimos uma fatia de acordo com a nossa qualidade. Estamos focados na construção de uma plataforma completa de produtos dentro do Brasil.

IIEm relação aos investidores institucionais, o que vocês estão esperando em relação a este tipo de cliente?
CAC – O segmento no Brasil de PGBL e VGBL é de forte crescimento. O Brasil ainda é uma economia jovem. O tema aposentadoria não entra ainda em pauta em um jantar de família como em países desenvolvidos, justamente devido a idade demográfica que se apresenta nesses dois mundos, velho e o jovem. Estamos investindo fortemente, nossos produtos estão sendo distribuídos com parcerias já feitas. Já o segmento de planos de benefícios relacionados às fundações, temos uma ótima relação em vários segmentos do setor público e privado. Obviamente que todo processo de estratégia neste setor tende a ser um pouco mais demorado do que no mundo dos distribuidores, mas estamos compromissados com isso, tanto com fundos de pensão de empresas privadas, quanto no setor público.

IIComo analisa a perspectiva de negócios com os maiores fundos de pensão?
CAC – O que menos cresce no mundo institucional são os planos de benefício definidos, que estão praticamente estagnados. Você vai ter uma desaceleração destes fundos. Já os de contribuição definida, junto com os de varejo, têm melhores perspectivas de crescimento, obviamente todos começam com maior parcela de alocação em renda fixa. Mas com o crescimento de tais planos, a gente espera que o apetite a risco vá aumentando, direcionando parcela maior de recursos para investimentos alternativos e renda variável. Se ficar apenas na renda fixa, não haverá bons retornos e você vai se aposentar com bem menos do que se espera.

IIAcredita que os institucionais brasileiros vão começar a investir no exterior?
CAC – Hoje o mercado discute apenas a alocação do cliente doméstico no mercado doméstico. Acredito que falta a discussão sobre a oportunidade de se investir em produtos offshore. A gente consegue realmente trazer o produto de fora para o Brasil e facilitar a vida do cliente para ele expressar a necessidade dele em qualquer mercado. Esta estratégia é fundamental para o futuro do Brasil e para um plano de aposentadoria diversificado. Hoje não estamos mais em um patamar de Selic a 15% e o resto do mundo a 5%. Hoje todos estão girando em torno de um retorno esperado, das quais existem opções dentro do mundo de investimentos das quais os brasileiros deviam se beneficiar e poder escolher isso. A falta da percepção de que isso existe e pode ser possível é um viés da gestão que deve ser aprimorado.

IIA equipe do JP Morgan no Brasil já está montada ou precisa ampliar mais?
CAC – Ela deve aumentar um pouco devido a demanda de clientes. Pensando em aumentar a parte de vendas para acessar o cliente em todos os cantos do Brasil, isso seria em 2013. Quem coordena é o Carlos Salamonde. Não se trata de um aumento cavalar, vamos aumentando de acordo com o crescimento. Temos cinco gestores de renda fixa no Brasil, três de renda variável, cinco vendedores, um no marketing e uma pessoa em desenvolvimento de produtos.