Pessimismo é exagerado

 Luiz Carlos Mendonça de Barros, da QuestEdição 252

Ex-presidente do BNDES acredita que o Brasil está passando por “ressaca” após longa fase de crescimento e que recuperação virá depois de eleições

Um dos principais expoentes do processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente do BNDES e ex-ministro das telecomunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, acredita que o mercado está se orientando com um excesso de pessimismo. Atualmente como sócio-fundador e estrategista da Quest Investimentos, ele acredita que o mercado está superestimando a fuga de capital dos mercados emergentes, devido às mudanças na política do Federal Reserve (Fed). Isso porque se a economia americana vai voltar a crescer mais aceleradamente a partir de 2014, então, os mercados emergentes também vão se beneficiar com o aumento da demanda dos países mais ricos. 

Por outro lado, ele critica a atuação da equipe econômica do governo Dilma, que não soube realizar um diagnóstico apropriado dos problemas da economia. Ele explica que o Brasil está vivendo um momento de “ressaca” depois de um longo período de crescimento que começou com o Plano Real e durou até 2010, no final do governo Lula. “Depois de um crescimento longo, em qualquer economia, são geradas distorções”, diz. O problema é que o governo atual continuou aplicando os mesmos incentivos ao consumo do governo anterior, o que fez agravar a situação de estagnação. Além disso, não sinaliza claramente se é favor ou contra a participação do capital privado nas concessões.
Para ele, 2014 será ainda um período difícil mas só até as eleições. Neste momento, ocorrerá um debate necessário, se a sociedade vai escolher uma linha mais intervencionista ou outra mais liberal. Confira a entrevista na íntegra:


Investidor InstitucionalComo o sr. analisa as mudanças na política e na economia americana sobre o Brasil?
Luiz Carlos Mendonça de Barros – O Brasil vive um momento interessante em que há uma convergência de pessimismo dentro e fora do país por razões diferentes. A razão principal do pessimismo lá de fora com os emergentes é a mudança da política de incentivos do Fed e da economia americana. Todos estão pensando o seguinte: como os juros vão subir nos Estados Unidos, vai ocorrer uma saída de capital do mundo emergente, que volta para lá. Com isso, teremos uma crise nos emergentes. Tem um erro claro nessa análise, no meu ponto de vista.

 

IIE por que essa análise não está correta?
LCM – É que os juros ficaram muito baixos nos Estados Unidos devido à falta de crescimento nos países desenvolvidos. Veio a crise nos EUA e o medo de uma recessão muito forte. Eles esquecem que a volta dos juros, a normalização das taxas, ocorre porque a economia americana voltou a crescer. Estamos voltando para o que deve ser o cenário normal da economia mundial com os países avançados em crescimento. Então é uma interpretação errônea.

 

IIE como os emergentes podem não se prejudicar com as mudanças?

LCM – Se os juros estivessem subindo sem a recuperação da economia americana, tudo bem. Ora se voltou o crescimento nos Estados Unidos, e na Europa também está voltando, isso reanima a economia mundial, você chega aos emergentes pelo lado da demanda. Os estímulos aos emergentes pelo lado do capital, tentando uma rentabilidade maior, vai ocorrer com o aumento da demanda dos países avançados. Isso parece que é um erro, mas não tem jeito, pois o mercado se convenceu disso.

 

IIO sr. vê sinais claros de recuperação da economia americana?

LCM – Isso não tenha dúvidas, os Estados Unidos vão crescer 2,5% a 3% no ano que vem. Até a Europa também está revertendo o quadro de crise. Mas não adianta, o mercado se convenceu dessa tese, então você tem os emergentes sofrendo com isso. Temos a desvalorização do câmbio, que tem um lado interessante de estímulo, porque isso estimula as exportações. Mas temos esse excesso de pessimismo que vem de fora, dessa avaliação incorreta do que está acontecendo, e do que vai acontecer, principalmente no ano que vem.

 

IIQuer dizer que as mudanças do FED não deveria ter um peso tão grande na crise dos emergentes?
LCM – Evidentemente que o Fed ao mudar sua política, saímos de uma situação de juro muito baixo, com a perspectiva de aumento das taxas. Então todos pensam: o dinheiro que foi para os mercados emergentes agora volta todo para os Estados Unidos e com isso você reduz o crescimento do mundo emergente. Correto. Mas essa é apenas uma das mãos. Tem a mão dupla. A outra mão é que com o aumento da demanda das importações americanas, que chega aos países emergentes, compensa a saída do capital. Essa é a compensação que não se está olhando.

 

II E o pessimismo aqui dentro, porque está ocorrendo?
LCM – E aqui dentro você tem também um pessimismo de uma economia que desacelerou bastante. Primeiro pela incorporação do pessimismo externo. Como nós estamos desacelerando, dizem tá vendo, isso já está afetando o Brasil. Agora tenho uma outra interpretação. No fundo, o Brasil teve um longo ciclo de crescimento que começou em 1993 e 1994, com o Plano Real, que vai até 2010, no fim do governo Lula. Nestes 17 anos, a renda per capta brasileira dobrou, o que corresponde a uma taxa de crescimento de 4,7% ao ano, que é um crescimento extraordinário.

 

II E por que existe um pessimismo tão forte?
LCM – É o que sempre digo, não é possível que tenhamos um crescimento tão expressivo durante tanto tempo, veja como a sociedade mudou. Dois terços da população é considerada como parte da classe média, vivendo com contratos formais de salário e empréstimo. Não dá pra dizer que o país virou uma catástrofe. Mas por que a economia desacelerou? Por causa do ajuste normal que acontece depois de um longo período de crescimento. Normalmente o ciclo de crescimento é mais curto, é de sete ou oito anos, em nosso caso foi maior. Em qualquer economia, seja aqui ou nos EUA, depois de um crescimento longo, são geradas distorções.

 

II Que tipo de distorções?
LCM – Falta de investimento, excesso de demanda, ou desequilíbrio na parte monetária. Com 5,5% de taxa de desemprego, está abaixo do que os economistas dizem que é o nível de equilíbrio do emprego. Com essa taxa, sendo que o grosso dos 5,5% é mão-de-obra sem qualificação. Então começa a ter pressão de aumento de salário. E você tem inflação. E ao mesmo tempo, houve uma expansão extraordinária do crédito. Mas, bateu no teto, não dá mais pra aumentar o crédito de consumo pela simples razão que a renda das famílias já está comprometida.

 

IIQual a sua previsão para o PIB?
LCM – Acho que vai ser dois e dois. Devemos fechar o ano em 2%, e repetir 2% em 2014. É ressaca de crescimento, faz parte do DNA das economias de mercado.

 

II O que deve ocorrer para que a economia volte a crescer?
LCM – Primeiro, precisa de uma freada de arrumação como toda economia de mercado. O que é isso? Reduz a demanda, principalmente do mercado de trabalho, leve a correções desse desequilíbrio de oferta e procura. Com a redução do consumo, é possível aumentar o investimento. Porque investimento e consumo brigam pelo mesmo espaço na economia. O problema é que a presidente Dilma não entendeu isso. Fez uma leitura que tinha que continuar com os incentivos de crédito para o consumo e aumento do salário mínimo, iguais do governo Lula, e não era isso.

 

IIE agora a equipe econômica não está tentando corrigir com o ciclo de aumento dos juros e outras medidas?

LCM – Tudo bem, o aumento dos juros é um dos componentes para isso. Mas não é suficiente. Se olhar o PIB do trimestre, tem informações importantes. A formação de capital bruta subiu, foi bastante alta. Chegou a 18,6% do PIB. Números anteriores eram 15% ou 16%. E o consumo das famílias que antes crescia a 5% ou 6%, cresceu 2,3% ou 2,4%. Ou seja, os números do PIB mostram ajustes na direção correta, redução de consumo e aumento do investimento. Mas isso deveria ser reforçado por uma política econômica de governo, que reforçasse essa direção. E isso é feito pelo mercado de forma autônoma.

 

II Então, os indicadores estão melhorando?
LCM – Estão melhorando, mas é aquela história do copo meio cheio e meio vazio. O Brasil tem ainda uma economia dinâmica, passando por problemas de natureza conjuntural absolutamente normais. Não tem nada mais grave. Esse é o copo meio cheio, de uma crise normal de uma economia que cresceu durante um período longo. O outro lado, é que o governo não entendeu isso, e por não ter o diagnóstico correto, não consegue lidar com os problemas associados a essa situação.

 

II E quais as medidas que o governo deveria adotar?
LCM – Tem que reduzir os gastos do governo e aumentar os investimentos. Ter uma política clara que incentive os investimentos privados na infraestrutura. O governo Dilma está no terceiro ano e ainda não conseguiu resolver se é a favor ou contra a privatização. Então, fica no pior dos mundos que é no meio. O governo tenta fazer as privatizações mas coloca tanto empecilho nos contratos que o setor privado não entra.

 

IIE os fundos de pensão como é que ficam neste contexto dos investimentos em infraestrutura?
LCM – Eles sozinhos não têm condições de financiar tudo. Os institucionais são peças complementares do capital privado. Tanto que vemos as privatizações das telecomunicações foram uma combinação disso. Os fundos de institucionais, de pensão no Brasil, são o elo mais importante da poupança interna. Agora não pode deixar o peso todo em cima deles. Eles são parceiros do investimento privado. E o investidor privado só entra se o governo respeita a dinâmica do capital privado. Essa é a principal crítica que faço ao governo atual.

 

IIE o que deveria ser feito em termos de taxas e garantias dos leilões de concessão?
LCM – Primeiro, eles deveriam deixar claro que a participação do setor privado é absolutamente fundamental. De maneira clara. Tem um pedaço pequeno do governo que diz isso, mas tem uma parte grande que diz o contrário. Tem um viés estatizante, que eu costumo chamar de soviético, que acha que o estado que tem que liderar esse processo, que o setor privado é especulativo.

 

IIEstá sendo um ano muito complicado para os fundos de pensão. Como o sr. avalia as opções de gestão mais ativa oferecidas pelas assets?
LCM – Milagre ninguém consegue fazer. Efetivamente tem sido um ano muito complicado para as fundações. Tivemos a flutuação muito forte dos juros e, portanto, afetou um pedaço importante da carteira, e as bolsas com um resultado muito duro. Então, afetou bastante o resultado dos institucionais. O que 2013 está mostrando, é que há opções para quem operou em um segmento mais específico, de empresas do mercado interno, e fugiu das blue chips, que são mais afetadas pelo mercado internacional, tivemos resultados, não brilhantes, mas retornos mais favoráveis.

 

IIE qual a sua previsão para 2014?
LCM – Acho também que será um ano muito difícil, será um ano muito complexo. Vai ficar claro para o mercado que a economia mundial está se recuperando. E vai entrar em um ciclo de crescimento normal de um prazo de 6 ou 7 anos. Acho que vai ficar claro que a China conseguiu fazer uma mudança na política econômica, na direção de fortalecer o consumo interno e diminuindo a dependência de exportação de produtos baratos e investimento do governo. Esse é o lado positivo. Mas tem o lado negativo que será um ano eleitoral e tem uma presidente sendo questionada.

 

IIO crescimento mais consistente viria depois desses 6 ou 7 anos?
LCM – Não, não. Acho que o crescimento começa a acontecer a partir do final de 2014.

 

IITem um risco político mais evidente para o ano que vem?
LCM – Não acho que há um risco político grande. Vamos ter que discutir duas linhas. Uma delas é a linha mais intervencionista, e a outra, mais liberal.

 

IIE quem será o representante dessa linha mais liberal?
LCM – Eu acho que naturalmente será o Aécio. Mas também o governador de Pernambuco deve assumir um discurso mais pró-mercado. Ou se não for isso, será menos pró-estado.