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“Mercado quer juro mais alto”
Para José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, a polêmica sobre o IPCA de outubro embute interesses na elevação da Selic

Economista-chefe do Banco Fator há 23 anos, José Francisco Lima Gonçalves não considera que a variação de 0,94% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em outubro, de 0,3 ponto percentual acima de setembro, possa indicar risco de uma escalada inflacionária. Na sua visão, a elevação dos níveis de desemprego e a perda real de renda sofrida pelos brasileiros desde março agirão como freios de tentativas de recomposição de margens por parte dos empresários. “O que está por trás dessa polêmica artificial sobre a inflação é o desejo de uma elevação da Selic. Como consideram que há riscos no plano fiscal, os investidores querem, em suma, uma maior remuneração”, diz Gonçalves.
Gonçalves analisa que, no caso de uma eventual derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, deve acontecer um isolamento do Brasil nos debates globais sobre questões climáticas e de meio ambiente. “Se Joe Biden levar a melhor na eleição, é muito provável que o governo brasileiro troque o comando do Ministério das Relações Exteriores, mas sem abrir mão de suas posturas e de sua visão de mundo”, diz ele.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida por José Francisco Lima Gonçalves à Investidor Institucional.

Investidor InstitucionalA economia brasileira entrou na quarentena com a economia crescendo abaixo de 2%, o que falta para o país voltar a ter perspectivas de crescimento?
José Francisco Lima Gonçalves – Falta tudo. A economia brasileira, que já vinha crescendo a taxas reduzidas, ao redor de 1% nos últimos três anos, está sofrendo muitos estragos com a recessão causada pela pandemia da Covid-19. Então, voltar para antes da pandemia significa voltar para uma economia que estava rodando a 1%. As empresas chegaram a níveis de endividamento de curto prazo, no segundo semestre, seja de 90 dias, 180 dias ou 360 dias, crescendo a taxas preocupantes. E elas vão tentar recompor as suas margens ao mesmo tempo em que precisam começar a pagar, ou refinanciar, ou rolar de algum jeito as dívidas que assumiram durante o período, o que é uma novidade.

O elevado desemprego, que atingiu a taxa recorde de 14,4% em agosto, torna isso mais difícil?
Está claríssimo que a recuperação do mercado de trabalho será muito lenta e com qualidade inferior à registrada antes da pandemia, fortemente calcada na informalidade. A massa real de renda, que já vinha crescendo perto de zero, agora está em queda. O governo e a opinião pública só olham, quando olham, para o lado das empresas quando falam de recuperação, como se isso não dependesse também do mercado de trabalho. A economia só andou minimamente neste ano por conta do programa de emergência e das linhas de crédito especiais para as empresas manterem o emprego.

O que vai acontecer se, e quando, o governo cortar as medidas de auxílio emergencial que foram adotadas na pandemia?
As iniciativas de caráter emergencial que o governo tem tomado não resolvem, claro, questões estruturais de renda e do mercado de trabalho. Mas assim que essa grana for cortada, é líquido e certo que a demanda vai cair, gerando ainda mais problemas para as empresas. Os donos de padarias, que já estão pendurados no cheque especial, deixarão de vender sanduíches para o pessoal que vem fazendo lanches graças, exclusivamente, ao auxílio emergencial. Creio que esta questão está sendo tratada com irresponsabilidade, pelos colegas de mercado e pelo governo.

Apesar dos indicadores macroeconômicos pouco animadores, a bolsa vive um boom de IPOs. Porque?
Toda recuperação tem uma dose muito grande de incerteza. Nessa, o grau de incerteza é brutal. Eu insisto, qualquer padaria está no cheque especial, vai ter que se recuperar, e isso só acontece com demanda, pagando juros. Então, eu não boto muita fé nesse crescimento de bolsa, acho que a bolsa de valores e os imóveis subiram muito por causa da queda de juros, mas o fluxo de caixa das empresas não é tão tranquilo. O mercado tem um viés para achar que tudo vai bem, que a economia vai bombar, que o governo vai demitir funcionários públicos, que as reformas vão passar, que as empresas vão investir e que, portanto, os fluxos de caixa vão acontecer.

O mercado é meio Poliana?
Tem um lado de Poliana, um lado de desejo, um lado de torcidas. Mas há também um lado que é estritamente tática comercial. Para quem é do ramo, é fácil perceber que muitos dos novos IPOs não vão virar investimentos, na verdade muitos deles representam uma reorganização dos passivos, sem qualquer relação com perspectivas de crescimento da economia. Tem muito IPO que é para os acionistas enfiarem o dinheiro no bolso.

Alguns indicadores de inflação começaram a subir, o próprio Banco Central ressaltou isso no comunicado do Copom. Isso preocupa?
A mim não, a não ser pelo fato de que o mercado está preocupado. O que ocorre é que está chegando um momento muito complicado em relação aos temas ligados à trajetória fiscal, isso assusta muito e o pessoal começa a ver na inflação recente as justificativas para posturas menos expansionistas, digamos assim. Há claramente um movimento nesse sentido, cujo discurso, sem rodeios, é o seguinte: “Quero um pouco mais de juro porque o risco está aumentando e não estou disposto a enfrentar um risco maior com a atual taxa de retorno”. Isso é o que está acontecendo, não é uma questão de inflação, é uma questão de medo.

O salto registrado pela IPCA em outubro, com a maior variação para o mês em 25 anos, não justifica essa apreensão do mercado?
Da variação de 0,94% do IPCA em outubro, 0,45 ponto percentual correspondeu à alta dos alimentos. O que acontece quando sobem os alimentos? As pessoas não comem menos, elas contraem em outras áreas, o aumento dos preços dos alimentos é contracionista, portanto deflacionário. Além disso, dos 0,94% do IPCA, 0,13% foram passagens aéreas, as companhias de aviação reajustaram as passagens em 40%, na média, mas muita gente, com certeza, vai deixar de voar com esses novos preços. Eu, com certeza, sou um deles!

Acha que a demanda, que já estava baixa, deve cair ainda mais e impactar a inflação futura?
Exatamente. Você tende a manter esse novo nível de preços mas com menos demanda, não vai subir 40% a cada mês. Então passou de 0,25% para 1%, mas a taxa vai voltar para 0,25%. Por que? Principalmente porque os salários não vão subir acompanhando a inflação, então o consumo não vai sancionar a alta de preços.

Considera, portanto, que não há fundamento para a elevação dos juros por conta da inflação?
Nenhum. A cobrança pela alta da Selic é fruto exclusivo de expectativas em relação à condução da política fiscal, é resultado, enfim, do medo dos investidores. As projeções dos núcleos da inflação estão num patamar muito baixo, ao redor de 2,2%, e os brasileiros vêm sofrendo perdas reais de renda. Se isso não for suficiente para manter a inflação baixa, não imagino o que será capaz.

Acredita que há chances de a Selic subir?
Acho que não, mas creio que teremos de aguardar até janeiro para uma melhor definição. O país vai virar o ano com muita coisa dependurada, com um nível de incerteza acima do tradicional.

Quais as chances de as reformas tributária e administrativa avançarem no próximo ano?
Penso que poderemos ter uma repetição do que aconteceu durante a votação da reforma da previdência, no ano passado. Nós chegamos no recesso parlamentar com um nível muito alto de incerteza e saímos do recesso com a incerteza atenuada. E no fim das contas, a Reforma da Previdência que saiu, que foi vendida como a condição de sobrevivência do País, foi uma merreca. Mesmo que não tivesse problema nenhum adiante, e tivemos a pandemia, teria que fazer outra reforma em quatro a cinco anos. A Reforma da Previdência foi o chamado “me engana que eu gosto”. É o que também está acontecendo com a discussão das reformas tributária e administrativa, do teto de gastos etc.

Os investidores internacionais vêm se afastando do Brasil. Qual o papel das questões ESG (ambientais, sociais e de governança) nessa retração?
Esse não é apenas um aspecto cosmético. Os fundos de investimento europeus, de uma forma geral, travaram as parcelas de suas carteiras dedicadas aos países emergentes, Brasil inclusive. Além disso, os investimentos diretos estrangeiros no país até agosto deste ano, no valor de R$ 27 bilhões, apresentavam queda de 41% em relação a igual período de 2019. Para mudar esse quadro, o Brasil terá de apresentar perspectivas de retomada do crescimento e, claro, cumprir os padrões de investimentos ESG. Só assim os estrangeiros retomarão os investimentos no país.

Qual o impacto para o Brasil de uma eventual vitória democrata na eleição presidencial dos Estados Unidos?
Caso Joe Biden chegue à Casa Branca, penso que haverá uma maior exposição do Brasil nos debates dos grandes temas globais. Isso exigirá, claro, uma mudança no comando do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, pois ninguém – creio que até o próprio presidente da República – imagina que o atual titular do posto tenha o perfil adequado para a execução dessa tarefa. Um triunfo democrata também provocará, creio, mudanças profundas nas relações dos Estados Unidos com a China, o que poderá gerar janelas de oportunidades para o Brasil.

O governo brasileiro vai assimilar facilmente uma possível derrota de Trump?
Não acredito que as pessoas mudem. Elas podem até fingir, mas, na hora do vamos ver, se tiverem vergonha na cara, voltam a assumir o que realmente são. Acho que isso vai se aplicar a essa possível mudança na chefia do Executivo dos Estados Unidos: o governo brasileiro cederia até a troca de seu ministro das Relações Exteriores. Entretanto, na hora em que o tempo fechar, nos debates de grandes temas, as divergências tenderão a se tornar muito claras.

O Brasil corre o risco de ficar isolado no plano global, caso Trump deixe a Casa Branca?
Se os democratas retomarem o poder, o governo brasileiro não perderá apenas apoio; ficará, na prática, sem nenhuma sombrinha sob a qual se abrigar em relação às políticas ambientais que adota. Além disso, a questão chinesa voltará ao centro do tabuleiro. A birra de Brasília em relação ao gigante asiático – traduzida, entre outras frentes, pela rejeição da tecnologia 5G da Huawei – poderá comprometer seriamente o fluxo de investimentos chineses no Brasil, sobretudo em energia e no agronegócio.

A redução dos impostos para empresas e grandes fortunas poderá estar com os dias contados nos Estados Unidos, se Trump não alcançar a reeleição?
Um ponto complicado na política americana é que os democratas geralmente chegam ao poder tendo de executar grandes ajustes fiscais. O caso mais recente e notável foi o de Bill Clinton, que fez cortes e elevou impostos para arrumar a casa bagunçada que herdou dos republicanos. Este, sem dúvida, será o grande desafio de Biden, se ele levar a melhor na disputa.