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Alto crescimento é o que importa
Responsável pela operação do SoftBank na América Latina, Paulo Passoni busca empresas com viés tecnológico e alto crescimento na região

Edição 333

Paulo Passoni, responsável pela carteira de América Latina da holding japonesa SoftBank, um gigante com investimentos diretos de cerca de US$ 300 bilhões ao redor do mundo, leva em conta atualmente mais a dinâmica das empresas no mercado em que atuam do que fatores macroeconômicos da região ou do País onde ela está instalada. Sua tese é que empresas de alto crescimento se desenvolvem mesmo em condições adversas, e se são boas o suficiente ampliam de forma rentável e robusta o negócio, roubam fatias de mercado dos concorrentes e rapidamente viram donas de pedaços importantes do segmento que disputam.
A América Latina, por enquanto, é um pedaço menor do bolo do SoftBank. A região está contemplada com uma fatia de US$ 5 bilhões para investimentos em cinco anos, dos quais US$ 2,5 bilhões já foram investidos desde 2019 em negócios como a colombiana Rappi e os brasileiros Banco Inter, Gympass, Loggi, Creditas e MadeiraMadeira, entre outros. Neste ano, mais US$ 1 bilhão será investido na região, dos quais cerca de 70% serão direcionados ao Brasil, país onde o grupo japonês mantém uma equipe de 20 pessoas que trabalha sob a supervisão do time de investimentos sediado em Miami, comandado por Passoni.
Com um valor de mercado atualmente de US$ 200 bilhões, o SoftBank foi criado na década de 90 do século passado por Masayoshi Son como uma empresa de distribuição de softwares, cujo diferencial em relação às outras do gênero é que decidiu investir seu fluxo de caixa em novos negócios de base tecnológica, tornando-se em pouco tempo uma empresa de investimentos. Em 2001 a empresa aportou US$ 20 milhões em uma recém-fundada operação chinesa de e-commerce chamada Alibaba, que se tornou em poucos anos um dos maiores nomes do comércio virtual global, com um valor de mercado hoje ao redor de US$ 570 bilhões. O Softbank nunca vendeu sua participação nessa empresa, de cerca de um terço do capital. Aliás, em vários negócios o grupo mantém as participações. “Não captamos dinheiro do mercado para investir, investimos capital proprietário, então em muitos negócios mantemos a participação por um longo tempo”, explica Passoni.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Paulo Passoni à Investidor Institucional.

Investidor Institucional – Quando o SoftBank começou a investir na América Latina?
Paulo Passoni – Os investimentos na América Latina tiveram início em 2019. Os aportes previstos são de US$ 5 bilhões, o que pode parecer muito mas na realidade não é, num contexto de cerca de US$ 300 bilhões de ativos do grupo investidos ao redor do mundo. Hoje, contamos com um time de mais de 60 pessoas na região, incluindo escritórios no Brasil, no México e nos Estados Unidos, em Miami. É o maior time de investimentos em empresas de tecnologia na América Latina, só no Brasil são cerca de 20 pessoas.

Do total previsto, quanto já foi efetivamente aplicado?
Até agora, cerca de 50% do total, cerca de US$ 2,5 bilhões, em quase 30 investimentos. A nossa velocidade de investimentos está na média de US$ 1 bilhão por ano, que deve ser mantida em 2021. É a velocidade de investimentos que faz parte do nosso cronograma.

Os investimentos realizados pelo SoftBank são feitos exclusivamente com capitais próprios?
O dinheiro sai direta e exclusivamente das operações do SofBank. Como a empresa é listada na Bolsa de Valores de Tóquio, divulga trimestralmente no Japão informações sobre os investimentos feitos e o valor desses investimentos, incluindo a América Latina e outras localidades. Os resultados anunciados em dezembro do ano passado mostravam que, até aquele momento, os investimentos na América Latina somavam cerca de US$ 2,3 bilhões e o valor dos ativos estava em mais de US$ 3 bilhões. Entretanto, só entre janeiro e fevereiro deste ano as ações do Banco Inter subiram entre 40% e 50%, agregando mais US$ 300 milhões aos ativos na América Latina. Hoje, só a posição no Banco Inter vale US$ 1 bilhão para o SoftBank.

Qual a participação do SoftBank no Banco Inter?
É de 15%. Entramos no Banco Inter em agosto de 2019, quando a cotação da ação andava ao redor de R$ 40 e hoje o papel está por volta de R$ 150. Nunca cogitamos vender essas ações, a gente não é do tipo que entra e sai rápido de uma empresa. Gostamos de fazer investimento por prazos muito longos.

Vocês preferem empresas nascentes ou que já se encontram em estágios mais maduros para realizar investimentos?
Somos bem flexíveis na hora da escolha dos investimentos. Investimos em negócios listados em bolsa, caso do Banco Inter, e em empresas que estão começando também. Mas há uma condição essencial para o SoftBank aportar recursos num negócio: ele deve, necessariamente, estar crescendo rapidamente e ter potencial para fazer IPO. Em síntese: buscamos empresas de alto crescimento e que estejam aptas a resolver grandes problemas.

Quais os segmentos prioritários para os investimentos do SoftBank na América Latina?
O leque é amplo. O maior aporte foi realizado no setor financeiro, em fintechs, mas também temos investimentos em mobilidade, empresas de saúde, e-commerce, logística, real estate etc. Os dois setores que mais temos investimentos são em fintechs e em e-commerces, mas também temos investimento nesses outros setores que falei. Mas é importante enfatizar que não temos teses setoriais, e sim fundamentalistas. A empresa tem de ser muito boa, o time tem que ser muito bom, os problemas de mercado a serem resolvidos pela empresa têm que ser muito grandes, além, é claro, de apresentar fortes taxas de crescimento.

Além do Banco Inter, que outros investimentos foram realizados em fintechs?
Temos uma participação na Creditas, que atua no financiamento de imóveis e de veículos com garantias dos ativos, então as suas taxas são mais baixas que as de mercado, o que se constitui num grande diferencial. Contamos ainda com dois negócios em real estate, que são o Quinto Andar e a Loft, que no fundo são operações financeiras também.

E as apostas em e-commerce no Brasil?
Os destaques são a MadeiraMadeira e a Petlove. Temos também empresas que desenvolvem softwares para o e-commerce – casos da Vtex e da Olist – e uma outra que presta serviços de logística para o comércio eletrônico, a Loggi.

A economia brasileira, nesse momento, não tem boas perspectivas de crescimento em comparação com outras partes do mundo que parecem que vão superar a crise do Covid-19 mais rapidamente. Isso pode prejudicar os investimentos no Brasil?
Veja, eu passei toda a minha vida profissional no setor de investimentos, eu trabalhei em um fundo chamado Eton Park, fazendo investimentos em empresas privadas, e depois em outro fundo chamado Third Point, fazendo investimentos em empresas listadas. Nesse primeiro momento da minha carreira, que durou treze anos, eu precisava me preocupar muito com o que ia acontecer com a economia, porque isso impactava muito o valuation da empresa. Ao final desse período eu comecei a prestar muita atenção em empresas de alto crescimento, e verifiquei que o que determina o retorno nessas empresas, tanto das abertas quanto das fechadas, não é a macroeconomia. O que importa para esse tipo de empresa é o quanto ela está roubando de mercado de seus concorrentes, o quanto ela está conseguindo de market-share.

Mas desde que elas estejam ganhando dinheiro. Crescimento tem que ir junto com rentabilidade, ou não?
Sim, claro. Eu queria dividir com você um levantamento que fizemos com um grupo de empresas de tecnologia da região, todas elas listadas em bolsa, que mostrou que todas valorizaram em dólar, entre dezembro de 2017 e igual período do último ano, cerca de 500%. No mesmo período, a Nasdaq apresentou valorização de 88% e o índice MSCI EM Lat Am valorizou 19%. Em termos de valor de mercado, o Mercado Livre cresceu 11.600%, Magalu 1.700%, Stone 260%, PagSeguro 160%.

Mostra que há boas oportunidades para investimento em empresas da América Latina.
Não faltam boas oportunidades. O problema é que os fundos de private equity tradicionais da América Latina não propiciam bons retornos em dólar, porque investem em empresas que estão crescendo pouco e são muito dependentes do cenário macroeconômico. Isso não dá certo na América Latina. Os retornos são baixos e não compensam os riscos.

Quer dizer que Warren Buffett, que gosta de negócios tradicionais, não teria vez aqui na América Latina?
Historicamente, não. Pode ser até que ele tenha alguma chance na região no futuro (risos). O fato é que, muitos fundos de private equity do mercado doméstico já estão realizando investimentos em empresas de alto crescimento. Dois exemplos são a Advent, que entrou no Nubank por meio da Easynvest, e a GP Investments, que recentemente investiu na Mercado Bitcoin, uma broker de bitcoin. Enfim, até os fundos tradicionais perceberam que o que dá dinheiro de verdade são investimentos minoritários em empresas de alto crescimento.

Posições majoritárias nas empresas investidas deixaram, então, de ser uma prioridade para fundos de private equity?
No Brasil, o mercado de private equity começou com investimentos de controle acionário. Muitos gestores imaginavam que era preciso controlar as empresas investidas para impedir que os empreendedores os roubassem (risos). A migração para participações minoritárias em empresas de alto crescimento ganhou espaço só nos últimos três anos. É algo novo, mas só no cenário local. Desde o início das suas atividades, há quatro décadas, por exemplo, o SoftBank foca em empresas de alto crescimento e fortes em tecnologia. É o que estamos fazendo agora na América Latina.

Vou fazer uma provocação. Empresas de alta tecnologia também estavam na moda no início desse século, mas a “bolha da internet” estourou e provocou prejuízos a uma legião de investidores. Você enxerga alguma similaridade entre aquela onda especulativa e o presente?
Todos os grandes ciclos tecnológicos seguem algumas etapas. De início, poucos notam as inovações que começam a se valorizar, em seguida, de forma geométrica. Como resultado, as ações dessas empresas se tornam caras e acabam sofrendo ajustes de preços, com o passar do tempo. Quando as cotações de boa parte desses papéis despencam, muitos falam: “Eu sabia que isso ia acontecer, estava tudo errado!” Só que é justamente quando ocorrem essas correções que tem início a segunda fase do processo, na qual só as empresas realmente boas encontram espaço.

Mas há riscos, enfim, de um novo e grande tombo de negócios high tech, 21 anos depois?
Deixemos de lado esta ou aquela bolha para analisar a composição do Standard & Poor’s 500 nas últimas décadas. Desde 1980, as empresas de tecnologia elevaram a sua participação no índice de quase nada para os atuais 50%. Talvez essa fatia caia para algo em torno 40%, a exemplo do que ocorreu, em escala bem maior, durante a “bolha da internet” – quando a sua participação despencou de 20% para 10%. A longo prazo, contudo, a tendência é de forte alta. Penso que daqui a 20 anos as empresas de tecnologia responderão por 90% do S&P 500.

O que importa, portanto, é olhar tendências de longo prazo e não janelas curtas.
Sim. Não tenho dúvida alguma de que as empresas que vão criar valor ao longo do tempo serão aquelas que dominam tecnologias. E tenho certeza de que o mercado vai interpretar isso de uma forma muito otimista ou muito pessimista ao longo dessa jornada. Em alguns momentos ele vai achar que a decolagem desses novos negócios vai acontecer do dia para a noite, em outros vai acreditar que isso nunca vai acontecer. Na verdade, nenhum desses dois extremos deve ser considerado.

Mas empresas tradicionais também não podem incorporar tecnologias e dar saltos?
O Magazine Luiza – antes um negócio tradicional, agora uma empresa de tecnologia – é a prova cabal de que isso é possível. Estatisticamente, no entanto, as empresas com capacidade para executar transições dessa natureza com êxito representam uma reduzida parcela do total, até porque nem todos os setores podem se valer de tecnologias disruptivas.

A aquisição de fatias ou até mesmo do controle de empresas com viés tecnológico não seria uma opção para grandes companhias em busca de renovação?
Sem dúvida. Penso que a maneira mais inteligente de uma companhia tradicional participar do setor de tecnologia é realizar investimentos minoritários em negócios do ramo. Só que raras dessas grandes se mostram dispostas fazer isso, por temerem reações contrárias nos planos interno e externo a iniciativas do gênero. Mas, se pararmos para pensar, qual foi a decisão do Itaú que mais gerou valor para os seus acionistas nos últimos cinco anos?

A compra da participação na XP Investimentos.
Exatamente. Então, cabem algumas perguntas: por que as empresas tradicionais não seguem o exemplo do Itaú em relação à XP? Por que não pegam o cash flow de negócios que já não apresentam grandes taxas de crescimento e investem em empresas de tecnologia? É isso o que companhias tradicionais deveriam estar fazendo para se proteger no futuro. Mas, como frisei, poucas têm condições de realizar essa transformação, em razão também de suas culturas organizacionais, que dificultam, por exemplo, a atração de talentos de empresas tecnológicas de alto crescimento.

Como o comando do SoftBank avalia o desempenho da América Latina em comparação, por exemplo, com Ásia e outras regiões?
Não há muitas comparações desse tipo no SoftBank, seja em relação à Ásia ou a qualquer outra região. Os investimentos na América Latina estão indo muito bem, com retornos excepcionais. É cedo, contudo, para dizer se essa investida vai dar certo ou não. Como somos investidores de longo prazo, o prazo correto para uma avaliação seria, talvez, de dez anos. Os sinais, por enquanto, são muito positivos, mas só o tempo dirá se deu certo ou não. É preciso, portanto, dar tempo ao tempo.