Mainnav

“É o único caminho possível”
Para Póvoa, o aumento das taxas de juros pelo Banco Central mostra a disposição da instituição para apertar a corda contra a inflação

Edição 345

A taxa Selic, que representa os juros básicos da economia no Brasil, subiu de 2% em março do ano passado para 12,75% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central que define o nível adequado de taxa de juro para manter a meta de inflação dentro do mandato dado pelo Conselho Monetário Nacional. Há dois anos que o BC não está conseguindo cumprir a meta, por conta de uma inflação persistente, o que foi enfatizado na ata da reunião do Copom, divulgada no dia 10 de abril, seis dias após a reunião. A ata fala em “desancoragem das expectativas”, o que quer dizer dificuldades para cumprir a meta dada pelo CMN. Para falar sobre isso entrevistamos o economista Alexandre Póvoa, estrategista da Meta Asset Management. Póvoa começou sua vida profissional como analista de investimentos da Eletros, o fundo de pensão da Eletrobras, e em mais de trinta anos de experiência no mercado de investimentos acumula passagens por várias casas como Bicbanco, Banco Inter-Atlântico, ABN Amro Asset, Modal Asset e Canepa Asset. Foi premiado quatro vezes com o troféu Benchmark, da revista Investidor Institucional, como Melhor Gestor de Renda Variável, de Portfólio Balanceado e de Fundos Multimercados. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista que deu à Investidor Institucional um dia após a divulgação da Ata do Copom.

Investidor Institucional – Você acha que o Copom está no caminho certo?
Alexandre Póvoa – Não existe nem caminho certo nem errado, é o único caminho possível. Pelo segundo ano consecutivo o BC está vendo a meta ir para o espaço, então ele não pode, pelo terceiro ano consecutivo, adiar o cumprimento da meta de inflação. E o instrumento mais poderoso que ele tem para baixar a inflação é o juro, e é o que ele está fazendo. É o caminho possível para tentar impedir que, pelo terceiro ano, ele não consiga bater a meta.

O que você achou dessa última ata do Copom?
Ela corrigiu um erro da ata anterior, que tinha praticamente decretado o final da alta de juros em 12,75%. Acho que tinha assumido um risco grande, a inflação continuou subindo e o BC teve que voltar atrás. Apesar de falar que vai dar o ajuste de menor magnitude na próxima reunião, ele deixou o caminho aberto à frente. Eu cheguei até a criticar o Banco Central no começo porque achei que ele ficou meio atrás da curva, mas hoje não dá mais para falar isso pois o juro já está em 12,75%, que é muito alto. Então, ele vai ter que continuar olhando para o IPCA, que inclusive saiu muito ruim hoje (a entrevista foi feita em 11/05, dia em que saiu o IPCA de abril, de 1,06%).

A alta dos juros não está sendo suficiente para conter a inflação?
Eu tenho 30 anos de mercado financeiro e não me lembro de ter visto uma situação como essa, de alta dos juros assim, que saiu de 2% para 12,75%. É mais de dez pontos percentuais de alta, e praticamente você continua tendo IPCAs muito ruins. Parece realmente que a subida de juros não está fazendo efeito sobre a inflação. Então o BC vai ter que continuar esticando essa corda um pouco mais para começar a ver essa inflação parar de subir, pelo menos. Acho que, com essa ata, ele abriu esse caminho, o que foi correto.

Apesar do aumento dos juros, o nível da atividade econômica está surpreendendo. Por que isso está acontecendo?
É que a economia vem de dois anos de crescimento zero. Se pegar 2020 e 2021 e somar, dá crescimento zero. Então, a base é muito baixa. Se olhar setores como a indústria, por exemplo, ainda não voltou ao nível pré-pandemia. No agro, o emprego está melhorando, então isso beneficia de alguma forma o setor de serviços, mas também todo mundo está endividado, o que é um perigo, olhando mais à frente, porque com a alta de juros você pode ter aí um problema em relação à atividade econômica. Mas o setor agrícola ajuda muito na atividade, é um setor que passa ao largo dos problemas atuais até porque tem taxas subsidiadas e não pega tanto a alta de juros. E tem também o processo de recomposição de margens que está acontecendo na indústria, no setor de serviços, que acaba piorando a inflação. Então, eu diria o seguinte, o nível de atividades está surpreendendo sim, mas é que vem de uma base muito baixa. Para você ter uma ideia, nos últimos cinco anos a economia brasileira teve um crescimento médio de -1%. Então, qualquer elevação de 1% surpreende, mas ainda é um crescimento baixo.

Porque a inflação continua subindo, se o crescimento é baixo?
Houve lá atrás, com o problema da Covid, sobretudo por causa da China, uma interrupção das cadeias produtivas, principalmente em matérias-primas, e aí veio uma tempestade perfeita, com a guerra da Ucrânia puxando os preços das commodities, tanto agrícolas quanto metálicas, que acabou puxando bastante também o preço do petróleo. E além disso, os países desenvolvidos estavam com a demanda mais forte, por conta dos juros zero. Então, em grande parte a gente pegou uma inflação importada, causada muito menos por um demanda aqui e muito mais por uma crise de oferta. E é papel do Banco Central subir os juros para evitar que você tenha um efeito secundário na questão da inflação, ou seja, que uma inflação primária muito forte se espalhe para outros setores da economia. Mas o problema é que não tem conseguido fazer isso, essa é a verdade.

O IPCA de abril, de 1,06%, que saiu hoje, é uma confirmação de que o BC não está conseguindo conter esse espalhamento da inflação?
Acho que sim, se você olhar o IPCA de hoje você vê 78% de índice de distorção, que é muito alto. O núcleo da inflação, em torno de 0,95%, também é muito alto, mostrando que tem uma inflação média do núcleo de inflação. Então, o objetivo do Banco Central é impedir o espalhamento dessa inflação primária nos outros setores da economia.

Qual a sua expectativa em relação às próximas reuniões do Copom?
Acho que o juro vai subir para 13,25% na próxima reunião, um ajuste da magnitude de 0,75% não teria muito sentido, e acho que deve ter mais uma alta de 0,25 pontos na seguinte. Eu estou apostando em 13,5% de Selic terminal nesse processo.

Então, você prevê duas altas, com os juros parando de subir em agosto. E por quanto tempo você acha que eles ficam estabilizados e quando começam a cair?
Acho que até o segundo trimestre de 2023 os juros vão ficar parados, até maio/junho do ano que vem. Serão, no mínimo, 9 meses parados para desinflacionar a economia. A boa notícia é que está conseguindo isso, se você pegar o juro de 12 meses e dividir pela inflação projetada para 12 meses, você tem um juro real projetado para frente de 6%. Ou seja, se tem um juro projetado de um ano em torno de 12%, uma inflação projetada de 12 meses de 6%, então está mais ou menos com 6% de juro real, o que é muito juro. Então, em algum momento isso tinha que ter algum efeito na atividade, não tem muito jeito de baixar a inflação sem derrubar a economia de alguma forma. Isso não só no Brasil, como também no mundo inteiro.

Como o resto do mundo está lidando com isso?
A inflação, hoje, é um fenômeno mundial. Nos Estados Unidos, saiu hoje o CPI (Índice de Preços ao Consumidor, na sigla em inglês), com o núcleo da inflação deles a 0,6%, o que dá 7% anualizado. A Europa está com a inflação rodando a 6%, o Reino Unido rodando a 10%. O grande risco dessa história toda é que está todo mundo achando que a inflação volta para as metas, mas para mim isso ainda é uma grande incógnita. Eu tenho uma grande dúvida se não vamos ter mais um ano de inflação alta. Os bancos centrais mundiais estão claramente atrás da curva, o problema é se eles resolverem acelerar essa alta de juros. Isso seria muito ruim para nós emergentes, pois essa alta bateria muito forte aqui.
Essa é a grande dúvida do mercado, o ritmo da subida dos juros nos países desenvolvidos, Estados Unidos principalmente.
O grande problema do mercado, já que o mercado não gosta de dúvida, é até que ponto esse juro tem que ir para fazer efeito. Quanto é que é preciso, é 3,5%, é 4%, para você fazer a inflação voltar para 2% nos Estados Unidos. Qual é o juro de equilíbrio lá? Ninguém sabe! É o início de um processo. No Brasil, você mais ou menos sabe que o juro faz efeito a 13,5%, a 14%. Mas lá fora você não tem esse parâmetro, você está numa espécie de trem-fantasma onde você pode tomar um susto a cada momento.

A gente pode ter um cenário global de inflação combinada com recessão?
Recessão é uma palavra um pouco forte, mas vamos falar em atividade baixa. É uma possibilidade? Sim, é uma possibilidade um cenário de crescimento baixo com inflação, durante um longo tempo. Isso é ruim para a economia, é ruim para as Bolsas, é ruim para todo mundo.

Você citou o juro real de 6% no Brasil, o que tem incentivado os investidores a irem para investimentos de renda fixa. Essa busca de renda fixa seguirá?
Eu acho que sim, nesse primeiro momento continua. Neste ano você tem uma saída muito forte de investidor institucional de bolsa para aproveitar esse cenário. Enquanto você tiver um juro pré em torno de 3% e uma NTN-B em torno de 5,5% a 6%, acho que faz todo o sentido o investidor institucional migrar para renda fixa e travar essas taxas, porque elas não vão durar a vida toda. Acho que isso vai prosseguir, pelo menos, até você ter um horizonte do fim das altas na taxa Selic, se vai ser em agosto, em setembro, em outubro. Ai sim, quando você tiver esse horizonte, você pode começar a olhar as Bolsas, você pode voltar a ter fluxo do investidor local. Enquanto isso, eu acho que o mercado vai estar muito na mão do estrangeiro, que entrou e segurou a bolsa no começo do ano mas também está começando a parar, por causa do cenário lá fora que está começando a ficar complicado.

E tem também a questão eleitoral, que tradicionalmente afeta a bolsa. Como será esse cenário?
Eu acho que o fluxo da Bolsa vai ficar muito prejudicado neste ano, pois a eleição também atrapalha, de alguma forma. Não adianta achar que, como nenhum dos dois candidatos, Bolsonaro e Lula, são desconhecidos do mercado, isso não vai impactar a bolsa. Você vai ter muita bravata, olha aí a série de declarações sobre Petrobras, Eletrobras etc., isso vai continuar mas na hora deles assumirem eles serão pragmáticos, como sempre foram. Mas sem dúvida alguma não é o cenário para a pessoa física começar a colocar dinheiro em bolsa.

Quando é a hora?
Quando você tiver a certeza que acabou o ciclo de alta do juro, quando, olhando prá frente, os juros longos começarem a cair por conta disso. Eu acho que aí a pessoa física e o investidor institucional voltam para a bolsa também.

A alta dos juros nos Estados Unidos, que vai atrair o investidor estrangeiro que está no Brasil, pode derrubar a bolsa aqui abaixo dos 100 mil pontos?
Eu acho que sim, sobretudo se você tiver uma percepção de que o Banco Central dos Estados Unidos voltará a acelerar a alta de juros. Essa aceleração seria muito ruim para nós. Se eles forem aumentando os juros a conta-gotas, talvez essa saída do estrangeiro não seja tão forte, tão explícita. O pior dos mundos seria uma aceleração na curva de juros lá fora, por conta da inflação. Isso derrubaria as commodities, de alguma forma, e pressionaria a curva de juros no mundo inteiro. Então, isso sem dúvida alguma seria ruim para a bolsa brasileira. Mas se continuar a ter fluxo para os emergentes, o Brasil tem hoje uma posição muito boa entre os emergentes.

Qual a vantagem do Brasil em relação aos outros emergentes?
Ninguém está querendo colocar dinheiro na China, por causa da Covid e também por causa da guerra na Ucrânia, por medo da China aderir à Rússia na guerra contra a Ucrânia. O Leste Europeu também está prejudicado por conta disso, assim como a Rússia. A nossa sorte é que o Brasil está numa posição muito confortável em relação aos mercados emergentes. Essa entrada de dinheiro estrangeiro no começo do ano foi muito por conta disso, dessa posição privilegiada do Brasil dentro dos mercados emergentes. Então acho que isso pode equilibrar, de alguma forma, eventuais saídas do investidor estrangeiro da nossa bolsa. Mas isso se continuar a ter fluxo para emergentes. Se tiver uma aceleração de juros lá fora, aí não tem jeito. Aí todo mundo vai sofrer, lá fora e aqui dentro.

Em que setores da bolsa você vê oportunidades, atualmente?
Eu acho interessante setores que sejam caixas líquidos, que tenham mais caixa do que dívidas, ações de empresas como Renner, Usiminas, Santos Brasil, CEG, etc. Também gosto bastante de empresas que sejam exportadoras, mas não de commodities, porque commodities eu tenho dúvidas em relação ao cenário externo. Apesar das commodities estarem com preços muito atrativos eu evitaria entrar em commodities neste momento, por conta do cenário externo. A Petrobras é uma ação interessante também, apesar do risco político, é uma ação muito barata e que tem um pagamento de dividendo muito forte. Papel e celulose é outro setor interessante, pois apesar de ser uma commodity é uma commodity que vem subindo bastante.

Como você vê os setores expostos a câmbio?
Na minha opinião os setores expostos a câmbio representam oportunidades interessantes, o câmbio não vai sair desse nível de 5 e pouco, e se sair vai ser daí prá cima. A gente vai ter o dólar muito forte lá fora por conta da elevação dos juros nos Estados Unidos, então setores expostos a câmbio são interessantes. E em relação ao consumo interno eu gosto muito do setor de shopping center, que é um setor que está tendo uma volta pós-covid muito forte.