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Maior fluxo com exterior
Novo presidente da Anbima defende ampliação dos limites para investimentos no exterior tanto para clientes do varejo quanto para qualificados e institucionais

Edição 346

O novo presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Carlos André, coloca entre os principais objetivos do seu mandato à frente da entidade, iniciado no dia 10 de maio, a captura das fintechs e das plataformas digitais para o ambiente da associação. Segundo ele, essas novas empresas “trazem visões, pontos de vista e práticas diferentes para enriquecer o debate”. Além disso, André diz que “segue prioritária a agenda de sustentabilidade (...) porém, os aspectos sociais ganharam espaço na nossa agenda, especialmente com o intenso debate sobre desigualdade e preconceito que tomou conta da opinião pública”. Ele falou com exclusividade à Investidor Institucional, repassando temas como investimentos no exterior, criptomoedas e influenciadores digitais, entre outros. Seguem, abaixo, os principais trechos da entrevista:

Investidor Institucional - Você assume a ANBIMA num momento de alta dos juros no Brasil e no mundo, o que já tem impulsionado as alocações em renda fixa em detrimento de outras classes. Como a continuação desse processo vai impactar o mercado de gestão de recursos daqui para a frente?
Carlos André - É natural que em um ciclo de alta de juros o investimento em renda fixa ganhe mais atratividade. Porém, a experiência dos últimos anos mostra que há uma maior consciência do investidor em relação à necessidade de diversificar a carteira. Além disso, a própria conjuntura pode mudar a concentração de recursos em renda fixa. Há uma expectativa do mercado e do próprio Banco Central de que esse ciclo de alta dos juros termine nos próximos meses e novas estratégias de investimento vão se fazer necessárias. O mercado é dinâmico e o investidor tem percebido isso.

Do outro lado da moeda, os investidores locais buscam cada vez mais investir no exterior. Você acha que a atual legislação para investimentos no exterior é adequada ou poderia ser melhorada?
Com certeza, há espaço para avanços. A internacionalização possibilita a diversificação, dando oportunidades para os brasileiros fazerem alocações mais adequadas, sempre de acordo com suas necessidades de prazo, risco e retorno. Além disso, a internacionalização permite mitigar tanto riscos sistêmicos como de liquidez. Acho que é essencial dar liberdade de escolha e capacidade de diversificação aos brasileiros.

Embora a alocação no exterior tenha crescido, muitos ainda acham esse caminho difícil. Porque?
Fizemos um amplo estudo com a PwC que resultou na nossa agenda de internacionalização, com propostas para descomplicar tanto o investimento lá fora como o caminho inverso, ou seja, facilitar a vinda de capital estrangeiro para o Brasil. Durante a audiência pública da CVM para revisão das regras para fundos de investimento destacamos a importância da ampliação dos limites para investimento no exterior. A própria proposta da CVM já trouxe avanços, permitindo que investidores de varejo possam investir até 100% lá fora, desde que seguidos alguns requisitos específicos, mas achamos que ainda podemos e devemos evoluir.

Que pontos deveriam evoluir?
Entre as nossas propostas está a equiparação no acesso ao exterior, principalmente entre a regulação de fundos e BDRs. Hoje, os investidores do varejo podem ter até 100% de suas aplicações em BDRs, enquanto os fundos destinados aos mesmos investidores podem aplicar, no máximo, 20% em papéis internacionais. Também defendemos uma majoração dos limites gerais, que hoje são de 20% (varejo) e 40% (qualificado) para, respectivamente 40% e 60%. Outro ponto que facilitaria a entrada dos investidores locais no exterior é a harmonização tributária. Atualmente, há várias assimetrias de tributação de imposto em investimentos na mesma categoria, para alocações no Brasil e no exterior, tanto na renda fixa como na variável. No caso da renda variável, há mais diferenças. Se o investidor comprar ativos internacionais negociados aqui, como BDRs e ETFs, paga 15% de imposto. Caso compre diretamente lá fora, esse valor pode chegar a 22,5%.

Os investidores institucionais só podem investir no limite de 10% da sua carteira no exterior. Acha que é um limite muito baixo?
Acreditamos que permitir uma maior exposição dos investidores institucionais a aplicações no exterior é salutar para o mercado e para os clientes, pois aumenta a possibilidade de diversificação e de mitigação de riscos das carteiras. É um movimento que poderia contribuir para a evolução ainda maior dos produtos de previdência.

A alocação no exterior caiu no gosto do investidor médio brasileiro?
Até algum tempo atrás, as aplicações no exterior eram voltadas para investidores de alta renda, como clientes do segmento private ou family offices. Isso foi se desmistificando nos últimos anos. Entre 2017 e 2020 vivenciamos um ciclo de baixa da taxa de juros, que levou os investidores médios a diversificarem suas carteiras em busca de aplicações mais arrojadas, com melhor relação de risco/retorno. E os investimentos lá fora apareceram como uma boa alternativa a essa demanda. Não apenas a busca dos clientes por esse tipo de aplicação cresceu, como também a regulação do mercado evoluiu para acompanhar esse movimento.

Como você vê o surgimento de novas classes de investimento, como as ligadas à infraestrutura, ao agro etc?
Diante das constantes mudanças dos mercados, novos temas entram na agenda a todo tempo. E é papel da Associação acompanhar esse movimento, atento às necessidades dos profissionais de mercado e dos investidores.

Qual sua posição em relação às criptomoedas?
A oferta de novos produtos e serviços se intensificou de forma notável nos últimos anos, com negociação de crescentes volumes de diferentes tipos de criptoativos. Entendemos que esse é um mundo novo e envolve não só os ativos digitais, mas uma série de inovações. Por conta disso, temos uma ampla agenda com foco em finanças descentralizadas e nos vários usos da tecnologia blockchain, seja no mercado financeiro ou de capitais. Nossa pauta nesse assunto tem três frentes: produção e disseminação de conteúdo sobre o assunto; construção de conhecimento; e disseminação de conhecimento.

Como as criptomoedas estão entrando na indústria de fundos?
Recentemente a Anbima fez um levantamento que mostrou que o patrimônio líquido dos fundos cripto teve alta de cerca de 800% entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2022, de R$ 600 milhões para R$ 4,8 bilhões. Ou seja, o interesse por criptoativos é crescente. Uma das nossas idéias é a criação de regras, via autorregulação, para fundos que têm ativos digitais em suas carteiras.

A Anbima poderia trazer esse segmento para dentro de casa?
Queremos observar esses papéis da mesma forma que olhamos os demais que compõem a carteira dos fundos, visando a diligência necessária à favor da transparência. Temos um grupo de trabalho para debater e as regras devem entrar em audiência pública para recebimento de sugestões do mercado no segundo semestre. Além disso, pretendemos rever as regras de suitability. No escopo está uma série de aprimoramentos, como a inclusão de produtos que investem ou estão relacionados a ativos digitais, como fundos, COEs, entre outros. Essa discussão deve ser iniciada no segundo semestre.

Os aconselhadores financeiros, ou AAIs, têm aumentado sua influência nas decisões de investimento das pessoas físicas. Qual sua opinião sobre essa atividade?
O ciclo de queda de juros, registrado entre 2017 e 2020, levou os investidores a diversificarem seus portfólios em busca de maiores rentabilidades, o que estimulou a busca por orientação e aconselhamento para basear a tomada de decisão. Com isso, os agentes autônomos passaram a ter uma relevância central na democratização do acesso aos produtos financeiros. Vamos trabalhar na definição de melhores práticas na autorregulação para o aconselhamento profissional, nas diferentes estruturas do mercado em que ele está presente atualmente, como na gestão, na distribuição e na consultoria. Esse trabalho deve se estender ao longo de 2022.

E quanto aos influenciadores digitais, o que pensa sobre esses novos profissionais do mercado de investimentos?
Os influenciadores digitais que falam de investimentos e finanças pessoais nas redes sociais têm um papel de destaque na propagação da educação financeira. São personagens que atingem uma base de mais de 91,5 milhões de seguidores, com diferentes abordagens e estratégias para tratar de temas do universo financeiro. Começamos a monitorar esse universo diariamente em setembro de 2020, buscando entender quais são as dinâmicas das mídias digitais quando o tema é investimentos e como se comportam os principais atores desse ecossistema. De lá para cá, divulgamos estudos e materiais à imprensa e também firmamos um convênio com a CVM para compartilhamento dessas informações.

Eles também deveriam se submeter aos códigos de autoregulação?
Não eles, mas nossos associados. Há anos as instituições financeiras firmam parcerias com os influenciadores para campanhas de conteúdo de longa duração ou ações publicitárias específicas sobre produtos de investimentos. Uma das nossas metas para 2022 é a criação de melhores práticas para as instituições financeiras seguirem na hora de contratar os influenciadores. Vale reforçar que isso não é regular os influenciadores. Nossa autorregulação é voltada para as instituições financeiras que seguem os códigos de melhores práticas, ou seja, não atuaremos diretamente sobre os influenciadores de investimento. As nossas normas serão sobre como as casas deverão agir na hora de contratar influenciadores para a oferta de produtos.

Como será o relacionamento da Anbima com outras entidades, como Amec, Apimec, Abrapp, Ancor, Abaai etc?
Daremos continuidade às parcerias e ao diálogo com outras instituições, assim como com governo e reguladores, em prol do desenvolvimento do nosso mercado. O trabalho conjunto em favor do mercado não poderia ser realizado sem a proximidade que temos com entidades importantes, como essas que você citou. Este ano a entidade faz 13 anos, mas temos mais de cinco décadas de trabalho em favor dos mercados, um trabalho que sempre foi apoiado por parcerias e respeito ao trabalho de outras entidades representativas das várias classes, governo e reguladores.

Sinteticamente, quais seus principais objetivos à frente da Anbima?
Uma pauta importante é trazer para a associação novos players, como as fintechs e plataformas digitais, que trazem visões, pontos de vista e práticas diferentes para enriquecer o debate. Além disso, segue prioritária a agenda de sustentabilidade. Avançamos bastante com pesquisas, diagnósticos e com o lançamento da classificação de fundos e gestoras ESG. Porém, os aspectos sociais ganharam espaço na nossa agenda, especialmente com o intenso debate sobre desigualdade e preconceito que tomou conta da opinião pública. Outra área que receberá cada vez mais investimentos é educação, seja para profissionais do mercado ou investidores. Vamos adaptar as nossas certificações para a nova realidade da distribuição, um trabalho estrutural, de longo prazo, que começa com um mapeamento geral de como está a cadeia hoje e quais as funções dos profissionais.

E a pauta com o governo e reguladores?
Vamos dar continuidade ao diálogo com o governo e com os reguladores, especialmente a CVM. Não é de hoje que a autarquia tem sido uma parceira importante, mostrando-se sempre sensível às considerações do mercado levantadas por nós. Evoluímos para um número crescente de convênios de autorregulação e acordos de cooperação técnica, tanto para análises prévias como para compartilhamento de informações. São vários os convênios hoje entre a Anbima e a CVM, o último deles firmado no ano passado, para acompanhar a atuação dos influenciadores que falam sobre investimentos nas redes sociais.