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Objetivo deve ser equilibrar a carteira para ganhar no longo prazo
Daniel Celano

Edição 332

O investimento previdenciário é desafiador, em função de horizontes de investimento mais longos, riscos de reinvestimento e riscos atuariais envolvidos. Não é uma tarefa simples traçar metas de rentabilidade críveis ao longo do tempo para os planos de previdência, no melhor interesse de seus participantes, além de identificar e pesar variáveis, entre riscos e oportunidades, que possam impactar os retornos esperados. Também é preciso compreender o perfil do investidor para atender aos seus objetivos e, ao mesmo tempo, trazer alternativas que possam eventualmente superá-los, por meio da diversificação da carteira, especialmente importante para planos de contribuição definida/ variável.
Ajudar alguém a construir o seu futuro financeiro e reserva de valor de longo prazo sempre é um trabalho complexo, que requer disciplina e expertise. Quando o presente se torna mais volátil e incerto, como agora, em meio à crise da Covid-19, esse trabalho se torna ainda mais desafiador e fundamental para buscar garantir os retornos almejados, especialmente no momento em que o investidor está mais preocupado e apreensivo.
De fato, no Estudo Global de Investidores 2020 da Schroders sobre aposentadoria, uma parcela significativa (41%) dos 23 mil investidores pessoas f√≠sicas ouvidas, em 32 localidades no mundo todo, expressou a preocupa√ß√£o de que a sua renda na aposentadoria poderia n√£o ser satisfat√≥ria. Al√©m disso, 55% acreditam que a previd√™ncia p√ļblica n√£o ser√° suficiente. No Brasil, esses percentuais eram de 33% e 62%, respectivamente. O estudo tamb√©m mostrou que essas apreens√Ķes est√£o refletidas na boa parcela de renda que os entrevistados disseram reservar para a aposentadoria: 15,2% globalmente e 16% no Brasil.
Por outro lado, 38% dos investidores disseram n√£o entender as op√ß√Ķes dispon√≠veis para eles com suas economias para a aposentadoria. No Brasil, 36% disseram se sentir dessa forma. Ou seja, apesar de ser positiva a parcela de renda dedicada para a aposentadoria, ainda falta uma compreens√£o maior do investidor sobre as alternativas para aplica√ß√£o dos recursos de maneira eficiente e diversificada. Porque n√£o basta reservar um bom percentual da renda para a aposentadoria: √© preciso investi-lo de maneira eficaz, com foco no longo prazo e com diversifica√ß√£o no portf√≥lio, combinando renda vari√°vel, renda fixa, multimercados no Brasil e no exterior.

Segundo a pesquisa, em tr√™s anos, aumentou de 5% para 21% a parcela dos aposentados em todo o mundo que est√£o investindo a sua renda dispon√≠vel de volta em suas poupan√ßas para a aposentadoria, dada a maior longevidade e o maior custo de vida que o vislumbrado anteriormente nessa fase da vida. Hoje, apenas 26% dos aposentados colocariam dinheiro em outro tipo de investimento, como a√ß√Ķes, t√≠tulos de d√≠vida ou commodities. Ap√≥s um ano de incertezas significativas, talvez isso n√£o seja surpreendente, mas certamente n√£o √© o ideal.
O estudo da Schroders também mostrou maior aceitação dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) para investir com foco na aposentadoria. No geral, 42% dos investidores globais e no Brasil afirmaram que o investimento sustentável é atrativo devido à probabilidade de retornos mais altos. E apenas 8% das pessoas não investem em fundos que consideram os aspectos de sustentabilidade por acharem que eles não oferecem retornos mais altos. Ainda assim, os aposentados têm quase duas vezes mais probabilidade do que os não aposentados de ter essa percepção, indicando que eles podem estar perdendo as oportunidades oferecidas por esse tipo de investimento.
O ESG ganhou ainda mais relev√Ęncia ap√≥s a Covid-19 e, na perspectiva das finan√ßas, diz respeito √† probabilidade de o ativo continuar gerando retornos acima do mercado no longo prazo, o que √© o foco do investimento previdenci√°rio para uma renda satisfat√≥ria na aposentadoria. Empresas que t√™m uma abordagem ESG na condu√ß√£o de seus neg√≥cios tendem a ser mais resilientes e mais bem preparadas para os desafios futuros. Ou seja, incluir esses ativos no portf√≥lio contribui para mitigar riscos de cauda (eventos com baixa probabilidade de ocorrer, mas que, se ocorrerem, t√™m efeitos muito agudos).
Como vimos com o caso da Covid-19, as crises podem ser totalmente inesperadas e impor perdas mais fortes a um portf√≥lio de investimentos pouco preparado para eventualidades do tipo. Ainda assim, a situa√ß√£o exige ajustes eficazes e agilidade por parte do gestor para proteger o patrim√īnio e buscar manter as rentabilidades almejadas no longo prazo. No Brasil, o estudo da Schroders mostrou que, entre fevereiro e mar√ßo de 2020, quando os mercados de a√ß√Ķes passaram por um per√≠odo de volatilidade mais intenso, 79% das pessoas fizeram altera√ß√Ķes em sua carteira, com 70% delas modificando o n√≠vel de risco. Entre os entrevistados no pa√≠s, 27% disseram ter transferido por√ß√Ķes consider√°veis da carteira para investimentos de risco mais baixo; e 16% fizeram o mesmo movimento, mas para investimentos de risco mais alto.

A crise da Covid-19 tamb√©m provocou um foco maior do investidor nas suas aplica√ß√Ķes, com quase metade (49%) das pessoas entrevistadas afirmando que agora pensam em seus investimentos pelo menos uma vez por semana, em compara√ß√£o com 35% antes da pandemia. No Brasil, essa porcentagem √© ainda maior: 65% dos investidores pensam nas suas aplica√ß√Ķes frequentemente (ao menos uma vez na semana) desde o come√ßo da crise. Antes da crise, a parcela era de 52%.
Mas, apesar de toda a movimenta√ß√£o dos mercados e dos ajustes necess√°rios aos investimentos, √© preciso se ater aos princ√≠pios e objetivos previdenci√°rios, equilibrando a carteira para ganhar no longo prazo, e n√£o apenas para n√£o perder no curto prazo. Separar o barulho e ansiedade do curto prazo da trajet√≥ria e objetivos de longo prazo √© muito importante. O papel do strategic asset allocation como b√ļssola nessa trajet√≥ria √© ponto central para os investidores e gestores de fundos de pens√£o, ainda mais relevante quando as taxas de juros est√£o nas m√≠nimas hist√≥ricas, e o c√Ęmbio, desvalorizado. √Č natural que um momento de incerteza gere apreens√£o e avers√£o a risco no primeiro momento, mas pode-se observar uma busca por mais conhecimento financeiro dos clientes, bem como uma mudan√ßa relevante na composi√ß√£o dos portf√≥lios.
Torna-se cada vez mais cr√≠tico persistir com os objetivos de acumula√ß√£o para aposentadoria no longo prazo, com foco na diversifica√ß√£o, nas contribui√ß√Ķes mensais, em rentabilidades baseadas em juros reais e ap√≥s impostos, apesar das oscila√ß√Ķes moment√Ęneas do mercado, considerando a √≥tica ESG. Esse desafio foi intensificado pela crise em 2020 e persistir√° em 2021. Para super√°-lo com mais seguran√ßa, o investidor pode contar com a orienta√ß√£o de um profissional, capacitado a olhar para o cen√°rio mais amplo e com recursos para avaliar as m√ļltiplas vari√°veis em jogo nesse panorama cada vez mais complexo. A mudan√ßa de mentalidade do investidor, concentrado no desempenho das suas aplica√ß√Ķes e olhando para o futuro, j√° est√° em curso. Trata-se de transform√°-la efetivamente em realidade, para perseguir bons resultados e, assim, atingir as metas para a aposentadoria.

Daniel Celano é Diretor responsável pela gestão de recursos de terceiros da Schroders Brasil