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A inevitável e imprescindível agenda ESG
Marcelo Mello

Edição 332

É interessante falar sobre as questões ESG (do inglês environmental, social & governance) no fechamento de 2020. O ano foi emblemático para esta agenda, que se consolidou e ganhou força entre as lideranças corporativas e do mercado de investimentos após duas décadas desde o surgimento das primeiras iniciativas. A “moda” parece recente, mas o tema definitivamente não é. Já se passaram 21 anos desde o lançamento do primeiro índice de sustentabilidade no mundo, o Dow Jones Sustainability Index (1999), praticamente 20 anos desde o lançamento do primeiro fundo de investimentos responsáveis no Brasil (2001), 15 anos desde o lançamento do Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 (2005) e 13 anos desde o lançamento do PRI, principal acordo de investimentos responsáveis no mundo (2007). Afinal, por que só agora o ESG entrou de fato no mainstream dos investimentos?
O aprendizado sobre os impactos das questões ESG nas empresas e, por consequência, nos portfólios de investimento, envolve o desenvolvimento de estudos e cases que suportem a principal tese de investimentos ESG, de que empresas que integram esta agenda na sua estratégia têm um desempenho acima de seus pares de mercado. A afirmação tem sua fundamentação na maior diligência na gestão de riscos, que levaria a uma maior preservação do valor das companhias. Probabilidades mais baixas de acidentes, mitigação de conflitos com stakeholders, menor exposição a conflitos de interesse são exemplos de aspectos considerados na análise de controvérsias ESG analisadas pelos investidores. Em seu Guia ESG, a Anbima reforça a tese relatando estudo de Friede, Bush, & Bassen (2015) em que foram analisados mais de 2 mil trabalhos sobre a correlação entre a adoção de políticas ESG e o desempenho financeiro. A conclusão foi que quase 90% dos trabalhos mostraram correlação neutra ou positiva sendo que em 63% a correlação foi positiva.
Um outro fator que começa a fazer diferença, no entanto, é que estas mesmas empresas também apresentam um diferencial competitivo por estarem mais alinhadas às novas demandas do mercado, preparadas para mudanças regulatórias e, portanto, conseguem ser mais inovadoras. Saem da agenda da preservação para a geração de valor.
Com essa constatação, analistas e gestores passaram a considerar as questões ESG como uma proxy de qualidade de gestão. Inicialmente pela via da governança corporativa, já plenamente incorporada pelo mercado, mas cada vez mais trazendo os aspectos ambientais e sociais para a pauta dos diálogos e questionamentos com as companhias. O tema ganhou força em países desenvolvidos e em algumas regiões o volume de recursos que adota alguma estratégia de integração ESG na decisão de investimentos ultrapassa os 50% do AuM dos mercados, como é o caso na Europa, Canadá e Austrália.

No Brasil, tivemos uma primeira onda ESG a partir do lançamento do ISE e do PRI, que aconteceram entre os anos de 2005 e 2007. O índice pautou o lançamento de fundos de sustentabilidade, até então escassos no mercado local, enquanto o acordo internacional permitiu que se criasse um debate organizado em torno das questões ESG para os investidores institucionais. Fomos os primeiros no mundo a ter uma rede local de signatários do PRI, organizada pela Previ (representante da América Latina no Conselho do PRI) e que virou modelo para o desenvolvimento de outras 9 redes nos EUA, Europa, Ásia e Oceania. Ter um debate local foi fundamental para trazermos as especificidades do nosso mercado e dos nossos investidores, tanto entre os fundos de pensão como gestores de recursos. A SulAmérica Investimentos passou a integrar essa rede em 2009, participando ativamente das iniciativas locais e pontes com os investidores globais focados em avançar na agenda de integração ESG.
Por alguns anos acompanhamos a evolução do mercado internacional “de longe”. As estratégias de integração ESG no Brasil foram predominantemente de produtos best in class, fundos que selecionam as melhores empresas de cada setor para a composição do portfólio, ou de integração transversal às análises e modelos de valuation, segundo as pesquisas realizadas pela Anbima. Nos últimos anos, no entanto, com a queda da taxa básica de juros e a necessidade de diversificação das carteiras, o ESG se tornou uma tese de investimentos mais atrativa para os investidores institucionais locais, até que este ano tivemos um boom do tema no país e no mundo.
As discussões a partir da pandemia trouxeram à luz os riscos da vulnerabilidade social e os potenciais impactos do atual modelo de negócios sobre o meio ambiente. Passamos a falar em capitalismo de stakeholders, redução das desigualdades sociais como caminho para a resiliência econômica, mercado de carbono, preservação do capital natural... temas que requerem um aprofundamento de conceitos e a participação ativa das lideranças do setor público e privado. A agenda saiu das áreas técnicas de meio ambiente e sustentabilidade para a mesa dos Conselhos de Administração e Comitês Executivos, pautados pela necessidade de revisitar a sua atuação em uma sociedade e um mundo em mudança.
Questões ESG dizem respeito à eficiência operacional, redução de riscos, potencial de crescimento e resiliência em situações adversas como a que vivemos este ano. Não por acaso, os estudos de mercado apontam que boa parte dos índices de sustentabilidade e fundos ESG apresentam desempenho acima da média de mercado em 2020, considerando tanto a queda como a retomada do mercado. Segundo dados da BlackRock, no primeiro trimestre de 2020 94% dos índices de sustentabilidade globais tiveram um desempenho acima dos seus pares que não consideram esses fatores na composição das carteiras teóricas. No Brasil, foram criados dois índices que consideram a temática ESG na sua composição: o Índice S&P/B3 Brasil ESG, que utiliza as ponderações ESG da S&P DJI para a formação de um índice amplo, e o Índice CDP de Resiliência Climática, composto a partir do score de empresas listadas no Brasil no questionário de mudanças do clima do CDP, maior banco de dados ambientais de empresas do mundo.
O lançamento de fundos ESG pelos gestores, antes voltados quase exclusivamente para o mercado de ações, invadiu o terreno dos ativos de crédito privado, previdência e investimentos alternativos. O aumento da oferta é importante para acompanhar o interesse do mercado em todos os segmentos, do varejo aos institucionais, mas temos que atentar para alguns pontos chave. A existência de critérios claros de diferenciação dos produtos mainstream, uma metodologia consistente de análise e composição de portfólio e o monitoramento dos ativos em carteira são imprescindíveis para garantir que os produtos não se tratem apenas de uma estratégia de comunicação, conhecida no mercado como greenwashing. Resumindo, mais importante do que o produto específico é o grau de profundidade com que as gestoras de investimentos estão incluindo em seus processos de decisão os fatores ESG.
Para separar o joio do trigo entram em cena as associações, grupos de trabalho e, não menos importante, os reguladores. Iniciativas como o Laboratório de Inovação Financeira, coordenado pela ABDE, BID, CVM e GIZ, atuam em um modelo multistakeholder para gerar e disseminar conhecimento para o avanço da agenda ESG no Brasil. O compartilhamento de informações promove sinergias entre associações do setor financeiro – como FEBRABAN, Anbima, Abrapp e Apimec – e geram insumos relevantes para as pautas regulatórias do Sistema Financeiro Nacional. Além da coordenação da CVM, Banco Central e Susep participam ativamente do LAB, que este ano atuou, por exemplo, na pré consulta pública da Instrução CVM 480, pautando a divulgação de informações ESG pelas companhias abertas. Outros reguladores e supervisores como o Banco Central e a Previc já incluem estes aspectos na regulação do sistema financeiro e se preparam para aprofundar a agenda, com a inclusão de temas como a análise e reporte de riscos climáticos, iniciativa lançada no contexto da agenda BC#.
As questões ESG, que começaram como uma agenda voluntária nas mesas de investimento, aproximam-se cada vez mais das áreas de compliance com o aumento e aprofundamento da regulação de companhias e instituições financeiras. Ainda que no momento atual estejamos em meio a um tsunami ESG, a história nos mostra a consistência com que o tema se colocou na agenda dos investidores institucionais, saindo de uma tendência distante para a realidade da gestão de ativos no Brasil e no mundo. Seja pela demanda, pela performance ou pela regulação, todos os caminhos levam ao ESG.

Marcelo Mello é Vice-presidente de Investimentos, Vida e Previdência da SulAmérica