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Chegou a hora de pagar a conta
Eduardo Yuki

Edição 333

A atividade mundial deverá apresentar forte crescimento nesse ano com o processo de vacinação e os enormes estímulos fiscais e monetários, especialmente nos países desenvolvidos.
Nos EUA, a imunização possibilitará o retorno gradual do convívio social e beneficiará o setor de serviços ao longo dos próximos trimestres. Além disso, o presidente Biden está trabalhando para aprovar mais um enorme pacote de estímulo fiscal e o FED tem sinalizado a disposição em manter a taxa de juros próxima de zero por muito tempo. Assim, projetamos forte expansão do PIB real americano em 6,3% nesse ano.

Na Europa, os governos estão fazendo esforços para acelerar a vacinação e o BCE também deverá manter os estímulos monetários extraordinários por muito tempo. Mantemos nossa visão construtiva para a região.
Na China, a atividade econômica segue robusta. O PIB real do quarto trimestre de 2020 ficou 6,5% acima do nível do quarto trimestre de 2019. O crescimento da demanda doméstica possibilitou que o volume de importações superasse o patamar anterior da crise.

Descolamento - No Brasil, implementamos estímulos extraordinários a partir do segundo trimestre do ano passado para reverter a recessão econômica. Essas medidas aumentaram significativamente o endividamento do setor privado e público. Chegou a hora de pagar a conta.
Nos próximos meses sofreremos o impacto de cinco fatores que pesarão sobre a atividade, a saber:
Aperto fiscal: a dívida pública atingiu 89% do PIB no ano passado e o governo precisará conter seus gastos para manter a solvência fiscal. Isso significa que não existe capacidade financeira para estender o auxílio emergencial, o que prejudicará o poder de compra das famílias.
Aperto monetário: o BCB sinalizou que pretende iniciar um ciclo de aumento da taxa de juros em breve. Aumento da taxa Selic tende a elevar o custo de captação dos bancos e prejudicar o ciclo de crédito.
Endividamento das famílias: a forte expansão do crédito no segundo semestre do ano passado aumentou o endividamento das famílias. O elevado comprometimento de renda com serviço de dívida limitará a expansão da concessão de crédito.
Choque de alimentação: o forte aumento dos preços de alimentos nos últimos meses reduziu o poder de compra das famílias. Para evitar uma redução significativa do padrão consumo de alimentos, as pessoas deixam de consumir outros bens e serviços.
Vacinação: nosso processo de vacinação ainda está cercado de incerteza. A lentidão na imunização prejudica a redução sustentada do isolamento social e o desempenho da atividade econômica.

Considerando os cinco pontos acima, estimamos retração da atividade econômica nesse semestre. A esperança por um processo de vacinação mais ordenado nos leva a sonhar em uma recuperação no segundo semestre. Assim, projetamos crescimento do PIB real em 3,0% nesse ano.

A taxa de desemprego permanecerá muito alta nesse ano. A população ocupada estava em torno de 94 milhões antes da crise e, após uma pequena recuperação nos últimos meses, atingiu 85 milhões em novembro (com ajuste sazonal). Isso significa que 9 milhões de pessoas que perderam emprego na crise ainda não conseguiram recolocação profissional. Lembrando que antes da crise já havia 12 milhões de desempregados, estamos falando de 21 milhões de pessoas sem ocupação, nesse momento.
Essa elevada ociosidade no mercado de trabalho evitará pressão salarial relevante e ajudará a manter a inflação de serviços bem comportada. Estimamos IPCA em 3,5% em 2021 e 2022.
O Banco Central do Brasil sinalizou na última ata do Copom que pretende iniciar um ciclo de alta da Selic em março, para retirar o excesso de estímulo adotado no auge da pandemia. O ambiente de retração da atividade, elevada ociosidade do mercado de trabalho e projeções de inflação no centro da meta nos levam a acreditar que o ritmo de normalização será gradual, até chegar a 3,5% no final do ano. Não podemos menosprezar a possibilidade do BCB postergar o ciclo de alta de juros.
Portanto, estamos iniciando um período de ajustes no balanço das famílias, empresas e governos. Isso gerará uma retração da atividade nesse semestre e dissociaremos do mundo. Melhor um ajuste factível agora, do que usar o cheque especial e empurrar os problemas para frente.

Eduardo Yuki é economista-chefe da Par Panamby