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O verdadeiro papel dos institucionais em ESG
Fabio Alperowitch

Edição 335

O voc√°bulo verdadeiro n√£o foi inserido no t√≠tulo deste artigo ao acaso. Se h√° um papel verdadeiro, podemos inferir que haja d√ļvidas ou m√° compreens√£o sobre qual seja ele, sendo ent√£o este debate o objetivo desta leitura.
Para contextualizar, cabe rememorar que a sustentabilidade não tem nada de novo. A novidade é como ela tem sido tratada pelas empresas. Antes confinada aos setores de conformidade, agora alçada à mesa dos CEOs. Antes preocupada com a obtenção de licenças ambientais ou prevenção de multas, agora compreendida como agenda de criação de valor e gestão de riscos, para dizer o mínimo.
Curiosamente, para muitos investidores institucionais a integração ESG está trilhando o mesmo rumo que a sustentabilidade erroneamente seguiu no mundo corporativo: o da conformidade e não o da agenda de criação de valor. Esta é uma visão antiga e superada.
No mundo, (i) muitos investidores institucionais adotaram a agenda ESG por entenderem que faz parte do seu papel criar impacto positivo na sociedade. Outros (ii) abra√ßaram a filosofia ESG para evitarem riscos e quest√Ķes reputacionais. H√° tamb√©m um grupo (iii) que aderiu ESG por uma quest√£o pragm√°tica: os retornos s√£o superiores, sendo ent√£o uma excelente aloca√ß√£o de capital. Mas, h√° tamb√©m os (iv) que adotaram este caminho apenas por ser bem-visto, em uma disparatada atitude marqueteira. Cabe, desde j√°, a reflex√£o aos institucionais brasileiros para entender a qual grupo pertencem, sendo este artigo dirigido aos tr√™s primeiros tipos.
Independente da motiva√ß√£o que os tenha trazido para esta agenda, a incorpora√ß√£o da mesma √© feita de forma distinta entre as institui√ß√Ķes. Por exemplo, h√° os que investem apenas em ativos aderentes √†s pr√°ticas ESG. Outros entendem o seu papel no espectro oposto: o de investir em ativos deficientes nos assuntos ESG e tornarem-se ativistas para a transi√ß√£o de agenda.
Ambos os caminhos s√£o aceit√°veis, desde que adotados corretamente.
Aqueles investidores que preferem alocar seus recursos em empresas sustent√°veis, e serem mais passivos na rela√ß√£o com as companhias investidas, precisam ter plena certeza de que as empresas selecionadas s√£o, de fato, aderentes √†s pr√°ticas ESG sob o risco de comprarem ‚Äúgato por lebre‚ÄĚ. Se o objetivo prim√°rio era investir em empresas de qualidade, n√£o o fazer acarretaria no comprometimento dos retornos.
Analogamente, os que escolheram o caminho de investir em empresas problemáticas e ativamente recuperarem-nas, precisam se certificar que o ativismo é exercido de fato, existindo não só uma agenda clara de objetivos, mas também uma estratégia viável para os atingir e uma política definida de atitudes a serem adotadas caso os pleitos não sejam bem-sucedidos.
A m√° ado√ß√£o desta estrat√©gia embute dois riscos: (i) caso n√£o seja efetivo em seus pleitos, o investidor acabar exposto a um investimento pior e (ii) investidores menos s√©rios terem a faculdade de adquirirem o ativo que bem entenderem e realizarem um engajamento esvaziado, podendo livremente ostentar a bandeira ESG sem de fato a seguirem (o chamado ‚Äúgreenwashing‚ÄĚ).
O debate ESG √© ainda superficial no Brasil. Quest√Ķes complexas s√£o ignoradas ou esvaziadas e √© muito comum ver investidores discutindo se uma empresa √© ou n√£o aderente √†s pr√°ticas ESG apenas pelo setor ao qual pertence ou por quantas toneladas de carbono emite. Hipoteticamente, chegar√≠amos ao ponto de ver trabalhadores despencando de andaimes de uma construtora carbono neutro que deixou de investir em seguran√ßa no trabalho em prol da agenda do clima.
Quem est√° de fato capacitado e atualizado para lidar com tais assuntos? A interpreta√ß√£o atrav√©s de selos auto-declarat√≥rios √© garantia de alguma coisa ou tais selos t√™m sido instrumentalizados no greenwashing‚ÄĚ?
Precisamos nos atentar que ESG n√£o √© global, √© regional. Os desafios das empresas brasileiras n√£o s√£o necessariamente os mesmos de seus cong√™neres internacionais, e, portanto, as solu√ß√Ķes tamb√©m n√£o ser√£o.
A questão é que não existe escolha a ser feita, ela já foi feita. O ESG é uma realidade, ainda que incipiente por aqui, e só tende a ganhar corpo. E rápido. Cabe então aos investidores institucionais a decisão de como integrar ESG a seus processos: o caminho da profundidade e densidade não é fácil, porém sustentável. O caminho do atalho é de simples adoção, mas certamente induz a riscos materiais de grandes montas, financeiros e reputacionais.
Os institucionais possuem um papel relevante. Entender o contexto, assumir o atraso, rejeitar a superficialidade, qualificar o debate e cobrar vigorosamente das empresas investidas e gestores terceirizados uma agenda ESG de compromissos ambiciosos (e não discursos) é papel fundamental no exercício de sua responsabilidade.
Fabio Alperowitch é sócio-fundador da FAMA Investimentos