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Mudança dos ventos internacionais
Tatiana Pinheiro

Edição 339

Condições extraordinárias de liquidez regeram este ano. Os estímulos monetários e fiscais em resposta à pandemia nas economias avançadas e emergentes resultaram em recuperação rápida da mais profunda recessão dos últimos 40 anos. É esperado crescimento mundial em 6,0% em 2021, após contração de 3,2% em 2020.
A economia mundial está em expansão, estágio do ciclo econômico em que o crescimento é relativamente rápido, as taxas de juros tendem a ser baixas, a produção e as pressões inflacionárias aumentam. Mas tudo indica que nos aproximamos do pico e, com ele, da correção de alguns desequilíbrios inerente a esta fase do ciclo. Em breve, o melhor momento da expansão terá passado. Já que a expectativa é de desaceleração do ritmo de crescimento em 2022.
A combinação de liquidez farta —por renda direta aos indivíduos e por baixas taxas de juros — e do início da vacinação em massa, provocou uma elevação da demanda por bens e ativos. Um grande reflexo disso foi a alta de 45% dos preços de commodities nos últimos doze meses. Outro é a elevação da inflação pelo mundo. Entre janeiro e julho, a mediana da inflação anual passou de 1% para 3% nas economias avançadas e de 2% para 4% nas economias emergentes. Com isso, o debate sobre a redução dos estímulos monetários cresce. Com alguns países adotando discursos ou medidas efetivas de diminuição destas políticas. Foi o caso do banco central do Canadá, que começou a reduzir a compra de títulos em abril e Coréia do Sul, que aumentou juros em agosto. Nova Zelândia e Noruega também já sinalizaram que pretendem iniciar a retirada dos estímulos ainda neste ano. E, a mais importante discussão, o banco central dos EUA que em seus comunicados e falas dos membros do comitê indica que se aproxima o momento da redução da compra de títulos de longo prazo — em $120 bilhões mensais. Isto sem falar do fim das políticas de gastos sociais ao longo de 2022, com o controle da pandemia. Em nossa opinião, as novas variantes da Covid-19 (Gama e Delta) são riscos de cauda, a julgar pela baixa relação entre número de mortes e novos casos.
Não é de se estranhar a quebra da tendência de alta de alguns ativos que estavam até então surfando o momento de expansão econômica mundial. Desde junho os preços de commodities agrícolas estão flutuando em torno do mesmo patamar, apesar da extensão do problema climático (La Niña). Em agosto, as commodities metálicas e o petróleo registram queda de 2,5% e 7,35%, respectivamente. Na nossa opinião, estes movimentos são adequações das expectativas a nova fase que se aproxima de acomodação do crescimento com o fim dos estímulos extraordinários e o realinhamento de preços. Tanto que a cesta de moedas emergentes também depreciou 1% no último mês, a despeito da elevação dos juros em grande parte destas economias.
O anúncio dos próximos passos do FOMC em relação à política de compra de títulos públicos e mobiliários deve ter efeitos nos mercados acionários e de renda fixa. Esperamos reações menores que as observadas após o anúncio feito em dezembro/2013 — que reduziu o volume de compra de títulos pós-crise financeira de 2008. Mesmo assim, prevemos ajuste de juros para cima resultando na revisão dos lucros esperados para baixo e a redução do diferencial de juros reduzindo a atratividade das economias emergentes.
Com grande probabilidade, o extraordinário dará lugar a normalidade em 2022. Este contexto é desafiador para os emergentes, que enfrentarão agendas importantes como redução dos gastos fiscais e controle das pressões inflacionárias em meio ao processo de vacinação e mercado de trabalho ainda fraco. Isto porque há grandes divergências entre os emergentes na pandemia. Para muitos, o ajuste dos juros para controlar a inflação será ao custo de ampliar suas fragilidades. Além disso, alguns países na América Latina terão ciclos eleitorais, como Costa Rica, Colômbia e Brasil.
Os ventos já anunciam um novo cenário pela frente. A boa notícia é que parte considerável das mudanças já são conhecidas. Nos cabe reconhecer a alteração do cenário e se adequar. Afinal, segundo Confúcio: “Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer”.
Tatiana Pinheiro é economista-chefe da Panamby Capital