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Perspectivas positivas para os ativos de risco em 2024
Ricardo Eleutério

Edição 363

Para entender o horizonte macroecon√īmico que se desenha para 2024 e como ele impacta os investimentos, √© necess√°rio recordarmos alguns dos principais marcos de 2023. Ap√≥s um per√≠odo prolongado de press√£o inflacion√°ria global, os pa√≠ses t√™m assistido a uma desacelera√ß√£o significativa da infla√ß√£o. O movimento, at√© ent√£o bem-sucedido, √© resultado direto dos esfor√ßos dos bancos centrais para trazer o indicador para as metas estabelecidas. Vale lembrar que o ant√≠doto usado no combate √† infla√ß√£o foi, de forma generalizada, a ado√ß√£o de uma pol√≠tica de aperto monet√°ria. Em outras palavras, o mundo observou uma escalada nos juros, com seu impacto sendo sentido em diversas classes de ativos.
Ainda pensando nos eventos do √ļltimo ano, n√£o podemos deixar de falar sobre o desafio que o fiscal imp√Ķe. Sobre o que vem pela frente em rela√ß√£o a este ponto, trago aqui uma a fala do Economista-chefe da Bradesco Asset, Marcelo Toledo: ‚Äún√£o haver√° crise, tampouco uma solu√ß√£o fiscal‚ÄĚ. E n√£o √© s√≥ aqui que o equil√≠brio das contas p√ļblicas tem gerado debate. Os Estados Unidos, principal influ√™ncia econ√īmica e pol√≠tica no cen√°rio mundial, tamb√©m t√™m a quest√£o fiscal como um dos grandes gargalos na sua trajet√≥ria.
Levando em conta esses desafios e o avan√ßo no processo de desinfla√ß√£o, a expectativa √© que, em 2024, vejamos o in√≠cio de um ciclo sincronizado de redu√ß√£o de juros pelos bancos centrais dos pa√≠ses desenvolvidos, movimento que certamente ter√° impacto sobre os pre√ßos dos ativos. O Brasil, por sua vez, saiu na frente e come√ßou a cortar os juros logo no in√≠cio do segundo semestre de 2023, antecipando uma poss√≠vel tend√™ncia global. Diante desse cen√°rio, de juros mais baixos, as perspectivas s√£o de um ciclo positivo para os ativos de risco brasileiros, mais especificamente renda fixa e a√ß√Ķes.

Quais fundos devem ganhar destaque?
Analisando mais detalhadamente a ind√ļstria de fundos de investimento para esse ano, a expectativa √© que classes tradicionais, que acabaram sendo penalizadas por juros mais altos, tenham uma melhor performance e, assim, voltem ao radar dos investidores. E aqui me refiro aos fundos multimercado, a√ß√Ķes e renda fixa ativa.
Para a renda vari√°vel, podemos esperar por um ano de crescimento de lucro de diversas empresas, principalmente das que precisaram apertar mais o cinto nos √ļltimos anos em fun√ß√£o do ambiente macroecon√īmico. Nesse sentido, os investidores t√™m √† frente uma janela de oportunidade muito interessante com as small caps, empresas de pequeno porte que s√£o mais expostas √† economia dom√©stica e sens√≠veis aos juros. Al√©m disso, o ambiente de taxas de juros mais baixas acaba beneficiando mais alguns setores do que outros, como √© o caso de utilities, que engloba saneamento e energia.
Outra classe de fundos que deve continuar se beneficiando, desse cen√°rio, √© a de cr√©dito privado. Importante lembrar que, no √ļltimo ano, esse segmento foi marcado por uma maior demanda por parte dos investidores e pelo avan√ßo observado na din√Ęmica do mercado secund√°rio. Agora, com os juros em queda e a economia mais equilibrada, as empresas encontram melhores condi√ß√Ķes de financiamento, o que deve se traduzir em novas emiss√Ķes de cr√©dito. No entanto, temos que reconhecer que o fechamento significativo dos spreads inspira cuidado no momento de fazer a sele√ß√£o dos ativos.
Para al√©m das classes mais tradicionais, os fundos estruturados, produtos de mais longo prazo e com maior potencial de valoriza√ß√£o, tamb√©m devem cumprir um papel importante na diversifica√ß√£o dos portf√≥lios olhando para frente. A pr√≥pria Resolu√ß√£o CVM 175 abriu novas possibilidades de acesso a estes produtos. Tamb√©m conhecida como novo marco regulat√≥rio da ind√ļstria de fundos, uma das novidades da norma foi dar mais flexibilidade a determinados investimentos, democratizando o acesso a eles. E um dos ve√≠culos contemplados pela nova regra foram os Fundos de Investimento em Direitos Credit√≥rios, os FIDCs. Antes restritos aos investidores qualificados, isto √©, aqueles com mais de R$ 1 milh√£o em ativos financeiros, eles agora podem ser acessados pelos investidores de varejo. O mesmo vale para fundos que investem 100% no exterior.
Comparando o Brasil com outros mercados mais desenvolvidos, Estados Unidos por exemplo, ainda temos muito para avan√ßar em fundos estruturados. Isso, somado √† maior democratiza√ß√£o desses produtos e √† continuidade dos cortes nos juros, abre uma excelente oportunidade para os profissionais do mercado financeiro na oferta de solu√ß√Ķes mais sofisticadas aos investidores, que naturalmente buscam novas estrat√©gias para capturar os ventos de um novo ciclo. Por fim, ainda pensando nas tend√™ncias para os pr√≥ximos anos, acredito que a customiza√ß√£o, ou seja, o processo de criar portf√≥lios de acordo com a jornada e ciclo de vida do investidor, deve dominar diversos debates dentro da ind√ļstria de fundos no Brasil, colocando-se como um dos grandes desafios para os participantes desse mercado.

Ricardo Eleutério é diretor da Bram - Bradesco Asset Management