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Falta diversificação
Apesar da queda da Selic para a casa de 6,5%, a renda fixa e os títulos públicos continuam a ser as principais opções das fundações de previdência

É consenso no segmento da previdência complementar fechada, já há algum tempo, que o declínio da Selic obriga os fundos de pensão a enxugar as suas carteiras de renda fixa e aumentar alocações em ativos de risco. Até o momento, contudo, a teoria não é respaldada pela prática: a renda fixa aumentou a sua presença nos portfólios das fundações de previdência ao longo da década em 13,1 pontos percentuais e vem resistindo bravamente à queda dos juros. De julho de 2017, quando a Selic caiu para um dígito (9,25% ao ano), a novembro último (6,5% ao ano), as aplicações em títulos privados recuaram 0,6 ponto percentual, para 73,0%, enquanto os papéis do governo apresentaram um crescimento de 0,7 ponto percentual, para 17,8%, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp).
“O mercado está mudando, os fundos de pensão não”, comenta Antônio Fernando Gazzoni, diretor institucional da Mercer Brasil. “Os bons resultados do sistema em 2018 foram frutos da renda variável, mas, de forma contraditória, as fundações demonstram pouca propensão a se expor ao risco.”
Outra distorção, na avaliação do consultor, é a maciça concentração dos planos de contribuição definida (CDs) e contribuição variável (CVs) em renda fixa. Detentores de 36,95% dos ativos das entidades fechadas de previdência complementar (EFPCs), os dois formatos de plano têm grande liberdade para definir suas políticas de investimento, pois não são obrigados a cumprir metas atuariais, ao contrário dos planos de benefício definido (BDs). Ainda assim, os CDs e CVs concentravam, em novembro, 91% e 83% de seus portfólios em renda fixa.
“Pesquisas da Abrapp revelam que cerca de 25% dos empregados de patrocinadoras de fundos de pensão, o equivalente a meio milhão de trabalhadores, não aderem aos planos previdenciários oferecidos por essas entidades. A rejeição reflete, claro, uma carência de educação previdenciária e financeira da população, mas também tem relação com retornos medíocres oferecidas por planos CDs e CVs”, observa Gazzoni. “Não é difícil prever o que vai acontecer se isso não mudar: fuga de participantes para planos abertos.”

Participação duplicada – Duas exceções a esse conservadorismo excessivo são as fundações Cesp (Funcesp), a maior EFPC privada do país, e Promon. Ao longo de três exercícios, a primeira duplicou para 12,67% a participação das ações (basicamente cotas de fundos de investimentos) em sua carteira, que fechou 2018 com ativos totais de R$ 29,23 bilhões. “Voltamos a apostar em renda variável em meados de 2016, quando consideramos que o pior momento da crise econômica brasileira já fora superado. Entre agosto daquele ano e março de 2017, reforçamos a carteira de ações em cerca de R$ 2,5 bilhões”, conta o diretor de investimentos Jorge Simino Junior.
Desde dezembro passado, a renda variável cresceu cerca de dois pontos percentuais no portfólio da Funcesp, mas ainda está longe dos padrões registrados na segunda metade da década passada. Em 2007, quando a bolsa de valores de São Paulo alcançou o recorde de cinco anos consecutivos de crescimento, a carteira de ações respondia por 25% dos ativos totais da entidade. “Em dezembro de 2007, vendemos 40% das nossas posições, já que a relação preço e lucro dos papéis estava ao redor de 16 anos, padrão digno de bolsas dos Estados Unidos”, diz Simino, que considera remotas as chances de as ações recuperarem, a curto prazo, participações tão relevantes nos investimentos da casa. “O quadro econômico atual é bem distinto do existente há 12 anos. O Brasil terá de retomar o crescimento e implantar fortes medidas de ajuste fiscal nas contas públicas, entre as quais a reforma da previdência.”

Investimentos estruturados – Já a Fundação Promon vem apostando firme em investimentos estruturados, aproveitando o maior espaço aberto a essa modalidade pela Resolução 4.661 do Conselho Monetário Nacional (CMN), de maio de 2018. Cerca de 16% dos ativos da entidade, só quatro pontos percentuais a menos do que o limite estabelecido pela nova regra, se encontram aplicados em fundos de participações e multimercados. “Na esteira da 4.661, reformulamos os mandatos dos gestores de nossos fundos exclusivos. Abrimos espaço para bolsa e câmbio nas carteiras e elevamos as metas de rentabilidade de 105% a 110% do CDI para CDI mais 1,5% ao ano, o equivalente a 120% da variação do CDI”, assinala o diretor de investimentos André Natali Schonert.
Com ativos ao redor de R$ 1,6 bilhão, a EFPC contabiliza ainda posições de 7% em renda variável de 6% em investimentos no exterior. A fatia das ações brasileiras no bolo deve ser mantida, à espera de uma melhor definição do andamento de ajustes estruturais na economia, caso da reforma da previdência. Em contrapartida, a tendência é de alta para as alocações internacionais, que ganharão eficácia, em breve, com a constituição de um fundo exclusivo no fronte externo. “Além de ações, o novo fundo poderá operar com renda fixa e crédito. É uma opção que faz todo sentido em nossa estratégia de diversificação de ativos”, diz Schonert.