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Transparência e custos na balança
Algumas fundações têm optado por fazer elas próprias a alocação dos fundos, num modelo de gestão por classes de ativos

O universo dos fundos de fundos de investimentos, ou FoFs na abreviação da sigla Funds of Funds em inglês, tem ganhado adeptos de forma crescente entre os institucionais. As entidades têm buscado fundos que investem em cotas de multimercados e ações, mas também de crédito privado e até renda fixa simples, passando por fundos de alocação global que são os queridinhos. Os alocadores utilizam essas estruturas para melhorar a qualidade e a diversidade de suas estratégias, ao mesmo tempo em que repassam aos investidores finais a vantagem da redução de custos. Entre as EFPC, há as que prefiram fazer a gestão de Fofs diretamente, como alocadoras dessas carteiras, e aquelas que combinam a receita interna com a contratação de gestores externos.
O Cibrius, dos funcionários da Conab, transformou sua carteira própria em três FoFs exclusivos geridos internamente e alocados em renda variável, multimercados e renda fixa a partir de um modelo próprio de rankeamento e uso de ferramenta Quantum, explica o gerente de investimentos da entidade, Fernando de Souza Caldas. Há R$ 997 milhões em renda fixa; R$ 134 milhões em multimercados e R$ 176 milhões em renda variável. “Usamos três janelas móveis de dezoito meses que também consideram mais um ano para trás, ou seja, esse método acaba analisando sempre um período mais longo na seleção de fundos investidos para assegurar aqueles que tenham consistência e evitar escolher apenas os fundos “top” que despontam no curto prazo”, enfatiza Caldas.
A equipe enxuta de gestão inclui o gerente e mais dois analistas, além do setor de risco. Antes de levar a análise para a área de risco, entretanto, a equipe de gestão faz diligências in loco para avaliar a governança dos fundos sob análise. Depois de passar pela avaliação de risco, a proposta é levada para o comitê de investimentos que vai recomendar ou não a decisão para a Diretoria Executiva e para o Conselho. Esse modelo começou a ser implementado em 2015, com um fundo multimercado grande e que ficou cada vez maior até ser subdividido com as classes de renda fixa e de renda variável para separar melhor a rentabilidade por segmento. “Quando estava tudo junto tínhamos que separar internamente, era mais trabalhoso e a visibilidade para o público externo não era tão boa. Depois da separação, ficou mais fácil visualizar e controlar, assim como cobrar dos gestores de cada segmento”, observa Caldas.
O total dos investimentos inclui sete fundos exclusivos de renda fixa, oito fundos exclusivos de renda variável e onze exclusivos multimercados dos quais quatro são imobiliários. Essas estratégias acabam de ser fortalecidas com a entrada no segmento de alocação no exterior. Por enquanto, por ter ainda um volume baixo de recursos, o investimento no exterior ficou restrito a dois dos fundos no segmento de multimercados, informa Caldas. Em 2021 é possível que surja um fundo separado para exterior. “Nosso ALM está sendo rodado agora mas o objetivo para exterior, definido no final do ano passado, era chegar a um percentual de 3% dos ativos totais e hoje estamos com apenas 0,8%. Como esse segmento foi o de melhor desempenho em 2020 e segurou os resultados muito bem diante da crise, o dinheiro novo que entrar será para ampliar e criar um fundo exclusivo para alocação global”, explica o gerente.
A diversificação é a marca dos FoFs do Cibrius, com um dos fundos de renda variável, por exemplo, aplicando em outros 13 FoFs. “Até estudamos a possibilidade de contratar gestores externos, mas não fazia sentido porque o modelo já está bem diversificado e estamos sempre atentos às estratégias para rebalancear, tirar recursos de um fundo para colocar em outro quando necessário. Esse desenho permite uma gestão bem ativa”, diz Caldas.
A performance da gestão no ano está positiva mas ainda um pouco abaixo da meta atuarial de INPC mais 4,45%, por conta do impacto da crise de março, “Quando o mercado bateu no fundo do poço, em março, compramos mais barato e atingimos o nosso objetivo limite que era ter 14% em renda variável. Na recuperação, ganhamos acima da média do mercado e voltamos com uma base mais forte. Os multimercados sofreram mais, entretanto”, conta o gerente. Na renda fixa, o Cibrius comprou papéis marcados na curva e reduziu o efeito da volatilidade do mercado. Para 2021, o ALM deverá indicar aumento da renda variável para cumprir a meta, o que exigirá ainda maior atenção à gestão ativa. “O sucesso do exterior tem chamado atenção e terá tudo para crescer porque o CDI é hoje menos da metade da meta atuarial”, lembra Caldas.

A Fundação Copel iniciou o movimento em direção aos FoFs em 2014, em renda variável, com um Fic Fia de gestor externo e estratégias diferentes para cada plano de benefício da entidade. No plano de Contribuição Variável foi adotada uma estratégia diferente para cada parcela, a de Benefício Definido e a de Contribuição Definida, resultando num modelo de classe de ativos. “Conseguimos com isso estabelecer uma abordagem específica para renda variável e todos os planos tinham acesso às mesmas estratégias de forma homogênea, comprando cotas de acordo com suas características”, detalha o diretor Financeiro da entidade, José Carlos Lakoski. O custo dessa montagem ficou baixo e o modelo agregou maior transparência de informações para os participantes dos planos e para todos os públicos porque os fundos estavam na CVM.
“A partir daí compreendemos que poderíamos estender esse desenho para outras classes de ativos, principalmente porque entramos nos planos instituídos”, diz Lakoski. O plano instituído família da fundação, que no início tinha patrimônio de R$ 50 milhões, encontrava dificuldades para negociar títulos públicos por falta de escala e, como a entidade projetava lançar outros instituídos, compreendeu que seria interessante ampliar a estratégia dos FoFs para outras classes de ativos, como o crédito privado, IMA-B e multimercados. “É uma solução fantástica para planos pequenos, que assim conseguem acesso às mesmas estratégias dos grandes e podem usar os produtos dessa prateleira maior de maneira fácil”, diz Lakoski. No modelo dos FoFs, basta ir buscar na prateleira ou seja, basta plugar cada novo plano aos fundos de gestão própria ou de gestores externos.
A Fundação Copel passou a ser a gestora dos próprios FoFs e em 2019 já havia construído quatro fundos nesse modelo. “Nós somos os gestores e o BTG faz a administração. O custo é barato, de 0,03% em taxas de administração e de 0,01% em taxas de custódia e o rebate oferecido pelos gestores permite negociações de custo, além de termos total praticidade na gestão”, afirma o diretor. Os FoFs incluem veículos específicos para alocar em multimercados, IMA-B e renda variável, além do Fcopel FIM Instituido, que é o próprio plano família modelado como um fundo de fundos. O primeiro experimento foi o de renda variável e hoje tem perto de R$ 900 milhões. A alocação em crédito privado fica com gestores externos, que usam seus fundos exclusivos e mesmo na gestão terceirizada, diz Lakoski, as taxas cobradas são as mesmas. São R$ 586 milhões no Fic Fim multimercado, R$ 309 milhões no IMA-B; R$ 50 milhões no Fim Instituído, e R$ 373 milhões nos fundos de crédito privado. Flexibilidade e dinamismo na gestão estão entre as vantagens do modelo, aponta o diretor. “Se eu quiser alterar a estrutura, também é muito fácil”.

Na Prece Previdência Complementar, esse tipo de veículo já é utilizado rotineiramente, inclusive com FoFs registrados em nome da própria entidade. Há quase 14 anos a fundação inovou com uma estrutura de Fofs geridos internamente, por meio da criação de fundos CVM para acomodarem os investimentos de seus planos de benefícios. “Sempre acreditei que ter essa estrutura, mesmo que numa gestão 100% própria, traz grandes benefícios à carteira, a começar pela dupla fiscalização (Previc e CVM) e pela maior transparência na alocação dos recursos, com informações que podem ser consultadas publicamente por qualquer pessoa a qualquer momento através do site da CVM”, conta o diretor de Investimentos da Prece, Antônio Carneiro Alves.
A preferência, entretanto, recaiu sobre a estruturação de uma gestão mista, em que estão equilibradas a necessidade de maior controle e diligência com a necessidade de economia de escala e a expertise necessária para classes de ativo de maior complexidade. Com esse objetivo em vista, a fundação desenvolveu internamente um processo de seleção, avaliação e monitoramento de fundos de investimentos – quantificação e atribuição de nota, calls mensais, diligência prévia, obrigatoriedade de envio de documentações como XML em prazo tempestivo - de forma que fosse possível escolher de maneira isonômica os melhores gestores da indústria brasileira de fundos.
Atualmente, a Prece mantém uma divisão específica para tratar da governança dos investimentos e com área de risco própria, independente. Os robustos processos quantitativos e qualitativos de ambas as áreas estão manualizados e inseridos nas políticas de investimentos dos planos de benefícios. Os resultados, diz Alves, têm sido excelentes.
O principal segmento de FoFs externos da Prece é o de Renda Variável, em que os gestores selecionados obtiveram resultados positivos tanto em rentabilidade quanto em controle de risco e possibilitaram a geração de alfa ( excesso de rentabilidade / acima da meta atuarial) no último biênio, conta o diretor. “Avançamos nessa estratégia de forma diligente, gradual e segura; após anos de relacionamento já formalizamos um fundo exclusivo e estamos em negociação para a formalização de outros mais”, detalha Alves.
Além das vantagens inerentes da economia de escala e da expertise dos fundos de investimentos, a criação de fundos exclusivos permite aperfeiçoamentos operacionais como ter um fundo permanentemente aberto, aprimorar os mecanismos de controles e assegurar ganho de rentabilidade através da redução da taxa de administração dos fundos de investimentos. A Prece pretende usar os FoFs para reinvestir o expressivo volume de recursos adicionais que devem entrar na fundação ao longo do próximo biênio por conta de recebimentos judiciais, extrajudiciais e vencimentos de NTN-Bs. “Vamos usar os Fofs de acordo com o rigoroso processo de seleção e manutenção de fundos e mandatos, de forma a recompor a macroalocação dos planos de benefícios”, informa Alves.

O FoF multimercado FPFQ Saíra FIC FIM Prev, que tem a Fapes diretamente como alocadora, é mais um veículo que veio para facilitar sobretudo a operacionalização dos investimentos da entidade. Na categoria dos fundos multimercados, a grande quantidade de gestores aos quais a fundação tem acesso e seu conhecimento do segmento justificam a alocação e a distribuição diretas, informa o diretor de Investimentos da entidade, André Loureiro. Ao todo, há ativos da ordem de R$ 600 a 700 milhões em cotas de oito fundos multimercados nesse modelo além de R$ 800 milhões em seis fundos que alocam no mercado de ações.
Além disso, a Fapes também investe em crédito por meio de FoFs porque transferiu sua antiga carteira própria de debêntures para gestores terceirizados. “Achamos melhor colocar nas mãos de gestores de fundos de fundos com expertise em crédito porque o mercado de debêntures ficou muito restrito”, explica Loureiro. Em 2017, a Fapes fez um ajuste de estruturas para otimizar custos e despesas porque havia vários veiculos fazendo investimentos semelhantes. “Por conta disso reduzimos para circunscrever melhor as estratégias, além de minimizar custos e despesas e facilitar a controladoria. Hoje os veículos que temos são suficientes para cumprir esse objetivo”, afirma Loureiro.
A fundação roda seu ALM no momento e está bem estruturada para fazer a seleção e gestão dos times locais mas prefere manter algumas categorias específicas em estruturas oferecidas por gestores de fundos de fundos com maior conhecimento e acesso a estratégias diversificadas. A experiência da Fapes com os fundos de fundos começou em 2018 na carteira de estruturados, com a criação de um veículo para investir em private equity, mas isso aconteceu por meio da escolha de gestores especialistas. “Foi a primeira vez em que nos deparamos com essa opção para reciclar a carteira e usamos para conseguir acessar novos gestores, com grande conhecimento em private equity e estamos bem satisfeitos com os resultados”, conta o gerente executivo de Ativos Ilíquidos da Fapes, César Avidos.

Estudo traz 447 FoFs (em pdf)

190 FoFs são de investimento no exterior (em pdf)

Perfil por nº de gestores (em pdf)

Perfil dos FoFs por nº de gestores (em pdf)

Os que superaram o benchmark (em pdf)

Ranking FoFs (em pdf)