Mainnav

Dança das cadeiras nas fundações estatais
A troca de comando nos principais fundos de pensão de estatais alimenta suspeitas de interferência política por parte do Centrão

Edição 336

A troca de comando nos fundos de pensão Funcef e Previ, respectivamente dos funcionários da Caixa e Previ, serviu para acender a luz vermelha entre dirigentes do sistema de previdência fechada de que pode ter começado uma temporada de caça à postos de comando em fundações patrocinadas por estatais. Por trás dessas trocas, ocorridas em maio último, estariam interferências dos partidos do Centrão, corrente política na qual o presidente Jair Bolsonaro tem buscado cada vez mais apoio para seus projetos de governo. “Acho que é uma ação deliberada do governo, de intervir nos fundos de pensão para usá-los como moeda de troca na busca de apoio do Centrão nas eleições do ano que vem”, diz uma fonte na condição de anonimato. “Teses sobre mudanças nas estratégias de investimento, vendas de participações societárias etc não passam de cortinas de fumaça”.
Entre as grandes fundações com patrocínio estatal estão a Previ, Petros, Funcef, Real Grandeza, Fapes e Postalis, dos funcionários do Banco do Brasil, Petrobras, Caixa, Furnas, BNDES e Correios, respectivamente. Juntas somavam R$ 456,16 bilhões ao final do ano passado, sendo R$ 234,73 bi da Previ, R$ 97,29 bi da Petros, R$ 81,36 bi da Funcef, R$ 18,27 bi da Real Grandeza, R$ 14,80 bi da Fapes e R$ 9,71 bi da Postalis, segundo consolidado publicado pela entidade do setor, a Abrapp.
A troca de comando na Funcef tornou-se clara no dia 13 de maio, quando o então presidente Renato Villela e os diretores de participações e de investimentos, respectivamente Wagner Duduch e Andrea Morata Videira, postaram mensagens na rede social Linked’In com a expressão “missão cumprida”, indicando o fim dos seus dias na instituição. Na sequência a Caixa anunciou os nomes dos seus sucessores, Gilson Costa de Santana, Almir Alves Junior e Samuel Crespi, sendo que os dois primeiros tomaram posse na presidência e na diretoria de participações em 18 de maio e o último, que tinha que ser aprovado pela Previc por ser AETQ, tomou posse na diretoria de investimentos em 26 de maio.
Santana começou sua vida profissional na Funcef, em 2002, onde trabalhou por cinco anos, deixando a fundação em 2007 para trabalhar na Caixa, onde chegou ao cargo de vice-presidente de riscos e de onde sai agora para dirigir a fundação na qual iniciou sua carrreira. “Retorno à Funcef com a expectativa de acelerar o processo de aprimoramento de sua governança. Acredito na unidade de propósito de todos os gestores para tornar a fundação uma entidade cada vez mais sólida e alcançar o reequilíbrio dos planos de benefícios no prazo mais breve possível”, disse Santana em comunicado divulgado pela área de comunicação da entidade na data de sua posse.
Já a troca na Previ gerou mais controvérsias. Até porque o presidente da fundação, José Maurício Coelho, teria visitado o novo presidente do Banco do Brasil, Fausto Ribeiro, um dia antes de apresentar sua renúncia, na segunda-feira (24/05), que foi divulgada através de nota publicada pelo site da instituição sem conter nenhuma explicação sobre a saída. Segundo relatos, Ribeiro teria comunicado à Coelho que não iria mantê-lo na presidência da entidade, o que o levou a renunciar logo no dia seguinte ao invés de aguardar a decisão da patrocinadora.
O nome do seu sucessor ainda não estava escolhido no fechamento desta edição, mas havia rumores de que poderia ser o presidente da fundação Economus, Daniel Stieler, que mudaria de uma fundação para outra. Stieler está há quatro meses na superintendência do Economus, fundo de pensão também patrocinado pelo Banco do Brasil, que em 2008 comprou a antiga Nossa Caixa do governo paulista mas ao invés de incorporar o plano da Economus à Previ preferiu mantê-la independente. Stieler, antes de se tornar presidente do Economus, ocupava o cargo de diretor de Controladoria do BB.
Nas outras fundações de patrocinadoras estatais não se nota nenhuma tentativa de interferência. No caso da Petros, o fato da patrocinadora ser comandada por um general pode estar servindo como um muro de contenção ao apetite doCentrão, explica a mesma fonte na condição de anonimato. O presidente da Petrobras é o general da reserva Joaquim Silva e Luna, que anteriormente foi diretor-geral da Itaipu Binacional. “Mexer com general é diferente, talvez isso sim seja uma blindagem”.
Também na Fundação Real Grandeza, até o momento, não há pressão por trocas de diretoria. Mas isso não quer dizer “blindagem”, avaliam fontes desta publicação. “Não sei se existe mesmo essa tal blindagem para indicações políticas, de que tanto está se falando”, diz. “Claro que o cargo de diretor de investimentos deve passar por avaliação da Previc, como aconteceu na Funcef, mas o estatuto garante à patrocinadora a indicação de três diretorias”.