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FIDCs voltam à vitrine
Os fundo de direitos creditórios voltaram a fazer parte das carteiras das fundações, agregando bons retornos mas sem elevar a volatilidade

Edição 336

Em março de 2020, com uma posição em crédito privado residual que a ajudou a sair do pior momento da crise da Covid-19, a Fundação Promon tomou a decisão de aumentar a alocação nesses ativos e, quando os spreads abriram, os bons resultados serviram de incentivo para montar uma estrutura dedicada a crédito. O fechamento posterior dos spreads ajudou a melhorar o retorno e, como a ida ao mercado não foi em posição apenas oportunística, a fundação enxergou a chance de explorar melhor essa classe, diz o diretor de Investimentos André Natali. “Temos procurado alocar em crédito fora das alternativas óbvias, escolhendo créditos estruturados com garantias e que fogem das debêntures líquidas”, detalha Natali.
Na primeira parte dessa estratégia estão os créditos líquidos tradicionais mas na outra vertente entram os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e outros fundos com expertise em crédito estruturado. O atrativo está nos bons retornos sem tanta volatilidade no agregado da carteira, com a vantagem adicional de não agregar muito risco de mercado. As rentabilidades estão entre 13% e 14% no segmento de crédito, diz o diretor. A carteira de FIDCs tem 3% em alocação direta e mais 3% em estruturados, dentro do modelo de Fof. Ao todo, portanto, 6% dos 14% alocados na carteira de crédito estão na parte estruturada.
Os próximos movimentos da fundação serão os investimentos no exterior, se houver flexibilização do limite legal, e em crédito, mas a reavaliação dos perfis de investimento que deve ocorrer até o final do ano será determinante para definir os percentuais de alocação. “A gestão é única mas já está de olho na nova estrutura de perfis ou ciclos de vida, o que pode representar mais ativos ilíquidos nos ciclos mais longos”, afirma Natali.

Já a Previ-Ericsson, que estuda entrar em ativos do agronegócio, poderá fazê-lo via fundo exclusivo de crédito comprando FIDC do agro, pondera o diretor superintendente Rogério Tatulli. A fundação já tem um FIDC da Captalys, que entra na caixa dos multimercados, um fundo aberto com R$ 42 milhões alocados (2,72% do patrimônio total). Aliá1s, a fundação não investe mais do que 5% de seu patrimônio em um único gestor, seja qual for a classe de ativos. “Esparramar entre vários gestores dá trabalho, mas eu durmo melhor assim”, afirma Tatulli.
A gestão do FIDC é descorrelacionada com outros fundos de renda fixa. “Já temos esse fundo há dois anos, mas antes disso já havia um pouco, comprado pelos gestores. O modelo da Captalys nos agrada por ter boa governança e a decisão de aplicar em ativos alternativos, com o gestor certo, já garante boas noites de sono”, diz o presidente da fundação. Ele lembra, entretanto, que nada é garantido e o segmento de FIDCs já apresentou problemas sérios no passado. “O melhor é entrar devagar, com volumes pequenos de recursos para experimentar”, defende.
Na Petros, embora o organograma de investimentos mostre os alternativos em ativos de crédito como parte da classe de renda fixa ativa, na estratégia da fundação eles fazem parte dos ativos ilíquidos, com uma perspectiva positiva de alocação apenas a partir de 2022, diz o diretor de investimentos Alexandre Mathias. “Com a nossa meta atuarial de IPCA mais 4,5% a 5% ao ano, o que este ano deverá representar entre 9% e 10,5%, e o CDI em 3,5%, um ativo de crédito com spread relativamente alto, de CDI mais 3%, daria um retorno de 6,5%, o que não faz sentido neste momento. Somente um ativo estruturado, com risco/retorno maior, chegaria perto da meta”, pondera o diretor.
Em 2020 e em 2021, portanto, o crédito privado acabou não se tornando atraente nas otimizações feitas pela fundação, que espera poder voltar a olhar para o segmento no próximo ano se a Selic ficar em 5,5% ao ano e as emissões chegarem aos 350 pontos. Nesse cenário, diz Mathias, o crédito poderá voltar a agregar valor ao nosso modelo de otimização. Desde 2019, a estratégia foi de reduzir a exposição da carteira a esse segmento, que hoje é pouco relevante frente ao patrimônio. “A partir do próximo ano o crédito deverá voltar a ser viável como alternativa interessante, principalmente em papéis indexados ao IPCA e que se encaixam de maneira mais natural no nosso ALM”, conta o diretor.
Segundo Mathias, os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) demandam cuidado na montagem jurídica mas são interessantes do ponto de vista dos retornos e a tendência é de que essas estratégias cresçam cada vez mais entre os investidores. O maior apelo para esse segmento virá no final do ano, quando a Selic atingir os 5,5%.
Na Previsc, a alocação em crédito estruturado tem sido considerada um “reloginho” que assegura retorno positivo com regularidade e consistência para bater o benchmark, diz o diretor de Investimentos Ricardo Esch. “É uma opção interessante na perspectiva do cenário econômico e a maior pulverização nesses fundos reduz bastante o risco” Além disso, o comportamento dos ativos de crédito privado durante a crise de 2020 ajudou a fortalecer a confiança no segmento, pois apesar dos problemas de liquidez causados pela abertura e pelo fechamento das taxas não houve um problema relevante de défaults. Os FIDCs bem estruturados são uma ótima oportunidade, acredita Esch, e devem ajudar a trazer bons resultados no final do ano. A entidade trabalha com FIDCs dentro do segmento de crédito estruturado, em fundos exclusivos com rentabilidade de IPCA mais 6% e IPCA mais 4,5%.

Com 30 fundações investidoras em seu fundo Orion, a Captalys, especializada em private debt (investimento em dívida privada) vê melhora no desempenho dos ativos este ano e reforça a aposta em seu modelo de diversificação tridimensional, segundo explica a CEO da casa, Margot Greenman. O primeiro eixo é não ter concentração do risco de tomadores de crédito pois nenhum representa mais de 2% dos ativos da carteira; o segundo é a diversificação setorial, com 74 setores que dão respostas diferentes aos cenários. O terceiro eixo é o da pulverização entre uma dúzia de diferentes produtos de crédito, com perfis diferenciados, diferentes tipos de garantias e desempenhos. Essas três dimensões fornecem resiliência e resultados consistentes, além de uma estratégia muito definida para enfrentar diversos cenários políticos, econômicos e sanitários.
O fundo da Captalys, um FIC FIM com dez anos de track record, soma R$ 1,2 bilhão de patrimônio e tem retorno alvo de CDI mais 6% a 8% ao ano. “O desempenho tem ficado perto desse alvo e estamos vendo no mercado de crédito, este ano, uma melhoria parecida com a que ocorreu no final do segundo trimestre de 2020. O cenário é de crédito mais caro, frente à inflação maior e à demanda por produtos e serviços”, diz Greenman. A perspectiva é de que a demanda por crédito continuará mesmo com a alta dos preços, o que implicará maior rentabilidade para os cotistas dos fundos. Há também demanda por ativos de mais longo prazo atrelados à inflação, o que é consistente com os ativos de crédito imobiliário, avalia a CEO.
Os FIDCs voltaram à vitrine do mercado graças às taxas de juros menores, que estimulam cedentes e investidores, analisa José Alexandre de Freitas, presidente da Oliveira Trust, casa que administra e custodia R$ 40 bilhões integralizados em FIDCs e R$ 80 bilhões ao todo, incluindo FIPs e fundos imobiliários. “Houve um aquecimento, os spreads acima do CDI deram maior segurança ao investidor ao desvincular o risco do investimento do risco do cedente”, diz Freitas. O maior crescimento de captação tem ocorrido nos FIDCs, impulsionados agora pela elevação do CDI que, mesmo assim, continua na casa de um dígito.
O retorno dos FIDCs ao mercado vinha acontecendo ao longo dos últimos dois anos e 2020 era para ter sido um ano fantástico para esses veículos, o que só não aconteceu porque muitas operações no pipeline foram canceladas ou suspensas, avalia Freitas. Em 2021, o volume de operações represadas e aquelas que já voltaram têm ajudado a aquecer o mercado. “Nós chegamos a ter 35 FIDCs em estruturação simultaneamente e fizemos um fundo para a Cielo com R$ 5 bilhões de patrimônio, além de vários outros de setores diversos, incluindo agro e recebíveis imobiliários”, conta Freitas.
Há também fundos diferentes do usual, com lastro em ativos ligados a empresas de energia solar e de energia eólica, por exemplo, infraestrutura ou ensino a distância, que estão sendo estruturados. Os FIDCs cresceram 10% sobre 2019 e este ano devem crescer 50% sobre 2020 em volume, estima Freitas. Em número de fundos, vai depender da nova Instrução CVM 555 e a expectativa é de que venha uma modalidade específica para o varejo, além da unificação entre FIDCs padronizados e não padronizados.

Para Ricardo Binelli, diretor de gestão de recursos da Solis Investimentos, casa especializada em FIDCs que tem R$ 4,5 bilhões sob gestão, esses fundos passaram pelo teste de estresse de 2020 com mérito e sua oferta está ainda mais competitiva este ano, com a perspectiva de Selic a 5,5%. Durante a crise da pandemia, houve preocupação porque muitos deles operam com pequenas e médias empresas mas ficou claro que foram cuidadosos com a originação dos ativos e souberam realocar recursos. “Muitos desses fundos trabalham com recebíveis curtos e realocaram, ou seja, trouxeram o dinheiro de setores mais defensivos, como o de produção de álcool gel. Foi um remanejamento eficiente e todos os créditos que haviam sido prorrogados foram pagos”, afirma o gestor.
Depois do auge da crise, entre os meses de março e junho, havia maior número de créditos vencidos mas em dezembro o número de vencidos já era menor do que o de fevereiro. Isso ocorreu porque cada administrador de FIDC tem sua linha de provisionamento para os créditos vencidos e alguns deles começam a provisionar antes, aparecendo na cota gradualmente. Como o Banco Central permitiu que os bancos dessem 60 dias a mais para provisionar e os administradores de FIDCs fizeram o mesmo, o tempo foi suficiente para cobrar os vencidos antes da exigência do provisionamento, explica Binelli. Com isso, os créditos venceram mas foram prorrogados e não houve quebra de empresas e no segundo semestre, o mercado voltou ao normal,
No final do ano, apesar do aumento da inadimplência, o provisionamento não havia crescido e a carteira estava melhor. A agenda do BC para aumentar o crédito no modelo das fintechs tem usado muito os FIDCs, lembra o gestor, e isso ajuda a turbinar esse mercado. No último trimestre do ano passado, havia uma grande diversidade de fundos vindo a mercado em operações com lastros diversificados.
Os FIDCs abertos passaram também pelo teste de liquidez e souberam lidar com os resgates, diz Binelli. “O céu caiu sobre as nossas cabeças e eles pagaram direitinho, mostraram ter estruturas de proteção bem montadas e prêmios interessantes, até de CDI mais 5% para as cotas seniores, sendo que antes da pandemia elas recebiam CDI mais 3% ou 3,5%”.
Em 2021, com a perspectiva de Selic a 5,5%, as operações vieram com níveis mais altos de prêmios e a tendência é de aumento da oferta, acredita o gestor. Entre os atrativos para as EFPC, ele cita também a expectativa com a chegada dos FIDCs socioambientais, lastreados em ativos classificados de acordo com critérios ASG, produtos que entretanto ainda precisam ser regulamentados.