Mainnav

Carteira global é 100% ESG
Fundo de pensão da Nestlé, alinhado com estratégia global da patrocinadora que tem sede na Suiça, investe o limite de exterior em ETF com tese ESG

Edição 339

A Funepp, fundo de pensão da Nestlé, está redirecionando toda sua carteira de investimento no exterior para uma estratégia ESG (de Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês). A decisão foi tomada após a matriz da patrocinadora, localizada na Suíça, lançar no final do ano passado um guia orientando suas fundações previdenciárias espalhadas por vários países do globo a usarem seus limites de investimento no exterior para alocar em estratégias ESG.
Com um patrimônio total de R$ 3,2 bilhão, o fundo de pensão brasileiro tinha R$ 270 milhões, correspondentes a 9% das reservas de investimentos dos seus planos, alocados em um fundo de exterior da BB DTVM, porém sem qualquer foco em ESG. Seguindo a nova orientação da patrocinadora global, a fundação resgatou os recursos desse fundo para aplicá-los em um ETF de ações da BlackRock que replica o MSCI World ESG.
A implementação dessa decisão dependeu da ajuda da matriz, explica a diretora de investimentos e AETQ da Funepp, Priscila Carvalho. Segundo ela, para abrir um feeder do fundo global no Brasil a BlackRock pedia um aporte superior aos R$ 270 milhões que a Funepp estava resgatando do fundo da BB DTVM. “Como a negociação com a BlackRock foi conduzida em parceria com nossa patrocinadora, que possui relacionamento global com a gestora, conseguimos chegar a um consenso”, explica Carvalho. “O relacionamento global da Nestlé com a BlackRock foi decisivo para superar esse impasse do valor do primeiro aporte”.
A Funepp entrou como primeira cotista do BlackRock Fia Globais ESG com um aporte de R$ 270 milhões, dividido em tranches, com a primeira delas ocorrendo no mês de fevereiro deste ano e a última no mês de abril. Segundo Carvalho, o fundo reproduz o desempenho de cerca de 1.200 papéis globais que compõem o MSCI World ESG. Para chegar à lista, equipe de análises da MSCI usa as mesmas 1.600 empresas que compõem o MSCI World, aplicando sobre elas um filtro negativo que exclui empresas dos setores de tabaco, areia betuminosa, carvão térmico, armas de fogos, armamentos nucleares, outros armamentos e empresas que violam os princípios do Pacto Global das Nações Unidas, e em seguida um filtro positivo que verifica a aderência das empresas a itens incorporados de diversidade. Cerca de 400 empresas caem da lista com a aplicação dos dois filtros, restando aproximadamente 1.200 que formam o MSCI World ESG.

Segundo a diretora comercial da BlackRock Brasil, Paula Salamonde, o ETF global que replica o MSCI World ESG tem um patrimônio de US$ 1,6 bilhão. Fundos com estratégias ESG tem recebido crescentes fluxos de recursos de investidores do mundo todo. Levantamento feito pela BlackRock indica que a indústria de fundos saltou de US$ 36 bilhões em investimentos ESG ao final do segundo trimestre de 2019 para US$ 67 bilhões no mesmo período de 2020 e US$ 115 bilhões no mesmo período de 2021.
De acordo com Salamonde, o crescimento da demanda dos investidores por estratégias ESG está ligado a três fatores: os futuros tomadores de decisão financeira estão buscando soluções de investimento mais sustentáveis; reguladores e governos estão expandindo seu foco na incorporação da sustentabilidade nas informações de investimento; há um reconhecimento crescente de que a pesquisa e análise da ESG podem potencialmente identificar riscos de investimento e ajudar a gerar retornos em excesso.
A diretora da Black Rock acredita que o feeder BlackRock Fia Globais ESG, cuja primeira cotista foi a Funepp, deve ganhar tração nos próximos meses e receber adesões de novos investidores em pouco tempo. “Acreditamos que as mesmas tendências que estão impulsionando a adoção de ESG globalmente também irão se materializar mais intensamente no mercado local liderados principalmente por fundos de pensão impulsionados pelo dever fiduciário”, diz ela.
Na Funepp, que está alocando praticamente 100% do seu limite de investimento no exterior em estratégias ESG, a tendência ainda não se espraiou pelo resto da carteira de investimentos. “Fora essa carteira de exterior que estamos investindo com a BlackRock, não estamos adotando outras estratégias ESG para investimentos domésticos”, reconhece. “A maior parte desses investimentos fica por conta dos gestores ao fazerem o asset alocation das carteiras”.

Do consolidado de investimentos da fundação, cerca de 70% estão alocados na estratégia de renda fixa, incluindo duas carteiras, sendo a primeira de crédito privado com dois fundos exclusivos a cargo de dois gestores e a segundo de renda fixa ativa, perseguindo CDI+1%, a cargo de três outros gestores. Além disso, a fundação tem um fundo caixa que busca 100% do CDI.
A exposição da Funepp à renda variável é de cerca de 12,5% na média, sendo mais alta para os planos mais jovens (cerca de 25%) e mais baixa para os planos mais maduros (cerca de 9%). A fundação não tem exposição às estratégias de multimercados e estruturados.
Já em fundos imobiliários, onde a fundação começou a investir no final do ano passado, a exposição que hoje alcança o percentual de 5% tende a crescer. A alocação nesse mercado foi feita através de um Fundo of Fund (FoF) exclusivo, com exposição a diversas estratégias que vão de tijolos a papéis. “Começamos com uma exposição baixa, para poder conhecer melhor esse mercado, mas pretendemos ampliar nossa presença nele”, diz Carvalho. Segundo ela, com a diminuição da crise sanitária do Covid19, os fundos com ativos de tijolos já começam a dar sinais de reação.
Ainda no segmento imobiliário, a Funepp possui um imóvel localizado na cidade de Ribeirão Preto (SP), que é alugado para duas unidades da patrocinadora, a Purina (de rações) e a NBS (Nestlé Business Service). “A intenção é vender esse imóvel nos próximos anos, assim que surgir uma boa oportunidade”, explica Carvalho.