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A arte de plugar estratégias
Receita dos fundos de pensão é a combinação de FoFs com gestão própria com outros contratados junto aos gestores do mercado

Edição 341

A Fundação Copel lançou seu primeiro fundo de fundos, um FIC FIA, em 2014, a partir de um modelo que cresceu totalmente arquitetado pela equipe interna da entidade, de 14 pessoas, conta o diretor financeiro José Carlos Lakoski. Com ativos totais de R$ 12,6 bilhões, a entidade mantém atualmente cerca de R$ 2,5 bilhões em FoFs geridos internamente – recursos principalmente do plano CV, que tem R$ 5,5 bilhões de ativos. Além disso, aplica cerca de R$ 1 bilhão em fundos de fundos com alocadores terceirizados em crédito – Capitania, Kinea e JGP.
Segundo Lakoski, o volume de aplicação em fundos de fundos só não é maior porque o plano BD tem 85% de seus ativos totais, de R$ 6,5 bilhões, aplicados em títulos públicos marcados na curva. “Para as parcelas de recursos em que há necessidade de gestão ativa, porém, os FoFs são um produto excelente”, avalia o diretor de investimentos da fundação. “O fundo de fundo traz flexibilidade para a gestão, tem uma estratégia única aplicada para todos os planos e tem transparência garantida pela CVM. O nosso plano família, que começou em 2015, não tinha um centavo na época e teve acesso imediato às mesmas estratégias do maior plano da entidade”, ilustra Lakoski.
O FIC FIA tem hoje R$ 900 milhões. Já o multimercado, criado há dois anos e meio, tem R$ 700 milhões e outros três FoFs foram construídos ao longo do caminho,incluindo um fundo de crédito e um de IMA (gestão ativa na parte CD de um plano CV). O plano família, por sua vez, tem um fundo próprio que vai “plugando” estratégias dos FoFs conforme as suas demandas. O investimento no exterior não é feito por meio de Fofs, conta Lakoski.
A fundação está montando agora o seu sexto FoF, a partir da transformação de uma carteira de FIPS ilíquidos que já tem R$ 500 milhões comprometidos e R$ 400 milhões aportados para alocar em private equity, fundos florestais e de infraestrutura.A carteira, que a entidade tem desde 2013/2014, será um FoF para dar acesso aos menores planos e ao plano família porque é difícil para eles conseguirem volumes suficientes para investir de outra forma nesse tipo de ativo. “Se tiver uma carteira sólida como essa, que já não sofre o impacto da curva J, fica mais fácil para eles irem plugando produtos da prateleira dos FoFs”, diz Lakoski.
Esse novo fundo deve vir até o final do ano. “Seremos nós os alocadores, mas contratamos gestores para ter uma estratégia bem diversificada”, explica. São R$ 500 milhões comprometidos, R$ 400 milhões aportados sendo R$ 200 milhões já performados, com 25% de retorno que já “está no bolso” há algum tempo, numa carteira exposta a diferentes ciclos. Além do BTG Pactual, com o qual a fundação tem um pacote, haverá dois outros gestores – Spectra e outro em aprovação. Nos florestais, foi escolhida a Lacan.
Em relação ao custo de gestão, nos fundos em que é sua própria alocadora a fundação consegue baratear o custo final. A taxa paga aos administradores é de 0,03% e os rebates de alguns fundos ajudam a minimizar isso. “A receita final é positiva porque sobra dinheiro em alguns casos, o que significa que o custo é baixíssimo”, diz Lakoski. Essa taxa de 0,03% vale para todos os fundos de fundos, inclusive o FIC FIA. “No final a estrutura sai barata em todos esses veículos porque eles trazem uma flexibilidade de acesso absurda e, em muitos casos, nem há custo”, ressalta.

Com a preocupação de padronizar o modelo de investimentos e consolidar estratégias, a Forluz começou a desenhar sua estrutura de fundos de fundos por indicação do planejamento estratégico feito há três anos e que já lançava um olhar para o futuro da entidade. Em 2019 entrou em campo um FoF multimercado (o de renda variável já existia), este ano foi lançado um fundo exclusivo para exterior e está para chegar um FoF imobiliário, informa Emílio Cáfaro, diretor de Investimentos.
Atualmente 14% dos ativos da fundação estão investidos por meio de FoFs. “Há três anos já havia o objetivo de preparar a entidade para o futuro, inclusive para o eventual lançamento de planos instituídos uma vez que os FoFs permitem acesso de todos os planos às suas estratégias. Além disso, conseguimos otimizar resultados por meio da parceria com grandes alocadores que têm grandes fundos investidos aos quais não teríamos acesso de outro modo”, observa.
O custo foi um fator decisivo também porque os parceiros tinham contratos de reversão da taxa de administração e esse rebate paga os custos de gestão com alguma sobra. Outro benefício foi a facilidade para alocar no exterior, o que permitiu aumentar a exposição da carteira aos mercados globais, passando de 2,5% para 4% dos ativos totais. “Esse percentual já aumentou bastante mas agora vamos deixar quieto porque o cenário está muito volátil”, diz o diretor. O investimento é feito por meio de fundos exclusivos na renda variável e nos multimercados mas, no caso do exterior, além do FoF exclusivo lançado este ano há também investimento em fundos abertos.
O processo de seleção dos alocadores exige due diligence cuidadosa, com a participação da área de compliance e avaliação qualitativa e quantitativa das casas. Avaliamos os alocadores, seus resultados históricos, volatilidade e outras variáveis quantitativas além de uma série de requisitos qualitativos em relação às equipes de gestão”, diz Cáfaro. São quatro alocadores ao todo, incluindo o do Fof exclusivo de fundos imobiliários que foi desenhado em 2020 e deve começar a alocar recursos dentro de três meses.

Lançado entre o final de 2017 e início de 2018 já olhando para o reposicionamento da carteira imobiliária da Vivest, o FoF de FIIs Malibu, que só investe em fundos com lastro em ativos triple A e tem alocação feita internamente, passa por algumas mudanças. A carteira, que trouxe rentabilidades excepcionais entre 2018 e 2019, anos em que chegou a bater retorno de 100%, teve seu tamanho reduzido de R$ 800 milhões para R$ 600 milhões para fazer face às incertezas que atingem a economia. Recentemente, o Malibu também transferiu um pedaço dos seus ativos para alocadores externos, informa o diretor de Investimentos da Vivest, Jorge Simino. Dos R$ 600 milhões, duas tranches de R$ 100 milhões foram transferidas para fundos de fundos exclusivos da Vinci Partners e da XP. Esta é a primeira incursão da fundação no mundo dos FoFs com alocadores externos e um dos motivos, diz Simino, foi a perda de um analista sênior da entidade para o mercado. “O novo analista é bom mas ainda não tem tanta experiência”, pondera.
Os FoFs representam menos de 10% do total de ativos da Vivest . Um deles aplica em renda variável no exterior e tem R$ 2,2 bilhões com seis gestores, outro é o fundo de renda fixa global, com R$ 700 milhões e oito gestores. “Estamos pensando em criar também um FoF multimercado com sete gestores, que deverá ter por volta de R$ 600 milhões mas ainda não decidimos”, conta. Por enquanto, a soma de FoFs chega a R$ 3,5 bilhões.
Entre as vantagens dessa estrutura Simino ressalta a diversificação e a agilidade no processo de informação junto aos órgãos de governança da entidade. “Repassamos semanalmente as posições desses fundos ao nosso comitê de investimentos, o que mostra que a interação com os gestores é muito importante porque ajuda a arejar as cabeças dos integrantes do comitê”, reflete. O custo adicional em taxas de administração ao investir com diversos gestores acaba sendo minimizado pelo fato de que a entidade faz isso diretamente, sem pagar para um alocador externo. Além disso, em alguns casos é possível obter o rebate das taxas de administração. “O mais importante, porém, não é o fator custo mas a diversificação e a troca de ideias que esse modelo permite”, diz Simino.
A escolha de gestores é bastante complexa e os gestores são aprovados pela diretoria executiva depois de um relatório feito pela diretoria de investimentos a partir de análises qualitativas e quantitativas. “Olhamos um certo ranking e a amostra é aprovada ou não com base nisso. No caso de exterior, por exemplo, são aprovados dez ou doze gestores para que o investimento seja feito em três ou quatro deles”, detalha. Depois disso há acompanhamento semanal de performance para eventuais correções que podem aumentar o volume alocado ou não. “Se houver algum problema que não for corrigido em três ou quatro meses, começamos a resgatar mas, embora a reavaliação seja permanente, mexemos pouco e os casos de resgate total foram apenas quatro até agora”, observa.
A decisão de ampliar os volumes alocados dependerá do momento de mercado e do enquadramento à regulação. Em exterior, por exemplo, o volume cresceu desde junho de 2020 mas a fundação já está perto do limite regulatório de 10% dos ativos estabelecido pela Resolução CMN 4.661. “Para cotas de fundos estamos no limite mas ainda sobra algum espaço extra porque começamos a investir também em BDRs de ETFs, cerca de R$ 1,1 bilhão, e aí a classificação legal é de renda variável embora o risco seja de exterior”, explica Simino.
A Vivest conta com o acompanhamento da consultoria Mercer para fazer a alocação própria em FoFs. “Isso ajuda. O consultor, no nosso caso, não decide para onde o dinheiro vai e a decisão de aplicar mais ou menos recursos é sempre nossa, mas ele acompanha a performance para dizer se está bem ou mal, uma análise feita a partir de amostra de fundos da própria consultoria”, afirma.

A Fundação Libertas, com 13 planos e seis patrocinadores, está trabalhando para intensificar o uso de FoFs e colocar em pé o fundo de fundos de exterior além do que já utiliza desde 2020, informa o portfolio manager Marcos Aurélio Litz. “Temos fundos de fundos exclusivos desde o ano passado, tanto em renda variável e renda fixa como em multimercados, mas o exterior, que não é exclusivo, ainda não aconteceu e é um dos objetivos de nossa gestão reformular a atual estrutura de investimentos”, afirma.
A mudança, que passará a utilizar 100% de FoFs exclusivos, está em fase final de seleção e documentação dos gestores e deverá estar concluído antes do final de dezembro, para que a fundação possa oferecer perfis de investimento aos seus participantes já que esses veículos permitem a cada perfil comprar pedaços das estratégias. “Isso pode ser feito de maneira bem alinhada com a nossa estratégia previdenciária, que será aplicada em 2022”, reflete Litz. A estrutura de investimentos atualmente é híbrida e utiliza FoFs, carteira própria e alocação direta em fundos de investimentos mas esse modelo nem sempre dá oportunidade aos planos de acessarem todas as estratégias disponíveis.
Ao todo, 60% dos ativos da fundação estão hoje em fundos de investimentos e o restante fica na carteira própria, composta basicamente por títulos federais marcados na curva. “Estamos finalizando a seleção de mais dois gestores de FoFs exclusivos, com mandatos discricionários, num cronograma que vai até o final de dezembro para começar a funcionar a pleno vapor”, conta Litz. O número de gestores de FoFs sairá dos atuais três para 15.
A fundação pretende direcionar todos os fundos para estratégias e mandatos específicos definidos internamente e, com isso, ganhar eficiência de gestão. Apenas a carteira própria e o segmento de empréstimos aos participantes ficarão fora dos FoFs. Ainda rodando seus estudos de ALM e fronteira eficiente, a Libertas não definiu os percentuais que irão para cada fundo de fundo mas as estratégias centralizadoras incluirão uma de renda fixa ativa (com crédito high yeld e high grade) e outra passiva; renda variável e multimercados – um de exterior e outro de private equity. A tendência é de manter os níveis atuais que são aplicados diretamente em fundos de investimento em exterior, com 2,4% dos ativos nos planos BD e com 7% nos planos CD. No FoF de private equity, a intenção é fazer com que todos os planos tenham acesso a essa estratégia. “Já há alguns fundos de PE e vamos compor a classe com o que já temos”, conta o gestor.
Entre as vantagens dos FoFs, Litz aponta ainda o acesso a muitas classes ou estratégias de maneira diversificada sem alterar necessariamente a estrutura de investimento da fundação e a possibilidade de obter rebate de taxas de administração, que volta para dentro dos fundos e reduz o custo. “Além disso, esse modelo otimiza nosso custo de gestão interna e o time fica mais adequado”.