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Estruturas ficam mais simples
Para os fundos de pensão, principalmente aqueles que possuem perfis de investimentos, os FoFs facilita a distribuição dos ativos pelas carteiras

Edição 341

Com uma equipe dedicada exclusivamente à gestão de seus fundos de fundos (FoFs), que somam R$ 7,2 bilhões ou quase 7% dos ativos totais em investimentos, a Petros considera que os demais 93% de seu patrimônio também são beneficiados pela interação de conhecimento entre a entidade e os gestores terceirizados que os FoFs proporcionam. A avaliação é de Daniel Gonçalves Pereira, gerente de fundos de fundos e macroalocação, área que é uma das quatro gerências dentro da diretoria de investimentos.
A área foi estruturada em 2018 e cuida hoje de cinco fundos de fundos – um de ações e dois multimercados (um mais tradicional e outro estruturado), os três com alocação própria, além de dois recém-lançados Fofs para investir no exterior e que têm um único alocador externo. Uma dessas estratégias globais é mais defensiva e a outra é de maior volatilidade, mas ambas com exposição cambial e descorrelação com a bolsa no Brasil.
Há também um pacote de três novos multimercados em fase final de preparação, que devem ser lançados até o final do ano e que seguirão o modelo da alocação externa. O projeto é pequeno, até por ser novidade, mas seu objetivo,diz Pereira, é assegurar a exposição da carteira à maior diversificação possível por meio dos alocadores terceirizados e seu conhecimento do universo de casas gestoras de qualidade que têm surgido no mercado. A escolha dos multimercados está ligada à capacidade de escolha dos alocadores para encontrarem gestores diferenciados, com o benefício do acesso às suas estratégias.
A transferência de tecnologia entre a entidade, os alocadores e os gestores é um dos pontos altos dessa relação, com uma forte interação entre equipes internas e externas. “O custo dos FoFs é importante mas é preciso olhar além disso, percebendo os benefícios que os gestores trazem em capital intelectual”, acredita Pereira. Ele lembra que têm surgido casas novas e interessantes no mercado, que trazem um pouco mais de risco, e às quais os alocadores terceirizados terão interesse em se expor, o que ajuda a ampliar a diversificação.
Nos três FoFs com alocação própria da Petros, o processo de seleção e monitoramento dos gestores é extenso, com práticas que seguem as do mercado, em avaliação qualitativa e quantitativa. “Há diligência de risco, compliance e controles internos e análise reputacional das casas avaliadas. Esses dois pontos são conduzidos por outras áreas da Petros, fora do âmbito da diretoria de investimentos”, explica Pereira. O fundo de ações tem como target bater Ibovespa mais 2%, mas em dois anos de existência do FoF ele já está superando isso. “Essa carteira tem contribuído inclusive em pleno período de crise, de um ano e meio para cá”, diz.
O multimercado estruturado investe em fundos condominiais e pode não cumprir a Resolução 4.661. Ele tem ficado acima do CDI, na verdade tem alcançado mais de 150% do CDI desde 2019, conta o gestor, um resultado que não pode ser considerado ruim diante do que ocorreu ao longo desse período no mercado.
A Viva Previdência optou por montar três FoFs multiestratégia com R$ 750 milhões em cada um, valores propositalmente iguais, entregues a três casas – Icatu Vanguarda, SulAmérica e BNP – com mandatos idênticos, discricionários. A estratégia de alocação combina renda fixa, renda variável, multimercados e exterior. “Só não entramos ainda em FoFs imobiliários porque não é o momento mais adequado para isso, mas já temos previsão” informa Silas Devai Jr., diretor presidente da entidade. A decisão de definir valores e mandatos iguais pretende garantir condições para comparar desempenhos durante algum tempo e, futuramente, é possível que isso mude para mandatos diferentes que serão ajustados pelos alocadores ao longo do tempo.
A estrutura de fundos de fundos foi desenhada em 2020, em busca por maior diversificação porque ainda não havia exterior, por exemplo, mas sua implementação só ocorreu em abril passado. “Tivemos o suporte da consultoria PPS e entendemos que seria possível implementar melhor a diversificação de investimentos por meio de FoFs”, analisa Devai.
Até então a gestão trabalhava com fundos exclusivos de ações e de renda fixa mas ficou claro que, embora a entidade tenha visão de longo prazo e não faça movimentos bruscos, seria preciso agilizar os seus movimentos táticos. “Qualquer ajuste tático na estrutura de fundos exclusivos era lento, levava até três meses para ser aprovado por causa do processo burocrático envolvido na própria estrutura do veículo, o que era uma limitação importante”, diz o dirigente. O papel da consultoria foi importante nessa migração de modelo, uma vez que a área de investimentos da entidade é enxuta, mas a decisão final sempre cabe à equipe interna. “Eles nos apoiam na seleção de gestores e usamos sua contribuição para definir estratégias também”.
A mudança para os FoFs visava em princípio resolver esse problema de agilidade. A estratégia segue voltada para o longo prazo mas houve um ganho em agilidade tática para fazer reposicionamentos. “Cada fundo tem um mínimo e um máximo definido por gestor e,dentro disso, ele consegue fazer os ajustes, o que foi positivo em 2021, ano em que a forte volatilidade nos obrigou a ficar mais defensivos”, analisa.
A maior agilidade eliminou o risco de ter uma perda financeira pela falta de ajustes na hora certa e, além disso, foi importante para a entidade ter tido acesso a fundos de gestores especialistas. Devai lembra que no modelo de fundos exclusivos isso era bem mais complicado e comemora o fato de a Viva ter conseguido inclusive entrar ou sair facilmente de fundos de investimento premiados, graças aos seus FoFs. “Ganhou qualidade de gestão. A mudança foi implementada em abril deste ano, ainda estamos observando para ver como evolui esse modelo e aprendendo durante o processo para saber o que funciona melhor”, pondera.
Ele acrescenta que o ano de 2021 foi difícil e desafiador mas acredita que sem o modelo de FoFs a entidade estaria sofrendo mais em rentabilidade. “Pudemos ir para uma posição mais defensiva de maneira mais rápida e a rentabilidade até setembro era positiva, ainda que abaixo das metas atuariais. Mas ganhamos eficiência no investimento diante do cenário e estamos performando bem”.
O custo dos FoFs acabou sendo menor do que a entidade gastava antes, ainda que a diferença tenha sido marginal, informa Devai. “Tivemos vantagem também nesse aspecto porque gastamos menos mas o custo nunca foi o principal direcionador dessa decisão. A economia obtida foi um ganho colateral nas taxas de administração das carteiras”, afirma. Um dos benefícios foi a proximidade com os gestores dos FoFs, em discussões sobre as estratégias, ainda que os mandatos sejam discricionários.

Na Capef, que tem dois planos e ativos que somam R$ 5,5 bilhões, os FoFs são vistos como uma forma interessante de acessar diversos gestores em categorias cujas parcelas de alocação não são tão relevantes no total da carteira. O destaque fica para os estruturados e os multimercados. “Selecionamos diferentes segmentos, mesmo que o volume não seja tão expressivo para o plano e essa estratégia tem sido uma porta de entrada para novos mercados”, diz Alex Araújo, diretor de Administração e Investimentos.
O início foi pelos multimercados, uma alternativa desde que começou a curva de queda da Selic, mas hoje esse fundo é pequeno, investe principalmente no exterior e tem gestão própria. Os mais utilizados são os FoFs alternativos, como FIIs e crédito privado, com expectativa de entrar também em FoFs de FIPs. Já em FIDCs não há fundos exclusivos mas os fundos que estão no portfolio podem investir em cotas de FIDCs.
A entidade analisa a possibilidade de investir em FoFs de FIPS, até porque tem aumentado a oferta desses fundos e as condições ficaram mais atrativas. “No caso dos estruturados, não se consegue investir se não tiver o ticket necessário”, lembra Araújo. E os FIPs que tem sido oferecidos trazem um diferencial importante por terem a capacidade de amenizar o efeito da curva J graças às diferentes maturidades dos investimentos.”O mercado está fazendo isso para se ajustar à demanda dos institucionais e para nós é uma opção intessante em termos de rentabilidade”, observa Araújo.
A Capef já investe em FIPs diretamente, há cerca de dois anos, e tem aplicação em quatro ou cinco desses fundos mas não em volumes expressivos, em torno de 3% dos ativos e não há nem metade disso alocada. “Queremos avançar nessa classe por meio de FoFs por causa do retorno diferenciado que eles oferecem e podem nos ajudar a cumprir metas, então devemos concluir a oferta este ano” diz o diretor.
A estrutura de FoFs tem um custo porque há o gestor para ser remunerado, admite Araújo, mas isso também faz parte de uma curva organizacional na entidade e, no balanço final, há mais benefícios do que custos. A fundação acaba de mexer na composição do portfolio para fazer a rotação de gestores, conta o diretor. “A seleção segue a política padrão do mercado de fundos de investimentos e ranqueamos os gestores a partir de critérios qualitativos, com um corte quantitativo (o fundo precisa ter pelo menos R$ 500 milhões para ser aprovado)”, afirma Araújo. Em seguida é feita a seleção por categorias, com análise de performance e governança, verificação operacional. No caso dos FIIs e dos FIPs, a diligência é um pouco mais detalhada.
“Os fundos de liquidez costumam mudar mais, por causa da performance, mas a grande questão este ano foi a seleção de gestores e não a rotação. Difícil encontrar alguém que consiga acertar no ambiente volátil do mercado”, diz Araújo. A rotação era feita semestralmente mas foi encurtada para trimestral por causa da volatilidade dos mercados,além de manter uma dinâmica quinzenal de reuniões com o comitê de investimentos.

Na Prevcom, a opção pelos FoFs recaiu exclusivamente sobre o segmento imobiliário, por motivos específicos, segundo explica Flávia Nazaré, diretora de Investimentos. “Seguimos as melhores práticas do regulador Previc, o que nos leva a buscar sempre sermos responsáveis pela nossa própria seleção de fundos, apoiados pela consultoria contratada e pelo comitê de investimentos”, diz Nazaré. Em alguns segmentos, porém, como no imobiliário, em que há necessidade de expertise específica setorial, ela vê vantagens em investir em fundos de fundos.
A entidade usa um fundo multimercado estruturado em que a maioria dos ativos é do mercado imobiliário e a expertise do gestor é vista como o principal benefício. “No fundo em que investimos há cinco profissionais dedicados a realizar a gestão ativa dos mais de 150 Fundos de Investimentos Imobiliários (FIIs) que são avaliados constantemente pela equipe do gestor. Isso garante a diversificação e a diligência necessárias para uma modalidade de investimento tão complexa e ampla como essa”, afirma.
Ainda que a fundação tivesse uma equipe própria focada em FIIs, estaria em desvantagem em relação ao gestor escolhido, admite a diretora. “Além disso, os fundos imobiliários listados em bolsa estão sujeitos a uma grande volatilidade, o que não acontece nesse fundo de fundos”, diz.
A percepção é de que a entidade consegue assegurar as características de diligência, gestão ativa e diversificação. Ao mesmo tempo, o pagamento de dividendos é reinvestido automaticamente na carteira, o que diminui o trabalho operacional.
Nazaré ressalta que a Prevcom avalia sempre, no caso do fundo de fundos, os eventuais conflitos de interesses que possam ocorrer com relação a outros mandatos ou prestadores de serviços (o que não ocorre no caso do atual FoF investido). “Mas é importante lembrar que, mesmo sabendo que a escolha dos fundos imobiliários foi de certa forma terceirizada, não ficamos isentos de acompanhar a escolha dos ativos pelo gestor”. O nível de diligência é grande e há reuniões periódicas com os gestores.