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Diversificação é ponto forte
Colocação de um maior número de fundos na carteira, com monitoramento intensivo deles, é o principal benefício trazido pelos fundos de fundos

Edição 341

Ao longo dos últimos 24 meses houve uma evolução na percepção dos benefícios das estruturas de fundos de fundos para a gestão dos investimentos das entidades fechadas de previdência complementar. “De 2020 para cá o mercado acordou para a realidade dos FoFs e os fundos de pensão passaram a usar mais esses veículos para garantir diversificação, apoio operacional e escalabilidade, o que vale para entidades de todos os portes, tenham elas R$ 30 milhões ou R$ 30 bilhões de patrimônio”, diz a sócia responsável pela alocação estratégica da TAG Investimentos, Francisca Brasileiro.
Segundo ela, a diversificação é fundamental para agregar valor aos portfólios. O principal benefício é o aumento do número de fundos disponíveis nas carteiras, com a possibilidade de monitoramento intensivo das posições, gerenciamento operacional, análise de regulamentos e estudos feitos por equipes especializadas que agregam sofisticação ao processo.
Na TAG, com 11 FoFs presentes neste ranking, o número de clientes institucionais de FoFs cresceu mais de 50% em 12 meses, de oito para treze. A casa, que tem ao todo R$ 6 bilhões sob gestão, mantém FoFs de renda variável, renda fixa, multimercados e de exterior. A maior parte dos recursos, porém, está em produtos multi-estratégia, seja via FoFs ou carteiras administradas para fundações. Na “caixinha” multi estratégia, explica Brasileiro, é feita gestão estratégica para institucionais, com aplicação concomitante em vários segmentos do mercado, de modo alinhado às políticas de investimento das entidades para superar os benchmarks que elas estabelecem. “Gostamos desse modelo porque assumimos um papel fiduciário que envolve o asset alocation da entidade, com foco no seu passivo, essa é uma tendência que tem crescido bastante nos últimos meses e deve continuar em alta”, explica.
Ela avalia que os FoFs multimercados trouxeram contribuições importantes em 2021, permitindo uma real diversificação de estratégias ao combinar fundos de crédito high yeld, estratégias quantitativas e equity hedge, e reduzir a alocação em fundos que investem em juros. “Aumentamos os fundos descorrelacionados e isso fez com que os portfólios dos multimercados funcionassem”, afirma Brasileiro.
A casa mantém quatro FoFs de exterior - são três multi estratégia e um de renda variável - e todos os clientes estão em sua alocação máxima nessa classe. Os retornos estão em 5% a 6% no ano, em dólar. Na renda variável o ano tem sido muito difícil e o papel do asset alocation foi forte. “Começamos o ano com fundos de valor e em fevereiro passamos para small caps”, diz a gestora. “Uma alocação ativa foi fundamental”.
Na renda fixa, que sofreu mais pelo “desafio do século” que foi tentar superar a inflação, a parcela de crédito mais sofisticado ajudou a melhorar resultados – os fundos da casa garantiram retorno de CDI mais 3,5% desde o início - e deve marcar uma tendência firme em 2022 rumo à gestão ativa na classe, aposta Brasileiro.
O processo de seleção de fundos inclui três fases: na primeira, que inclui a due diligence, um comitê executivo, que fica acima da instância da gestão, avalia os aspectos qualitativos de um scorecard proprietário. Caso o gestor seja aprovado, a segunda etapa fará a análise quantitativa. A etapa final é a da construção do portfólio em si. A eventual troca de gestores acontece a cada três ou seis meses, caso haja uma mudança de rating para a estratégia, mas isso não significa que o fundo será necessariamente desinvestido. Atualmente a casa mantém 36 gestores no mercado local e 14 no exterior, além de fazer a cobertura de mais de 200 fundos.

Com R$ 200 bilhões sob gestão em fundos exclusivos de modo geral, seja para investidores corporate, middle market ou institucionais, a BB DTVM está em busca de expandir fronteiras no nicho específico de FoFs exclusivos. Com sete fundos neste ranking, a casa tem trabalhado para inovar seu portfólio principalmente com fundos de exterior, multimercados e fundos com temáticas ESG, diz o responsável pela área comercial e de atacado da gestora, Paulo Manzione.
A oferta de FoFs ainda é limitada, com um número reduzido de clientes, mas Manzione informa que a gestora participa no momento de diversos processos seletivos de EFPC, tanto em produtos para investimento no exterior quanto em multimercados. “Os dois requisitos que consideramos fundamentais para avançar na oferta desse tipo de veículo são o rigor da due diligence que fazemos para selecionar gestores externos, que precisa se refletir na nossa própria governança, e os preços cobrados. Buscamos inclusive trabalhar com margens mais apertadas para ganhar share nesse nicho”, conta.
Na outra ponta, como fornecedora de fundos para alocadores de FoFs, o crescimento da BB DTVM já é visível e a meta é continuar a ganhar mercado em 2022. “Temos recebido forte demanda e o fluxo de recursos que acessam nossas estratégias tende a continuar em vir de alocadores de FoFs.
Um dos aspectos essenciais para a atratividade do portfólio de fundos exclusivos é a integração aos critérios ESG, com especial apelo nos fundos globais. “Temos diversas parcerias lá fora, sendo a mais recente delas com a Nordea para uma estratégia de ações globais que investe em ativos ligados a temáticas ESG disruptivas porque há uma demanda crescente por esse tipo de produto”, diz Manzioni. Os veículos utilizados podem ser FoFs ou fundos com acesso direto.

As facilidades operacionais e contábeis, somadas à possibilidade de maior acesso a estratégias diversificadas de investimento, são alguns dos atrativos dos FoFs para as EFPCs, analisa Luciano Magalhães, sócio da 4Um Investimentos. Além da facilidade contábil para que cada plano de benefício compre um pedaço da estratégia do FoF, registrando as cotas de maneira segregada, ele acredita que há também um diferencial relevante na possibilidade de ter comitês de investimento com a participação de gestor/administrador, consultor e fundo de pensão. “Isso tem sido muito bem aceito porque muitos desses investidores já têm expertise e querem participar das discussões sobre estratégias, então colocamos a figura desse comitê no regulamento dos nossos fundos”, explica.
Embora os mandatos sejam a princípio discricionários, Magalhães entende que é importante oferecer o modelo de FoF com comitê, no qual as decisões são tomadas em conjunto, mas os gestores mantém o poder de veto desde que seja sempre justificado. “As demais vantagens - agilidade, facilidade operacional, adequação à legislação, rebate das taxas, etc, valem para ambos os modelos”, diz Magalhães. Ele complementa dizendo que o registro segregado de cotas de forma segregada facilita, inclusive, a adoção de perfis de investimento,
A 4Um tem R$ 1,3 bilhão em FoFs, a maioria em fundos de ações mas também renda fixa, multimercados e exterior e participa de dez novas concorrências, explica Magalhães. Neste ranking a gestora tem 4 FoFs. Segundo Magalhães, o crescimento no último ano foi superior a 40% em volume de recursos e em número de mandatos.
“Jamais colocamos apenas fundos nossos no portfólio, porque queremos ter uma alocação bem diversificada, então os fundos próprios têm 20% a 25% de participação”, afirma. Com R$ 6 bilhões de ativos sob gestão, incluíndo todas as estratégias, a casa tem 80% do patrimônio líquido vindo de institucionais e o seu objetivo é ser reconhecida por esse foco. “As entidades fechadas de previdência complementar demandam ser top of mind não só em investimentos mas também na parte de adequação à legislação e fazemos a montagem de estruturas em uma parceria mais completa com elas”, diz.

Com um total de R$ 17 bilhões sob gestão, a Capitania Investimentos tem sete FoFs neste ranking. Do total sob gestão, R$ 3 bilhões são na estratégia de Fof de fundos de investimento imobiliário (FII), que contabiliza entre 15 e 20 fundações comprando esse mandato. Segundo o sócio da gestora, Caio Conca, o crescimento dos FoFs de FIIs acompanha o movimento do segmento imobiliário. “Há atualmente cerca de 300 FIIs listados em bolsa e acompanhamos 250 deles porque o nosso papel é definir a melhor exposição e selecionar fundos, fazer o fluxo de caixa descontado dos imóveis que estão no portfólio e entender a dinâmica de cada segmento do mercado imobiliário”, afirma Conca.
A exposição da estratégia a fundos que investem em ativos imobiliários de papel (CRIs) é menor do que a da indústria. “Enquanto o IFIX tem cerca de 40% em papel, a estratégia aqui tem entre 10% e 15%”, diz Conca. “Nossa maior exposição, de 30%, é a ativos voltados para o segmento de renda urbana (laboratórios, faculdades, lojas de rua e outros que não sejam shoppings, galpões ou lajes corporativas)”.
Na pandemia, a carteira ficou mais defensiva e exposta a fundos com contratos atípicos de longuíssimo prazo, com locatários como Pão de Açúcar, Açaí e Riachuelo, por exemplo. Como resultado, os fundos quase não sofreram em dividendos distribuídos. “O Ifix ficou negativo em 8% nesse quesito, enquanto nós ficamos entre zero e 1% negativo, ou seja, geramos um alfa de 7% em dividendos”. A alta da Selic e da inflação este ano afetam o setor da construção e o preço real dos ativos de tijolo está na mínima histórica, o que sinaliza que o mercado já pode ter precificado a alta do juro, acredita o gestor.

Na RBR Asset Management, casa especializada em mercado imobiliário que mantinha desde 2015 um FoF de FII com gestão ativa, o conceito foi adaptado e a partir de 2019 esse tornou-se um multiestratégia que investe em ativos imobiliários – FIIs, fundos de crédito e de desenvolvimento. “O nosso fundo principal – hoje com R$ 1,2 bilhão – mudou de nome em 2019, tornando-se um produto multiestratégia que além de investir em cotas de fundos imobiliários compra também CRIs e ativos líquidos de empresas imobiliárias”, informa Bruno Nardo, sócio e portfólio manager de multiestratégias.
O modelo reflete melhor o trabalho do time que cobre todos os fundos listados, explica o gestor. São 140 fundos acompanhados (crédito, tijolo, corporativo e outros segmentos) e cerca de 30 deles investidos de forma representativa (com participação superior a 0,5% em cada um), números que são alterados de acordo com a precificação dos dividendos. O portfólio gira anualmente, entre uma a uma vez e meia ao ano, em média.
A base para definição de preços de compra e venda vem da análise fundamentalista e a carteira é bem recheada de prédios corporativos em regiões valorizadas de SP, como a Faria Lima e a Juscelino Kubitschek, para os quais o retorno menor em troca do menor risco. “É um mercado mais dinâmico e desequilibrado em favor do proprietário”, define Nardo. A seleção de fundos segue um processo de governança interna bem definido e disciplinado, com os gestores escolhidos de acordo com sua capacidade, modelo de remuneração dos executivos e alinhamento com o investidor em termos de transparência e governança. “Isso é crucial para aumentar ou diminuir o retorno exigido”, diz Nardo.
No mercado de CRIs a casa é relativamente conservadora e busca IPCA mais 6% com boas garantias, mas em ativos com maior risco exige 13% a 20%. Segundo Nardo, 99% do investimento em crédito estão em operações estruturadas, sem taxa adicional. “Se eu compro inflação mais 7%, garanto ganho de capital ao longo do tempo”, detalha.
De acordo com Stephanie Camacho, a executiva de RI da casa responsável pela área de institucionais, a demanda por fundos exclusivos desses clientes tem crescido e a casa tem atualmente dois mandatos exclusivos de fundações além de alguns family offices. “Há também 13 fundos de pensão que são cotistas do nosso fundo Alfa e um percentual de 7% a 8% do AuM da casa é desse público”, diz.

Com três fundos multimercados presentes no ranking, o Credit Suisse considera a área de FoFs particularmente importante. “Fazemos esse trabalho desde 1995, quando lançamos o primeiro FoF no Brasil”, lembra Raphael Fonseca, responsável pela área de gestão de fundos do IWM (International Wealth Management), a área do Credit Suisse Brasil dedicada a esse segmento. Os multimercados são o destaque, mas a área tem também fundos multiestratégias e de ações.
No início a casa operava apenas estratégia long only em ações, mas desde 2015 foram incluídos fundos long and short e long biased. Atualmente, o FoF long biased é o maior da casa e faz uma gestão de ações que combina stock picking com hedge macro. “Recentemente trouxemos um FoF que concentra estratégias mais alavancadas, e também temos adotado uma série de iniciativas
O mercado demanda, porém, a evolução da curadoria na seleção de estratégia, explica Guilherme Zaczac, responsável por mandatos institucionais da casa. “O investidor espera que nós provoquemos os gestores dos fundos multimercados customizados para fazer frente à maior volatilidade e abrir espaço para tomar mais risco”, diz. Uma dessas provocações levou os gestores a irem além da volatilidade de 4% a 6%.
Como há uma combinação de estratégias que, no fim das contas, acaba reduzindo a volatilidade individual, resta um benefício significativo nos resultados. Zaczac cita o exemplo de um FoF multimercado alavancado, que visa CDI mais 8% a 10%, e que passou a ter volatilidade de 9% a 9,5%, num mix que, individualmente, elevaria a volatilidade para 11% mas, no conjunto da carteira, acabou sendo menor do que isso. “O conceito do FoF parte dessa construção de carteira muito bem ajeitada, com características individuais que sejam complementares entre si mas que tragam diferenciais”, pondera.
Pelo filtro quantitativo utilizado na seleção do Credit Suisse passam de 600 a 650 gestores, para conferir inclusive como eles se comportaram nos períodos mais críticos do mercado. Atualmente os investimentos estão distribuídos entre 40 a 45 casas e entre 100 a 110 fundos, mas Zaczac lembra que esses números estão em constante movimento. Na curadoria, que é um processo de mapeamento, os padrões são criteriosos em relação aos controles internos dos gestores. Há calls mensais e as carteiras são explodidas para avaliar o risco e saber se está fidedigno ao mandato. “Queremos que eles façam aquilo a que se propuseram mas sem “gerir o gestor”, explica.