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EFPCs correm atrás da meta
Num cenário de ausência de estabilidade econômica, com inflação em alta, EFPCs têm cada vez mais dificuldades em bater suas metas atuariais

Edição 345

A instabilidade na economia brasileira, e global, refletida em escalada inflacionária, no fraco ritmo de atividade, em alta de juros e fortes oscilações na Bolsa e no câmbio, tem levado a mudanças no portfólio dos fundos de pensão a fim de minimizar impactos negativos na relação retorno/meta atuarial. Entre os principais movimentos de realocação de investimentos realizados por fundações como Real Grandeza (Furnas e Eletronuclear), Eletros (Eletrobras), Telos (Embratel) e Petros (Petrobras) estão a mudança na composição de títulos públicos na carteira de renda fixa e redução da participação de ativos de renda variável em seus portfólios. Desde meados do ano passado, diante da alta acelerada da inflação e juros reais entre os mais elevados do mundo, os fundos de previdência tiveram que agir rápido para evitar resultados negativos. Mesmo assim, dados do mercado apontam que a maior parte não conseguiu alcançar suas metas atuariais em 2021 e tudo indica que repetirão tal desempenho este ano.
Não é para menos. Incerteza permanece como palavra-chave em 2022; as projeções continuam a surpreender. No ano passado, os fundos definiram o planejamento com base em inflação inferior à registrada em dezembro de 2021. A Eletros, por exemplo, estimava alta em torno de 5%, mas o INPC bateu 10,16%. Para 2022, as expectativas giravam em torno de índices abaixo de 4%, mas o mercado já trabalha com INPC de 7,7%.
As oscilações bruscas também atingiram o mercado de ações. O Ibovespa fechou o ano passado com queda de 11,92%, o segundo pior desempenho mundial no ano e a retração mais forte desde 2015 no mercado acionário brasileiro; no primeiro trimestre deste ano subiu 14,48%, mas em abril voltou a recuar, fechando o mês em baixa de 9,7%. Mesmo com auxílio do Asset Liability Management (ALM), ferramenta de gerenciamento de riscos utilizada por fundações para evitar descasamento entre ativos e passivos de longo prazo, a gestão tática, de curto prazo, requer atenção redobrada. “Ninguém esperava que a inflação fosse tão alta no ano passado”, disse Luiz Guilherme Nobre Pinto, gerente de investimentos da Eletros.
Concentrar recursos em renda fixa nem sempre garante retornos compatíveis com a meta atuarial. É preciso levar em conta o timing da aquisição dos títulos, os prazos dos papéis e o indexador, já que a alta contínua dos juros para conter a inflação interfere no resultado. Foi o que ocorreu. As taxas médias nominais do CDI saíram de 2,8%, em 2020, para 4,4% no ano seguinte. No fim do ano passado, a expectativa da Eletros era de taxa média nominal de 5,4% para o CDI; agora, a projeção é de 12,2%. Com os juros reais a oscilação foi ainda mais forte. Nos dois últimos anos, os juros reais ficaram negativos com a súbita e acelerada subida da inflação. O cenário mudou em 2022, com juros reais positivos, o que contribuiu para melhorar o retorno, mas prevalecem as dúvidas quanto ao desempenho da economia ao longo do ano. As indefinições aumentaram diante da recente alta dos juros dos Estados Unidos, a maior em 22 anos.

A Real Grandeza foi uma das fundações que conseguiu tirar proveito das oportunidades em 2022, após amargar retorno de apenas 2,8% em seus investimentos no ano passado, para uma meta atuarial que atingiu 15,45% no período. Para reverter o quadro, há cerca de quatro meses os gestores iniciaram processo de compra de NTN-B, pagando IPCA mais 6,5%. A decisão foi tomada quando as taxas superaram a meta atuarial do fundo de previdência, de INPC mais 4,74%. Compraram, então, cerca de R$ 800 milhões, em movimento oposto ao de 2021, quando passaram a vender esse tipo de ativo em carteira.
“Os papéis voltaram a ser interessantes com o aumento dos juros. No ano passado, ninguém pensava que as NTN-B pagariam taxas acima do atuarial, já que haviam caído muito”, disse Sérgio Wilson Ferraz Fontes, presidente da Fundação Real Grandeza. Em médio e longo prazos, a estratégia renderá para o fundo retorno entre 1,6% e 1,7% ao ano, acima da inflação. “Do ponto de vista tático, foi a iniciativa mais importante que tomamos para atingir o retorno deste ano”, disse o presidente, informando que, atualmente, as NTN-B representam 8% do portfólio.
De fato, no primeiro trimestre do ano, a rentabilidade da carteira da Real Grandeza, de 6,73% no plano BD, superou a meta atuarial de 4,62% relativa aos meses de janeiro a março de 2022. A alocação em renda variável ficou em 19,7% do total da carteira, com gestão terceirizada; renda fixa, concentrou 74,8% do patrimônio de R$ 16,3 bilhões do fundo; e 3,6% foram aplicados em fundos imobiliários, permanecendo o restante em operações estruturadas e com os participantes do fundo. A partir do segundo semestre deste ano, com a aprovação do novo manual de alocação, a Real Grandeza poderá investir no exterior até 4% de sua carteira, além da possibilidade de alocar recursos em fundos multimercados e em FIPs, de posse do mandato para aplicações naqueles ativos. Nada indica, até o momento, que a decisão de diversificação será tomada já em 2022.

A Fundação Telos, dona de uma carteira de R$ 3,9 bilhões no plano BD e de R$ 9,7 bilhões no total, mantinha em março de 2022 mais de 80% de seu portfólio concentrado em títulos públicos indexados à inflação. Ainda assim, a rentabilidade no primeiro trimestre do ano, de 6,87%, embora expressiva, permaneceu abaixo da meta atuarial, de IGP-DI mais 3,90% ao ano. Para mitigar efeitos da escalada inflacionária (no ano passado o índice ficou em 17,74%), Eduardo Brito, gerente de investimentos do fundo, informou que no plano BD a estratégia foi a de comprar títulos de prazos mais curtos, de dois anos, quando grande volume de NTN-C indexadas ao IGP-M, equivalentes a 20% do patrimônio, venceu em abril do ano passado. Naquele momento, os papéis estavam em 4,5%, agora recompraram os títulos com remuneração de 5,80%. “Tivemos um ganho bom nessa estratégia”, disse Brito.
A ideia era a de não ser surpreendido por inflação mais alta e papéis com retornos mais baixos em carteira. A solução foi a de fazer uma espécie de pit-stop, aguardando o momento de voltar a comprar. “Deu certo. A inflação acelerou, e no fim do ano passado, quando as taxas voltaram a subir, tomamos posições mais longas”, disse. No início do ano, os gestores investiram em papéis com prazos entre 2028 e 2030. Hoje, 55% da carteira está em NTN-C e 25% em NTN-B indexados ao índice de preços.
Há cerca de um mês, a Telos concentrou ainda mais recursos em títulos públicos indexados à inflação até o limite adequado para não comprometer a liquidez. Diante do cenário considerado desafiador, o consenso é de que não faz sentido alocar recursos em qualquer outro investimento. A Fundação não tem aplicações no exterior, mantém pequena participação em renda variável e em multimercado. Aliás, de acordo com o gestor, a Fundação cogita reavaliar se vale a pena manter investimentos nessas duas classes de ativos no plano BD.

A Fundação Eletros, gestora de um BD com 1,7 mil participantes (5,2 mil incluindo os demais tipos de planos) e patrimônio de 1,95 bilhão em 2021, apresentou nos últimos cinco anos retorno de 79,04% para uma meta atuarial no período de 65,41%. O bom desempenho, entretanto, foi revertido no ano passado, quando a meta de 15,12% ficou muito acima do retorno de 2,38%. Os ajustes no portfólio já mostraram efeitos positivos. Entre janeiro e março de 2022, a rentabilidade de 6,16% superou a meta de 4,56%.
A principal decisão de gestão de portfólio foi a redução da carteira de renda variável e correlato aumento de títulos de longo prazo, dos quais 44% atrelados à inflação. “É um ano atípico. Vou estranhar se alguém disser que está confortável em relação à meta”, disse o gerente de investimentos da Eletros. A principal dúvida em relação à alocação da carteira reside na participação da renda variável, que responde atualmente por 24% do patrimônio investido, inferior aos 31% do fim do ano passado. A gestão do fundo optou por diversificar prazos dos títulos de renda fixa, basicamente NTN-C 2031 atrelada ao IGPM e NTN-B ao IPCA. Os prazos de vencimento variam de 2023 a 2050, adequando vencimentos ao cronograma de pagamentos dos beneficiários. A marcação é feita a mercado. “É possível aumentar ainda mais a participação em renda fixa. Embora haja ativos baratos na Bolsa, o cenário é muito ruim, com aumento de juros lá fora e aqui dentro, além do aumento da inflação”, disse Pinto.

A Petros, que fechou 2021 com retração de 1,33% na rentabilidade consolidada dos investimentos e patrimônio total de R$ 114,1 bilhões, também reduziu sua participação em renda variável. Diante da conjuntura econômica desafiadora, a opção foi centrar esforços em segurança. Na prática, os gestores passaram a comprar títulos públicos federais, sempre marcados na curva. Com isso, os fluxos de recebimentos desses papéis - os cupons semestrais e o valor de resgate na data de vencimento - ficam compatíveis com o fluxo de pagamento dos benefícios dos planos. Segundo o diretor de investimentos da Petros, Paulo Werneck, pela primeira vez em dois anos, as NTN-Bs pagam mais do que a meta atuarial dos planos, “o que viabiliza a implantação da estratégia de imunização”.