Mainnav

Juro alto prejudica performance
Aversão ao risco que afetou os multimercados e fundos de ações também impactou alocações em FoFs de multimercados, mas em menor escala

Edição 361

O aumento da demanda por FoFs junto aos fundos de pensão e seguradoras não fez crescer apenas o lado da gestão, mas também um pacote que inclui serviços, avaliação de governança e acompanhamento diário de todos os gestores, diz o head da área de institucionais na XP Investimentos, Guilherme Nascimento.
A casa tem R$ 16 bilhões sob gestão em FoFs para investidores institucionais, quase 100% deles entre fundos de pensão e seguradoras O crescimento do volume foi expressivo diante dos RS 3 bilhões sob gestão em 2020. “É um mercado complexo, que evoluiu para centenas de gestores. A nossa biblioteca de gestores, por exemplo, tem mais de 300 casas”, afirma.
Os FoFs multimercados da asset eram mais voltados para o mercado local até 2015/2016, mas hoje a proporção de operações globais subiu e quase supera as domésticas. “Até mesmo as grandes fundações brasileiras já perceberam o valor de ter esse acompanhamento feito por meio de FoFs. Embora a demanda esteja basicamente concentrada em multimercados, temos também fundos de ações e híbridos (onshore e offshore), além de carteiras que fazem gestão como um todo para o cliente”, conta Nascimento.
Responsáveis pela maior parte desse bolo, os multimercados são os fundos de fundos que exigem o maior esforço de acompanhamento, até porque o número de gestores nas carteiras é maior. “Eles têm performado bem, mas esse é um mercado cíclico e o ano de 2023 é um dos mais desafiadores já vividos por essa indústria, com resultados abaixo do CDI ou até mesmo negativos”, conta.
Segundo Nascimento, ainda que o diagnóstico não aponte maiores preocupações com esses veículos, a verdade é que a indústria de multimercados perdeu recursos este ano. O impacto da volatilidade das taxas dos treasuries foi um dos calls que a indústria como um todo não conseguiu capturar e muitos apostaram na recessão nos EUA, que não veio.
“O próprio Fed fez um cenário errado e os gestores de multimercados erraram feio a mão em alguns calls, mas os recursos também foram drenados por ativos de renda fixa como as LCIs (Letras de Crédito Imobiliário), LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários)”, afirma.
Por conta disso, é preciso olhar com maior cuidado ainda para nomes específicos de gestores nas carteiras de FoFs já que algumas estruturas hoje não se pagam. “No nosso portfólio mantivemos 90% deles e foram apenas dois ou três nomes que acenderam a luz amarela, o auge do estresse do mercado”, diz.
A perspectiva de mínima normalização do juro no Brasil deve contribuir para os multimercados começarem a gerar alfa novamente. “É uma turma que fez dinheiro em tempos piores”, lembra Nascimento.
Segundo ele, as mudanças trazidas pela CVM 175, que entraram em vigor em outubro, não devem gerar impacto expressivo sobre os fundos de fundos mas certamente vão dar maior transparência à cobrança de taxas pelos prestadores de serviços, agora divulgadas de modo segregado. “Aqui sempre devolvemos 100% dos rebates dos fundos, então na prática não haverá qualquer impacto para nós”, destaca.

Juros altos - Apesar da redução do apetite ao risco por conta das altas taxas de juros, principalmente nos multimercados e fundos de ações, a demanda por fundos de fundos mantém-se elevada, garante a sócia da TAG Investimentos, Francisca Brasileiro.
Segundo ela, isso reflete a percepção do mercado sobre a eficiência desse tipo de estrutura. “Os gestores dos FoFs oferecem equipes que participam de todos os segmentos. Aqui, por exemplo, temos uma equipe de 16 pessoas 100% focadas na gestão desses fundos e na construção de portfólios exclusivos”, diz.
São mais de 100 calls mensais com gestores, além de análises de carteiras, resumos, documentações, registros e distribuição aos clientes para que eles possam manter o controle estratégico na gestão ativa.
A necessidade de acompanhar um número crescente de fundos explica o interesse dos investidores pelos FoFs. “Um fundo de fundos de renda variável, por exemplo, normalmente tem de oito a 15 gestores, é muito raro ver menos do que isso, então precisa de time e equipe para acompanhar e ter maior eficiência de diversificação”, afirma Brasileiro.
A classe dos multimercados é a mais óbvia para construir essas estruturas porque a diversificação é fundamental tanto em termos de estratégias quanto de estilo dos gestores. “Há estratégias macro, long and short, equity hedge, quantitativos sistemáticos e long biased, então são várias classes dentro da mesma estratégia e a diversificação entre elas melhora muito o resultado”, observa.
Além disso, a busca dos melhores não se resume a comparar em relação ao benchmark ou ao CDI, já que existem muitas nuances. “Para que o FoF multimercado não fique apenas olhando pelo retrovisor, é preciso fazer o acompanhamento muito próximo dos gestores, daí a necessidade dos calls mensais”, pondera.
Brasileiro enfatiza a importância dos fundos multiestratégias – em que você olha para todas as estratégias juntas e usa muito as ferramentas de proteção (hedge, exposição cambial) e adota uma gestão mais ativa para reduzir a exposição ao risco total. “É a busca por eficiência, não daquela fronteira de eficiência de cinco anos, mas de obter eficiência por meio da parcela ativa”, destaca. O número de FoFs da TAG aumentou de 23 para 32 desde o final do ano passado.

Maior concorrência - “O segmento de FoFs cresceu nos últimos anos mas esse é um mercado que também ficou mais concorrido”, observa o sócio e responsável pelo RI da Icatu Vanguarda, Bruno Horovitz. A casa tem R$ 3,9 bilhões em FoFs, ou 10% do total sob gestão, e a maioria deles é de multimercados. A maior pulverização em número de gestores acontece nos FoFs multimercados e nos de renda variável, mas ao todo há mais de 40 gestores aprovados para entrarem nas carteiras.
À medida que os fundos de pensão têm procurado reduzir cada vez mais os seus custos por meio da delegação de decisões, o mercado viu crescer a demanda mas também a oferta desses veículos. Por conta disso, o processo de seleção de gestores dos FoFs ficou mais rigoroso e, além do fator rentabilidade, há demanda cada vez maior pelos serviços prestados. “Temos mantido a área de atendimento comercial muito próxima do cliente, com o envio de relatórios e todos os serviços de adequação à legislação. Ao todo são sete pessoas na equipe de relacionamento com as fundações”, conta Horovitz. O fator principal é garantir atendimento rápido, com todos os enquadramentos, relatórios e conteúdos mensais.
O ano tem sido difícil para a indústria de FoFs, diz Patrícia Mello, analista da Icatu Vanguarda. “Os FoFs multimercados já estão no seu segundo ano bastante desafiador, por uma questão de cenários”, afirma. A abertura dos juros não favoreceu o risco e este ano, para agravar a situação, aconteceram os eventos de crédito no primeiro trimestre. A perspectiva é de que a migração para a renda fixa comece a ser revertida em algum momento, que ainda não chegou. “Os nossos portfólios hoje estão mais alocados em juro real na parte mais curta, para capturar o benefício da proteção contra a inflação”, afirma Mello.
Na classe de multimercados como um todo, aumentaram este ano as dificuldades para bater o CDI, feito que tem sido obtido por pouquíssimos multimercados estruturados. “Na categoria dos fundos de alocação, porém, a performance tem sido melhor se comparada à dos multimercados normais”, diz Mello. “Os fundos de alocação estão um pouco melhor porque estressam mais suas convicções e sempre têm um posicionamento, a depender do perfil de risco do cliente”, explica.
O ano de 2024, avalia Mello, tende a começar ainda muito conservador sob o ponto de vista dos investimentos, mas a perspectiva de queda do juro já abre oportunidades em outras classes além da renda fixa. No exterior, houve no final de outubro uma certa sinalização de melhora do lado do Fed, o que dá algum conforto para os emergentes. “Se o Fed ficar parado, sem novos aumentos de taxas, já ajudará bastante”, diz.

Processo organizado - Com R$ 200 milhões em FoFs exclusivos dedicados em multimercados, ou 12% do total de sua área de ativos líquidos, que soma R$ 1,7 bilhão, a RBR Asset Management, gestora especializada em ativos imobiliários e de infraestrutura, vê todas as condições para que esse mercado continua a crescer junto às fundações, diz Bruno Nardo, sócio e portfolio manager da área de ativos líquidos/multiestratégia.
O volume de FoFs representa pouco mais de 2% do AUM total da casa, de R$ 8 bilhões, e tende a crescer fazendo um blend de estratégias de curto, médio e longo prazo.
“O aumento da terceirização dos investimentos dos fundos de pensão aponta para uma expansão da área de FoFs porque eles não vão montar times internos e também porque os resultados dessas estratégias têm ajudado”, afirma. Algumas fundações dividem esse cheque entre um, dois ou três gestores e olham a sua performance ao longo do tempo para garimpar estratégias e ajustar portfólios ao longo do tempo. “Mas o mercado mostra que cada vez mais há gestores grandes indo na mesma direção”, diz Nardo.
A asset debutou em FoFs de fundações há três anos e meio. De lá para cá, as entidades têm migrado para esse universo porque ele já está bem estruturado, observa o gestor. “O modelo de seleção está bem evoluído, com um escrutínio forte dos gestores e detalhamento dos processos de investimentos”, acredita.