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Exterior é a bola da vez
Com a perspectiva de queda da taxa de juros, os fundos de pensão retomam as análises dos processos de investimentos no exterior

Edição 363

Com apenas 1,2% de seus ativos totais investidos em exterior (alocação restrita aos planos com massas de Contribuição Definida), a Funcef compreende os mercados globais como alternativa de diversificação do seu portfólio de investimentos, diz Alenir Romanello, diretora de investimentos da fundação. “Essa classe ainda é nova para nós, a decisão foi tomada em abril de 2023, com foco na diversificação, mas a alocação foi feita em três tranches nos meses de julho, agosto e setembro”, explica.
Ela lembra que o formato do segmento global foi estruturado durante mais de um ano antes do início dos investimentos. “É uma classe nova e há uma curva de aprendizado e de desenvolvimento. Por enquanto não há perspectiva de aumento do percentual”, afirma Romanello.
A relevância das estratégias está no fato de promoverem um hedge natural, por meio da descorrelação com os ativos cambiais. “O investimento é 100% terceirizado, feito pela área de soluções de investimentos de quatro grandes gestores globais, com mandatos discricionários em renda variável e em renda fixa. São eles que escolhem, portanto, as classes e o timing de cada alocação nos diversos mercados ao redor do mundo”, observa Romanello.
As principais geografias investidas são as dos EUA, Japão, Reino Unido e China, com destaque para ativos de setores como os de tecnologia, serviços financeiros e indústria. “Essas quatro geografias devem continuar no foco este ano. No momento essa diversificação é suficiente mas acompanhamos de perto os mercados”, diz.
Na política de investimentos da Funcef para o período de 2024/2028 há espaço para aumentar o percentual investido lá fora, mas essa avaliação será feita ao longo deste ano pelos órgãos de governança – comitê, conselho e diretoria da entidade. “O resultado até agora tem sido positivo e superior às nossas metas, mas ainda é muito cedo para avaliar porque começamos apenas em julho do ano passado”, diz.
O exterior foi relevante para a performance positiva da carteira total da entidade, que pela primeira vez em cinco anos obteve rentabilidade superior à meta em todos os seus planos, no consolidado. “A parcela global contribuiu para isso, em que pese terem sido apenas alguns meses e o retorno ter ficado concentrado quase inteiramente nos três últimos meses do ano”, avalia Romanello.
A boa rentabilidade obtida até agora deve contribuir para derrubar o preconceito contra a diversificação internacional entre os públicos da fundação. “Temos que prestar contas a todos, o tempo todo, com informações precisas e fidedignas, mas nem todos compreendem a importância da diversificação mesmo em tempos de juros elevados”, diz. Então, um bom resultado ajuda nesse sentido”.

Renda variável passiva - A parcela de exterior contribuiu favoravelmente para o desempenho da carteira de investimentos da Valia no final do ano passado, conta Maurício Wanderley, diretor de investimentos da fundação. “Temos um percentual de investimento internacional próximo de 9% dos ativos, muito perto do limite legal, porque consideramos que é uma excelente opção, tanto pela diversificação como pela alternativa de hedge que ela oferece”, diz.
O investimento da entidade nos mercados globais, que somava R$ 328 milhões em dezembro de 2023, apresentou retorno de 12,88% no ano. “Apesar da alta volatilidade nos EUA, a nossa alocação internacional fechou bem o ano e segue bem em 2024 diante da perspectiva de redução do juro pelo Fed”, observa.
A carteira aplica apenas em renda variável, com benchmark no índice MSCI World, e predominam os ativos dos EUA, que respondem por 60% do total. “Todos os perfis de investimento têm exterior, sempre dentro do limite legal. Em algum momento, será importante aumentar esse limite”, acredita Wanderley.
Por enquanto, a alocação está concentrada em estratégias de gestão passiva, com ETFs (fundos de índices) de MSCI World e também um fundo referenciado nesse indicador. “É um benchmark amplo, global, e a perspectiva da política monetária dos EUA está mais tranquila, o que é um fator positivo para o mercado”, diz.

Proteção e retorno combinados - A descorrelação e o papel complementar que o exterior representa em relação às demais partes do portfólio estão na base da estratégia da Fundação Copel para esse segmento, diz José Carlos Lakoski, diretor financeiro da entidade. “Começamos a investir em mercados globais há pouco mais de dois anos e temos hoje uma alocação de aproximadamente R$ 200 milhões nessa modalidade, ou 1,5% dos ativos totais da fundação, que somam R$ 14 bilhões”, informa.
O investimento internacional está restrito às massas de Contribuição Definida (CD) dos planos, que representam ativos de R$ 2,8 bilhões, incluindo a parte CD do plano de Contribuição Variável e também o plano família da entidade. O objetivo é melhorar o resultado das carteiras e o exterior tem contribuído para uma melhor relação risco/retorno.
Depois de um ano difícil para os mercados em 2022, a rentabilidade obtida pela alocação internacional da fundação em 2023 foi positivo, com retorno de 8,5%. “Ainda está longe do ideal, mas olhamos para essas estratégias como um dos componentes do nosso portfólio”, diz Lakoski.
O investimento é feito por meio de três estratégias conduzidas por diferentes gestores: a primeira delas é mais sistemática, voltada à proteção do portfólio e com paridade de riscos. Na segunda, a descorrelação é o elemento mais forte, com alocação em equities por meio de fundos total return. Há ainda uma estratégia de renda fixa tradicional, mais conservadora, que aplica no mercado de bonds.
O ano de 2024 será importante para essa classe e também será o terceiro ano de experiência da fundação com exterior, mas será também um período de monitoramento, sem grandes aportes. “Vamos estudar se faz sentido incluir o exterior nas carteiras dos planos de Benefício Definido (BD), um deles com superávit expressivo e bem estável, mas isso seria feito possivelmente a partir de 2025, depois de uma análise bem cuidadosa e em pequeno percentual”, conta.
Em relação ao cenário, os sinais externos ainda têm incógnitas quanto aos EUA, diz Lakoski, mas o cenário está um pouco melhor na comparação com 2023.
Por enquanto a intenção é manter o atual percentual de alocação, sem aumentar a exposição. “Mas também não vamos sair da classe internacional. A política de investimentos este ano não prevê qualquer cavalo de pau porque o nosso principal foco é o ajuste ao processo de demissão voluntária (PDV) da patrocinadora Copel, por conta de sua privatização”, afirma.
Os ajustes nas diversas classes investidas, se ocorrerem, serão marginais e feitos apenas para equacionar o eventual desenquadramento das carteiras. “O foco da política de investimentos é fazer os movimentos de resgate de forma assertiva, antecipando o que irá acontecer nas parcelas BD e CD por conta do PDV, mas esse será um movimento estrutural do plano”, assegura.

Perfis demandam novos limites - A alocação em exterior da Value Prev começou em 2014 e desde então nunca saiu totalmente do radar, informa João Carlos Ferreira, diretor financeiro e AETQ da entidade. Embora hoje a alocação esteja baixa e represente 2,5% dos ativos totais - são 2% na renda fixa, com fundos de investimento hedgeados, e 0,5% na renda variável, que usa fundos não hedgeados - , a intenção é ampliar esse investimento em 2024.
“De 2014 para cá, em alguns anos essa carteira agregou bastante em termos de rentabilidade, como aconteceu em 2023, quando o retorno ficou entre 17% e 18%”, conta Ferreira. Mas os percentuais de alocação variam bastante de acordo com os perfis de investimento, indo de 2% a 5,5% dos seus ativos”, explica.
Diante da queda projetada de juros lá fora, a expectativa é positiva para a renda fixa em 2024, mas ao mesmo tempo a entidade começa a fazer uma transição gradual ao longo do ano para ter também um pouco mais de exposição à renda variável.
“Queremos ampliar a alocação em exterior como um todo. Nosso apetite é o limite legal ou mais, então seria importante que houvesse um aumento desse limite, principalmente para as entidades que têm perfis, porque a exposição global tem correlação negativa com o restante da carteira, é uma proteção”, afirma.
A alocação é feita por meio de três casas gestoras, mas esse número deve crescer para quatro à medida que a exposição aos mercados internacionais crescer.
Ferreira, que é também vice-presidente da regional Sudoeste da Abrapp, considera que a ampliação do atual teto de 10% para 20% seria uma medida positiva. “O interesse das entidades fechadas de previdência complementar pelo exterior ainda parece pequeno – o volume, na média, fica em torno de 1% em todo o sistema – mas esse não é o olhar correto para a questão”, afirma.
Ele considera necessário que, já a curto prazo, haja uma majoração ao menos dos perfis de investimento para que eles possam extrapolar os 10%. “Mesmo que o limite do plano não seja alterado, os perfis reais, ou seja, aqueles que estão devidamente segregados e bem estruturados, com custódia, seriam autorizados a investir mais”, diz “Não faz sentido ter o mesmo limite para todos”.
A reivindicação já foi apresentada à Previc pela Abrapp e aguarda uma resposta. “A gestão anterior da autarquia deixou claro que os limites valeriam também para os perfis mas hoje a Previc ouve mais o mercado e esperamos que esse entendimento seja esclarecido”, acredita.

Ano para crescer - Depois de reduzir sua alocação no exterior no início de 2023, movimento que foi considerado acertado diante da alta volatilidade registrada ao longo do ano, a BB Previdência, fundo de pensão multipatrocinado do conglomerado Banco do Brasil, prepara-se para elevar essa alocação em 2024. De acordo com Ginne Siqueira Diniz, superintendente de investimentos da entidade, a intenção é chegar perto do limite legal de 10% este ano.
“Alocamos em exterior desde junho de 2020 e gostamos bastante dessa opção, mas decidimos reduzir um pouco no início do ano passado e hoje essa parcela representa 2% dos ativos. Caminhamos, entretanto, para chegar perto do limite legal porque nosso objetivo de alocação é de 9% e devemos chegar a isso este ano”, conta. A entidade mantém três fundos de renda variável de três diferentes gestores, com benchmark em MSCI World, sendo um deles com hedge e os outros dois não hedgeados.
“O ano de 2022 foi o pior para investimentos globais e 2023 foi bom apenas nos últimos meses do ano. A rentabilidade dessa carteira no ano passado bateu a nossa meta mas ficou abaixo dos retornos de outros investimentos”, avalia Diniz.
Em 2024, a queda dos juros abre oportunidades na renda variável tanto no mercado local quanto lá fora, observa Diniz. A perspectiva é de menor volatilidade este ano, graças à trajetória da inflação rumo à estabilidade, o que favorece a renda variável. Na fundação, a renda variável local representa 8% dos ativos totais, frente aos 2% da renda variável global. “Na carteira local nosso objetivo é elevar esse percentual até 10%”, afirma.
Com R$ 8,4 bilhões em ativos totais e 42 planos administrados, a BB Previdência registrou rentabilidade consolidada de 14,79% na carteira de exterior até dezembro passado, bem acima da meta atuarial de 7,96%. “Mas o limite legal de 10% para alocação global por enquanto é suficiente para nós, observa Diniz.

Redução estratégica - A exposição ao exterior na carteira da Fapes, que havia chegado em anos anteriores ao limite legal de 10%, foi reduzida para 6% em 2023 e recuou para 4% este ano. “Estamos com um percentual internacional menor em 2024, mas é preciso considerar que o nosso ponto de partida era substancialmente maior do que a média desse mercado. Isso mostra que continuamos com uma visão positiva desse investimento”, diz Leonardo Mandelblatt, diretor de investimentos da entidade.
A redução foi feita para que a fundação possa explorar a janela inequívoca de oportunidade que surgiu para ampliar sua carteira de títulos públicos, ativos mais aderentes ao seu passivo. “Em 2022 já havíamos feito uma mudança de estratégia porque o mandato anterior era muito abrangente. No ano passado circunscrevemos ainda mais o mandato a equities, com benchmark em S&P, e a renda fixa global. Ao mesmo tempo excluímos a exposição via derivativos”, afirma. Os mandatos são discricionários mas a entidade assegurou sua liberdade para fazer eventuais mudanças de alocação.
A fundação manteve, contudo, os parceiros de gestão – Schroders, Franklin Templeton e Aberdeen. São gestores que, além do grande porte, prestam atendimento quase “de butique de investimentos”. É importante ter acesso a times globais que fazem análises de mercado, diz Mandelblatt, e a intenção é manter o relacionamento com esses gestores e com outras eventuais casas.
“Sabemos que o ciclo de juros altos é temporário e, passado o horizonte de 2024, pretendemos voltar a ampliar essa alocação. A classe é pertinente e oportuna para a fundação e nos permite incluir no portfólio diferentes geografias, afetadas por diferente fatores”, afirma.

Diversidade melhora risco/retorno - No Postalis, a carteira de investimentos no exterior representa em torno de 3% dos recursos garantidores dos planos e está alocada em fundos de fundos de investimentos (FoFs) administrados por gestores especializados no mercado de ações internacional, segundo informa Carlos Alberto Zachert, diretor de investimentos e AETQ.
“Esse tipo de ativo faz muito sentido na carteira de investimentos das EFPC porque apresenta o especial atributo de descorrelação (correlação baixa ou negativa) dos papéis do exterior em relação aos papeis domésticos, Com isso, proporciona maior eficiência na otimização da relação risco/retorno”, enfatiza.
Há também a vantagem da maior quantidade e diversidade de ativos negociados nos mercados financeiro e de capitais lá fora. “Podemos encontrar papéis de empresas dos setores de inteligência artificial (IA) e de tecnologia, quase inexistentes na bolsa brasileira”observa.
Em 2023, a carteira internacional teve rentabilidade acima da meta atuarial da entidade, embora tenha ficado abaixo do S&P 500, um referencial de mercado importante nos EUA. “Além desse fator, o cenário internacional ainda está incerto sobre o comportamento futuro da economia e da taxa de juros americana e, ainda, da evolução e consequências dos conflitos geopolíticos internacionais, o que nos levou a manter o percentual aplicado no exterior”, afirma Zachert. A intenção é aguardar até que haja perspectivas mais claras antes de definir o melhor posicionamento da entidade nesse segmento.
A visão de cenário adotada pelo Postalis aponta uma redução da Selic para algo próximo a 9% no final deste ano, movimento cujo maior impacto deverá ser sentido na performance nos ativos de renda fixa, em especial, os títulos públicos federais. O que levará também a uma maior propensão a novos investimentos pelas empresas com a redução do custo de alavancagem. “Isso tende a resultar em crescimento e oportunidades na renda variável, a depender também do comportamento dos juros nos USA, e dos ativos alternativos aos títulos públicos”, afirma.