Mainnav

De olho nos mercados externos
Alocações dos institutos em fundos de investimento no exterior cresceram 20 vezes entre 2018 e janeiro último, para R$ 824 milhões, e seguem em alta

Investimentos no exterior estão em alta nos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), que desde o fim de 2018 estão autorizados a alocar nesse segmento. Dados da Secretaria de Previdência (SPrev) mostram que o volume total alocado pelos RPPSs em fundos lastreados em ativos estrangeiros se multiplicou por 20 entre dezembro de 2018 e janeiro deste ano, para R$ 824 milhões. A modalidade, adotada por 95 entidades, respondia no primeiro mês deste ano por 0,45% do volume total de recursos do sistema, índice bem abaixo do teto de 10% estabelecido pela Resolução 4.695 que regula os investimentos do setor. Mas já há, apesar disso, planos para elevar esse limite e fazem parte das propostas elaboradas por um grupo de trabalho coordenado pela SPrev em 2019, que foi colocado em audiência pública entre abril e maio deste ano.
“Recebemos mais de 200 sugestões da sociedade na audiência, em grande parte defendendo a elevação do limite de investimentos no exterior. Nossa intenção é apresentar ao CMN uma minuta, com várias propostas de alterações nas regras de aplicação de recursos dos RPPSs, no início do segundo semestre”, comenta Allex Albert Rodrigues, titular da Subsecretaria dos RPPSs da SPrev. “Embora ainda seja reduzida, a exposição do sistema a ativos externos vem crescendo e ganhando relevância, como estratégia de diversificação, devido à crise causada pela Covid-19.”
Formado por regimes próprios certificados pelo programa Pró-Gestão RPPS, um grupo de cinco institutos estão próximos ou até já atingiram o teto de 10%, segundo a SPrev. O Iprejun, de Jundiaí (SP), é um exemplo extremo: a entidade iniciou as aplicações em fundos ancorados em ativos no exterior em maio do ano passado, na proporção de R$ 30 milhões por mês, e teve de interromper as alocações em novembro quando atingiu a marca limite de R$ 180 milhões.

“Aplicamos em fundos multimercados, de BDRs e de renda variável pura, com e sem mecanismos de hedge, conduzidos por seis gestores”, informa o diretor-presidente João Carlos Figueiredo, que também comanda a Associação Brasileira de Instituições de Previdência Estaduais e Municipais (Abipem). “A carteira externa sofreu, claro, os efeitos da pandemia do novo coronavírus, mas recuperou a rentabilidade já no fim de março, bem antes da reação dos ativos no mercado local.”
Como titular da Abipem, o executivo participou, ao longo do último ano, do grupo de trabalho encarregado pela SPrev de apresentar ideias para a reformulação das diretrizes de investimentos dos regimes próprios. Com relação às aplicações além-fronteiras, ele sugeriu um limite três vezes superior ao estabelecido pela Resolução 4.695. “Acredito que 30% é um teto razoável para os padrões internacionais, embora os grandes investidores institucionais dos Estados Unidos e da Europa apliquem recursos em proporções bem maiores no exterior”, assinala Figueiredo.
Seguindo o exemplo do Iprejun, o capixaba Ipamv, de Vitória, e o Ipreville, de Joinville (SC), realizaram as suas investidas iniciais em fundos externos nos últimos meses. O Ipamv fez sua estreia no segundo semestre de 2019 com um aporte de R$ 4,18 milhões no FIA Institucional Nível I, da Caixa, o equivalente a 0,59% do portfólio da casa. “Temos planos de aumentar a exposição no mercado externo, que vem garantindo boas taxas de retorno”, diz a diretora administrativa e financeira Jocarla Vittorazzi Laquini Campanha. “Já estamos, inclusive, avaliando uma segunda alocação em um fundo recentemente lançado pela Caixa.”
Já o Ipreville adquiriu cotas no valor de R$ 5 milhões, há poucas semanas, de um fundo da Western Asset. Foi o primeiro passo para o cumprimento da meta, estabelecida pela política de investimentos do exercício em curso, de alocação de 2% dos ativos totais em fundos externos, o equivalente a cerca de R$ 55 milhões. “A tendência para os próximos anos é de crescimento da exposição em ativos no exterior e em renda variável no mercado local, devido à acentuada queda da taxa Selic”, observa o diretor-presidente Sérgio Luiz Miers, que também defende a elevação do teto para aplicações dos regimes próprios no exterior. “Um limite entre 15% a 20% das reservas estaria de bom tamanho para os RPPSs com certificações nos níveis 3 e 4 do Pró-Gestão”, avalia.

Atentas ao crescimento da demanda, as gestoras vêm se mexendo. Como observa Figueiredo, da Abipem, o total de fundos externos voltados aos regimes próprios saltou de uma dezena para cerca de quatro dezenas desde a edição da Resolução 4.695 e segue com viés de alta. A Schroders, por exemplo, planeja a apresentação, nos próximos 30 dias, de uma novidade no gênero sob medida para RPPSs, ancorada em um produto pilotado pela sua matriz, em Londres. “O fundo segue os critérios ASG, ou seja, só conta com ações de empresas que adotam elevados padrões ambientais, sociais e de governança”, diz o diretor comercial Fernando Cortez. “A carteira oscila entre 30 e 50 papéis em um universo de mais de duas mil companhias de 11 países, inclusive de setores com presenças inexpressivas na bolsa de valores brasileira, como cuidados com a saúde e tecnologias de ponta.”
A tarefa de apresentar o conceito ASG a um público de perfil conservador, como os RPPSs, será facilitada, acredita o executivo, pelos indicadores de desempenho do fundo. Sua rentabilidade medida em dólares tem batido o índice MSCI ACWI, que reflete o comportamento de 47 mercados internacionais nos últimos 36 meses, 12 meses e cinco meses de 2020. Nesses períodos renderam em dólar, respectivamente, 6,7%, 9,1% e 5%. “Pretendemos captar com o novo fundo algo entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões em 12 meses. É uma meta viável, considerando que menos da metade dos cerca de 240 RPPSs em condições de diversificar aplicações no exterior lançam mão dessa prerrogativa”, observa Cortez.
Segundo maior gestor de recursos de regimes próprios, atrás da Caixa, a BB DTVM vem apostando no segmento. No segundo trimestre, a controlada do Banco do Brasil passou a realizar videoconferências para grupos de dirigentes de RPPSs de diversos estados, em média a cada 15 dias, além de reuniões online em petit comité para apresentar a sua grade de produtos. “Somadas, ambas as iniciativas já envolveram mais de 260 institutos de previdência e renderam reforços na captação de R$ 457 milhões”, conta a gerente executiva comercial Renata Cypreste.
Os fundos externos, claro, também foram beneficiados por esse esforço de vendas, executado em parceria com a diretoria de governo do Banco do Brasil. Tanto é que a captação desses veículos somou cerca de R$ 220 milhões entre janeiro e maio. Animada, a maior gestora do país, com mais de R$ 1 trilhão de ativos sob seus cuidados, pensa em trazer novidades a esse segmento. “Temos 11 produtos com boa capacidade para atender o aumento da demanda e contamos com parceiros internacionais que têm condições de fornecer, rapidamente, novas opções na área”, diz Renata.