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Fundações em estado de alerta
Atual momento econômico do país teve impacto direto nos resultados das instituições no primeiro quadrimestre de 2024

Edição 367

Cafaro,Emilio(Forluz) 20go 01O cenário econômico de instabilidade que o País atravessa nesses primeiros meses do ano está tendo repercussões negativas nos resultados dos fundos de previdência fechada. Em abril, especialmente, boa parte das entidades estão tendo dificuldades para bater suas metas atuariais.
A Forluz, fundo de pensão dos funcionários da Cemig, por exemplo, fechou abril com rentabilidade de 0,42% em seu plano A, de Benefício Definido (BD), contra 0,83% da meta atuarial. Nos planos B e Taesaprev, ambos de Contribuição Definida (CD), os números foram ainda piores: 0,12% e -0,62%, respectivamente.
“Abril foi o pior mês, mas desde o começo do ano a gente está com certa dificuldade. Finalizamos 2023 com dois meses espetaculares, novembro e dezembro, e chegamos em janeiro com otimismo em relação ao ciclo de corte de juros dos Estados Unidos”, explica o diretor de investimentos e controle da Forluz, Emílio Cáfaro. “Mas logo no primeiro mês de 2024 as carteiras começaram a registrar perdas. E, depois, o cenário foi se deteriorando”.
De fato, abril se destacou como o pior momento de um período de cinco meses com rentabilidade sofríveis para os fundos, fruto da combinação de incertezas externas e internas. Do lado externo temos a relutância do Fed, o Banco Central dos Estados Unidos, em iniciar os cortes das taxas de juros daquele país, que impactaram diretamente o ritmo dos cortes da Selic pelo Copom, aqui no Brasil.
“Havia grande expectativa de que o Fed começaria o ciclo de cortes na taxa de juro deles em março. Havia um consenso de mercado, que resultou em fluxo de recursos para a bolsa, que subiu bastante. À medida que a redução do juro americano não ocorreu, que as expectativas foram sendo frustradas, a bolsa foi devolvendo os resultados”, explica o vice-presidente titular da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), João Carlos Ferreira.
O cenário fez com que o rendimento dos investimentos em renda variável despencasse, puxando para baixo os resultados dos fundos nos meses anteriores. Com a redução, inicialmente, e a suspensão a partir de junho dos cortes da Selic, as entidades voltaram-se para uma política de imunização de suas carteiras, ampliando a participação de títulos públicos indexados à inflação.
“A tendência é de que os próximos resultados melhorem um pouco, porque o fluxo de movimentação para renda variável já diminuiu bem. Isso significa que muitos fundos já fizeram ajustes em suas carteiras. E deixando em ativos com mais liquidez e menos riscos até o fim do ano, a gente consegue de alguma forma melhorar a rentabilidade”, aponta o diretor da Associação dos Fundos de Pensão e Patrocinadores do Setor Privado (Apep), Antônio D’Aguiar.

Movimentações na carteira - As movimentações em direção a investimentos de renda fixa são unânimes entre as fundações. Afinal, com as altas taxas de juros no país, boa parte dos títulos públicos está rendendo bem acima do IPCA, o que, em muitos casos, é suficiente para superar a meta atuarial.
Mas é consenso entre os especialistas que os títulos públicos não podem ser o único caminho para os fundos. “É um investimento seguro e está entregando resultado para as fundações. Mas não dá para ficar eternamente em renda fixa, em algum momento os gestores das fundações vão ter que tirar a cabeça para fora da toca, saindo da renda fixa e indo para ativos de maior risco”, afirma Ferreira.
A Bolsa, nessa avaliação, aparece como uma opção atraente por conta de seus preços historicamente baixos no momento. O que impede um aporte maior no segmento, porém, é justamente as incertezas que cercam os investimentos de renda variável.
“Conversei com um economista de uma asset que disse: ‘A gente entende que a Bolsa está bem barata, realmente está, mas não temos convicção para entrar’. Então, estão em posição neutra, esperando para ver o que acontece”, afirma o dirigente da Abrapp. “Mesmo profissionais que comem, bebem e dormem economia o dia inteiro não tem convicção sobre o que vai acontecer”.
“Mas não é só a Bolsa que está sofrendo. Ao olhar a captação líquida dos fundos de investimentos em 2024, a gente vê que multimercados tiveram captação negativa de R$ 49,244 bilhões no ano e de menos R$ 181 bilhões nos últimos 12 meses. Ou seja, não são só os fundos de renda variável que estão sofrendo, os multimercados também”, analisa D’Aguiar.
Apesar do momento ruim, ninguém parece disposto a abrir mão das posições em bolsa. Primeiro, para não registrar perdas mesmo em época de preços tão baixos. Segundo, pela confiança de que assim que os cortes nos juros norte-americanos acontecerem, e consequentemente a Selic acelerar sua redução, estes ativos serão recompensados.
“Mesmo não aumentando o nosso risco, já temos uma carteira muito robusta de renda variável. Comparado com vários planos no mercado, podemos falar que a carteira da Forluz é relativamente alta em renda variável. Então, em um eventual bom momento futuro da Bolsa, a gente vai conseguir surfar, porque nossa carteira já é robusta, tem peso adequado nos nossos planos”, garante o gerente de renda variável e macroalocação da Forluz, João Paulo Scapolatempore.

Futuro de incertezas - Enquanto buscam minimizar os efeitos corrosivos em suas rentabilidades de um primeiro quadrimestre ruim, especialmente do mês de abril, os gestores de EFPCs mantêm cautela ao olhar o cenário. Afinal, esta não é a primeira vez que enfrentam um período desafiador. E eles próprios consideram que o recorte temporal é muito curto para que haja desespero.
“Eu acho que quando a gente fala de investidor institucional, de fundo de pensão especialmente, um período de tempo tão curto não é suficiente para a gente tirar conclusões”, considera Ferreira. “E nesses momentos de baixa, acontecem as oportunidades de investimento. A gente procura olhar para esse momento como oportunidade de investir, e não de desinvestir.”
Apesar da declaração moderada, os especialistas ficam reticentes ao comentar sobre o futuro do mercado. Eles consideram que não há nenhum tipo de indício de que o pior momento já passou. Ao contrário, acreditam que a situação possa se agravar, a depender dos próximos passos da economia norte-americana.
“A sensação que o investidor tem hoje, dada a expectativa de que o Fed baixe os juros em setembro, é de que o pior já passou e que os ativos de risco vão começar a andar. Mas em novembro e dezembro aconteceu exatamente a mesma coisa. Todo mundo estava com a sensação de que o Fed ia baixar os juros em março, que ia dar três ou quatro quedas para chegar a 3,5% no fim de 2024. Mas não foi o que aconteceu e veio a frustração desse primeiro quadrimestre”, analisa o dirigente da Abrapp.
Cáfaro vai além e aponta que mesmo em caso de redução dos juros nos Estados Unidos, o déficit fiscal brasileiro pode prolongar o atual cenário.
“O nível de incerteza é muito alto. Pode ser que o cenário melhore, o exterior ajude, mas pode ser que piore. A gente não tem certeza alguma, não tem como prever. Na hora em que começarem a cair os juros lá fora, provavelmente haverá recuperação maior aqui no curto prazo. Mas ainda vai restar um problema fiscal que precisa ser resolvido internamente. E a cada dia, a cada notícia, a dificuldade de cunho fiscal está aumentando. Então, pode ser que quando a situação melhorar lá fora o risco fiscal tenha aumentado tanto internamente que vai impedir a recuperação.”
Em meio a tantas variáveis, a palavra de ordem é resiliência. “Nesse momento, o que digo para o gestor de fundos de pensão é que precisamos ter muita paciência. Não é a primeira vez que passamos por isso. Muitos gestores vivenciaram situações de mercado difícil, taxas baixas, mas entendemos que nossos portfólios estão adequados com nossas metas de médio e longo prazo. E, com isso, precisamos esperar um pouco para atingir os números”, comenta D’Aguiar, da Apep.