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Novos prestadores buscam espaço
BNY Mellon lidera o ranking dos independentes, mas novos prestadores começam a surgir e podem ameaçar o domínio de décadas

Edição 337

Na liderança dos custodiantes independentes no Brasil, o BNY Mellon usou a tecnologia para garantir a capacidade de adaptação, manter o fluxo de informações e suportar um crescimento significativo a despeito da pandemia e do trabalho remoto. “Felizmente temos a tecnologia ao nosso favor e tivemos grandes ganhos sem precisar aumentar o time, com alta de 32% no volume de ativos sob custódia no período de maio de 2020 a maio de 2021”, diz o head de operações do banco no Brasil, Peterson Paz. Os ativos sob custódia somavam R$ 586 bilhões em maio de 2020, com 2.671 fundos/carteiras, e passaram a R$ 776 bilhões e 2.882 fundos/carteiras em maio deste ano. As operações de custódia para fundos no exterior atingiam o montante de R$ 28 bilhões até abril.
“Nosso desempenho está vinculado ao dinamismo do mercado nesse período e ao volume de operações em liquidação, que cresceu entre 60% e 90% ano contra ano, bem acima do crescimento do volume de ativos. Esse movimento aconteceu em todos os mercados, seja na liquidação da Selic ou na B3 (Cetip)”, explica Paz.
Um dos fatores que ajudaram a aumentar a eficiência da casa foi a estratégia de manter times específicos para atender segmentos específicos, sempre em trabalho remoto. O banco também deu sequência este ano ao projeto que já estava sendo preparado em 2020 para desplugar a custódia da administração e inaugurou em junho a primeira parceria nesse sentido, tendo a XP como administradora. “ Estamos migrando a custódia para uma arquitetura aberta, que começa com a XP para depois agregar mais parceiros administradores”, conta Paz.
Até então, o BNY Mellon fazia a custódia dos fundos que também administrava mas a decisão foi por ficar exclusivamente com os serviços de custódia, uma transformação que continuará a ser feita em ritmo gradual em 2021 para ganhar velocidade a partir de 2022. A estréia do novo modelo por enquanto está restrita a dois fundos administrados pela XP, mas a intenção é avançar com esse processo nos próximos meses. “Começamos agora com esses dois fundos e o volume ainda é baixo, é um serviço prestado para novo cliente. A mudança será gradual, planejada, e a expectativa é de que ela acelere o crescimento do nosso negócio de custódia ao agregar ativos sob custódia provenientes de outros administradores”, detalha Paz.
A intenção é oferecer esse serviço para gestores que tenham fundos administrados por outras casas e que terão a opção de fazer a custódia com o BNY Mellon. Desse modo, a expansão do banco nessa área estará ligada à expansão de outros gestores que buscam mais alternativas de diversificação.

Serviços personalizados e mais qualificados em informação, relatórios de operações estruturados e vários sistemas mais modernos, especialmente em controles de carteiras e volumetria para os FIDCs são algumas das demandas que se tornaram vitais no mercado de custódia de ativos, enfatiza o presidente da Oliveira Trust, José Alexandre de Freitas. Terceira maior posição entre as independentes em abril, a casa espera bater este ano todas as suas metas de crescimento para acompanhar as demandas do mercado e prepara sua entrada no segmento de custódia para investidores finais, com atenção particular às entidades fechadas de previdência complementar.
O aprimoramento tecnológico nos serviços para fundos FIIs e FIPs, assim como a qualidade da informação para gestores e administradores, estão na lista das prioridades. “A natureza dos ativos mudou nos FIDCs com o crescimento dos cartões de crédito e meios de pagamento, exigindo investimentos pesados em tecnologia”, explica Freitas. Já nos FIIs e FIPs, embora não tenha mudado a natureza, aumentou a demanda por relatórios mais completos e pela melhora da informação, o que também exigiu mais tecnologia.
Em 2020, embora o volume de operações com FIDCs tenha caído, as posições na custódia foram mantidas, explica Freitas. “Foi um ano de desafio interessante para testar a resiliência dos prestadores de serviços, com carteiras estressando e operações com baixa liquidez. Em 2021 o volume está alto e aumentou a demanda pela sofisticação dos serviços, que ganharam outra natureza”. Ele explica que essa transformação do mercado de recebíveis tem sido radical. Até há algum tempo, só havia a Cielo antecipando recebíveis das lojas que usavam suas máquinas, mas agora todos podem comprar recebíveis do comércio contra a Cielo, o que significa que o número de intermediários e de operações foi mutiplicado, os recebíveis estão nas mãos de muito mais gente e o volume transacionado aumentou muito.
Essa é a grande novidade do mercado de recebíveis em 2021 e o maior desafio virá em agosto, quando haverá a multiplicação quase em progressão geométrica das cessões das carteiras dos veículos em estruturação, por meio de plataformas e balcões de negociação. “A tendência é de dobrar o número de veículos que compram e operam direitos creditórios de meios de pagamentos. Em dois ou três anos isso pode significar que haverá cinco ou seis vezes mais fundos no mercado”, observa Freitas.
A Oliveira Trust, que prepara sua entrada no segmento de custódia para investidores finais, está definindo as estratégias para conquistar uma parte dos recursos de fundos de pensão. Esse movimento representará uma mudança forte não só em relação a custos mas na personalização da informação, tecnologia e qualificação dos profissionais. “Será uma mudança relevante que implementaremos a partir de meados de 2022, estamos apostando nisso e já fizemos investimentos de R$ 3 a R$ 5 milhões em tecnologia para melhorar a informação e a velocidade”, diz Freitas. “Esse tipo de investimento será recorrente, é fundamental ter uma área de tecnologia dinâmica”.
Segundo o executivo, a meta é alcançar entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões em custódia de ativos para as EFPC no prazo de três a cinco anos. A Oliveira Trust também busca parcerias para atender os serviços no exterior, no âmbito da 4.373.

Dois players relevantes desse mercado - a Modal Administração Fiduciária (MAF), unidade de administração e custódia de fundos alternativos do Banco Modal e a BRL Trust, maior administradora fiduciária independente do Brasil - foram adquiridos entre o final do ano passado e junho deste ano pelo Apex Group, provedor global independente de serviços financeiros sediado nas Bermudas. Com essas transações, ainda pendentes de aprovação final pelo Banco Central, o mercado espera para conferir como ficará a nova configuração na disputa por clientes locais e estrangeiros.
Por enquanto, tanto MAF quanto BRL seguem com suas gestões independentes. “Quando olhamos para o futuro sabemos que haverá integração mas precisamos antes observar todos os processos legais”, diz o novo CEO da MAF no Brasil e coordenador do Apex Group para a América Latina, Ricardo Soares. A expectativa é a de reforçar presença não só no mercado brasileiro mas assegurar uma base para ampliar operações no mercado latino-americano.
No Brasil, a queda dos juros é um importante marco que sinaliza investimentos mais voltados aos segmentos de alternativos e ações, diz Soares. Desde março passado no comando da MAF, ele avalia o desempenho da casa nesse período e informa que houve um ganho de mercado nesses meses em função do crescimento orgânico mas também da entrada de novos clientes. “Fizemos algumas mudanças e reorganizamos o time, que conta com 100 profissionais, na governança e na estrutura, e estamos felizes com os resultados obtidos até agora”.
A saída de grandes bancos desse mercado, alguns anos atrás, abriu espaço para a chegada de novos players no mercado de serviços financeiros por aqui, enfatiza Soares. “Esse é um business de escala e precisa ter volume para assegurar preços e rentabilidade adequados. Com a compra da MAF, especializada em alternativos e com R$ 55 bilhões em ativos, e agora da BRL, que tem um terço do mercado de estruturados, o Apex Group ganhará musculatura na América Latina assim que a transação estiver finalizada”, observa Soares. Além dos alternativos, a BRL tem também fundos líquidos, o que torna as aquisições complementares. A perspectiva é de ganhar mercado de forma relevante, unindo os serviços para estruturados e líquidos, no Brasil e na América Latina.
O leque de serviços será abrangente e, embora os custos para estruturados sejam maiores, Soares lembra que “cada deal é um deal” e nos ativos de private equity, por exemplo, tudo depende do tipo de aquisição já que não se tratam de serviços “de esteira”. São negócios mais caros, diferentes dos fundos 555, e se a escala for bem utilizada, podem garantir rentabilidade interessante. A MAF, diz o executivo, tem um time de advogados organizado em verticais específicas para private equity, fundos imobiliários e FIDCs, o que ajuda a falar sempre a mesma língua do cliente. As regras em debate na CVM para os fundos de investimento, avalia Soares, “podem dar mais equilíbrio às responsabilidades do administrador e do gestor, contribuindo para precificar melhor os riscos. A responsabilidade do custodiante, por sua vez, já está bem estabelecida”.
O Apex Group se posiciona globalmente como fonte única de serviços e tem diversidade suficiente para que seus clientes não precisem buscar outros provedores, com cobertura em 47 diferentes jurisdições, em todos os continentes à exceção da África. “Estamos replicando isso no Brasil para ganhar escala e a diversidade de produtos lá fora significa que já há uma oferta completa off shore”, afirma Soares. Entre os produtos disponíveis dentro dessa gama diversa o grupo aposta por exemplo no ESG rating, plataforma de análise de desempenho nos padrões de sustentabilidade ambiental, social e de governança para companhias e investidores.
“A filosofia começa com o cliente e está centrada em oferecer soluções únicas para eles, compreender suas sensibilidades e demandas assim como as demandas de seus stakeholders”, diz Georges Archibald, diretor administrativo para as Américas do grupo. “Queremos ser capazes de oferecer uma cobertura completa para os clientes e ferramentas para todas as jurisdições, numa combinação de serviços locais e globais”. As transações estratégicas feitas no Brasil permitirão o acesso dos clientes do grupo nos EUA à sua oferta internacional nas Américas. O objetivo é apoiar clientes globais com estruturas no Brasil e ao mesmo tempo conectar os brasileiros aos mercados internacionais. “O fato de sermos uma casa independente (não ligada a bancos) nos dá flexibilidade para manter um relacionamento de longo prazo que dê conforto ao cliente para pedir aquilo de que ele precisa”, afirma Archibald.