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Diferenciais preservam posições
Movimentações das carteiras rumo à renda fixa desde o segundo semestre do ano passado testaram a capacidade tecnológica dos custodiantes

Edição 346

Os movimentos fortes que deslocaram grandes volumes de recursos nos diversos mercados, com desvalorização de ativos e, a partir de julho, migração dos investidores para os fundos de renda fixa, tornaram 2021 e o primeiro trimestre de 2022 um período de alterações no mix de aplicações, com reflexos para os serviços de custódia, controladoria e administração fiduciária. Foi crucial manter a visão de longo prazo e assegurar que as estruturas de serviços fossem ágeis e flexíveis o suficiente para atender as demandas dos diversos segmentos de clientes em meio à alta volatilidade. Ao mesmo tempo, a crescente disputa por market share aprofundou ainda mais a necessidade de formar “parcerias” com os clientes, investir em tecnologia e garantir proximidade com os reguladores de mercado, num esforço diário para preservar números e posições.
Com R$ 2,1 trilhões sob custódia e 22,5% de participação relativa nesse mercado segundo o ranking de março da Anbima, o Bradesco manteve a diretriz de preservar o relacionamento muito próximo com os clientes e sustentou a liderança em 2021, embora sua fatia de mercado tenha recuado frente aos 23,08% que detinha no ano anterior. A instituição aparece em primeiro lugar no ranking em volume total de ativos, com destaque para a custódia de recursos do mercado doméstico, em que somou pouco mais de R$ 1,7 trilhão e participação relativa de 24,6%.
Em 2021, a casa preservou a primeira posição, cumpriu metas e cruzou um marco que considera importante ao atingir R$ 2,1 trilhões em custódia. “O que importa é que isso tem sido feito com prudência, qualidade e transparência, fundamentais para garantir que o crescimento seja constante. Outro aspecto fundamental é que os avanços acontecem de modo agregado ao serviço de controladoria, o que confere maior segurança ao processo”, afirma Fabiano Bottignon Kosaka, superintendente executivo.
Ele lembra que a custódia para os fundos de pensão, por exemplo, exige um trabalho mais forte da controladoria, incluindo precificação e enquadramento dos ativos, uma vez que há posições e controles específicos, assim como maior formatação de fundos exclusivos. A “dobradinha” entre custódia e controladoria funciona bem, mas exige muita proximidade com os reguladores para obter diretrizes que permitam trabalhar com mais segurança
“A linha de atuação dessa área segue bem consistente em seus movimentos ano a ano, consideramos importante manter uma posição relevante mas que visa sempre estabelecer parcerias de longo prazo com os clientes”, conta o diretor André Bernardino da Cruz Filho. Investir em tecnologia e no aprimoramento das equipes continua a ser o foco principal para garantir ganhos de market share, o que significa acompanhar de perto tanto os movimentos do mercado quanto da regulação.
As fundações também demandam uma administração fiduciária particularmente cuidadosa, afirma Bernardino. “Temos hegemonia nesse segmento e temos conquistado novas posições junto às entidades fechadas de previdência complementar. No caso dos RPPS, também temos conseguido ampliar nossa presença de maneira contínua e, embora alguns prestadores de serviços tenham saído desse mercado, nós continuamos com a mesma linha de parceria e centrados nas questões regulatórias”, diz.

Em 2022, a novidade em regulação deverá ficar por conta do novo arcabouço de mudanças promovidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na regulamentação dos fundos de investimentos, que já era reivindicado pelo mercado há algum tempo e que deverá trazer maior transparência. “Essa perspectiva nos motiva a manter investimentos consistentes que permitam fazer boas entregas de serviços, para acompanhar as novas regras e respeitar a concorrência”, afirma Bernardino. A concorrência nesse mercado, diz ele, segue acirrada como sempre, mas isso é bom e ter uma controladoria forte será um diferencial importante frente ao novo arcabouço regulatório”. As regras, que já passaram por audiência pública, pretendem adequar pontos trazidos pela lei da Liberdade Econômica, como a responsabilidade dos prestadores de serviços e a separação em cotas de diferentes classes.
A expectativa, observa Kosaka, é de que isso resulte numa autêntica revolução no marco regulatório do mercado, redefinindo os papéis e responsabilidades de cada agente: gestores, administradores fiduciários e custodiantes, o que deverá dar maior segurança às operações mas também trará um período desafiador de ajustes. “Será um segundo semestre desafiador para nós porque administradores e gestores passarão a ser co-responsáveis. Além disso, será uma mudança importante para toda a indústria de fundos que deverá resultar em novos produtos”, diz.
Embora também preste serviços de custódia para administradores terceiros, a casa tem o seu maior volume representado por “pacotes completos” que incluem a prestação de serviços de custódia, controladoria e administração, e que somam cerca de R$ 1 trilhão. No segmento de custódia para recursos externos, o volume total atingiu R$ 350 bilhões em março, sendo R$ 317 bilhões em custódia para DRs (depositary receipts), na liderança do mercado para esse tipo de aplicação, e R$ 33 bilhões em custódia de recursos de não-residentes (Resolução 4.373).

Na oitava posição do ranking Anbima de março em relação ao total de ativos sob custódia, que somaram R$ 303 bilhões, dos quais R$ 302,3 bilhões no mercado doméstico, onde detém participação relativa de 4,2%, a BNY Mellon Serviços Financeiros DTVM refletiu o impacto dos movimentos dos mercados em ano particularmente agitado, diz Peterson Paz, co-head de asset servicing e digital para a América Latina e Caribe. Entre março de 2021 e março de 2022, a casa registrou expansão de 35% no número de operações de empréstimos de ações e 10% de aumento nas operações com derivativos de renda fixa.“Vimos uma continuidade do que vinha acontecendo desde o início da pós-pandemia, ou seja, volumes altos em alguns mercados que cresceram de modo mais expressivo”. Ao mesmo tempo, o mercado foi impactado pela desvalorização dos ativos, com o desempenho desfavorável das ações desde meados do ano passado.
Ele lembra que a partir de julho começou a migração dos investidores para alocações em fundos de renda fixa, saindo dos fundos de ações, como resposta à alta do juro. “Isso mexeu com o mix do mercado e, como o nosso portfolio de fundos têm um perfil mais forte de ações, os volumes sob custódia foram afetados. Vimos uma realocação de parte desses fundos para outras carteiras ou até mesmo para investimentos diretos”, diz. A flutuação esteve dentro do esperado, por conta do cenário, mas o mix de fundos sob custódia, ainda com uma concentração expressiva de renda variável, fundos multimercados e fundos de investimento no exterior, acabou sofrendo maior impacto no período.
Apesar do cenário, a casa chegou a 2022 com uma evolução dentro do planejado embora tenha sofrido em termos de fluxo. “Perdemos um pouco em ativos sob custódia mas ganhamos em quantidade de fundos. Se olharmos os números que consideram também as cotas de fundos sob custódia, o volume recuou pouco, saindo de R$ 715 bilhões para R$ 694 bilhões entre março de 2021 e março deste ano, enquanto o número de veículos subiu de 2.835 para 2.986, um incremento de 5%. “O mercado tem sido um desafio a curto prazo mas a nossa velocidade de crescimento apenas diminui porque a expansão continua desde meados de 2021. Além disso, temos que levar em conta que a nossa base de comparação é muito alta porque o primeiro trimestre de 2021 foi um período muito forte de crescimento, apesar das dificuldades do mercado. O esforço pelo aumento do número de fundos constituídos agora é importante para o resultado futuro, ainda que eles levem algum tempo para crescer.
Tem contribuído para isso a nova frente aberta há um ano, quando a instituição decidiu passar a oferecer serviços de custódia e controladoria também para administradores terceiros “Há um ano esse projeto estava ainda em nível embrionário e hoje já fazemos custódia e controladoria para mais de 100 fundos sob outros administradores, ou 5% do total de fundos”, afirma. A perspectiva era de fechar o mês de maio com 135 desses fundos e ter um número cada vez mais representativo no final do ano, à medida que o projeto ganhe velocidade. “Queremos passar dos dois dígitos e ter mais do que 10% do total de fundos sob custódia nesse modelo”, afirma. Um resultado que deverá inclusive ajudar a ter um mix mais equilibrado e diversificado de classes nos fundos sob custódia, mudança vista como saudável para o portfólio. Os novos fundos que têm chegado incluem diversos FICs (fundos de investimento em cotas) com maior participação da renda fixa.
Outro ponto de destaque é a custódia para renda fixa crédito privado, de grandes gestores independentes. Já somos referência nesse segmento e queremos crescer mais, tanto em veículos para os quais fazemos custódia e liquidação como nos fundos administrados por terceiros para os quais podemos prestar esses serviços. São clientes importantes por terem perfil contra-cíclico”, afirma.
Os serviços para fundos de pensão, que ganharam impulso e novos clientes entre 2018 e 2020, passaram a ter um tratamento “pontual e seletivo” na instituição porque é preciso ter capacidade de oferecer o serviço correto, especialmente do ponto de vista regulatório. “A questão não é expandir por expandir mas reconhecer que isso envolve uma certa customização”, conclui.