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BlackRock quer voltar à briga
Sob novo comando, a operação local da maior asset planeta, pretende reforçar a grade de produtos e dobrar de tamanho em até dois anos

A BlackRock, a maior gestora de recursos do planeta, com cerca de US$ 6 trilhões em carteira, parece disposta a brigar novamente por participação no mercado brasileiro, depois de alguns anos de atuação que muitos consideram como “morna”. Presente no país desde 2008, quando lançou o ETF BOVA11, fundo ancorado na carteira do Ibovespa e negociado no pregão da B3, a instituição norte-americana acaba de reativar o cargo de CEO da operação local, que estava vago há sete anos. O escolhido para o posto é o administrador de empresas Carlos Massaru Takahashi, de 57 anos.
Nome de peso no mercado, Takahashi comandou a BB DTVM, a número 1 do setor no cenário nacional, de outubro de 2009 a novembro de 2015, período em que os ativos da gestora apresentaram crescimento de 96,67%, para a casa de R$ 603,20 bilhões. Além disso, foi vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima), de 2012 a 2015, e participou do conselho de administração do Banco Votorantim.
“As negociações começaram no fim de 2018”, conta o executivo que é ex-funcionário de carreira do BB e aposentado pela BB DTVM. “O pessoal da BlackRock, logo de cara, indagou se eu estaria disposto a voltar ao dia a dia dos negócios, deixando de lado as atividades de conselheiro e de consultor, às quais vinha me dedicando nos últimos anos. Disse-lhes que tinha total interesse na proposta, até porque já conhecia muito bem a empresa, para a qual, inclusive, prestava consultoria há dois anos.”
A relação de Takahashi com a BlacKRock, na verdade, é ainda mais antiga. Surgiu em 2013, com o lançamento do fundo BB Multimercado BlackRock Investimento no Exterior, um dos primeiros produtos de investimento no exterior voltados para investidores institucionais. Este, por sinal, é um público que passará a receber atenção prioritária do novo CEO, que pretende alavancar e diversificar as atividades da subsidiária da asset, hoje concentradas em wealth management e transações com bancos e plataformas de investimento. “Dois terços dos produtos da BlackRock no exterior são voltados aos institucionais. A ideia é explorar essa expertise, aumentando o espectro de fundos de pensão em nossa carteira de clientes e também ampliando os volumes administrados para as cerca de 12 entidades fechadas de previdência que atendemos”, diz ele.
Caberá aos institucionais, portanto, um papel decisivo na estratégia desenhada pelo novo CEO de alcançar no plano doméstico performances e indicadores à altura do desempenho global. Hoje, com algo em torno de US$ 5 bilhões em ativos, montante inferior à massa de recursos administrada por várias gestoras independentes, a operação brasileira da gestora se encontra na metade inferior do ranking de 34 países onde a BlackRock mantém escritórios. Fica atrás, inclusive, das três demais subsidiárias do grupo na América Latina, instaladas no México, Chile e na dupla Peru e Colômbia.
“As aplicações no exterior, um dos grandes diferenciais da BlackRock, só recentemente entraram no radar dos investidores brasileiros, até mesmo dos institucionais, ao contrário do que ocorre em outros pontos da América Latina. Mas a abertura ao exterior tende a ganhar corpo no mercado brasileiro nos próximos anos”, diz Takahashi, que já traça metas de crescimento. “O objetivo é dobrar o volume sob gestão. Pretendemos atingir a casa de dois dígitos em um ou dois anos lançando mão única e exclusivamente de recursos de investidores, já que a BlackRock, ao contrário das assets ligadas a grandes bancos, não opera com capitais próprios.”

Saliva e sola de sapato – A missão contempla várias tarefas e frentes de atuação. A lista inclui dispêndios de saliva e solas de sapato para ampliar relacionamentos e garantir uma maior exposição da marca no mercado local – onde a BlackRock, constata Takahashi, ainda é confundida com a concorrente Blackstone, que também tem sede em Nova York. Além disso, estão previstas revisões e reformulações na grade de produtos, atualmente composta pela família de EFTs iShare, que contabiliza cinco veículos de investimento com ativos totais ao redor de R$ 7,44 bilhões, e dois fundos multimercados de investimento no exterior, o Style Advantage e o Style Advantage Master, lançados em fevereiro de 2018, cujos patrimônios líquidos somam R$ 112 milhões.
“Teremos de avaliar alguns produtos, para ver se estão sendo competitivos, e oferecer opções mais abrangentes e inovadoras”, observa o executivo. “Queremos trazer ideias ainda não tão presentes no mercado brasileiro, que façam sentido para os investidores locais e garantam diversificação de aplicações.”
As apostas se concentrarão em variações do cardápio já oferecido pela casa. O esforço comercial terá de ser mais intenso na seara dos ETFs, que ainda não decolaram no Brasil, representando atualmente apenas 0,31% da indústria de fundos, com um patrimônio líquido de R$ 14,92 bilhões segundo dados da Anbima. Para alavancar esse segmento, que tem na BlackRock o seu principal agente de negócios, Takahashi planeja um trabalho educativo voltado aos investidores locais, aproveitando o know-how didático da gestora, que conta com um instituto de investimento. Otimista, ele acredita que o cenário atual, com a Selic em patamares reduzidos, é muito favorável aos ETFs pois os aplicadores terão de buscar mais risco.
“Nosso desafio será conscientizar o mercado local sobre as vantagens dessas opções”, assinala. “Os ETFs, ao contrário do que muitos pensam, permitem gestões ativas e se encaixam à perfeição às rotinas e ao modus operandi dos investidores institucionais, pois viabilizam movimentações, táticas e estratégicas com maior velocidade. O produto, por sinal, é muito utilizado por fundações de previdência no México, Chile e Peru.”

Renda fixa privada – A prateleira de fundos também ganhará diversidade, embora, assim como no caso dos ETFs, Takahashi, não dê pistas sobre prazos e quantidades de lançamentos previstos. Ele revela, contudo, interesse em abrir espaço para a renda fixa privada no portfólio doméstico da corretora. “É crescente o interesse dos investidores pela renda fixa privada local, que vem propiciando bons retornos. Ter acesso a esses ativos no exterior faz todo o sentido para aqueles que perseguem maiores taxas de remuneração”, comenta.
O plano de voo inclui, ainda, reforços graduais e pontuais na equipe da asset, hoje composta por cerca de 15 profissionais, e a oferta, em maior escala, de tecnologias desenvolvidas pela matriz da BlackRock. É o caso do Aladdin, uma plataforma eletrônica de gestão de recursos e análise de riscos que serve de suporte ao gerenciamento de mais de US$ 18 trilhões em ativos. Desenvolvido no início do século, o sistema, que segue em constante aperfeiçoamento, é utilizado, entre outros públicos, por cerca de 210 investidores institucionais ao redor do mundo. “O Aladdin é uma ferramenta robusta que marca presença, já há algum tempo, na rotina de centenas de bancos, fundos de pensão e assets no exterior”, diz Takahashi. “No Brasil, onde é adotado por algumas casas de atuação global, o potencial de vendas do sistema é enorme.”