Mainnav

Fundações partem para FICs
Fundos de fundos são veículos mais adequados para as fundações que possuem uma estrutura de planos complexa e perfis de investimento

A utilização de fundos de investimento em cotas (FICs) para fazer a distribuição dos recursos de um mesmo investidor em diferentes estratégias, algo que até recentemente era bastante comum apenas no universo dos clientes private de bancos e nas family offices, está chegando com tudo aos institucionais. Os FICs, também chamado de Fofs na sigla em inglês (Funds of Funds), começa a ganhar um peso relevante nas assets que operam com os clientes institucionais. Na BNP Paribas Asset Management a área de FICs já representa R$ 5,6 bilhões, 17% a mais do que há 12 meses. “Grande parte desse crescimento veio dos fundos de pensão, o que é uma novidade para nós”, afirma o head da área de FICs da asset, Tiago Cesar. “Antes, quem dominava esse segmento eram os clientes dos fundos exclusivos dos private bank”.
Na opinião de Cesar, as fundações estão buscando através desses veículos a especialização do gestor em analisar diferentes fundos de investimento, de diferentes casas de gestão, para com eles montar um FIC que atenda uma determinada estratégia de investimentos da fundação. Para isso, além da análise dos fundos investidos o gestor do FIC deve oferecer ao contratante também serviços de due diligence nas assets investidas para conhecer suas equipes de gestão, seus controles, seus sistemas e seus processos de tomada de decisão, assim como analisar seus produtos de investimento. “Tem que ver se a casa tem, e como são, os seus planos de contingência, seu compliance, seus controles de risco e seus processos de investimento”, explica o executivo. “Depois que aprovamos a casa a gente passa a analisar os seus fundos, para ver o desempenho deles e se eles se encaixam na estratégia definida pela fundação”.

Segundo o diretor comercial, de produtos e relacionamentos da 4UM Investimentos, Luciano Magalhães, o uso de FICs é mais indicado para fundações com uma diversidade maior de estratégias, que tenham vários planos e abriguem diferentes perfis de investimento em cada plano. Na prática, cada um desses perfis acaba representando uma estratégia, com determinado apetite de risco, e a fundação aloca em cotas dos FICs exclusivos para atender a esses apetites. Por exemplo, para um perfil mais moderado de um plano BD a fundação pode comprar 95% de cotas do FIC de renda fixa, 4% do FIC de renda variável e 1% do FIC de investimentos no exterior. Já para um perfil mais arrojado de um plano CD compraria apenas 55% de cotas do FIC de renda fixa, 35% do FIC de renda variável, 5% do FIC de investimentos no exterior e 5% de um FIC imobiliário. Dessa forma, com três ou quatro FICs exclusivos a fundação conseguiria atender uma dezena ou mais de perfis de investimento. “Porisso essa estrutura funciona melhor para fundações com maior complexidade de estratégias, com mais planos e mais perfis. Para fundações com um plano só, por exemplo, não vale a pena”, explica Magalhães.
De acordo com Cesar, os FICs podem ser exclusivos ou de prateira. “Tem fundação que prefere ter os FICs com sua própria estratégia, mas tem aquelas que preferem comprar FICs de prateira”, diz. Segundo ele, a BNP Paribas está participando atualmente de sete processos de seleção de FICs, incluindo produtos exclusivos e de prateleira. “É uma área que tende a crescer bastante daqui para a frente”, avalia. Na opinião de Magalhães, esse apetite por FICs explica-se pela queda dos juros e pela redução dos títulos públicos nas carteiras das fundações, que estão buscando mais risco com o objetivo de bater a meta atuarial. “As estruturas dos FICs abrigam melhor essa diversificação de risco e facilitam também o operacional das fundações”, afirma. “Temos algumas fundações que já nos contrataram e estamos participando de várias concorrências para montar FICs, mas prefiro não falar em números”.
Na percepção do diretor da Aditus Consultoria, Guilherme Benites, o crescimento ocorre principalmente em dois casos. No primeiro, estão as fundações que precisam montar uma estratégia em classes de investimento muito novas ou que requeiram algum conhecimento específico, como por exemplo investimentos no exterior ou investimentos imobiliários. É um caso em que é difícil a fundação contar com pessoal interno especializado nesses segmentos, então é melhor contratar um gestor externo para montar um FIC que aloque nos melhores fundos do segmento. No segundo caso, estão as fundações que possuem planos abrigando perfis de investimento com diferentes níveis de risco. Nesse caso, é complicado para a fundação ficar fazendo constantes rebalanceamentos dos planos, seja por conjunturas do mercado ou porque as pessoas mudam de perfil, então preferem montar estruturas de FICs dos quais compram cotas para poder mais facilmente adequar os perfis. “Mas isso pode ser feito tanto através de fundos quanto de carteiras, o fundo obviamente é mais transparente, no final do dia está lá na CVM, além de também adicionar o conhecimento do gestor, por isso é mais caro”, explica. “Mas também funciona muito bem através de carteiras administradas”, diz.

Outra vantagem dos FICs, apontada pela Fipecq, o fundo de pensão dos funcionários da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e outros três institutos federais de pesquisa (Inpe, Ipea e Inpa), é que permitem o rebate de parte das taxas de distribuição para a própria fundação. A Fipecq, em março deste ano, transformou uma carteira própria de R$ 200 milhões num FIC Multimercado exclusivo, sob a gestão da i9 Capital, braço de gestão da consultoria i9. Registrado como Bússola, o fundo vai devolver à fundação parte das taxas de distribuição, num volume que deve chegar a R$ 300 mil no ano. “Já dá para pagar os custos da consultoria”, diz o diretor de investimentos da Fipecq, Claudinei Rolim Perez.
A decisão de transformar a carteira própria em um FIC exclusivo foi tomada no final do ano passado pelo conselho deliberativo da entidade, após constatar que a mesma estava rendendo menos do que os índices dos mercados de ações e renda fixa que perseguia. Segundo Perez, a explicação para essa insuficiência estava na limitada capacidade da equipe da fundação, composta por ele e outras três pessoas, de acompanhar a evolução de diferentes mercados. “Optamos por contratar um gestor terceirizado, que naturalmente já acompanha os mercados, e passamos a cobrar apenas os resultados”.
O FIC é usado principalmente para a estratégia de investimentos do plano CD da fundação, que representa não mais do que 5% dos seus recursos garantidores, e muito pouco para a estratégia do plano BD, que tem os 95% restantes. Do total de recursos do FIC, 65% estão alocados em fundos de ações, 25% em multimercados e 10% em renda fixa. Ele possui um comitê formado por três pessoas, sendo duas da Fipecq com poder de decisão e uma da i9 com poder de veto.
A performance do FIC não foi boa no mês da sua criação, com os fundos investidos apresentando desempenho inferior aos índices que perseguem, mas esse quadro mudou a partir de abril quando os fundos investidos passaram a superar seus benchmarks. De um patrimônio de R$ 200 milhões em março, o Bussola saltou para R$ 250 milhões no final de maio, após pegar a alta do mercado de ações em abril e maio. A Fipecq tem um patrimônio total de R$ 1,57 bilhão, sendo que desse total apenas 5% pertencem ao plano de Contribuição Definida e os 95% restantes pertencem ao plano de Benefício Definido. Segundo Perez, 75% dos recursos do BD estão aplicados em NTNBs casadas com os seus passivos atuariais.

Outra fundação que já usa e está ampliando o uso de FICs para sua estratégia de alocação é a Libertas, patrocinada por estatais ligadas ao governo de Minas Gerais. A fundação já tem um FICs em funcionamento, criado no final de 2018 para operar a estratégia de renda variável, e está criando mais dois para operar estratégias de renda fixa e de multimercados. Os gestores já foram escolhidos, mas o diretor de investimentos da fundação, Rodrigo Barata, prefere não divulgar o nome. Segundo ele, isso evita constrangimentos com as assets que foram preteridas.
De um patrimônio total de R$ 3,6 bilhões, cerca de R$ 330 milhões estão aplicados no FIC de renda variável, que no acumulado deste ano, até abril, apresentava rentabilidade negativa de 22%. “Mas ele perdeu menos do que o Ibovespa, que no mesmo período acumulava uma queda de 30,31%”, pondera Barata. Segundo ele, a casa tem cerca de R$ 2,8 bilhões aplicados em renda fixa, incluindo um fundo de caixa para atender suas necessidades de curto prazo e um fundo ALM (casando seus ativos com suas necessidades atuariais) para atender suas necessidades de médio e longo prazo. Insatisfeita com os resultados desse último, a fundação pretende migrar parte dele para dois novos FICs, um de renda fixa tradicional e outro multimercado. Também está previsto um novo FIC para investimentos no exterior.
A data dessas mudanças ainda não está definida, assim como a divisão dos valores, ou seja, qual o tamanho de cada fundo. O que está claro, segundo Barata, é a estratégia da fundação de ampliar o uso de FICs em detrimento dos fundos tradicionais. “Em primeiro lugar por causa da diversificação, por somarem num mesmo veículo várias estratégias e diferentes gestores especializados, e em segundo lugar por assumirem as atividades de duo-dilligence tanto sobre os fundos investidos como sobre as equipes de gestão”, explica. “Isso, por si só, dá mais tranquilidade em termos de governança”.

Outra fundação que passará a contar com uma estrutura de FIC é a Previsc, fundo de pensão multipatrocinado ligado à Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), que está selecionando um gestor de fundo imobiliário para montar um FIC exclusivo. O fundo, na verdade um multimercado que vai operar apenas com a estratégia imobiliária, terá um patrimônio inicial de R$ 60 milhões, servindo para iniciar a fundação nesse segmento. “Com a queda de juros, decidimos que o mercado imobiliário deve fazer parte do nosso portfólio e optamos por investir via fundo de fundos”, explica o diretor de investimentos da fundação, Ricardo Esch.
Com um patrimônio de R$ 1,4 bilhão, a fundação já utiliza uma estrutura similar para outras áreas de investimentos, através de carteiras administradas. São cinco carteiras exclusivas, sendo três de multimercados 4.661 e duas de crédito privado. Além disso, investe em três fundos de investimento no exterior, dos quais dois aplicam diretamente em equity e o terceiro aloca em outros fundos.