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Fundos ESG em alta no mercado
Os investimentos responsáveis ganham espaço com o lançamento de um novo índice na B3 e trinta pedidos de registro dessa classe de fundos

De janeiro a setembro último, mês em que a B3 lançou seu novo índice de sustentabilidade em parceria com a S&P Dow Jones, o S&P/B3 Brasil ESG, cerca de 30 novos cadastramentos de fundos com a denominação ESG, ou o seu equivalente em português ASG (de Ambiental, Social e Governança) foram encaminhados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A tendência, observa Gustavo Pimentel, sócio da consultoria Sitawi, especializada no segmento, começou a se delinear em 2018 e ganhou intensidade a partir do segundo semestre do ano passado, com a acentuada redução da taxa Selic.
“A queda dos juros provocou uma migração de recursos para ativos de risco, como a bolsa de valores e o private equity, que têm um grau de abertura muito maior para o conceito ESG do que a renda fixa”, diz Pimentel. “O processo também vem contando com a colaboração dos gestores de fortunas, cujos clientes vêm demandando de forma crescente opções de aplicações responsáveis, além de investidores externos que cobram assets e empresas brasileiras a respeito.”
Formulado a partir do índice S&P Brazil BMI, com 167 empresas negociadas na bolsa brasileira, o S&P/B3 Brasil ESG é composto por ações de 96 companhias abertas alinhadas com os dez princípios do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), que estabelece, entre outras premissas, o desenvolvimento de tecnologias ambientalmente responsáveis e a eliminação dos trabalhos escravo e infantil. A novidade, inspirada no S&P 500 ESG Index, apresentado em janeiro de 2019, reforça a grade de produtos da S&P Dow Jones voltados às nações emergentes, que já contava, desde meados do ano, com versões para os mercados mexicano e sul-africano.
“Assim como nos índices do México e da África do Sul, o S&P/B3 Brasil ESG não contempla papéis dos setores de armamentos e tabaco”, comenta o diretor de vendas da S&P Dow Jones para a América Latina, Paulo Eduardo de Souza Sampaio. “A diferença é que em sua elaboração não foi adotado o critério de exclusão de 25% das empresas com piores indicadores ESG.”
Posições de destaque na composição do índice vêm sendo muito valorizadas pelos nomes selecionados. Há pouco, por exemplo, Lojas Renner, Telefonica e Tim divulgaram com destaques na mídia e nas redes sociais as suas presenças no grupo das dez empresas com maior peso no S&P/B3 Brasil ESG. Outras tantas fazem planos para tentar ingressar nesse grupo.
“Nas últimas semanas, conversei com mais de 20 companhias interessadas em conhecer o novo índice”, revela Sampaio. “As empresas buscam se posicionar em sustentabilidade, conceito que vem ganhando valor entre os investidores. A competição tende a se intensificar: quem está fora vai se esforçar para entrar no índice, e quem está dentro sabe que terá de melhorar suas notas.”
A longo prazo, o executivo acredita que o conceito ESG se tornará tão usual no modus operandi do mercado de capitais que a nomenclatura simplesmente deverá sumir de cena. Tal transição, a seu ver, será ditada pelas rentabilidades inquestionavelmente superiores oferecidas por carteiras de investimentos sustentáveis e responsáveis. O S&P 500 ESG é uma prova disso: além de acumular evoluções superiores a dois pontos percentuais ao longo deste ano e dos últimos 12 meses em relação ao S&P 500, o índice, criado há dois anos, também leva a melhor sobre a sua matriz em simulações por períodos de três, cinco e dez anos.
“O mesmo vale para o S&P/B3 Brasil ESG, cuja composição apresenta desempenho superior aos nossos demais índices locais nos últimos anos”, diz Sampaio. “Ou seja, o argumento de que a opção por investimentos ESG representa abrir mão de retorno está definitivamente superado.”

A Constellation Asset Management, de São Paulo, chegou à mesma conclusão já há um bom tempo. O processo de conscientização teve início há quatro anos em razão da postura de investidores estrangeiros, que cobravam mais atenção com aspectos relacionados, sobretudo, às questões ambientais e sociais. A gestora tratou, então, de se debruçar, durante meses a fio, sobre textos acadêmicos na área e contratou uma consultoria externa para ajudá-la no aprendizado.
“Hoje, o critério ESG permeia 100% do nosso trabalho. As equipes da casa incorporaram o tema de forma transversal às rotinas de análises dos setores sob as suas alçadas”, diz o sócio Eduardo Dumans, que além de responsável pela agenda ESG da casa também atua, em conjunto com o seu time, como catequizador externo. “Mantemos contatos frequentes com as empresas investidas. Dessa forma, garantimos maior robustez ao nosso processo de investimento.”
Um dos frutos desse esforço foi o Constellation Compounders ESG FIA, um dos primeiros fundos do gênero do país. Lançado no segundo semestre de 2018, o produto, hoje com patrimônio líquido ao redor de R$ 300 milhões, vem respondendo pelos maiores retornos obtidos pela gestora: fechou 2019 com valorização de 42,76%, 11,18 pontos percentuais acima da variação do Ibovespa, e acumulou ganho de 12,08% nos oito primeiros meses deste ano, período em que o índice da B3 recuou 14,07%. A carteira oscila entre 15 e 20 papéis de empresas com balanços consistentes, altas margens e, claro, com pontuações acima da média nos quesitos ambiental, social e de governança, como Natura, B3, Weg, Magazine Luiza, Raia-Drogasil e Mercado Livre.
“O funil do Compounders também é apertado em relação a critérios de análise mais tradicionais. Ficaram de fora de seu portfólio, entre outros, produtores de commodities, cujo desempenho é diretamente atrelado à oscilação dos preços em seus mercados de atuação, e construtoras, muito dependentes de linhas de financiamento”, explica Dumans, que vem registrando uma procura crescente por parte de investidores institucionais pela expertise da casa em ESG. “Nos últimos seis meses, em plena pandemia, temos mantido uma média de dois contatos por semana com fundos de pensão. Até o fim do ano a nossa clientela institucional, hoje composta por dez fundações, deverá ganhar alguns reforços.”

O grande destaque da supersafra de fundos ESG cabe à JGP. Desde fevereiro a gestora registrou 13 produtos da categoria na CVM, todos de renda variável, sendo dois previdenciários e um de investimentos no exterior. O projeto teve como ponto de partida o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), em 25 de janeiro do ano passado, que causou cerca de 260 mortes e derrubou a cotação da mineradora na B3, causando prejuízos a uma legião de investidores. “Sofremos muito com o episódio, pois a nossa posição na Vale era expressiva”, conta o gestor de ações Márcio Correia. “No entanto, em vez de ficarmos chorando as pitangas, resolvemos estudar a fundo as questões ambientais.”
Liderado pelo executivo, o processo de implementação do critério ESG na asset contemplou várias iniciativas. Além de palestras e workshops de consultores e especialistas na área, incluindo um representante da ONU, foram criados grupos voltados à análise de temas específicos, como energia e o papel dos bancos na sociedade, e executados ajustes profundos nas estratégias de investimento. O trabalho prossegue, com reuniões semanais de aculturamento e a elaboração de relatórios sobre os impactos ambientais de alguns setores, casos de mineração e frigoríficos.
“Esse aprendizado deu origem à Carta I ESG, que lançamos em julho. Trata-se, na verdade, de um pequeno livro no qual abordamos cerca de 50 pontos relativos à nossa experiência e à relevância dos fatores ESG no mundo corporativo”, diz o gerente da JGP, que se tornou referência em seu segmento. “Cerca de 30 gestoras já nos consultaram sobre a migração para ESG.”
Hoje, toda a grade da asset, inclusive os produtos mais antigos, segue à risca a cartilha de investimentos responsáveis, à exceção dos multimercados. Os fundos ESG, no entanto, adotam critérios mais rigorosos, que se traduzem, por exemplo, por vetos a papéis de empresas como a Vale e a JBS, em razão, respectivamente, da atuação em terras indígenas e do envolvimento em desmatamentos. “Se identificarmos sinais de soluções concretas para essas questões, as proibições poderão ser suspensas”, observa Correia, que, contudo, não tem do que se lamentar. “Os novos fundos estão rodando 20% acima do Ibovespa. O ESG, sem dúvida, traz retorno.”

Outra iniciativa partiu da Franklin Templeton e da Vitreo, duas gestoras que acabam de iniciar as operações de um fundo de investimento em ações de companhias estrangeiras com presença de ao menos três mulheres em seus conselhos de administração. “Desenvolvemos a estratégia, que valoriza o empoderamento feminino, sob medida para a Vitreo, com a qual compartilhamos a gestão do produto”, diz Luiz Fernando Pedrinha, vice-presidente de vendas institucionais da Franklin Templeton. “O fundo carrega papéis de 30 a 35 empresas, em sua maioria dos Estados Unidos, mas conta também com ações de companhias europeias e japonesas.”
Signatária do Principles for Responsible Investment (PRI), a gestora dos Estados Unidos mantém em Londres uma equipe inteiramente dedicada a análises, entre outros itens, dos consumos de água e energia e de políticas éticas de abastecimento e distribuição de empresas investidas ou candidatas a integrar os portfólios da casa. O trabalho desse time norteou a montagem da carteira do recém-lançado Vitreo Franklin W-ESG FIA BDR Nível I e servirá de suporte para as apresentações de outras estratégias similares no mercado doméstico.
“Pretendemos lançar pelo menos mais um fundo de renda variável ancorado no mercado externo até o fim do ano”, diz Pedrinha, que vê grande potencial de negócios com investidores institucionais. “A necessidade de uma maior exposição dos fundos de pensão no exterior vai contemplar o critério ESG, que tende a ganhar espaço em suas políticas de investimento.”