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Galapagos aposta nos alternativos
Com 35 pessoas, gestora opera com Fidcs de originação própria ou de parceiros e fundos líquidos focados em ativos do mercado internacional

Com uma leitura de que o mercado brasileiro estava se tornando estreito demais para o apetite dos investidores locais, principalmente após o início do processo da queda das taxas de juros que começou há pouco mais de dois anos, o ex-sócio do Pactual e depois do banco C6, Carlos Fonseca, criou em 2019 a gestora Galapagos. Assim mesmo, sem o acento agudo que a proparoxítona exigiria em português, confirma um dos seus sócios, Bruno Carvalho, que explica que o foco de atuação da asset são investimentos alternativos de várias classes, incluindo ativos estruturados e ativos líquidos globais.
Inspirada no nome do arquipélago do Equador visitado por Charles Darwin em 1835, a partir do qual o famoso naturalista britânico começou a formular sua teoria da evolução, os sócios da Galapagos acreditam que o mercado de investimento brasileiros está atravessando um processo evolutivo no qual a busca de ativos diferenciados, de produtos diferenciados e de teses de investimento diferenciadas começam a produzir profundas mudanças no perfil de investimento do brasileiro. “Queremos fazer parte desse processo evolutivo, provocando o mercado com nossos produtos e teses de investimento”, explica Carvalho.
Em fevereiro do ano passado, a gestora que inicialmente tinha sido desenhada para atuar apenas nos mercados de ativos estruturados, que era uma das especialidades de Fonseca no antigo Pactual, acabou comprando a Sagmo, asset que o ex-Itaú Sérgio Zanini havia criado dois anos antes para atuar em mercados globais, e ganhou a partir dai novos contornos. Da junção das duas especialidades, os estruturados de Fonseca com os fundos líquidos globais de Zanini, o portfólio da Galapagos começou a ser desenhado com mais pluralidade.

Na classe dos estruturados, o foco de atuação passou a se concentrar em fundos de direitos creditórios (Fidcs). São Fidcs que se diferenciam em relação a outros do mercado por conterem recebíveis de originação própria ou de parceiros, em segmentos pouco tradicionais como home equities (empréstimos com garantia imobiliária), venture debts (financiamento a startups), legal assets (ativos de dívidas judiciais), cadeia de fornecedores ou agronegócios. Na classe de ativos líquidos, a asset usou o conhecimento da Sagmo para acessar mercados globais tradicionais como equities, créditos, renda fixa, commodities e moedas. “Com nossa contribuição, o portfólio ficou com uma cara mais completa e descorrelacionada”, explica Zanini.
Ele explica que na Galapagos o termo descorrelacionar é quase um dogma. A opção por incluir nos fundos da casa tanto os ativos pouco tradicionais de originação própria quanto os ativos tradicionais do mercado internacional, de várias geografias, é uma maneira de evitar que uma tendência política ou econômica, presente num determinado mercado, afete todos os fundos ao mesmo tempo. “Temos uma verdadeira fábrica de geração de ativos e ao mesmo tempo mantemos equipes com conhecimento de vários mercados globais”, explica Zanini. “São essas duas vertentes que garantem a descorrelação dos nossos fundos”.
Na Sagmo, desde sua formação, o foco foi o mercado global. A asset foi criada por Zanini e outros sócios com conhecimento do mercado internacional, inclusive alguns estrangeiros que hoje compõem a Galapagos, como um gestor norte-americano e um economista-chefe peruano. “Sempre perseguimos a estratégia de superar a experiência da escola da Faria Lima, que são os profissionais que deixam as salas de aula para compor os time de tesouraria de algum banco da Faria Lima, presente na maioria das assets brasileiras”, explica Zanini. “Todos conhecem os mesmos ativos, fazem as mesmas operações”.

Ele foi apresentado à Fonseca por Marco Antonio Bologna, que tinha sido presidente da TAM e também da WTorres e do Banco Fator, ao qual Fonseca tinha se juntado na proposta de criação da Galapagos. “A tese do Fonseca, de que o mercado demandaria mais ativos alternativos, era correta, mas para conseguir a escalabilidade que ele queria e que o mercado demandaria era necessário incluir também a área de ativos líquidos”, diz Zanini. “Nós tínhamos essa área”.
Ao ser incorporada pela Galapagos a Sagmo tinha cerca de R$ 400 milhões sob gestão, sendo R$ 100 milhões captados no mercado local e R$ 300 milhões vindo do mandato de um fundo americano. A equipe tinha nove pessoas e um único fundo macro, que aplicava em vários tipos de ativos globais.
Sete meses depois, a Galapagos possui uma equipe de 35 pessoas, sendo quinze na área de gestão, oito no back-office, sete na área de análise de ativos ilíquidos e cinco em outras atividades. Dezessete deles são sócios e nove fazem parte do Comitê Executivo. A asset tem atualmente R$ 550 milhões sob gestão, dos quais R$ R$ 250 milhões são de investidores locais e R$ 300 milhões de off-shore.
Confrontando o tamanho da equipe atual com o volume sob gestão no momento, parece pouco recurso para muita gente. “É um time realmente grande. Mas a empresa tem capitalização dos sócios, não estamos correndo uma prova de 100 metros, estamos numa ultramaratona. Investimos bastante, montamos as equipes, testamos nossas teses de investimentos para ter certeza de que elas funcionavam e só a partir de agora estamos saindo em busca dos investidores”, diz Carvalho. “Fizemos o contrário da maioria das assets, que nascem pequenas e vão crescendo e incorporando gente, nós montamos uma boa estrutura para depois ir em busca do investidor, até porque nosso foco é também o investidor dos Estados Unidos e ele só põe dinheiro numa casa se ela tiver uma boa estrutura”.

O objetivo da asset é chegar próximo aos R$ 2 bilhões até o final deste ano. Para isso a gestora, que hoje possui quatro Fidcs em operação, está lançando vários produtos novos. Entre eles, um multimercado multiestratégia, que vai juntar num só produto ativos estruturados com ativos líquidos globais, um fundo de crédito composto por papéis locais e internacionais e um fundo de fundos imobiliário, lançado através da oferta 400 (para investidores em geral). Também lançou recentemente, em parceria com a Icatu, um fundo previdenciário que prevê até 40% de alocação no exterior.
O foco de atuação da asset, tanto em relação à captação de recursos quanto na alocação dos ativos, está voltado não apenas para o Brasil mas também para os mercados globais. Carvalho, que cuida mais da parte comercial da asset e fica nos EUA, acredita que “o acesso ao mercado internacional é fundamental para descorrelacionar”. Segundo ele, os investidores brasileiros estão começando a fazer investimentos no exterior, mas com as taxas de juros em baixa vão ter que aprender rápido. “Essa é uma das principais tendências do mercado brasileiro”, diz.
Segundo ele, a busca de investimentos alternativos e globais está ocorrendo em vários perfis de investidores, não apenas dos mais sofisticados, pertencentes à alta renda. É por isso que a Galapagos, com fundos que incorporam referências como Evolution e Darwin aos seus próprios nomes, quer colocar seus produtos em todos os mercados e abrangendo todo o espectro de clientes. De acordo com Carvalho, a asset quer acessar todas as classes de investidores, desde a alta renda, passando por estrangeiros e institucionais e atingindo até as plataformas de investimento.