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Uma boa história para contar
Liquidez elevada vai beneficiar os emergentes nos próximos anos, mas irá principalmente para aqueles países que tenham feito reformas fiscais

Edição 332

Pesquisa realizada pela revista Investidor Institucional na primeira quinzena de dezembro, com cinquenta assets, mostra que elas projetam um 2021 com razoável nível de recuperação econômica, em grande parte pela comparação ao nível de atividades muito baixo deste ano mas também por surfarem na grande liquidez que existe hoje no mundo. A médias das projeções para 2021 indica Selic de 3,88%, inflação de 3,44%, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,45% e dólar a R$ 5,06. As projeções para o déficit primário do setor público são de -3,10 e para o Ibovespa de 132.266 pontos.
De acordo com a economista-chefe da BNP Paribas Asset Management, Tatiana Pinheiro, o mundo tem vivido nos últimos anos uma combinação de juros baixos com busca de ativos mais rentáveis por parte dos investidores, resultando numa crescente liquidez da economia internacional. Esse fluxo de capitais têm vindo principalmente para as economias emergentes, que encerram dessa forma um período de quase 10 anos de escassa liquidez, iniciado em 2010, com o fim do boom das commodities. O aumento da liquidez internacional em benefício dos emergentes, porém, não beneficiará de maneira uniforme a todos os emergentes. Ao contrário, deve beneficiar uns mais do que outros. Segundo Tatiana, deve ir principalmente os países emergentes com uma boa história de reformas fiscais e de produtividade para contar aos investidores.
O Brasil, segundo ela, precisa construir uma história de comprometimento com a agenda de controle fiscal, nela incluídas a aprovação da PEC Emergencial, da reforma administrativa e até da reforma fiscal, se quiser se candidatar a receber um fluxo significativos desses recursos internacionais. “Acredito, de qualquer forma, que os recursos virão pois a liquidez global é enorme”, analisa a economista da asset. “Mas podem vir num ritmo mais modesto ou mais intenso, dependendo dos sinais que o governo e o Congresso brasileiro passarem nas discussões da agenda fiscal”.
Segundo Tatiana, atualmente cerca de 25% do gasto público da União é comprometido com a folha de pagamentos do setor público, incluíndo servidores ativos e inativos. Uma reforma administrativa que estabilizasse, ou mesmo começasse a reduzir gradualmente esse índice, seria uma boa sinalização ao capital internacional de que o Brasil está comprometido com a agenda fiscal. “Entre 2019 e 2022, cerca de um quarto dos funcionários públicos vão se aposentar. Se aprovarmos a reforma no início do ano que vem, os novos funcionários a serem contratados já entrarão sob novas regras, com menos privilégios, com meritocracia, com aumento do tempo de carreira”, diz.
Além da questão fiscal, também a capacidade de crescimento da economia brasileira estará no foco do capital internacional. O crescimento médio de 3,45% projetado para Produto Interno Bruto (PIB) o próximo ano é meramente estatístico, uma vez que toma como base um patamar muito baixo, estabelecido a partir de um crescimento pífio de 1,1% no ano de 2019 somado ao resultado negativo deste ano, estimado em -4% por conta da pandemia. Assim, uma retomada de 3,45% para 2021 meramente repõe o que não aconteceu nos anos anteriores.
O que verdadeiramente vai estar sendo olhado serão as reformas, além das privatizações, que darão a base para um crescimento sustentável em 2022.
A economista do BNP Paribas AM avalia que uma reforma administrativa contribui para manter a inflação sob controle e os juros baixos. “Baixar o gasto público ajuda a controlar a inflação”, afirma. “O Banco Central tem mais chance de manter os juros baixos”.