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A aposta verde da SulAmérica
Novos fundos com foco no setor de saúde tem tudo a ver com suas estratégias ESG, envolvendo a sanidade física, emocional e financeira do investidor

Edição 334

A SulAmérica Investimentos resolveu apostar pesado numa das principais tendências de investimento chanceladas pelo mercado, e está colocando as temáticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) na linha de frente das suas estratégias. Isso, aliás, não é exatamente uma novidade na história dessa gestora, que já antes de 2009, quando aderiu aos Principles Responsable Investments (PRI), costumava selecionar empresas que seguiam políticas de responsabilidade ESG para seus fundos.
“A diferença é que a gente tinha naquela época apenas um filtro negativo, que vetava determinadas empresas e setores incompatíveis com responsabilidade ESG, mas não tinha uma agenda positiva para premiar aquelas empresas que seguiam políticas adequadas”, explica o vice-presidente de Vida e Previdência da SulAmérica, Marcelo Mello.
Isso só veio a acontecer a partir de 2009, com a adesão da gestora ao PRI, o que deu à ela instrumentos mais eficazes para eleger aos seus portfólios não apenas empresas com responsabilidade ESG mas também outras que, mesmo sem ter ainda essa orientação, mantinham requisitos mínimos para evoluir nessa direção com alguma ajuda. Foi a partir dessa premissa que surgiu em 2011 o fundo Expertise, baseados no princípio de investir em companhias médias de bons retornos e que, embora sem orientações de governança, podiam evoluir e melhorar ainda mais os resultados aos acionistas. O fundo passou a comprar participações relevantes em empresas com esse perfil, ganhando assento em seus conselhos e a partir dai exercendo influência para melhorar sua governança e seus resultados.
O Expertise, um fundo fechado que foi muito bem nos seus primeiros anos, teve porém um período ruim entre o final de 2014 e 2015, às vésperas do seu vencimento, o que levou a gestora a convocar uma assembleia para propor a prorrogação do seu vencimento por um ano para evitar prejuízos aos cotistas nos resgates. “Cerca de 99% dos nossos cotistas aceitaram a prorrogação e o fundo conseguiu se recuperar nesse período”, explica Mello. “Quem investiu nele acabou ganhando um bom dinheiro”.

Segundo Mello, o tema de saúde está hoje completamente inserido dentro da estratégia ESG da gestora, por envolver a sanidade física, emocional e financeira do investidor. A casa lançou no início deste mês de maio um fundo de ações para investir em empresas dessa área, incluindo os segmentos hospitalar, farmacêutico e de biotecnologia. Farão parte do fundo cerca de 20 empresas com presença na bolsa local, principalmente das áreas hospitalar e farmacêutica, além de algumas americanas de biotecnologia que serão acessadas através de um ETF específico desse segmento.
A opção por investir em biotecnologia via ETF de empresas americanas é porque esse segmento, que é um dos que mais cresce no mundo por causa do desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19, praticamente não existe no Brasil. “Adotamos essa estratégia para não deixar o segmento fora do nosso fundo”, conta Mello. O fundo Saúde e Biotecnologia tem carência de 30 dias para resgate e, segundo o executivo, “está ajustado à 4.661”.
Outra aposta no setor de saúde foi o lançamento no mês passado de um fundo de cotas que aloca em renda fixa, ações e multimercados de terceiros. Sua principal inovação é oferecer gratuitamente aos cotistas, pessoas físicas basicamente, orientação médica na tela do computador ou smartfone, 24 horas por dia e sete dias por semana. Além disso, o cotista também tem direito a um capital segurado no valor de R$ 100 mil, sem custo. Os benefícios do Integral FIC FIM, de perfil moderado, são disponíveis apenas para pessoas físicas.

Além desses dois fundos com vínculos no setor de saúde, lançados nos últimos 30 dias, outros dois ESG de linhagem mais clássica fazem parte do quarteto que forma atualmente a estratégica linha de frente da gestora. O primeiro é um fundo de ações lançado em 2019, o Total Impacto, que investe apenas em companhias que estão presentes em pelo menos dois índices de sustentabilidade. Seu principal diferencial é que repassa 100% da sua taxa de administração a uma Organização Não Governamental (ONG) chamada Vagalume, que leva bibliotecas de educação infantil para comunidades carentes na Amazônia.
O segundo foi lançado em 2020, com foco em crédito privado para empresas de orientação ESG. O fundo investe em dívida privada de empresas abertas ou fechadas, além de FIDCs e certificados imobiliários e do agronegócio (CRIs e CRAs). Para serem elegíveis para o fundo, os papéis precisam ter aderência ESG e ser aprovados pela análise da SulAmérica e também por uma consultoria externa contratada por ela, a Resultante, especializada na área ESG. “É um double check”, explica Mello.
A parceria entre a SulAmérica e a Resultante foi assinada no ano passado, e o objetivo é ajudar a gestora no aprimoramento dos seus critérios ESG. “A Resultante nos ajuda bastante a avaliar as empresas, nós temos o nosso próprio processo para avaliar empresa de capital aberto e empresas que estão emitindo dívida, mas a Resultante nos auxilia fazendo análises através da sua própria matriz ESG”, explica Mello.
Para tocar todas essas estratégias a SulAmérica tem contratado novos profissionais. É o caso de Rodrigo Faria, gestor de renda variável, e Daniela Gamboa, head da área de crédito, ambos contratados no final de 2020. “A gente vai abrindo novas estratégias e trazendo gente nova para operacioná-las”, diz Mello.
Segundo ele, também está no radar da gestora a abertura de uma nova estratégia imobiliária para os próximos meses, voltada à gestão de fundos de investimentos imobiliários. “Os estudos dessa estratégia estão bem avançados, esperamos lançar um novo fundo em breve”, diz o executivo.

Com R$ 46 bilhões sob gestão, a SulAmérica Investimentos tem 80% desse total captados junto a investidores institucionais. Mas essa concentração tende a diminuir, uma vez que a gestora está cada vez mais colocando seus fundos nas plataformas de varejo. Aliás, em uma delas, a Órama, possui participação de 25%, comprada no início de 2020, tendo por sócios as Organizações Roberto Marinho, com pouco mais de 20%, e os seus criadores com o restante.
Para Mello, o ano de 2021 deve ser de muita volatilidade, seguindo o que aconteceu em 2020, quando a área de gestão teve que ser exercida de uma maneira muito ativa para fazer o fundo ganhar dos seus benchmarks. Este ano não deverá ser diferente, o gestor terá que exercitar sua capacidade de entrar e sair de posições com uma certa rapidez, e não apenas por uma única vez, mas por várias vezes seguidas, diz Melo. “Não será um ano de comprar posições e ficar sentado em cima delas”, completa.
Entretanto, segundo ele, essa perspectiva de volatilidade poderá ter alguns atenuantes a partir de ganhos políticos relacionados à eleição de Arthur Lira para a Câmara dos Deputados e de Rodrigo Pacheco para o Senado, o que criou uma situação de maior alinhamento entre o legislativo e o executivo do que existia anteriormente, com Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Em função desse novo alinhamento, já foram aprovadas a independência do Banco Central e a PEC Emergencial, apesar de algumas fragilidades dessa última.
Segundo Mello, o maior problema do cenário interno refere-se à questão fiscal, principalmente por ser um ano eleitoral e ter a perspectiva de contar com o ex-presidente Lula como candidato ou, pelo menos, como forte cabo eleitoral de alguém escolhido pelas forças de centro esquerda às eleições de 2022. Se isso acontecer, a tendência do presidente Jair Bolsonaro é de dar corda a uma política populista, de mais gastos públicos para ganhar apoio político em bases eleitorais que tradicionalmente votam com as esquerdas, como é o caso do Nordeste, abrindo no mercado dúvidas em relação à contenção do endividamento público, que já está em 90%, e ao controle da inflação.
A gestora trabalha com uma Selic de 4% para o final de 2021 e uma alta de 0,25% a 0,50% na próxima reunião do Copom. “Mas estamos mais para 0,50% do que para 0,25%”, diz. “Que deve ser um ano volátil não tem dúvida, a gente vê isso na curva de juros, que está super-inclinada, o que significa que o investidor tem dúvida em relação ao controle da inflação por parte do governo”, diz.

No lado externo, Melo acredita que o mercado deve assimilar bem o pacote fiscal aprovado pelos republicanos nos Estados Unidos, de injetar R$ 1,9 bilhão na economia. Segundo Mello, embora um volume de recursos desse montante enfraqueça o dólar, o resto do mundo não ficará parado, observando apenas. O pacote americano deve levar outros países a reposicionar suas moedas, de forma a não perder competitividade nos mercados. É o caso da China, por exemplo, que tradicionalmente utiliza o câmbio para dar mais competitividades às suas exportações. “Mesmo com o pacote americano, vai ter que ter muita coragem para ficar vendido em dólar”, diz.
Segundo Mello, o pacote americano não deve causar maior volatilidade nos mercados em função da recuperação econômica ainda ser “relativamente fraca” nos Estados Unidos. “Estamos vendo a treasury subindo de 0,4% a 0,5% para 1,5%, mas não vejo uma ruptura radical”.
Ele aponta que a recuperação da Ásia, por outro lado, é um dos principais pontos a serem observado daqui para a frente, principalmente pelo Brasil, que é um tradicional exportador de commodities para a China. A China, aponta, já vive um nível de atividades econômica pré-pandemia, devendo liderar a expansão econômica do mundo no próximo período.