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Fator concentra-se em banking e asset
A venda da corretora Fator para o BTG Pactual mostra a transformação desse setor, que tornou-se um business de plataformas

Edição 336

O BTG Pactual anunciou no início de maio a aquisição da corretora Fator, que entre os anos 90 e a primeira década deste século pontuou como uma das mais tradicionais e respeitadas do mercado. Com a aquisição, o BTG Pactual pretende ampliar sua operação voltada à assessoria de investimentos de pessoas físicas. “A aquisição nos permite alcançar ainda mais escala, com diluição de custos, ganhando eficiência, sinergia e produtividade. Trata-se de uma corretora criada e desenvolvida com foco na qualidade de atendimento ao cliente e expertise diferenciada”, afirmou em nota Marcelo Flora, sócio responsável pelo BTG Pactual digital.
A venda da corretora não afeta os outros negócios do Fator, como a seguradora, o banco de investimentos e a gestão de recursos, que continuam sob o controle de Walter Appel, principal acionista do grupo. Segundo o diretor do banco de investimentos, Pedro Kassab, a venda da corretora evidencia o quanto o setor tem mudado nos últimos anos. “O modelo de negócios da corretora, vivendo de taxas de corretagem, deixou de ser viável”, explica Kassab. “Ou a gente investia para mudar para um novo modelo de negócios ou vendia e concentrava nas outras linhas do grupo”.
A opção foi por se desfazer da operação, o que aconteceu após cerca de um ano de conversas com o BTG. Antes dele, o Fator manteve negociações com outros grupos financeiros, mas a preferência acabou recaindo sobre a proposta do banco de André Esteves, principalmente por esse ter investido muito nos últimos anos nas plataformas digitais que aproximam os investidores pessoas físicas do mercado financeiro.
Aliás, foi essa percepção que evitou que o Fator seguisse o caminho de buscar uma revitalização da corretora. “A disputa pelos investidores pessoas físicas tornou-se extremamente acirrada, envolvendo não só os dois principais players, que são a XP e o BTG, mas também outros players do segundo pelotão que também estão colocando muito dinheiro na disputa”, diz Kassab. “Para participar desse jogo tem que fazer investimentos pesados e correr riscos altíssimos”.
A Fator resolveu não apostar. “Optamos por sair do jogo e concentrar nossas energias e recursos nos negócios que são o core business do grupo”, explica Kassab. A sangria da corretora, que fechou 2020 com prejuízos de R$ 11,21 milhões, foi fechada. Os recursos provenientes da venda da operação, cujo valor o grupo não divulga, serão direcionados para melhorar a competividade das outras linhas e negócios. No ano passado, a seguradora e a área de gestão de recursos deram lucros de R$ 2,49 milhões e R$ 266 mil, respectivamente, mas o banco perdeu R$ 29,24 milhões.
A corretora foi, até pouco mais de 10 anos atrás, uma das principais casas de research do mercado, contando com uma equipe conceituada que produzia análises extremamente valorizadas. O livro do ano da corretora, com análises sobre as principais companhias negociadas na bolsa de valores, era aguardado com expectativa pelo mercado e lançado no início de cada ano sempre com grande repercussão. Com a queda das taxas de corretagem, que se acentuaram no final da primeira década deste século, as margens de lucratividade das casas se estreitaram e o resultado no tamanho e qualidade das equipes foi inevitável. Ao pouco, as corretoras que viviam das taxas foram perdendo competitividade.

Com a venda da corretora, o grupo Fator planeja dinamizar principalmente as áreas de banco de investimentos e gestão de recursos. “A seguradora é um business a parte, não falo por essa área, mas nas outras duas, que são o investment bank e a gestão de recursos, pretendemos investir tanto em produtos quanto em serviços”, diz Kassab.
No investment bank, a idéia é ampliar a atuação do grupo nas operações de fusões e aquisições (M&A na sigla em inglês), principalmente nas áreas de infra-estrutura, PPP (Parcerias Público Privadas) e privatizações. Aliás, a área de M&A do Fator atuou como coordenadora da privatização da Cedae, a companhia de saneamento básico do Rio de Janeiro, ocorrida neste mês de maio. Dos quatro blocos licitados, três foram adquiridos, com ágio de 113%, e apenas um não teve ofertas. “O bloco não vendido terá algumas mudanças de regras e será licitado de novo”, explica Kassab.
O banco também pretende ampliar sua atuação junto ao middle market, em operações de financiamento à empresas de porte médio que estão fora do foco dos grandes bancos. Além disso, quer elevar sua atuação como advisory de empresas que se preparam para ofertas públicas iniciais (IPO na sigla em inglês), mas sem atuar na distribuição dos papéis uma vez que vendeu a corretora. “É um mercado que está bem aquecido”, diz Kassab.
Na área de gestão de recursos, pretende ampliar o leque de ofertas na prateleira da Fator Administração de Recursos (FAR), para compor ao lado de produtos já tradicionais como o fundo imobiliário Veritá e o fundo de ações Sinergia.