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Fiagros chegam ao mercado
Após o sinal verde da CVM, gestoras começam a preparar suas opções nessa nova classe de fundos, que já desperta interesse de fundos de pensão

Edição 339

Criados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em junho último, os fundos de investimento nas cadeias produtivas agroindustriais (Fiagros) começam a sair do papel. A Galapagos Capital encerrou a primeira oferta pública inicial do gênero, do Galapagos Recebíveis do Agronegócio Fiagro Imobiliário, captando R$ 50 milhões junto a investidores profissionais em operação com esforços restritos. Outras seis ofertas, no valor total de R$ 1,75 bilhão, já estão registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que contabilizava, até o início de setembro, 11 Fiagros cadastrados em seu sistema, dos quais dez têm viés imobiliário e um é ancorado em direitos creditórios.
“A proposta entrou em desenvolvimento há dois anos, mas aceleramos o processo em julho último quando a CVM anunciou que concederia, a partir de agosto, registros a Fiagros de três categorias – imobiliário, direitos creditórios e participações”, comenta Andrea Di Sarno, sócio da Galapagos. “Optamos por uma oferta restrita para ganhar rapidez na operação e garantir visibilidade ao nosso Fiagro.”
Com cerca de R$ 3,2 bilhões sob gestão, a asset já alocou 100% dos recursos captados pelo fundo em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), com remunerações médias de 8% além da variação do IPCA. O próximo passo será a realização de um follow-on, ou seja, de uma oferta subsequente do produto. Voltada a investidores em geral, a operação seguirá os padrões mais rigorosos estabelecidos pela Instrução 400 da CVM e terá por meta um montante bem superior ao apurado pela gestora no fim de agosto.
“A intenção é captar entre R$ 300 milhões e R$ 500 milhões adicionais até o fim do ano” assinala Di Sarno, que espera contar, na segunda oferta, com a participação de investidores institucionais. “Antes da oferta inicial apresentamos o Fiagro para alguns fundos de pensão, que demonstraram interesse pela proposta. Com o início das operações do fundo, eles terão, claro, condições de avaliar com muito mais propriedade essa nova modalidade de aplicação.”
A gestora prevê um segundo Fiagro para os próximos meses, lastreado em terras a serem vendidas ou arrendadas à lavoura ou pecuária. “Se optarmos por uma oferta restrita, o lançamento poderá ocorrer ainda neste ano”, observa o sócio Felipe Solzki, que responde pela gestão dos fundos imobiliários da asset. “De qualquer forma, a montagem da carteira do segundo fundo será mais trabalhosa, pois teremos de efetuar diligências das terras e de seus titulares.”

Outra que se prepara para estrear no segmento é a Capitânia, que registrou na CVM, em 20 de agosto, o Capitânia Agro Properties, um Fiagro lastreado em terras. Com R$ 14 bilhões sob gestão, a asset informa que já conta com três ativos na mira do novo fundo, que terá uma primeira chamada nas próximas semanas por meio de uma oferta restrita.
“A meta é captar R$ 200 milhões em uma operação centrada em algumas famílias proprietárias de terras”, conta o sócio Arturo Profili, que estima em R$ 2 bilhões o potencial do novo produto. “Depois disso, para o primeiro trimestre de 2022 planejamos uma oferta bem maior, com base na Instrução 400 da CVM. Não descartamos, contudo, a hipótese de uma segunda oferta restrita para fundos de pensão, que vêm realizando consultas crescentes sobre Fiagros.”
A tese de investimento do Agro Properties baseia-se na diversificação. O plano de voo inclui de 15 a 20 propriedades em diferentes regiões do país que serão voltadas a quatro culturas: soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. A pecuária só deverá ocupar espaços sem viabilidade para plantio nas áreas agrícolas. “As operações ficarão a cargo de grandes grupos do agronegócio, por meio de contratos de arrendamento de longo prazo, de cinco anos ou mais”, observa Profili.
Além do Agro Properties, a asset também prepara um Fiagro de papéis. Com lançamento programado para o fim do ano, o fundo está em processo de estruturação. Sua carteira será composta, basicamente, por CRAs, mas também contará, no futuro, com cotas de outros fundos agroindustrias. “Já estamos garimpando papéis. A ideia é reunir CRAs de 20 a 30 emissores com diferentes ratings”, diz Profili, que estabeleceu para o novo fundo o mesmo objetivo do Agro Properties. “Pretendemos captar, de início, R$ 200 milhões.”

Outra que deve lançar nos próximos meses um Fiagro com lastro em papéis é a Riza Investimentos, asset com R$ 7,4 bilhões em ativos sob gestão. O Riza Agro Fiagro Imobiliário pretende captar entre R$ 350 milhões e R$ 420 milhões através da Instrução 400 da CVM. A asset, que se encontra em período de silêncio, não deverá recorrer tão cedo a Fiagros ancorados em terras, pois desde setembro de 2020 conta com uma opção nesse ativo através do fundo imobiliário Terrax. O fundo, com patrimônio líquido de R$ 1,1 bilhão, detém 30 mil hectares em 13 propriedades agrícolas no Centro-Oeste e no Nordeste, voltadas basicamente à produção de soja, milho, sorgo e algodão.
Em razão dos incentivos tributários previstos na Lei 14.130 que o criou, como a isenção de Imposto de Renda na distribuição de dividendos, os Fiagros terão como principal público, pelo menos de início, investidores pessoas físicas. Também contará pontos a favor da primeira safra desse novo produto, na avaliação de gestores, a sua semelhança com os fundos imobiliários, que contam hoje com 1,4 milhão de pessoas físicas entre seus cotistas. “Os Fiagros tendem, contudo, a crescer de forma mais rápida do que os fundos imobiliários, que só decolaram a partir de 2018”, prevê o sócio da Galapagos, Felipe Solzki. “Acredito, inclusive, em uma forte migração de recursos de fundos imobiliários para os Fiagros.”

As perspectivas também são positivas em relação aos investidores institucionais, que buscam novos projetos para diversificação das aplicações. Um exemplo é a E-Invest, nova denominação da PreviEricsson. A entidade de R$ 1,62 bilhão, incluindo R$ 137,66 milhões em ativos no exterior e R$ 84,38 milhões em fundos de participações e de venture capital, já traça planos para garantir espaço aos Fiagros em seu portfólio em busca de diversificação.
“Estamos de olho nessa nova opção, que é uma versão ‘caipira’ de fundo imobiliário”, diz o diretor-superintendente Rogério Tatulli. “Vamos só aguardar que os Fiagros ganhem alguma quilometragem para apresentar propostas de alocação nessa classe ao nosso conselho deliberativo”.
A tarefa, tudo indica, não será das mais complexas. Além da longa e bem-sucedida experiência da E-Invest com fundos florestais – que respondem por cerca de 35% da carteira de FIPs, a defesa da nova proposta contará com o parecer de um especialista na área: o próprio Tatulli, que desenvolve há 2,5 anos em um curso latu sensu na Escola Superior de Agricultura (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), o trabalho acadêmico “Agronegócio – Uma opção de investimento para os fundos de pensão”.
“Como os Fiagros ainda estão sendo apresentados ao mercado, entidades mais conservadoras talvez ainda demorem um pouco para incluí-los em suas políticas de investimento”, diz o executivo, que deve concluir e apresentar o estudo em dezembro. “Mas não há como ignorar o potencial de retorno de um setor que responde por 26% do PIB e segue em franca expansão.”
Da teoria à prática, a E-Invest deverá alocar inicialmente montantes modestos – na faixa de 0,5% a 1% da carteira dos planos Básico e Suplementar, de Benefício Definido (BD) –, a exemplo do que ocorreu na estreia da entidade no segmento de fundos florestais, há dez anos. “Acreditamos que os Fiagros, assim como os FIPs, são produtos indicados para planos de benefícios mais maduros, com necessidades de caixa menos sujeitas a oscilações repentinas”, justifica Tatulli. “

O interesse pela novidade é particularmente intenso entre fundações que contam com mantenedores ligados aos negócios do campo, casos da Fapers e da Basf Previdência. A primeira tem como principal patrocinadora a Emater/RS e já cogita incluir Fiagros no projeto de reformulação de seu portfólio de fundos imobiliários, que deve ser concluído neste mês. A entidade possui patrimônio de R$ 658,45 milhões e 2,7 mil participantes.
“As opções em estudo são um fundo exclusivo ou uma carteira administrada com um volume, a definir, entre R$ 20 milhões a R$  50 milhões”, diz o diretor financeiro José Pedro Osório Mendina. “Embora os Fiagros estejam em processo de criação, vamos considerá-los na elaboração dessa estratégia, pois temos grande capacidade de análise de teses de investimento na área rural.”
Já a Basf Previdência, com um patrimônio de R$ 1,62 bilhão, vem recorrendo há tempos à expertise que seus patrocinadores, que fornecem insumos para produtores agrícolas, possuem no segmento do agronegócio para diversificar seu portfólio. Tal apoio foi decisivo na montagem da carteira de fundos florestais, que hoje soma R$ 16,81 milhões, e na alocação de recursos, há dois anos, em um FIP que contempla investimentos em agritechs, ou seja, startups voltadas à agricultura.
“Nossos investimentos em FIPs florestais surgiram há cerca de cinco anos a partir de uma conversa com especialistas das patrocinadoras”, conta o diretor de investimentos Antônio José D’Aguiar. “Eles, inclusive, nos acompanharam nas visitas que realizamos às áreas de cultivo.”
As consultas da fundação aos técnicos das patrocinadoras deverão ganhar escala em breve. Entrarão em pauta um FIP florestal com parte da carteira ancorada em ativos rurais, além de investimentos em private equity com viés agrícola e Fiagros. “A chegada dos Fiagros é uma ótima notícia”, diz D’Aguiar. “Teremos, claro, de avaliar carteiras, riscos e potenciais de retorno, mas tudo indica que esses fundos são muito promissores.”